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Por
CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO
Doutoranda
no Institut Catholique de Paris e Université Marne-la-Vallée
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A Francofonia
O
mundo inteiro comemora, no dia 20 de março, o dia internacional da
francofonia, uma ocasião para celebrar a língua francesa, grande
laço que não une somente 170 milhões de locutores recenseados pelo
mundo, mas, também, 710 milhões de pessoas que vivem nos 63 Estados
e governos da Organização Internacional da Francofonia (OIF).
A data foi escolhida e conservada em
homenagem à assinatura do tratado da criação da ACCT – “Agence
Intergouvernamentale de la Francophonie” (Agência Intergovernamental
da Francofonia) - operador principal da OIF, em 1970, na cidade de
Niamey – Nigéria.
Apesar de que a França é a terra natal
da língua francesa, e de que além disso, ela divulgou e impôs o
idioma por onde pôde, não é admitida como a “proprietária” dela,
tampouco da francofonia, pois esta nasceu da iniciativa de três
eminentes francófonos não franceses: Félix Houphouêt-Boigny – Costa
do Marfim, Habib Bourguiba – Tunísia e Hamami Diori – Nigéria.
Segundo Abdou Diof, secretário geral da
OIF, há quatro grandes objetivos a atingir, que foram definidos em
novembro/2004, no “X Sommet” em Ouagadougou – Burkina-Faso:
-
promover a língua francesa e a
diversidade cultural lingüística;
-
promover a paz, a democracia e os
direitos do homem;
-
apoiar a educação, a formação, o
ensino superior e a pesquisa;
-
desenvolver a cooperação ao serviço do
desenvolvimento durador e da solidariedade.
Atingir esses objetivos, é, além de
tudo, mostrar que a francofonia é pluralista e moderna, que está
engajada na realidade mundial e disposta a contribuir e a enfrentar
o desafio da paz e da diversidade. A importância de se comemorar a
data, é, sobretudo, para que esses pontos não sejam omitidos, e que
se divulgue os valores francófonos, bem como sua visão de mundo.
Considerada como ambígua, a Francofonia
é difícil de ser definida. Os franceses sempre acharam natural que
sua língua materna fosse amplamente divulgada, pois consideram-na
necessariamente universal em oposição a anglo-americana, que seria a
língua global.
Entretanto, nossa realidade brasileira questiona essa posição.
Graduei-me em Letras – Francês e inúmeras vezes tive que responder
porque o escolhi, qual o interesse, e porque não o inglês.
Isso chegava a ser incômodo. Passei toda
minha vida acadêmica questionando-me e tendo que responder a essas
interrogações. Defendia-me dizendo que gostava, achava bonita, e até
mesmo que era chique falar a língua de Balzac, e essa era a resposta
mais aceitável, no entanto, sempre foi difícil convencer alguém.
O fato é que os brasileiros, em geral,
não acreditam que tal língua possa ser utilíssima. Isso se dá ao
fato dela ser algo distante, nada próximo como o inglês: não se ouve
músicas francesas nas rádios; não vemos muitos filmes no idioma; a
atualidade francófona não é suficientemente divulgada nos jornais,
salvo algumas coisas indispensáveis. Enfim, existe no Brasil, uma
grande divulgação americana (nem, mesmo, inglesa) que sufoca
qualquer outra língua, mesmo o espanhol, falado por todos os nossos
vizinhos.
Entre perdas e ganhos, prós e contras,
os lingüistas podem afirmar que quanto mais idiomas e culturas
conhecemos, melhor nosso desempenho mental e intelectual. Depois de
algum tempo dentro da Universidade, eu passei a responder com outra
pergunta: - Porque não o francês? E era assustador ver que a maioria
das pessoas não tinha uma resposta clara e convincente.
Não quero, aqui, confirmar que o francês
seja uma língua universal; mas numericamente, podemos atestar que é
muitíssimo falada. As dificuldades de definição e de aceitação não
devem mascarar o fato de que a francofonia está encarnada por toda
uma série de instituições, e em sua origem, reunia grupos culturais
e intelectuais chegando a influir na criação, entre outras, da
“Union internationale des journalistes et de la presse de langue
française” (União internacional dos jornalistas e da imprensa de
língua francesa) em 1950.
No X Congresso da FIPF (“Fédération
International de Professeurs de Français” – Federação Internacional
de Professores de Francês), que aconteceu em Paris de 17 a 21 de
julho de 2000, em meio a variados assuntos, a questão das
definições, que veremos, sinteticamente, a seguir, foi abordado com
interesse. Coincidência ou ironia, foi nesse Congresso, também, que
houve, oficialmente, o reconhecimento dos Professores de Língua
Francesa como uma peça indispensável na divulgação da francofonia,
feita pelo então, primeiro ministro Lionel Jospin, ao presidente da
FIPF – não-francófono – nosso colega, o blumenauense Dario Pagel.
A palavra “francofonia” debutou em 1880,
por Onésime Reclus, em seu livro France, Algérie et colonies
(França, Algéria e colônias), e designava o conjunto das populações
que falavam francês. Eram aceitos como francófonos todos os que
parecessem destinados a permanecer ou tornar-se “participante” do
idioma. Foi em 1886, em sua outra obra, La France et ses colonies
(A França e suas colônias), que o geógrafo deu a primeira estimação
do número de francófonos no mundo: 51,75 milhões.
Somente a partir de 1960 o termo
tornou-se corrente, por influência dos movimentos pela
independência. Em 1962, a revista “Esprit” consagra uma importante
matéria sobre o “francês, língua viva”, onde Léopold Sédar-Senghor
definiu a francofonia como “esse humanismo integral, que se
costura ao redor da terra: essa simbiose das “energias dormentes” de
todos os continentes, de todas as raças que se acordam ao seu calor
complementar”.
Partindo dessas definições, essa
“simbiose” revestiu-se de múltiplas formas:
-
Lingüística, reunindo todos os que
partilham o idioma, que o utilizam para se exprimirem, natural,
ocasional ou habitualmente.
-
Política e institucional, valorizando
as proximidades e trocas entre os Estados que partilham o francês.
-
Cultural, reunindo os que comungam do
mesmo ideal de diversidade e universalidade, não detendo-se
unicamente às artes do espetáculo e à literatura, mas incluindo os
que têm a mesma visão de direito igualitário na tradição
romano-germânica e napoleônica.
-
Econômica, afirmando as
particularidades dos valores ostentados pelas empresas dos países
francófonos e favorecendo as ações comuns.
Constatamos, querendo ou não, que a
francofonia é um combate, mesmo nos países francófonos. Deve-se
admitir que, entre os discursos oficiais sobre a universalidade do
idioma, há um distanciamento político, e a francofonia é, antes de
tudo, uma questão de vontade política. Isso faz com que, realmente,
haja uma perda de terreno, assim, a influência dos professores de
francês assume um papel de suma importância.
Também não podemos deixar de admitir que
a “batalha”, “guerrilha”, “guerra”, ou simplesmente “disputa”
idiomática tem resistido bem mais do que cem anos. O francês arma-se
do que tem ao alcance e vai à luta, não sem reconhecimento, mas com
grande dificuldade e muita coragem. Não perde porque não desiste.
Que se comemore o dia 20 de março com o orgulho herdado de toda a
riqueza que compõe tão bravo idioma, e não nos esqueçamos que o
velho guerreiro culto e persistente pode, ainda, ganhar pela
sabedoria.
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