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O conceito de Pós-Turismo: uma breve
dimensão crítica
Fascinante
e desafiador é o campo das ciências humanas em que os conceitos são
resultados de uma práxis configurada no âmbito da objetividade e
subjetividade ganhando dimensões alternadas e até antagônicas,
segundo as diferentes epistemologias que realizam a leitura da
realidade social. Neste sentido, o aparecimento de conceitos é
resultado do movimento histórico dos homens na busca para satisfazer
suas necessidades, podendo muitas vezes apresentar-se com diferentes
significações, pois é apropriado por teorias de tronco episteme
distintas.
Esse processo de produzir ciência tem
por princípio a universalidade que deve conter cada conceito, pois
sua validade não pode ser generalista e nem ocasional, mas sim,
produto do movimento da história, em que:
[...] Em primeiro lugar, o ser em seu
conjunto é visto como um processo histórico; em segundo, as
categorias não são tidas como enunciados sobre algo que é ou que se
torna, mas sim como formas moventes e movidas da própria matéria:
“formas do existir, determinações da existência”
.
Os conceitos para serem validados como
pressupostos axiomáticos devem expressar o todo, com isso, afirmamos
que o surgimento do conceito de “Pós-modernismo” deve ser
anteriormente compreendido, para podermos habilitar-nos a entender
o conceito de “Pós-turismo”.
O termo Pós-modernismo vem da América
hispânica,
e surge de fato com toda sua carga de força literária em 1930 dentro
do mundo hispânico e posteriormente entre a década 40 e 50 aparecem
na Inglaterra e Estados Unidos, com a intenção de descrever o que
estava ocorrendo no mundo contemporâneo. De um lado para criticar a
chamada sociedade socialista na sua negação à participação popular,
coletiva e pelo autoritarismo do Estado stalinista, como também, os
ideais da sociedade capitalista estavam se exaurindo pela crise
econômica, social e política em conseqüência da primeira e segunda
guerra mundial e pela fase do capitalismo de acumulação que
necessita criar governos fortes principalmente nos países
latino-americanos.
Nos anos 60 a luta da Guerra Fria
desenvolvida por ambas as potências econômicas mundiais, cujo
objetivo era negar a liberdade de opção política dos indivíduos,
restrição total ao aparecimento de novos valores e comportamentos,
todos são considerados “subversivos” dentro do capitalismo e
socialismo até que provem ao contrário. Esse período, deveras
cerceador das liberdades democráticas e bloqueador do
desenvolvimento do pensamento crítico carregam consigo a instalação
de um fascismo de Estado “imposto à população” em ambos os sistemas.
Na década de 1970 com a guerra do Vietnã
o modernismo na arquitetura e estética, como diz Lyotard:
[...] a chegada da pós-modernidade
ligava-se ao surgimento de uma sociedade pós-industrial – teorizada
por Daniel Bell e Alain Touraine - na qual o conhecimento tornara-se
a principal força econômica de produção numa corrente desviada dos
Estados nacionais, embora ao mesmo tempo tendo perdido suas
legitimações tradicionais. Porque, se a sociedade era agora melhor
concebida, não como um todo orgânico nem como um campo de conflito
dualista (Parsons ou Marx), mas como uma rede de comunicações
lingüísticas, a própria linguagem – “todo o vínculo social” –
compunha-se de uma multiplicidade de jogos diferentes, cujas regras
não se podem medir, e inter-relações agonísticas. Nessas condições,
a ciência virou apenas um jogo de linguagem [...]
.
Essas formas narrativas de leitura da
realidade subestimam a questão da luta de classes e transformam o
principal em secundário e o secundário em principal, isto é,
retira da teoria marxista sua potencialidade revolucionária
enfraquecendo e questionando o que é chamada pelos opositores de
busca incessante da totalidade, como assim comenta Perry Anderson em
seu livro Considerações sobre o Marxismo Ocidental: “A
primeira e mais fundamental de suas características foi o divórcio
estrutural entre este marxismo e a prática política” (ANDERSON, p.
43), pressionando os intelectuais militantes a se refugiarem dentro
da academia, mas, apesar de tudo, o marxismo como corrente
filosófica vem apresentando:
Assim, desde 1924 a 1968, o marxismo não
<<parou>>, como pretenderia Sartre mais tarde, mas avançou por um
desvio sem fim afastado de toda e qualquer prática política
revolucionária
O Pós-modernismo, enquanto conceito do
momento busca fragmentar a realidade para entendê-la em suas varias
especificidades em seu processo de desconstrução, atingindo o
pensamento histórico e obedecendo à lógica do pensamento
antitotalizante, rejeitando as grandes interpretações. O que
ocasiona um apoio à não mudança do modo de produção capitalista,
auxiliando na criação de mecanismos que solidificam seu “status
quo”. Portanto a pós-modernidade pressupõe ultrapassar o capitalismo
não enquanto sistema econômico, mas sim, atender o princípio básico
da expansão máxima da produção, circulação da mercadoria e
tecnologia, estendendo o acesso da mesma aos vários extratos
sociais, na perspectiva de ampliar o consumo e com isso, minimizar a
exploração capitalista. Ampliando os horizontes da ampliação do
capital, congelando o cotidiano revolucionário da realidade e
formatando a linguagem do “pós”, como presente em todas as
instâncias da sociedade.
