Pelo resgate da
Utopia
“No fundo de cada utopia, não há
somente
um sonho; há também um protesto”
(Oswald
de Andrade – a marcha
das utopias)
No
mundo das incertezas
As incertezas
e a perplexidade que afligem a maioria da população acuada pelos
problemas de sobrevivência e a urgência com que exigem respostas
aos desafios
existenciais
constituem um estímulo para pensar criticamente nossa realidade
controvertida e contraditória. Para alguns seria o fim da
História, enquanto para outros, é o início de uma nova fase na
evolução da humanidade. Incertezas, instabilidade e contradições
aparentemente insolúveis levam os indivíduos a perder a confiança
em si, nos outros e no governo da sociedade. “Tudo que é sólido,
se desmancha no ar” já dizia Marx, há 150 anos. O desmanche
continua desde então, em ritmo e intensidade acelerados, devido à
competição selvagem, o individualismo irracional da acumulação
capitalista e o “darwinismo social” praticado pelas elites
dominantes, configurando uma situação de caos.
Onde encontrar
as respostas às dúvidas existenciais, às interrogações cruciais de
cada indivíduo pensante – “quem somos? Donde viemos? E, aonde
vamos?
Sartre ensinou
que os seres humanos nascem para serem livres. Mas, liberdade
implica também em responsabilidade. Somos responsáveis pelo que
fazemos ou deixamos de fazer. Agindo e pensando sobre nossa
realidade, transformamos essa realidade e a nós mesmos,
encontrando sentido para nossas vidas. Sem uma orientação que guie
nossas ações, a vida no mundo de incertezas torna-se um pesadelo,
cheio de paradoxos e violência, sobretudo para a juventude
angustiada e aparentemente incapaz de decifrar enigmas para os
quais nem a ciência nem a religião oferecem respostas
satisfatórias.
A vida nos
ensina que elaboramos nossos valores e, com base nestes, em
convívio e cooperação com os outros, encontramos os diferentes
sentidos da vida. Não há satisfação maior para o indivíduo do que
quando este se sente aceito e valorizado, sendo parte de um todo
maior.
Sobre as premissas do discurso
A premissa
central de nosso discurso postula, contra qualquer determinismo,
que toda a realidade é uma construção social e, como tal, pode ser
desconstruída e reconstruída.
Postulamos que
o sentido de nossa vida seja o produto do pensamento e da ação e,
inferimos que toda nossa realidade é uma construção social. Como
corolário deste raciocínio podemos afirmar que os seres humanos
fazem sua História, embora não a façam com todos os graus de
liberdade. Herdamos das gerações que nos antecederam determinadas
estruturas e posições condicionantes que limitam e estreitam os
raios de nossas opções. Por isso, o conhecimento da História que
não segue um curso linear e previsível, como pretende o pensamento
positivista, é fundamental para a ação libertadora, capaz de
ampliar os nossos graus de liberdade. São também as diferentes
visões e interpretações do que acontece na História (vide Gordon
Child – What Happened in History) que nos permitem contestar todo
tipo de determinismo – econômico, ecológico, demográfico ou
cultural – freqüentemente invocados para justificar a acomodação
ao status quo. A valorização do ser humano como ator social
capaz de construir seu destino como sujeito do processo histórico
nos permite rechaçar as visões fatalistas ou maniqueístas da
História. Em vez de análises e interpretações cartesianas dos
fenômenos políticos e culturais, adotamos a metodologia sistêmica
e interdisciplinar. Sem minimizar a especificidade de cada caso,
procuramos entendê-lo em sua inserção e conexão com seu contexto.
