|
Por
ANDREY PEREIRA DE
OLIVEIRA
Doutorando em Literatura
Brasileira pela UFPB |
|
Victor Hugo e o Manifesto do Drama
Romântico
“Destruamos
as teorias, as poéticas e os sistemas” (HUGO, 2002: 64). Esta
citação que escolhemos para iniciar nosso artigo representa bem
certos aspectos do prefácio que Victor Hugo (1802-1885) anexou ao
seu drama Cromwell (1827). Enquanto em sua semântica,
acusa-se o desejo iconoclasta de pôr abaixo a estética clássica, em
seu estilo, revela-se o espírito muitas vezes agressivo e tumultuoso
de sua escrita.
Escrito em outubro e publicado em 4 de
dezembro de 1827, na capital francesa, o prefácio de Cromwell
constitui-se de uma teoria do drama romântico. Sua relevância não
diz respeito ao grau de novidade das idéias levantadas. Muitos
estudiosos rastrearam e apontaram as fontes teórico-filosóficas de
que Hugo serviu-se para a formulação de sua própria teoria:
Chateaubriand, Mme Staël, Alessandro Manzoni, os irmãos
Schlegel, os Sismondi e, sobretudo, Sthendal. Todos estes já vinham
preparando, de longe, o espírito do público para o texto de Hugo. O
maior mérito deste, na verdade, consistiu em fazer um cruzamento das
múltiplas vozes, reunindo em um único material as idéias sobre o
drama romântico até então esparsas durante o primeiro quarto do
século XIX. E o fez de modo tão particular, defendeu as novas
concepções de forma tão vibrante que ninguém da cena literária ficou
alheio ao seu prefácio, que, desde então, passou a ser considerado o
grande manifesto não apenas do drama, mas da poética romântica como
um todo.
O longo prefácio de Cromwell é a
defesa do drama romântico, que, segundo Hugo, seria uma nova forma
de poesia fruto dos tempos modernos que deveria superar por completo
as velhas manifestações clássicas que se prendiam em demasia a
regras fixas. Para chegar até seu objetivo principal, Hugo realiza
uma espécie de síntese histórica em que filia as formas de arte
poética a três momentos do desenvolvimento histórico da humanidade,
ou melhor, a três idades do mundo: os tempos primitivos, de
primeiros encantos com o mundo, que seriam líricos e teriam nas odes
e hinos suas formas de expressão; os tempos antigos, em que já
haveria grandes impérios e acontecimentos narrados em poemas épicos;
e, por fim, os tempos modernos, que seriam dramáticos. Em síntese:
“Os tempos primitivos são líricos, os tempos antigos são épicos e os
tempos modernos são dramáticos. A ode canta a eternidades, a epopéia
soleniza a história, o drama pinta a vida” (HUGO, 2002: 40).
Na fundação dos tempos modernos, Hugo
aponta a importância do surgimento do cristianismo para a nova
sensibilidade dos homens que agora sabem-se duplos – repartidos em
alma e corpo e destinados a uma vida também dupla, uma passageira e
terrena, outra eterna e celestial. Esta percepção de duplicidade era
impossível na antiguidade, pois os antigos não atingiam a
espiritualidade do universo, mantendo-se sempre presos ao visível e
palpável da natureza. Desta forma, “a musa puramente épica dos
Antigos havia somente estudado a natureza sob uma única face,
repelindo sem piedade da arte quase tudo o que, no mundo submetido à
sua imitação, não se referia a um certo tipo de belo” (HUGO, 2002:
26). Apenas na modernidade, portanto, com a difusão do cristianismo
e seu jogo de duplos, a poesia foi conduzida à verdade. “A musa
moderna – afirma Hugo – verá mais coisas com um olhar mais elevado e
mais amplo. Sentirá que tudo na criação não é humanamente belo,
que o feio existe ao lado do belo, o disforme perto do gracioso, o
grotesco no reverso do sublime, o mal com o bem, a sombra com a luz”
(HUGO, 2002: 26).