Essa perspectiva de “pós” aliado ao
moderno, segundo James Petras corresponde ao lado mais avançado das
relações de produção, para ele:
Hoy en dia ser
<<moderno>> significa tener acceso a los circuitos industriales del
comercio, las finanzas, las inmobiliarias y la industria turística.
Ser<<marginal>> hoy significa ser nacional, regional, local. Las
élites internacionales son las que hacen la historia; los marginales
son los objetos de esta: objetos de explotación, objetos típicos o
sexuales del turismo, un emplazamiento para la apropiación y la
inversión
.
Neste sentido, a definição de
Pós-turismo aparece no cenário acadêmico com Sergio Molina que não
foge da caracterização do modernismo, para ele essa “categorização
histórica” só existe com:
As tecnologias de alta eficiência e os
fenômenos sociais e culturais da década de 1990 explicam o
desenvolvimento do pós-turismo em contraste com princípios que
alteram a continuidade dos tipos de turismo industrial.
No quadro do pós-turismo geram-se
produtos competitivos com capacidade crescente de inserção no
mercado. A base tecnológica disponível pode ser considerada como um
elemento fundamental em seu desenvolvimento, formando parte de um
sistema mais amplo, o sócio-técnico, que compreende também a força
de trabalho, a organização para o trabalho e a gestão.
O entendimento do conceito de
“pós-turismo” para ele está formatado dentro de uma base
epistemológica estruturalista, reduzindo o termo “pós” a algo
determinado pelo avanço tecnológico e não pela racionalidade humana,
ou melhor, há um desprezo pela razão e um apego à criação de modelos
para entender a realidade. Esses construtos mentais de fundo
idealista para se defenderem tacham o movimento dialético e
histórico como totalitários e ligados ao determinismo das leis da
natureza.
Com esse comentário, podemos indagar,
nós latino-americanos dificilmente poderemos ter em nosso continente
a aplicabilidade do conceito de “pós-turismo”, em razão de não
dominarmos a alta tecnologia no campo da informática. O
“pós-turismo” estaria reservado aos países desenvolvidos? Ou esse
conceito é por si equivocado?
Para Molina Pós-turismo são os parques
temáticos, em que a tecnologia manipula o real e leva o cotidiano
das pessoas ao sabor do lúdico que substitui a consciência da práxis
social pelo imaginário metafísico do impossível, materializado pela
fuga do mundo dos mortais para o patamar dos super-heróis. Esse
apego ao mundo do irracionalismo reflete a negação e desprezo para
com a razão e a história.
A sociedade não pode ser vista conforme
o olho de quem a controla economicamente, politicamente e
socialmente, bem como, os conceitos são resultado de uma práxis
histórica, por isso Sergio Molina acabou contribuindo para o
empobrecimento da definição de “pós-turismo”. Trazendo a compreensão
do fenômeno turístico para o campo tecnicista e fenomenológico o que
vulgariza a ciência do turismo, pois coloca o mesmo num patamar de
negação da dimensão histórica:
[...] a serviço dos interesses
dominantes da ordem estabelecida. Nesse espírito, as definições de
“modernidade” são construídas de tal maneira que as especificidades
socioeconômicas são apagadas ou deixadas em segundo plano, para que
a formação histórica chamada de “sociedade moderna” nos vários
discursos ideológicos sobre a ”modernidade” possa adquirir um
caráter paradoxalmente intemporal rumo ao futuro, em virtude
de sua contraposição, exagerada de modo acrítico, ao passado
mais ou menos distante
.
Concluindo esse breve comentário a
respeito do conceito de pós-turismo, não poderíamos deixar de
salientar que o mesmo definido por Molina oferece o risco da visão
fragmentada, e da incorporação de uma historiografia hegemônica em
detrimento a uma historiografia Latino-americana e acaba
subestimando a intelectualidade regional. Por isso, terminamos com
um pensamento de Georg Luckács que em seu livro clássico: El
Asalto a la Razon – La trayectoria Del irracionalismo desde
Schelling hasta Hitler, afirma que
“[...] no hay ninguna ideología
“inocente”. No la hay en ningún sentido, pero sobre
todo en relación con nuestro problema, y muy en especial en lo que
se refiere cabalmente al sentido filosófico […]”. (Luckács, 1972. P.
4 e 5)
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