“O todo é diferente da soma das partes”. Portanto, a realidade não
pode ser explicada a partir da simples soma de fatos e processos
individualizados, o que nos levaria a perder de vista a floresta
de tanto olhar as árvores. Voltando às incertezas que dominam o
cenário do mundo atual, em todas as esferas do conhecimento
científico, nas políticas econômicas e sociais e as possíveis e
prováveis ações bélicas e suas conseqüências, as nossas análises e
eventuais propostas estarão baseadas mais em probabilidades do que
certezas que caracterizam o pensamento autoritário e linear. Esta
postura tem profundas implicações para o sistema de valores e as
relações de meios – fins. O senso comum postula que os fins
justifiquem os meios, mas não esclarece sobre a legitimidade dos
fins.
Os impactos
dramáticos do desenvolvimento desigual, aumentando o fosso entre
ricos e pobres, ajudaram a lançar a reivindicação central de nosso
tempo – direitos humanos – não como uma visão utópica ou
idealista, mas como condição básica para a sobrevivência da
sociedade e a sustentabilidade de suas instituições. Esse é o
cerne de uma ética universal que transcenda todos os outros
sistemas de crenças e valores, como síntese da consciência humana,
ciente da preciosidade de todas as formas de vida e da necessidade
de cooperação, solidariedade e interdependência. Essa ética é
fundamentada em valores de alcance universal – a conquista do bem
estar e da felicidade, através da liberdade (no sentido pregado
por Amartya Sen). Ela se refere a um devir, uma visão do futuro da
humanidade que tem inspirado os pensadores libertários, desde
Thomas More, aos socialistas utópicos – Fourier, Saint Simon e R.
Owen – até aos defensores do socialismo científico, baseado no
materialismo dialético
O
desmoronamento da ex-URSS teria eliminado a utopia do pensamento e
das aspirações contemporâneas?
Vivemos uma
época de conflitos políticos e militares, de dimensões e
conseqüências imprevisíveis, inclusive a ameaça concreta de perda
das conquistas dos últimos três séculos, da democracia e dos
direitos humanos, significando um retrocesso à barbárie. Mesmo se
for este o desfecho – totalmente irracional e contrário à ética -
da atual crise, não devemos nem podemos desarmar-nos em tempos de
trevas. A evolução da humanidade segue por caminhos tortuosos e
contraditórios. Após três séculos de idéias iluministas e de lutas
pela liberdade, democracia e direitos humanos, a desigualdade e as
injustiças precisam ser denunciadas e combatidas, porque sozinho,
o mundo não vai melhorar!
Moral e
ética – História e utopia
Segundo o
dicionário de filosofia, ética é a ciência que tem como objeto os
juízos de valor que distinguem entre o bem e o mal.
Historicamente, moral e ética são tratados como sinônimos mas, na
filosofia alemã, desde Kant, no século do Iluminismo, a ética é
considerada superior à moral. A moral é historicamente datada e
suas normas e sanções mudam de acordo com a evolução e as
transformações da sociedade, sempre refletindo a visão do mundo e
os interesses das elites. Eloqüentes a respeito são as
manifestações dos senhores escravocratas, dos capitalistas e
tecnocratas cujo discurso e prática, supostamente racionais e
ideologicamente neutros, justificariam a pobreza e a desigualdade.
Teorias “científicas” quando não doutrinas religiosas são
invocadas (“a seleção natural dos mais aptos”, ou “as leis do
mercado”) para determinar o código de conduta moral dos indivíduos
e as sanções positivas ou negativas atinentes ao seu cumprimento
ou transgressões.
A ética
postula um código de conduta para o grupo ou para a comunidade de
indivíduos que exige um comportamento baseado em valores. Para
Hegel, a moral seria o domínio de intenções subjetivas, enquanto a
ética seria o reino da moralidade absoluta. A moral de uma
sociedade procura assegurar sua coesão e solidariedade (mecânica,
segundo E. Durkheim) amparadas por um conjunto de sanções e a
força de coerção do Estado.
