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Por
RAIMUNDO SANTOS
Professor da UFRRJ. |
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Um governo de esquerda sem esquerda
positiva
Com as
saídas do PMDB e do PPS do governo, o presidente Lula se verá
compelido a reorganizar o seu ministério em termos de uma coalizão.
Esta composição, porém, vem muito tardia, uma vez que não se fará
mediante relações institucionais com aqueles partidos, mas
recorrendo, de modo mais aberto, a fraturas suas e agora com apoio
principal no PTB, no PP de Maluf e em outras pequenas agrupações.
Nesse rumo, o governo poderá deslizar para um terreno pantanoso:
fechar-se como “governo próprio” embora sendo de coalizão, ou seja,
com predomínio petista e sustentação politicamente precária.
Tal tendência induz a um resultado
diverso da pressão que as esquerdas, fora do governo e alguns
setores seus sem maior conexão com o mundo político, vêm exercendo
para que Lula realize as mudanças. À medida que se configura esse
cenário, essas áreas ficam cada vez mais distantes do governo de
centro-esquerda prometido pelo PT, no segundo turno de 2002, como a
melhor seqüência à era tucana. Alternativa, aliás, acolhida pelo
eleitor que votou maciçamente em Lula ao mesmo tempo em que elegia
governadores não-petistas nos estados mais importantes e dava
maioria parlamentar ao conjunto dos outros grandes partidos.
Aludindo a referências do passado,
teceremos a seguir considerações sobre alguns contornos do clima
intelectual que envolve as ações de grupos do PT e de outros setores
de esquerda nesta conjuntura dois anos após a posse de Lula;
protagonistas cujas posturas, a nosso ver, podem vir a influenciar
positivamente os rumos do governo Lula, caso convirjam com o chamado
terceiro campo que o PPS e áreas ligadas a outros partidos,
inclusive ao próprio PT, ora estão prometendo configurar como um
espaço plural de intervenção política despolarizada em relação ao
governo e à oposição PFL-PSDB.
O governo Lula como emblema da esquerda
Para realçar esse tema das posturas das
esquerdas brasileiras, lembremos um primeiro evento: 1964. O fim do
governo Goulart veio tornar mais clara a diferenciação entre as duas
esquerdas que haviam tido gravitação naquela época. Com o revés de
1964, por mais que o marxismo-leninismo fosse sua referência comum,
ficou nítido que a mais importante delas, o PCB, enraizada na tática
de frente única, operara no pré-64 de modo responsável, enquanto os
setores mais referenciados pela idéia de revolução haviam se postado
no período outsider do mundo político real, contribuindo para
embaralhar o processo de “reformas de base” de Jango. Eles atuaram à
época julgando poder interpelar por si mesmos o campo popular da
nação e tinham as vistas dirigidas à conquista do Estado.
Essa última esquerda não valorizava
mediações pluriclassistas e institucionais, como fazia o PCB, ou
seja, não aceitava, como sua política, a tese dos governos de
coalizão nem valorizava muito as eleições. Há também que se aludir
que, logo no pós-1964, vários grupos seus, inclusive dissidências do
próprio PCB, acusaram os comunistas de haverem sido moderados, terem
conciliado com o reformismo goulartiano e, assim, contribuído para o
desastre daquele ano. Esse tipo de crítica veio sem argumentação
centrada na política. Sua ênfase fora posta nas chamadas ilusões que
os comunistas (e o Iseb) teriam nutrido com respeito às
possibilidades do desenvolvimento capitalista do país e em relação
ao nacionalismo daquele tempo; um nacionalismo percebido pelo PCB
então como um “nacionalismo político”, valorizado a partir de uma
contradição que, segundo diziam os comunistas, opunha o moderno
industrializante ao atraso agrário, tensionando a vida nacional e
ensejando as mudanças.
Em seu livro Os Intelectuais e a
Política. Entre o Povo e a Nação (1990), Daniel Pécaut observou
que, no clima do imediato pós-64, no qual se radicalizara aquele
tipo de crítica aos comunistas, perdia-se a história política
anterior para explicar os acontecimentos de 1964. O brazialianista
chamou a atenção para o fato de que, naquela cena intelectual, o
político iria se apagar reduzido ao plano da economia e que uma
espécie de “causalidade estrutural” seria realçada (idem); no caso
que interessa aqui sublinhar, deixando a política de ter
centralidade no equacionamento de questões-chave para o campo da
resistência que à época se organizava contra a ditadura.
