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Por
LÚCIA DE FÁTIMA DO
VALE
Lingüista e professora
de Literatura no Colégio Santa Clara, em São Paulo; Mestre em
Língua Portuguesa pela PUC/SP, doutoranda na área "Projeto, Espaço
e Cultura", pela FAU-USP. |
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A Estética e a Questão do Belo nas
Inquietações Humanas
A Aesthesis, como uma dimensão
própria do homem, tem despertado, desde a Grécia antiga, interesse e
preocupação no ser por aquilo que, efetivamente, o agrada. Essa
disposição ao questionamento do belo, a busca incessante pela
compreensão e delimitação do conceito de beleza move a estética no
transpassar da vida humana como disciplina filosófica, como mera
fruição, como criação, como um ideal ou como uma ruptura.
Para Platão, o belo é o bem, a verdade,
a perfeição; existe em si mesma, apartada do mundo sensível,
residindo, portanto, no mundo das idéias. A idéia suprema da beleza
pode determinar o que seja mais ou menos belo. Em O banquete,
Platão define o amor como a junção de duas partes que se completam,
constituindo um ser andrógino que, em seu caminhar giratório,
perpetua a existência humana. Esse ser, que só existe no mundo das
idéias platônico, confere à sua natureza e forma uma espécie
peculiar de beleza: a beleza da completude, do todo indissociável, e
não uma beleza que simplesmente imita a natureza. Assim, temos em
Platão, uma concepção de belo que se afasta da interferência e da
participação do juízo humano, ou seja, o homem tem uma atuação
passiva no que concerne ao conceito de belo: não está sob sua
responsabilidade o julgamento do que é ou não é belo.
A dialética de Platão aponta para duas
direções: o mundo das idéias, num plano superior, do conhecimento,
que é, ao mesmo tempo, absoluto e estático; a outra direção segue
para o mundo das coisas, dos humanos. Este, de aparência sensível, é
constituído pela imitação de um ideal concebido no mundo das idéias:
portanto, num processo de cópia. Gilles Deleuze aponta para uma
terceira possibilidade que quebra a dicotomia platônica: a cópia
fiel e o simulacro, não mais tido como degenerescência da semelhança
ao mundo das idéias, um mero fantasma. Para os gregos, o belo
artístico situava-se no embate entre as boas cópias e o simulacro.
Esses dilemas permearam o fazer
artístico por muito tempo, com maior ou menor intensidade, na busca
de uma aura artística ou de um certo grau de superioridade:
Entre as artes, a superior é aquela de
um produtor divino, o Demiurgo, que compôs o universo imitando as
idéias verdadeiras e as formas imutáveis. Seguindo o Demiurgo, o
legislador também concebe a comunidade humana de acordo com as
Idéias do Bem, da Justiça e da Verdade. Em terceiro lugar na
hierarquia, estão os poetas e os artistas que também visam aos
ideais, mas, diferentemente do Demiurgo, eles podem falhar no
conhecimento da realidade última, produzindo meras aparências da
natureza sensível. Quando o artista (...) é guiado pela visão da
educação que o filósofo possui, sua imitação será verdadeira (eikastika),
em oposição à falsa imitação (fantastika) (Lima, 1973:15)
Já Aristóteles, diferentemente de
Platão, acredita que o belo seja inerente ao homem, afinal, a arte é
uma criação particularmente humana e, como tal, não pode estar num
mundo apartado daquilo que é sensível ao homem. A beleza de uma obra
de arte é assim atribuída por critérios tais como proposição,
simetria e ordenação, tudo em sua justa medida.
Posteriormente, a autoridade
eclesiástica da Idade Média introduz na concepção do belo a
identificação direta com Deus, como um ser único e supremo a
serviço do Bem e da Verdade. Tanto Santo Agostinho quanto São Tomás
de Aquino identificam a beleza com o Bem, ademais da igualdade, do
numero, da proporção e da ordem: estes atributos nada mais são do
que reflexos da própria beleza de Deus. A finais da era medieval, a
autoridade eclesiástica rejeita a autoridade científica que se faz
presente e notória, exatamente por esta se distanciar da associação
dos fenômenos às vontades divinas. Assim, na Renascença, o artista
passa para uma dimensão maior, não de mero imitador, nem de um
serviçal de Deus, mas de um criador absoluto, cujo potencial genial
faz surgir uma arte de apreciação, de fruição. Aristóteles é
interpretado de maneira normativa. Seu conceito de arte enquanto
mimese e a classificação dos três gêneros literários – épico,
lírico e dramático, gêneros estes imiscíveis e
imutáveis – passam a ser normas de conduta criativa dos artistas de
transição. Assim sendo, regras e padrões fixos são estabelecidas
para nortear a produção da obra de arte, bem como sua apreciação,
mesmo estando a arte a serviço da Igreja.