A ética está
fundamentada em valores de alcance universal – a conquista da
felicidade e do bem estar através da liberdade. Suas manifestações
concretas são a cooperação e a solidariedade (orgânica, sempre
segundo Durkheim) numa organização social pluralista e de
democracia participativa. A ética se refere a um devir, uma visão
do futuro da humanidade que se pretende realizável. É o projeto do
futuro – a utopia – que tem inspirado os pensadores libertários em
todas as épocas. Por todos os rincões do planeta verificamos a
reafirmação da utopia, do pluralismo universal e democrático. Quem
são seus porta-vozes? Não são os heróis individuais (os
“lideres”), nem a classe messiânica (o proletariado), mas todos os
indivíduos que pretendam agir como sujeitos do processo histórico,
criando comunidades de cidadãos ativos, fontes de liberdade que
transformem a História. São esses sujeitos coletivos que aceitam e
praticam o pluralismo democrático como forma de “boa vida”, em
oposição a outras formas, atuais e passadas.
Portanto, a
utopia não é um tempo “a priori” da evolução ou da História. Seus
protagonistas não pretendem a “descoberta” de novos tempos, mas
nos apresentam uma simples proposta criativa de um devir humano
desejável e realizável pela ação coletiva, Ela não é ficção,
romance ou aventura individual, mas uma visão do futuro construída
por meio de um discurso em que se confrontam os valores por seus
impactos reais e prováveis na existência humana. Ela surge como um
amalgama e recriação de valores cultuados em todos os tempos e que
se combinam com as novas criações levando a uma síntese
imaginária, com contribuições da filosofia, dos cientistas
sociais, da ética e da política, à luz de experiências e práticas
acumuladas.
A ética seria,
então, a disciplina e a prática da virtude, do domínio da
racionalidade substantiva (Max Weber) e cujo fim é a felicidade e
o bem estar, a integração entre os seres humanos, a natureza e o
cosmos.
Segundo os
filósofos da Antiguidade, a utopia ética seria alcançada pelo
comportamento virtuoso, em conformidade com a natureza dos atores
sociais e dos fins buscados por eles. Postularam que o ser humano
seria, por natureza, um ser racional e, portanto, a virtude ou o
comportamento ético seria aquele no qual a razão comande as
paixões. Cada ser humano, sob a inspiração da razão, realizará a
boa finalidade ética determinada por seu lugar na ordem do mundo
social, político e natural. Essas virtudes seriam efeitos de uma
potencialidade da natureza humana, desde que a razão comande as
paixões e oriente a vontade, pois só o ignorante á passional e
vicioso.
A insustentabilidade do mundo atual
Em
retrospectiva histórica, a sociedade parece afastar-se cada vez
mais da racionalidade e da virtude do comportamento ético. Tanto a
burguesia quanto o proletariado, ao conquistarem o poder, aderiram
ao ethos e adotaram os objetivos do progresso via acumulação
material e crescimento econômico, ambos insustentáveis.
Na sociedade
capitalista, o crescimento econômico se tornou estéril por não
gerar mais empregos, ao menos para compensar a eliminação de
postos de trabalho em conseqüência de inovações tecnológicas e da
redução dos investimentos.
O sistema é
implacável em sua dinâmica: os ganhos são apropriados pelos ricos
e poderosos, enquanto para os pobres, na melhor das hipóteses, são
proporcionados os benefícios filantrópicos paternalistas.
Devido à
concentração do capital e do poder, as relações sociais continuam
sendo autoritárias, impedindo voz e vez às populações carentes. Em
muitos lugares ocorre um retrocesso em termos de direitos de
cidadania e de extensão dos direitos humanos a todos. Os efeitos
sociais e culturais do sistema são desestruturadores: a corrida
por acumulação e competitividade sufoca os valores de cooperação e
solidariedade e reprime as manifestações de identidade cultural.
Finalmente, o sistema é auto-destrutivo em sua dinâmica: seu
avanço está baseado na depredação do meio ambiente, o que mina a
própria existência e sobrevivência da população, ignorando ou
desprezando os direitos das gerações futuras. A legislação
ambiental surge como defesa tardia e incompleta diante o volume e
a gravidade dos danos que ameaçam a segurança e a sustentabilidade
ecológica do planeta e de seus habitantes.