A formação do governo Lula também põe em
primeiro plano esse tipo de tematização da cultura política. Não
estranha que uma novidade como a de ser governo central surpreenda o
conjunto das esquerdas e provoque reviravolta no próprio PT, grupo
que não se preparou – construindo valores políticos e convergências
com aliados plurais, sobremaneira partidários – para uma tarefa de
tamanha envergadura. O evento veio revelar um paradoxo à medida que,
desde 2002, o PT aparenta praticar a tática de amplas coligações da
esquerda histórica da qual nunca se disse sucessor. Pelo contrário,
foi negando essa tradição que ele construiu boa parte da sua
identidade, preencheu os espaços antes ocupados pelo PCB e liderou
modernos ambientes sociais e corporativos à medida que ia tendo
vigência plena o estado democrático de direito; processo este
último, aliás, obtido com o concurso nada discreto dos comunistas.
Como nova esquerda, o PT não interpelou
a seu favor mutações por que passou o comunismo brasileiro, desde
que o PCB decidiu voltar-se para o tema da democracia política, em
março de 1958. Pouco se empenhou em redimensionar sua marca
revolucionária de origem acentuada pelo menos em seus componentes
não-sindicais; aggiornamento para o qual também poderia se
valer de uma relação benéfica com nosso pensamento social,
interpelando-o como inteligentsia.[1]
Assim, o partido de Lula não consolidou teses-chave – referenciadas
por uma imagem de Brasil – que lhes acrisolasse valores de uma
cultura política de esquerda democrática, cujo exemplo mais
desenvolvido no marxismo político é o do PCI; partido que elaborou
sua política contemporânea, inclusive a mais recente, a partir do
seu patrimônio anterior, inaugurado por Gramsci na dissertação sobre
o Risorgimento italiano e nas suas notas sobre o americanismo. Só
agora, com o andamento do governo Lula, a tradição pecebista de
frente democrática e de valorização da política suscita rediscussão,
na hora em que o PT exibe carências em relação a esse tipo de
cultura política.
Mencione-se um outro processo discursivo
que há algum tempo também vem interpelando a cultura política da
nossa esquerda. Referimo-nos às teses com que o PSDB se propôs
modernizar o país na passagem da década de1980 para os anos 90.
Trata-se de um programa presente já na formação daquele partido e
lançado com a candidatura Covas, em 1989, sob o lema do “choque de
capitalismo” de que necessitava o país, como se disse na ocasião. O
Presidente eleito pelo PSDB expôs e procurou realizar esse programa
ao longo dos seus dois governos como uma modernização a ser levada
adiante “com rumo” na época de globalização. Ele às vezes evocava os
tempos de JK, mas não retomou o pensamento
nacional-desenvolvimentista dando maior passagem ao antieconomicismo
do pré-64 (não por acaso, diferente do que antes dele se dizia,
hoje, essa filiação desenvolvimentista é reivindicada como qualidade
por muitos dos que fizeram oposição à era FHC).
No entanto, ao optar por uma
modernização de “incorporação social seletiva”, como a chamou um
sociólogo do Rio de Janeiro, o Presidente Fernando Henrique Cardoso
e os seus governos de “centro-esquerda sem esquerda” (ou seja, sob
cerrada resistência das esquerdas, com a exceção do então pequeno
grupo de Roberto Freire) não radicalizaram o estilo de
equacionamento político da economia como era próprio da tradição da
qual descendia o PSDB: o MDB/PMDB, mundo pleno de interesses velhos
e novos e de bastante composição política (ver sinais seus nos
governos Sarney e Itamar).