A difusão das academias ao longo do
século XVII prima pela preservação dessas releituras renascentistas
dos preceitos aristotélicos, num liame objetivo da conceituação do
belo, em busca de um juízo universal, de uma verdade absoluta e
inexorável.
No século XVIII, em virtude da enorme
ebulição em que se encontram as sociedades européias – Revolução
Industrial, Revolução Francesa, os reflexos da independência
americana – pululam novas idéias (nem sempre tão novas assim) que
fazem emergir a necessidade de uma estética posta em prática para
atender aos anseios e às necessidades ideológicas da burguesia
ascendente bem como ao império napoleônico. A adoção de padrões
neoclássicos, reforçados na certeza cartesiana do conhecimento
justificado por sua própria existência
coaduna-se paradoxalmente a aceitação da clareza e da distinção –
conceitos ambos subjetivos – como constituinte do critério de
verdade. De certa forma, esse paradoxo é resolvido por Hume, cuja
filosofia empírica que, apesar de resultar num ceticismo
paradoxalmente aceitável e refutável ao mesmo tempo, trouxe à tona
das discussões o subjetivismo para solucionar celeumas e
querelas em torno da questão do gosto. E não se trata de um
subjetivismo desmedido, visto que há que se considerar critérios
adotados pelo bom senso, obtido pela prática do "discernimento da
beleza":
Quem nunca teve a oportunidade de
comparar os diversos tipos de beleza, indubitavelmente se encontra
completamente incapacitado de dar opinião a respeito de qualquer
objeto que lhe seja apresentado. Só através da comparação podemos
determinar os epítetos da aprovação ou da censura, aprendendo a
discernir sobre o devido grau de cada um. (Hume, 1989:266)
O subjetivismo humeano – o que permite o
julgamento pessoal e individual do belo, bem como uma visão
romântica do mundo, especialmente na transição entre os séculos
XVIII e XIX – não chegou a extremos, fato que seria considerado, na
visão de Bertrand Russell (1967:8), uma "forma de loucura".
Outrossim, Hume defendia a adoção de critérios por parte do crítico
de arte, para que este não se deixasse enganar por "qualidades
grosseiras" do objeto. Para o filósofo ceticista, o objeto, por si
só, não contém peculiaridades de sua constituição material que façam
dele algo belo ou não.
É conveniente observar, contudo, que os
estudos da estética não se prestam apenas ao universo das grandes
artes acadêmicas ou aos interesses especializados dos críticos, mas
também à percepção do belo na prática da vida cotidiana. Esse
pensamento se deu graças aos estudos críticos de Immanuel Kant, na
sua Crítica da Faculdade do Juízo (1790). Para Kant, a
estética é um estado de vida de direito próprio, uma capacidade de
fruição intimamente relacionada a outras capacidades cognitivas do
ser humano, sem depender, necessariamente, da aquisição de
conhecimento, ou seja: para contemplar o belo, o sujeito não se vale
das determinações das capacidades cognitivas das faculdades do
conhecimento. Na percepção do objeto, o sujeito abarca a plenitude
de suas características e não as características isoladas.
A contemplação estética não
requer intelecção tal como a contemplação teórica, com
fins de conceituação e/ou classificação do objeto, importando,
apenas, nessa contemplação, a percepção do objeto. Isso não quer
dizer, porém, que se trata de uma percepção meramente subjetiva. Tal
percepção dos fenômenos dá-se de uma maneira especial, podendo ser
confirmada, sim, intersubjetivamente. De maneira divergente, segundo
Kant, os juízos estéticos seriam impossíveis. Entretanto, convém
lembrar que a observação da manifestação estética só pode ser
apreendida por aqueles que tiverem, a priori, recursos
sensoriais e cognitivos, além de estarem dispostos a praticar o
exercício da atenção a ser dirigida à presença sensitiva de um
determinado objeto.
Sintetizando a teoria do juízo
estético kantiana, observamos que o filósofo prussiano chega a
um conceito mínimo da percepção estética, pois, para todos os
objetos, independentemente de serem eles obras de arte, ou objetos
oriundos da natureza, ou objetos da vida cotidiana pública ou
privada, estes possuem, minimamente, algum aspecto que se manifesta
a partir da atenção que se dá a esta manifestação. Conceitos tais
como objeto estético e percepção estética são, nesse
sentido, indissociáveis.