Percebe-se
portanto o esgotamento do paradigma de desenvolvimento
capitalista, cuja natureza centralizadora e autoritária
inviabiliza a evolução pacífica para um convívio democrático e
solidário. Por isso, negamos a legitimidade de objetivos e
prioridades economicistas, impostos pela lógica e a moral da
globalização econômico-financeira. Conclamamos por uma construção
de uma perspectiva social, democrática e sustentável que promova a
liberdade e a dignidade humana. Enfim, um projeto do futuro, a
utopia de transformação ética e cultural da humanidade como um
todo!
A utopia em
marcha
O cenário
emergente no final do século vinte criou desafios econômicos,
sociais e políticos para os quais a social democracia, mesmo
travestida de Terceira Via não estava preparada e capacitada de
responder. Com a recessão profunda que se abateu sobre a economia
norte americana cujos efeitos se propagaram como em círculos
concêntricos através do sistema mundial, inúmeros países
“emergentes” praticamente afundaram em suas dívidas e contradições
sociais internas. O colapso da Argentina em 2001 assinalou que o
sistema financeiro internacional estava nos limites de poder
"salvar" economias falidas, endividadas e corruptas (México,
Tailândia, Indonésia, Rússia, Brasil, Turquia, Equador, Filipinas
e outras). Mas, ao caos econômico segue inevitavelmente o social e
político, tese profusamente demonstrada pelas manifestações de
massas de revoltados, cidadãos empobrecidos e marginalizados.
Do outro lado
da "cortina de ferro", a derrocada do sistema stalinista na
ex-URSS e nos países satélites resultou de imediato numa
deterioração violenta das condições de vida da maioria das
populações, repentinamente expostas às turbulências do mercado,
sem a proteção paternalista (educação, saúde, habitação, emprego)
do Estado.
Na década dos
noventa, quarenta países estavam sendo dirigidos por governos
sociais democratas ou por alianças dominadas pela "esquerda".
Entretanto, revelaram se impotentes para induzir mudanças sociais
e econômicas face à pressão avassaladora da globalização econômica
e militar e, devido aos compromissos assumidos com os
representantes do capital nacional e internacional.
As lideranças
políticas dos partidos social-democratas inclusive o PSDB no
Brasil ficaram presas na armadilha que elas próprias construíram.
Tendo pregado e defendido durante anos que não haveria futuro fora
do sistema neoliberal, assumiram plenamente a responsabilidade
pelas políticas econômicas, financeiras e trabalhistas
decorrentes, e contribuíram para o agravamento da marginalização e
exclusão de milhões de pessoas vítimas do aumento da “divida
social”, enquanto nas questões de política externa aderiram à
doutrina da globalização "inevitável", aliando-se
incondicionalmente à superpotência hegemônica.
Não advogamos
contra a integração regional e internacional, mas rejeitamos sua
imposição “por cima” que tende a agravar a assimetria social e a
divisão da humanidade entre uma minoria rica e poderosa, e a massa
de desprivilegiados e excluídos.
Não pregamos
contra a integração e a aproximação dos povos, mas elas devem
processar-se democraticamente, de modo gradual e seletivo.
A distinção
entre a globalização e a universalização não é apenas conceitual.
A investida da primeira contra barreiras ao livre comércio é
brutal, sob o comando das corporações transnacionais. A
universalização impulsionada pelas ONGs, os movimentos sociais,
alguns sindicatos e partidos promove uma integração dos povos, de
suas economias e culturas, de forma lenta, gradual e seletiva. Os
agentes da globalização, em sua busca de maximização de retorno
sobre os investimentos, pressionam por escalas de produção e o
nivelamento dos padrões de consumo, enquanto os atores da
universalização defendem o pluralismo e a diversidade de estilos
de vida. A globalização adota padrões de organização, tanto no
setor privado, quanto no público, rígidos, de centralização
autoritária, em oposição aos princípios de democracia
participativa, de transparência e de responsabilidade cidadã da
universalização. Na primeira, os seres humanos estão sendo
alienados e transformados em meros objetos de decisões tomadas
segundo a racionalidade funcional de “meio-fim”, enquanto na
segunda, cada um(a) se torna sujeito ativo e autônomo do processo,
orientado por valores substantivos ancorados na Carta dos Direitos
Humanos.