As marcas daquele mundo político
continuam sendo menosprezadas. Agora mesmo, após a eleição
municipal, a mídia procurou passar uma imagem segundo a qual
estaríamos vivendo um bipartidarismo em que competiriam modernos
representantes de interesses e economia (o PT e o PSDB) sem
convergências estratégicas com terceiras áreas políticas do país
social e culturalmente complexo. No entanto, a eleição municipal
também veio mostrar o sucesso dos que praticaram largas alianças
nessas áreas, recusando-se a tematizar a economia com aposta no
acirramento dos conflitos e na auto-suficiência, o que só ofusca a
postura dos atores. No caso que interessa sublinhar, a eleição veio
reativar setores de esquerda, alguns antigos, como os remanescentes
pecebistas hoje no PPS, bem ativos no campo reformista à hora da
anistia de 1979; atores que procuraram influir no primeiro governo
civil (Tancredo/Sarney), na Constituinte e ainda no governo Itamar,
mas que vêm se dispersando cada vez mais nos últimos vinte anos.
Um contexto sem esquerda positiva
Ante a chamada frustração do governo
Lula, a crítica da esquerda petista e de outros grupos mais novos
também se generaliza com acentuada desconsideração da política. O
que querem essas esquerdas ao qualificar Lula como um governo de
centro-direita e até mesmo neoliberal? Referida à política econômica
– entendida per se e a mercê de decisão presidencial –, esse
tipo de crítica minimiza o fato de que o governo Lula é um governo
de esquerda com predominância do PT no interior da Presidência da
República. Se tal desconforto ante o governo petista se radicalizar
e terminar por envolver contingentes importantes das nossas
esquerdas militantes, quadro que se qualifica agora com a retirada
de apoio do PMDB e do PPS, podemos chegar em breve a um contexto de
termos um “governo de esquerda sem ´esquerda positiva`”. Já agora,
nota-se, em áreas mais militantes, muita carência de moderação e
lucidez, sentindo-se falta de uma “esquerda positiva”, usando-se
aqui uma expressão antiga e forte para os dias de hoje; expressão,
como é sabido, com a qual Santiago Dantas interpelou as “forças
progressistas e populares” às vésperas de 1964, atento à
deterioração rápida do quadro político que sustentava o
empreendimento das reformas daquela época.
Por outro lado, se, no
passado, as esquerdas – vale dizer, os seus grupos mais sintonizados
com o mundo em que viviam – apoiaram governos democráticos bifrontes
(com grupos partidários de “medidas progresistas” e ala
conservadora), como são exemplos JK e Jango; e, depois, os citados
governos do período de transição (Sarney e Itamar), por que não se
teve atitude também positiva em relação a Fernando Henrique Cardoso?
E, agora, por que grande parte da esquerda tradicional aliada do PT
– sem buscar gravitação política positiva – já está quase toda
contra Lula? É possível que em muitas dessas áreas a compulsão
oposicionista se guie pelos aspectos continuístas do governo atual,
revelando que elas pouco apostam na política como tal. No entanto,
se esses grupos e a esquerda ora ao redor do PPS, PDT e áreas
inclusive do PT e do PMDB não se moverem com lucidez em relação ao
governo, podemos chegar, justamente por falta de iniciativas
políticas tempestivas de uma “esquerda positiva”, a uma situação de
instabilidade nova.
Ou se espera que as coisas tenham rumo
bom por suas próprias contradições? A esquerda majoritária e hoje no
governo está aprendendo a ser reformista in fieri. O exemplo
disso é o fato de ela ter mantido a política econômica – sua
tematização em chave diversa da anterior, como já foi observado por
mais de um analista, é que mostraria alternativas a serem
processadas gradualmente. A propósito, há que se mencionar um outro
fato interpelativo que não mereceu melhor exame entre nós: a
tentativa de direcionar a globalização que, mediante coligações
partidárias, fizeram em seus países os ex-comunistas italianos e
outros partidos social-democratas, entre os quais o Partido
Socialista francês. O que fizemos, nas mais das vezes, aqui em
nossos ambientes mais militantes, se não acompanhar o defensismo dos
movimentos sociais em sua denúncia do neoliberalismo, via de regra,
reagindo quase no limite do “Fora FHC!”?
