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Por JOSÉ DE SOUZA MARTINS
Ianni, a poesia na sociologia |
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Uma escola com o nome de Florestan
Ao
repassar a amigos a notícia da inauguração, nestes dias, da Escola
Nacional Florestan Fernandes, do MST – Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra, e o emocionado discurso que na ocasião fez em nome
da família uma das filhas do Professor, recebi várias reações que me
convidam ao comentário. O conjunto das mensagens que recebi
convergem para uma indagação: se vivo, estaria o Professor Florestan
de acordo com o uso de seu nome numa escola cuja proposta pedagógica
estará, segundo todas as indicações e segundo tudo que se sabe da
ação pedagógica dessa organização, centrada na ideologização do
conhecimento?
Não sei. Felizmente ou infelizmente, os
intelectuais mortos nunca deixam porta-vozes que por eles falem ou
que verifiquem a ortodoxia do que em seu nome é dito. Pessoalmente,
não estou preocupado com isso. Eu nem saberia dizer se o Professor
Florestan estaria no Partido dos Trabalhadores se vivesse hoje,
levando em conta as posições pessoais e intelectuais firmes que
sempre teve e levando em conta que o PT, depois que chegou ao poder,
é bem diferente do partido que Florestan conheceu e aceitou. Lembro
dele, certa vez, em sua biblioteca, ainda durante a ditadura, tomado
de acentuado mal estar porque fora usado, como dizia, por um partido
de esquerda e pelo movimento anti-salazarista, em desacordo com o
que era o seu entendimento de determinada questão, já não lembro
qual. E afastou-se desse grupo.
Florestan tem sido apresentado como
“sociólogo militante”. Militante ele foi de várias causas, nem
sempre porque fosse sociólogo, mas sobretudo porque era
consciencioso cidadão. Muitas pessoas fazem a partir daí uma falsa
inferência, a de que Florestan teria sido um apóstolo da “sociologia
militante”, coisa completamente estranha ao conjunto de sua obra.
Uma sociologia que não seria sociologia, mas ideologia. Ele foi
bastante conservador na maioria de seus textos quanto à postura que
adotava em relação à produção do conhecimento científico. Isso nunca
o privou da consciência sociológica de que a própria postura
científica, mesmo no positivismo, pautada pela neutralidade ética,
já pode ser em si mesma uma postura política de compromisso com as
transformações sociais. Escreveu isso, aliás, no apogeu de sua
carreira como cientista.
Não sei o que Florestan diria de uma
concepção de conhecimento que concorresse com toda a tradição das
Ciências Sociais, em nome do militantismo e da negação da Sociologia
como conhecimento científico e crítico, isto é, conhecimento
situado, com as condições sociais de sua referência e produção
indicadas e seus limites apontados. Penso que ele não se sentiria
feliz como patrono de uma orientação em completo desacordo com tudo
o que escreveu e ensinou, em desacordo com o rigor científico que
sempre defendeu e sempre exigiu de seus alunos.
Freqüentemente, o militantismo de
Florestan é justificado com base em seus textos de articulista de
jornal e livros da fase da militância, escritos em cima de fatos e
acontecimentos imediatos, cuja clareza ainda não se punha por
inteiro diante dos olhos e do entendimento do sociólogo que ele era.
Alguém poderá ver aí uma “ruptura epistemológica” na obra de
Florestan, uma renúncia radical à excelente Sociologia que levou a
sua marca indelével. Alguém poderia até dizer que, com esses textos,
Florestan estaria dizendo “esqueçam o que escrevi antes”. É
basicamente isso que estão querendo dizer os que fecham os olhos
para a obra científica do grande cientista que ele foi, para ver
somente o que ele conscientemente produzia no embate político, como
contraponto crítico das certezas e formalidades do trabalho
acadêmico. Esse “esqueçam o que escrevi” seria aceitável por
supostamente ser o contrário de outro suposto e inaceitável
“esqueçam o que escrevi”. Já aí a neutralidade caduca e se torna uma
orientação de conveniência.
Que o nome de Florestan Fernandes está
sendo usado e manipulado por razões político-ideológicas, eu não
duvido. Que o uso político-partidário de seu nome e de sua obra
constitua um ato de fidelidade à sua obra, eu duvido e muito. Que
Florestan possa estar sendo injustiçado pelo seu próprio partido, é
bem provável. Um respeitado e conhecido sociólogo britânico, que
conheceu Florestan, conhece sua obra e foi seu amigo, comentou
recentemente comigo o quanto lhe parecia injusto que Lula, no
discurso de posse, tenha se lembrado de Paulo Freire e de Josué de
Castro, e tenha se esquecido completamente de Florestan Fernandes,
um dos maiores intelectuais, senão o maior, de seu partido.
Essa injustiça não lhe fez o MST. No dia
da morte de Florestan, militantes da organização estiveram em seu
velório na USP, para colocar uma bandeira do movimento sobre seu
caixão. A lembrança de Florestan como patrono da escola agora
inaugurada, é uma homenagem compreensível quando parte de uma
entidade que teve e tem muitas identificações com a história pessoal
de Florestan.
Resta saber se lhe será leal, no que se
refere à leitura e respeito por sua obra. Afinal, se trata de uma
escola que, com as bênçãos e o dinheiro do Ministério, deverá se
transformar numa escola superior. A sociologia de Florestan tem um
clássico das Ciências Sociais que é um livro sobre antropofagia,
tema indigesto para quem prega a “sociologia militante” no estreito
sentido que estão lhe dando: A Função Social da Guerra na
Sociedade Tupinambá, par de outro livro, considerado por Darcy
Ribeiro, o livro das Ciências Sociais brasileiras que ainda será
lido daqui a cem anos: A Organização Social dos Tupinambá. Um
livro, aliás, que ganhou um prêmio de um expoente da burguesia
paulista: Fábio Prado.
Acreditarei, que o nome de Florestan na
escola recém-inaugurada é de fato uma homenagem, justa aliás, quando
seus professores e alunos lerem, de cabo-a-rabo, esse livro e lerem
e assimilarem seu livro monumental Fundamentos Empíricos da
Explicação Sociológica ou mesmo A Integração do Negro na
Sociedade de Classes ou até A Revolução Burguesa no Brasil.
Deixar de lado esses escritos do grande mestre, e outros mais, será
realizar o seu funeral pela segunda vez. E aí, então, as coisas
ficarão claras, como começaram a ficar na mencionada omissão do
discurso do Presidente Luiz Inácio. |
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