Os agentes da
globalização são dominados pelo frio cálculo econômico,
insensíveis aos efeitos desastrosos no tecido social. A
universalização enfatiza os aspectos éticos do comportamento
individual e coletivo e não gera desempregados, desabrigados,
famintos, doentes, enfim, excluídos.
Em suma, a
globalização configura um processo de integração “por cima”, na
contramão da História, enquanto a universalização “de baixo para
cima”, acena com um futuro mais digno, justo e seguro para a
humanidade.
A utopia socialista no século XXI
O fim do
século XX viu ruir as utopias revolucionárias e, ao mesmo tempo, o
fracasso da ideologia desenvolvimentista. A maioria da população
mundial, vivendo nos países do Terceiro Mundo, passou pela amarga
experiência de rejeição e desencanto das promessas da ideologia
dominante secularizada. Perdeu suas frágeis esperanças e com elas,
a visão de um futuro mais justo e uma vida mais digna. A
brutalidade das políticas reais do sistema capitalista,
desprezando e reduzindo os valores humanistas a conceitos de
mercado e de transações comerciais acabou provocando as reações de
indignação e revolta, em busca da utopia perdida.
A promessa de
uma era de progresso e justiça para todos, lançada com o advento
da Revolução Francesa de 1789 e novamente, após a II Guerra
Mundial, foi desmentida por um processo de desenvolvimento
desigual que deixou o mundo das ex-colônias cada vez mais para
trás. Os impactos da modernidade nas sociedades tradicionais
causaram a ruptura de seu tecido social e a conseqüente perda de
identidade e das raízes culturais de suas populações, além da
desorganização do sistema econômico.
A destruição e
o caos causados pelo avanço impetuoso da chamada
modernidade,criaram o caldo de cultura fértil para o renascimento
do fanatismo fundamentalista, da xenofobia e intolerância e da
propensão à “guerra santa” contra os “infiéis”.
É verdade, a
crise de identidade é geral em todas as sociedades, à medida que a
exclusão, a insegurança e a incerteza quanto ao futuro se tornem o
destino comum da maioria da humanidade.
As
experiências fracassadas da ex-URSS e, também, da
social-democracia, inclusive da nati-morta Terceira Via, longe de
assinalar o “fim do socialismo”, encerram lições valiosas para os
movimentos sociais emancipatórios do século XXI. O Estado de
bem-estar foi capaz de reduzir transitoriamente o desemprego e
diminuir a pobreza nos países mais desenvolvidos. Mas,
politicamente, levou à cooptação das elites dos trabalhadores e
sua adesão ao discurso e às práticas de flexibilização das
relações de trabalho, com a conseqüente polarização da sociedade e
a marginalização dos mais pobres. Uma sociedade dividida em
classes não pode construir um sistema socialista democrático e
justo, seja por mando de um Estado autoritário, seja pelo
mecanismo da “mão invisível” do mercado.
As políticas
neoliberais e suas desastrosas conseqüências em termos de
deterioração da qualidade de vida dos trabalhadores e da maioria
da população estão na raiz do distanciamento das massas de seus
partidos tradicionais e dos governos com os quais estes colaboram.
Para os grupos mais politizados, os partidos social-democratas e
socialistas perderam o poder de mobilização, pela incapacidade de
evocar uma visão alternativa da sociedade. Outra parte das vozes e
votos discordantes foi para a "direita" (vide o avanço de Le Pen,
J. Haider e outros) que, pregando também contra a globalização,
colheram os votos dos pobres marginalizados, da baixa classe média
e dos desempregados que se sentiram abandonados pelos partidos de
esquerda tradicionais.