A partir da tematização apresentada nas
páginas anteriores, o que significa o governo de agora? O que quer
fazer o PT no poder central com a cultura política que construiu na
sua saga rumo à Presidência? O PT chegou a 2002 recolhendo um estilo
muito associado à trajetória percorrida, vale recordar: no
associativismo, oposições combativas; certa aversão à
institucionalização; e candidaturas próprias e alianças restritas
(quando flexibilizadas, autocêntricas). Vêem-se seus sinais tanto na
forma como ganhou a eleição – a partir de um líder popular, mas sem
alianças com partidos politicamente importantes – como também no seu
atual modo de governar sem crer que os aliados possam contribuir,
com valores políticos, para o desempenho da Presidência de Lula. Em
suma, o governo Lula não é um governo de traição, como às vezes se
diz. Ele representa a conquista de parte do poder pela esquerda
brasileira, na atual circunstância da globalização, e oferece um
teste de suficiência da cultura política de uma esquerda hoje na
Presidência da República.
Amplitude de vistas e terceira corrente
política
Por mais que não tenha sido costume das
esquerdas polarizadas em torno do PT divisar o mundo político como
cena principal e valorizar a democracia representativa como fonte
dos melhores mecanismos de transformação social (reformas
sustentáveis e benéficas para as maiorias), a política lhes aparece
agora como lugar privilegiado de onde o processo
modernizador-reformista da época tucana não só poderá se consolidar
como também vir a ser retificado, inclusive a partir da inclusão
entre os critérios das ações de governo de uma incorporação social
mais ampla.
Os jornais dos nossos dias exibem sinais
positivos que mostram que, mesmo com vaivens, áreas do PT ligadas ao
governo já percebem que o desempenho deste depende principalmente do
que se fizer no plano da política. Já se compreenderia nesses
ambientes que terminou a compulsão da incorporação do social e do
corporativo diretamente avocada ao Presidente da República sem a
mediação da política e do Congresso nacional (exemplos desse
primeiro tempo até agora: o Fome Zero, o Conselho do Desenvolvimento
Econômico Social). Também já estaria ficando para trás a crença no
decisionismo da “vontade política” do Presidente do tipo “reforma
agrária de uma só canetada” e da marcha de Lula até o Congresso
nacional para entregar diretamente aos parlamentares as primeiras
reformas constitucionais. Perdida a veleidade de exercitar potência
messiânica neste país complexo e dotado de robusto sistema de
partidos, querendo tudo mudar, o largo espaço atribuído ao “mandato
histórico” do governo Lula se institucionalizou no decurso dos seus
dois anos, a Presidência da República sendo posta progressivamente
sob a lógica da política, da qual o PT muito desconfiou no passado
não muito distante.
Assim, hoje um pouco mais incertas
devido às saídas do PMDB e do PPS da sua base de apoio, as melhores
perspectivas do governo Lula dependem de que a política venha a ter
cada vez maior centralidade na vida nacional. No momento, ela está
mais sediada no Congresso, sendo urgente que as esquerdas militantes
a generalizem em suas áreas de influência nos movimentos sociais,
nas esferas públicas civis e governamentais e sobremaneira na
própria Presidência petista, levando para tais ambientes um modo
novo de fazer as coisas: sob os parâmetros do reformismo desses
nossos dias, ou seja, com o anúncio de metas e meios adequados e a
identificação de consensos e alianças que lhes habilitem andamento
para êxito provável, com sustentação no âmbito privilegiado do
sistema partidário.
Tal abertura de vistas pode avançar no
PT, inclusive como resultado da eleição municipal – especialmente da
repercussão das suas derrotas em São Paulo e em Porto Alegre – ao
projetar novos líderes petistas, como Fernando Pimentel, Lindimberg
Farias, Godofredo Pinto e Luiziane Lins, cada qual a seu modo,
contra-restando a centralidade que as estruturas partidárias de São
Paulo também têm no partido de Lula. Nesse mesmo sentido, a própria
posse de Serra estimulará presença maior do seu enfoque
desenvolvimentista-nacional e com ela interação mais positiva entre
o PSDB e o PT de Lula. A chamada terceira corrente ora se agrupando
em torno da aliança PPS-PDT, se vocacionada para ser “esquerda
positiva”, pode vir a compensar, caso venha a ter peso, os efeitos
do declínio do PMDB no governo Lula e a conter as animações que vez
por outra aparecem trazendo de volta a idéia de um novo impulso
social para refundar as esquerdas militantes, à semelhança do
processo de nascimento do PT nas bases sindicais; impulso agora
acalentado ao redor do social mobilizado pelo MST. |
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