Muito embora essa associação possa dar a
ilusão de que o sujeito fique, de certo modo "preso" ao objeto por
conta de sua capacidade perceptiva, Kant esclarece que, por meio da
percepção estética, o sujeito se liberta das imposições do
conhecimento conceitual. Essa liberdade nos permite, segundo Martin
Seel, "experimentar a determinabilidade de nós mesmos no mundo" e
ainda completa:
Kant vê na experiência do belo (e mais
ainda do sublime) a realização das capacidades mais elevadas do
ser humano. A riqueza do real admitida na contemplação estética é
experimentada como afirmação prazerosa de sua ampla
determinabilidade por nós. (Seel, 2004)
Já para Hegel, a dificuldade de se
estudar a Estética é o fato de seu objeto – o belo – ser de ordem
espiritual (Hegel, 1988:4), pois o belo não é um objeto de
existência material, mas de existência subjetiva, inerente à
atividade espiritual de cada indivíduo. Contudo, esse fato não chega
a ser comprometedor para a compreensão do fenômeno estético, porque
o "verdadeiro conteúdo do belo não é senão o espírito" (1988:73). No
centro do espírito está a verdade divina, está Deus: "Deus é o
ideal, que está no centro." (idem, p. 74). Hegel toma a
arquitetura como a "primeira realização de arte" e, para atender a
Deus, tem grande responsabilidade de, a partir de matéria
inorgânica, promover transformações que a aproximem do espírito.
Destarte, Hegel traça a missão da arquitetura a primeira arte a se
aproximar de Deus, por meio do espírito de quem a cria e quem a
utiliza:
A arquitetura mais não faz do que
rasgar o caminho para a realidade adequada de Deus e cumpre a sua
missão trabalhando a natureza objetiva e procurando arrancá-la aos
matagais exteriores, para que eles deixem de ser exteriores, para
que o mostrem, fiquem aptos a exprimi-lo, capazes e dignos de o
receber. Arranja o lugar para as reuniões íntimas constrói um
abrigo para os membros destas reuniões, uma proteção contra a
tempestade que ameaça, contra a chuva e as intempéries, contra as
feras. Exterioriza, dando-lhe uma forma concreta e visível, o
comum querer-ser. Esse é o seu destino, esse é o conteúdo que lhe
cumpre realizar. (id. ibidem).
Por conta de tais considerações, é
possível notar que Hegel e sua fenomenologia vêm ao encontro dos
anseios do romantismo alemão - chegando, por vezes, até mesmo a se
identificar com o naturalismo de Schelling. Isso implica dizer que,
no âmago das questões das relações entre espírito e divindade está a
fundamentação epistêmica da modernidade, fato este que merece um
estudo mais aprofundado.
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Referências bibliográficas
ARISTÓTELES, Arte Retórica e Arte
Poética, Rio de Janeiro, Ediouro, s/d.
BURKE, Edmund. Uma investigação
filosófica sobre a origem de nossas idéias do sublime e do belo.
[Tradução de Enid Abreu Dobránsky] Campinas: Papirus, 1993.
DELEUZE, Gilles. Conversações,
1972-1990. [Tradução de Peter Pál Pelbart] Rio de Janeiro: Ed. 34,
1992.
HEGEL,
Georg Wilhelm. "Estética: o belo
artístico ou o ideal", in: Os pensadores. [Tradução
de Orlando Vitorino] São Paulo: Nova Cultural, 1988.
HUME, David. "Ensaios políticos,
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Os pensadores. [Tradução de Anoar Aiex, João Paulo Gomes
Monteiro, Armando Mora de Oliveira] São Paulo: Nova Cultural,
1989.
KANT, Immanuel. Crítica da
faculdade do juízo. [Tradução de Valério Rohen] Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 1993.
LIMA, Luiz Costa. Estruturalismo e teoria da
literatura: introdução às problemáticas estética e sistêmica.
Petrópolis: Vozes, 1973.
PLATÓN.
Obras completas III - Diálogos polémicos I : Teeteto, Cratilo,
Eutidemo. Madrid,
1934.
RUSSELL,
Bertrand. História da filosofia
ocidental. Livro terceiro, [Tradução de
Brenno Silveira] São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1967.
SEEL, Martin. "A libertação da
estética filosófica por Kant" [Tradução de Alfred Keller] Goethe
Institut, 2004 (artigo inédito). |
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