Tanto os
social-democratas reformistas quanto os revolucionários replicaram
em suas organizações e nas práticas políticas os padrões de
conduta e de liderança autoritários, baseados em raciocínios
cartesianos lineares com suas interpretações deterministas da
História. Uma proposta alternativa abrangeria inevitavelmente
desde uma visão do mundo diferente ("o mundo não é uma
mercadoria"...) até novas formas de organização e mobilização
social. A nova visão, ao rejeitar a globalização imposta "de cima
para baixo", propõe a integração a ser realizada pelas populações,
"de baixo para cima". Em vez de um punhado de executivos,
empresários, tecnocratas e seus intelectuais orgânicos, seriam as
organizações populares e democráticas, baseadas na participação e
o engajamento de todos, que conduzirão o processo de transformação
social, econômica e política. Essa empreitada e as tarefas dela
decorrentes não podem ser atribuição de uma minoria "iluminada".
A construção
de projetos alternativos baseados nas premissas de cooperação,
solidariedade e justiça social constitui o pilar de um regime de
democracia participativa, em substituição à coerção exercida
mediante o marketing político e a manipulação da opinião pública
pela mídia oligopolizada.
O
neoliberalismo em ascensão no final do século vinte enfraqueceu o
potencial democrático da luta pelos direitos humanos,
característica central de nossa época. Desenvolveu uma estratégia
dividida em três etapas: na primeira, privilegiam-se os movimentos
e organizações do terceiro setor como expoentes da suposta
solidariedade social. Mas, a ênfase na importância dos direitos
civis tende a ofuscar a luta pelos direitos políticos. Ainda mais
residual e relegada fica a terceira etapa, a conquista dos
direitos sociais e econômicos - emprego, habitação, educação,
saúde e lazer para todos.
Os movimentos
em prol da emancipação de toda a humanidade e da conquista plena
da cidadania procuram resgatar a natureza e a dinâmica
indissoluvelmente interligada das três dimensões, desde os
direitos básicos à uma existência material e espiritualmente
assegurada até à liberdade, a participação democrática e a justiça
social. É a concretização do conjunto dessas três reivindicações
que constitui o paradigma alternativo ao modelo neoliberal.
A modernidade
neoliberal provocou a desarticulação da luta pelos direitos
humanos e a invasão do mundo de trabalho, gradualmente
transformado em mundo de pobreza, marginalidade e exclusão.
Pobreza e desigualdade acabam sendo marginalizadas dos debates
políticos, e deslocadas para a categoria de fenômenos regidos
pelas “leis da natureza" ou da economia do mercado. Em outras
palavras, poderiam ser solucionados somente pelo crescimento
econômico e, até lá, são sujeitos ao tratamento pela gestão
técnica ou pela filantropia. Os donos do poder qualificam o
discurso e as reivindicações pelos direitos à cidadania como
manifestações de atraso que criariam obstáculos à ação
modernizadora do mercado. Em vez de responsabilidade política
oferecem a responsabilidade moral e a "comunidade solidária" que
distribui benefícios e serviços que impedem a formulação de metas
e objetivos da luta pelos direitos à cidadania como uma questão
pública. Pobreza passa a significar objetivamente a negação desses
direitos, condenando a maioria da população à condição de
dependentes de caridade alheia, e ao mesmo tempo sufocam o
espírito de reivindicação e luta.
A conquista
dos Direitos Humanos, a plena vigência do Estado de Direito e da
justiça social exigem ações coletivas nas quais os atores sociais
se tornem agentes ativos e conscientes do processo histórico e
gestores de seu destino.
Na sociedade
capitalista, a reprodução da exploração econômica e da dominação
política inviabiliza os esforços de humanização das relações
sociais em geral, e do trabalho em particular. Por outro lado,
sendo as questões de liberdade e igualdade inseparáveis do
socialismo, este só é concebível com a plena vigência da
democracia, ou seja, a abolição da separação entre dirigentes e
executores, e o controle do processo de produção e de todas as
atividades sociais por seus sujeitos, irmanados por laços de
cooperação e solidariedade.
