Paulo Cunha, professor do Departamento de Ciências Sociais
da Unesp, e autor de Um olhar à esquerda – a utopia
tenentista na construção do pensamento marxista de Nelson
Werneck Sodré, acaba de lançar um novo livro: O
camponês e a história - A construção da Ultab e a fundação
da Contag nas memórias de Lyndolpho Silva, editado
pelo Instituto Astrojildo Pereira. Nesta entrevista dada a
Augusto Buonicore ele fala sobre este seu último trabalho.
Buonicore: A sua pesquisa de mestrado se
concentrou na experiência de luta e de organização dos
camponeses de Trombas e Formoso em Goiás. Agora você lança
a autobiografia de Lyndolpho Silva. O que o levou a optar
pelo movimento camponês? E quais as dificuldades desta
opção?
Paulo Cunha: A opção por essa temática
foi casual, em que pese já naquela ocasião eu tivesse uma
militância partidária intensa no movimento comunista. Meu
interesse sobre Formoso e Trombas - de que fiquei sabendo
por uma nota de rodapé em um livro - ficou ainda mais
aguçado quando percebi o desconhecimento da academia e
muitas vezes dos atores políticos em relação a história do
campesinato no Brasil. Ninguém sabia nada naquela ocasião
e, para se ter uma idéia, não faz muito tempo participei
de um debate com um membro da Direção do MST e sua
recuperação da história do campesinato brasileiro, ele
partiu de Canudos e depois chegou ao MST. Daí observamos
uma lacuna e com ela se apresenta inclusive nos livros
mais recentes publicados sobre o assunto.
Com essa pesquisa sobre Formoso, conheci Lyndolpho Silva,
uma figura humana extraordinária e íntegra. E pelo contato
e depois pela militância conjunta, também percebi a
necessidade de preencher uma lacuna a partir dele, que foi
um quadro partidário de base e intermediário e que dedicou
sua vida à causa do movimento comunista. Temos muitas
biografias de dirigentes, mas há muito que pode ser feito
com milhares de camaradas que dedicaram suas vidas
quotidianamente ao partido. E eles têm muito que contar e
nos aprender com suas trajetórias. Lyndolpho Silva foi um
deles.
Buonicore: A reconstituição da história
da luta dos camponeses, mais do que a reconstrução da
história dos trabalhadores dos grandes centros urbanos,
exige a utilização do instrumento da entrevista – ou seja,
da história oral. Quais as potencialidades e os limites
deste instrumento?
Paulo Cunha: Inicialmente, a memória é
falha, as pessoas são idosas. A memória também é seletiva,
muitas vezes há fatos que eles entendem não ser importante
relatar (ao contrário do que pensamos); mas também
entendem que há fatos políticos ou pessoais que merecem
esperar um pouco mais para vir a público. Por fim,
dependendo da situação política ou partidária isso
igualmente reflete no resgate, já que há sugestivamente a
interpretação do resgate memorialístico pelo personagem.
Isso muitas vezes remete a distorções, sem falar que são
personagens pouco afeitos a vir a público. A própria
história pessoal foi de ocultamento, pela repressão, e
isso não se quebra de vez. Eles têm dificuldades de
entender que um trabalho como esse é de formação política
para as novas gerações e não é laudatório. Mas, em muitos
casos, é o único recurso que temos. Alguns deles não têm
nem mais o nome de batismo e oficialmente não existem,
apesar de estarem vivos e atuantes.
Buonicore: Até que ponto os levantes
camponeses de Porecatu no Paraná e de Trombas e Formoso em
Goiás não estão ligados a linha política revolucionária
predominante (no Partido Comunista) entre 1948 e 1958? Ou
seja, não existiu apenas esquerdismo e sectarismo naqueles
anos?
Paulo Cunha: Eu nunca partilhei da leitura de que
esquerdismo fosse sempre sinônimo de sectarismo. Isso não
quer dizer que não tenha acontecido em muitos momentos uma
intervenção sectária. A intervenção nesses movimentos
camponeses, evidente, era uma leitura à esquerda, radical;
mas o equivoco na época foi em parte no sectarismo em
alguns setores partidários (sindical, intelectuais e de
certa forma entre os militares) e mais ainda no
imediatismo que muitas das ações foram desencadeadas
esperando que o processo revolucionário irrompesse
nacionalmente.
O quadro mundial sugeria que uma ruptura estava em curso;
e quanto aos movimentos camponeses, a influência da
Revolução Chinesa foi algo muito forte. Em um país com o
atraso cultural do Brasil, essa lição foi apreendida como
uma possibilidade concreta. E havia razões para se pensar
assim: o Partido encontrou naqueles locais condições que
entendia eram objetivas para desencadear uma revolução a
partir daqueles focos. Não ocorreu ou não poderia de fato
ocorrer por várias razões, até mesmo um equívoco de
análise do quadro nacional. Mas isso não tira a correta
leitura da ação localizada tanto em Porecatu quanto em
Formoso e também das lições do potencial da luta camponesa
inserida num quadro nacional.
Buonicore: Na década de 1960 existiu uma
forte tendência a se encarar de maneira negativa o
programa agrário dos comunistas. Nesta crítica se destaca
o historiador Caio Prado Jr, que chegou a negar a
importância da bandeira da reforma agrária, como
impulsionador das lutas camponesas. Qual a sua opinião
sobre este debate?
Paulo Cunha: Acredito que o MST esta aí
para contradizer as teses centrais de Caio Prado e
recolocar o debate sobre a questão agrária e a vitalidade
dos movimentos sociais no campo. Essa visão prevaleceu a
partir de 64 com as derrotas das forças progressistas,
nacionalistas e de esquerda; particularmente no cenário
acadêmico uspiano, quando as teses de Caio Prado foram
revalorizadas até para justificar ou desqualificar as
teses anteriormente elaboradas e, claro, contabilizar
àquelas setores do pré 1964, a derrota. Acredito que hoje
possamos fazer uma reavaliação positiva daquelas teses e
perceber nelas a vitalidade de um pensamento social
construído teoricamente, mas também na práxis e, por que
não dizer, que é contemporâneo. Nisso se inclui o resgate,
o debate dessas teses bem como uma releitura das obras de
outros intelectuais não acadêmicos, como Nelson Werneck
Sodré, Alberto Passos Guimarães, entre outros que ousaram
pensar um projeto nacional, revolucionário e associado ao
componente popular.