A
nacionalização, o planejamento econômico impositivo e mesmo a
socialização dos meios de produção pelo Estado não garantem a
socialização do poder político. O Estado (na concepção leninista)
continua a representar um mecanismo arbitrário de autoridade
pública isolada da sociedade civil a qual procura construir o
espaço de liberdade em oposição ao aparelho estatal. Este, embora
possa superar a anarquia da concorrência selvagem, não é capaz de
atender aos requisitos básicos de uma sociedade democrática – a
liberdade e os direitos individuais, a autonomia e a iniciativa
criativa.
O aparente
impasse encontra respostas na prática política das sociedades
modernas que evoluem de regimes de democracia formal
representativa para a democracia participativa. A inadequação das
primeiras fica cada vez mais patente, seja pelo nepotismo que cria
verdadeiras dinastias, particularmente nas regiões mais atrasadas,
seja pelo poder de manipulação e do marketing político da mídia,
sem falar do peso das grandes organizações industriais e
financeiras cujo poder financeiro constitui-se em fator decisivo
em todas as eleições. São essas entidades que se tornam os maiores
obstáculos à democratização da sociedade, em nome de supostos
princípios racionais necessários ao funcionamento de organizações
e sociedades complexas.
Reduzindo a
participação da sociedade civil a um voto periódico, certamente
mais eficaz do que a coerção autoritária despolitizam-se os
conflitos alegando a busca de um consenso (manipulado).
Donde é
possível inferir que a democracia social exige o controle dos
meios de produção e dos aparelhos de poder. Mas, como contestar o
argumento de competência necessária pela tecnologia de ponta cuja
dominação exigiria os especialistas que inviabilizariam a
democracia?
Sem resvalar
para o fetiche da “democracia direta” via comícios, assembléias e
revogação de mandatos seria possível construir a cidadania
política? Comissões e conselhos em bases territoriais, dispondo de
instrumentos de deliberação, fiscalização e censura, inclusive de
referendos para decidir sobre prioridades de políticas públicas e
alocação de recursos, como ocorre em vários municípios brasileiros
que adotaram a prática de Orçamento Participativo, formarão a base
da democracia socialista.
Aos céticos e
cínicos que desdenhem de uma análise crítica do contexto
histórico, sob a alegação da inviabilidade ou inutilidade de
"utopias", deve se lembrar o que seria o mundo não houvesse, em
todas as gerações, indivíduos capazes e corajosos de pensar as
alternativas, posteriormente transformadas em realidade. Trezentos
anos atrás, o mundo “civilizado” foi governado por um punhado de
monarcas absolutistas (“l’ Etat c’est moi”) e suas cortes
corruptas e parasitas.
Afinal, a
História do capitalismo data de alguns séculos apenas, durante os
quais foram travadas inúmeras guerras, com dezenas de milhões de
pessoas exterminadas e inestimáveis recursos naturais devastados.
Impelido por uma dinâmica perversa de concentração e polarização
em todas as esferas da vida social, o sistema não parece dispor de
saídas para romper o círculo vicioso. Baseando nos na premissa
"toda a realidade é construção social" inferimos que aquilo que
foi construído por seres humanos, por eles pode ser desconstruído
e reconstruído. Portanto, seria ilógico e injusto rejeitar o
socialismo, invocando o fracasso da única experiência de sua
implantação, em condições históricas extremamente adversas.
Mas,
diferentemente do embate entre capital e trabalho nos séculos XIX
e XX que polarizou os conflitos sociais e políticos, o socialismo
em nosso século será construído pelas alianças e redes entre
movimentos e organizações sociais, em nível local, nacional e
internacional. Suas lutas transcendem as questões salariais para
enfrentar os problemas da exclusão social, o desemprego, a
destruição de pequenas empresas, a precarização das relações de
trabalho, a biodiversidade e a devastação ambiental, as reformas
agrária e urbana e, sobretudo, a defesa intransigente dos Direitos
Humanos em todas suas dimensões.
Para
corresponder ao anseio generalizado por uma cidadania plena, de
direitos e responsabilidades, a utopia socialista do século XXI
será democrática, aberta à participação de todos e visceralmente
comprometida com a liberdade individual e a justiça social.
Continuamos,
portanto, a afirmar "um outro mundo é possível!”
Epílogo: A lenda da sarça ardente
Então,
multiplicaram-se as vozes daqueles que diziam que os dias das
trevas já duraram bastante, que se havia esperado demais para que
a promessa da felicidade se tornasse realidade e o anúncio da luz
– verdade.
E, eles
diziam: ...”vamos, construiremos nossas casas ao redor da sarça
que arde desde a eternidade. Os dias das trevas terminarão, pois a
sarça continuará em chamas e nunca será reduzida a cinzas”.
Assim falaram
os mais corajosos entre eles; aqueles nos quais o futuro vivia
como a criança ainda não nascida vive no seio de sua mãe; aqueles
que não perguntam ao oráculo “o que vamos fazer”?
Encontraram
obstáculos e hostilidade em todos os lugares. Entretanto, foram
muitos os que seguiram na escalada íngreme, rochosa que conduziu à
sarça ardente. E, instalaram-se perto dela para viver no seu calor
e sua luz.
Ora, aconteceu
que seus ramos carbonizaram e caíram. As próprias raízes queimaram
e viraram cinzas. De novo, as trevas expandiram-se e fazia frio.
E vozes se
levantaram e diziam: “vejam como nossa esperança foi enganada. Não
haverá culpa? Procuremos a quem ela cabe”!
Então, os
novos senhores mandaram matar a todos que assim falaram e
declararam: “Quem se levantar para afirmar que a sarça queimou,
sofrerá uma morte ignominiosa. Somente o inimigo não enxerga a
luminosidade da sarça, somente o inimigo sente frio em vez de seu
calor”.
Assim, os
novos senhores proclamaram, em pé sobre as cinzas e envolvidos por
uma grande claridade espalhada pelas tochas nas mãos dos novos
escravos.
Mesmo assim,
alguns ainda se levantaram, e o futuro vivia neles como a criança
que ainda não nasceu vive no seio de sua mãe e diziam: “A sarça
apagou porque de novo existem entre nós senhores e escravos, mesmo
que nós os chamemos por outros nomes. Porque existe entre nos a
mentira, a baixeza, a humilhação e a sede de poder. Venham, vamos
procurar alhures e recomeçar pelo começo”.
Entretanto, os
novos senhores mandaram os escravos que cantassem, em todos os
lugares e em todas as horas, em louvor da sarça ardente. Assim,
ouviu-se seu salmodiar nas trevas: “Para nós, a luz brilha mais do
que nunca”. Eles tremeram de frio, mas seu canto ressoava ...”o
fogo eterno da sarça nos aquece”.
E os novos
capangas dos novos senhores colocaram se a caminho para aniquilar
todos que diziam a verdade, para afogar na vergonha os nomes
daqueles que falaram em recomeçar. Mataram muitos, sem, contudo,
destruir a esperança que é antiga como o orvalho e nova como a
aurora que ainda não raiou.
“Existe uma
outra sarça, precisamos procurá-la”, anunciaram as vozes secretas
daqueles que têm em seu encalço os capangas dos senhores antigos e
novos.
“Precisamos
recomeçar, mesmo que tenhamos de plantar de novo a sarça”.
“Benditos
sejam aqueles que assim falam! Que as pedras no caminho não sejam
duras demais para seus pés e que sua coragem não seja menor do que
nosso sofrimento”.
Assim falou o
estrangeiro antes de nos deixar, mais uma vez. Tentamos olvidá-lo,
ele e o gosto amargo de sua esperança. Estávamos cansados do
eterno recomeço.