Eis o ponto nodal do prefácio de Hugo:
sua teoria sobre o grotesco. Segundo ele, o gênio moderno é
resultado justamente da coexistência do grotesco com o sublime, e
desta junção surge uma infinidade complexa de formas e
possibilidades de criação artística, o que se opõe sensivelmente “à
uniforme simplicidade do gênio antigo” (HUGO, 2002: 28). De uma
forma geral, o drama romântico – com o seu componente grotesco
coexistindo com o sublime – deveria caracterizar-se, enquanto
procedimento artístico, pela mistura de gêneros, só assim podendo
realizar uma pintura total da realidade como busca de uma poesia
completa. É a busca desta poesia completa – fruto da nova
sensibilidade moderna e capaz de pintar a realidade como um todo
complexo – que motiva Hugo a propor a destruição das teorias, das
poéticas e dos sistemas.
Por mistura de gêneros, o escritor
francês quer significar a abolição das fronteiras entre a comédia e
a tragédia, que, quando isoladas, só produzem, de um lado,
“abstrações de vícios, de ridículos”, ou, de outro, “abstrações de
crime, de heroísmo e de virtude” (HUGO, 2002: 48). Daí, apenas a
mistura destes dois gêneros, ou seja, apenas a síntese presente no
drama, poder representar o homem moderno em toda sua plenitude.
Em consonância com sua defesa dos
gêneros, Victor Hugo, propõe a abolição da regra das unidades
defendida, entre outros, por Boileau e considerada por Hugo como
pretensiosa e infundada, principalmente porque resulta em prejuízo à
verossimilhança das obras. Para os modernos, que querem renovar os
temas, substituindo a crise passional da tragédia pela pintura dos
eventos históricos, as unidades constituem convenções absurdas,
entraves insuportáveis, das unidades de ação, tempo e espaço, Hugo
mantém-se defensor apenas da primeira, considerando-a responsável
por marcar o ponto de vista do drama, Quanto às outras duas, o bardo
francês renega-as, deixando ao poeta, de acordo com as necessidades
de verossimilhança, a liberdade de variar e expandir tanto o tempo,
quanto o espaço em que se desenvolvem os dramas. Daí, a rejeição da
ação “emoldurada à força nas vinte e quatro horas” (HUGO, 2002: 55)
e a defesa da utilização da cor local como meio de fugir das
convenções falsas e estanques.
Outro ponto importante do prefácio de
Cromwell é a discussão acerca do problema da imitação, tão cara
aos representantes da escola dramática francesa. Se Hugo se
posiciona essencialmente contra quaisquer regras convencionais, não
poderia ser outra sua atitude frente à imitação que não a defesa da
busca da poesia não em outros poemas ou poetas, mas sim diretamente
na natureza, na verdade e na inspiração, a qual, para ele, “é também
uma verdade e uma natureza” (HUGO, 2002: 65).
No que diz respeito à relação entre a
arte e a natureza, Victor Hugo discorda de algumas vozes que se
faziam constantes e afirmavam que a realidade da arte era a
realidade absoluta. Argumentando que a arte não pode representar a
própria coisa, ele defende que ela – no caso, a obra dramática – é
uma espécie de espelho em que se reflete a natureza, cabendo aos
poetas utilizarem-se de sua arte como um “espelho de concentração
que longe de enfraquecê-los, reúna e condense os raios corantes, que
faça de um vislumbre uma luz, de uma luz uma chama. Só então o drama
é arte” (HUGO, 2002: 69).
Como defensor das idéias que acima
revisitamos, positiva não poderia ser a opinião de Hugo acerca da
escola dramática francesa, que se deixava imobilizar pelos dogmas
clássicos e que, segundo ele, constituía “uma penúltima ramificação
do velho tranco clássico, ou melhor, (...) uma dessas excrescências,
um destes pólipos que a decrepitude desenvolve e que são bem mais um
signo de decomposição que uma prova de vida” (HUGO, 2002: 71-2). A
acusação desenvolve-se principalmente contra a falsidade e
hipocrisia da arte, estilo e poesia que subordinam o achado, o
imaginado e o inventado às convenções da retórica, dos
lugares-comuns e dos versos latinos, resultando em “idéias não
originais vestidas com imagens de pacotilha” (HUGO, 2002: 75). O
autor de Cromwell acusa a escola dramática clássica de, não
admitindo haver dignidade no falar naturalmente, insistir no abuso
das perífrases e na utilização de um francês que não é mais que uma
língua morta. A tragédia, aos adeptos desta escola, passa a ser “uma
cômoda moldura para a solução de um grande número de pequenos
problemas descritivos” (HUGO, 2002: 72). Sendo esta a apreciação de
Victor Hugo aos adeptos da escola francesa dramática, é com o mesmo
princípio e critério que ele elege Shakespeare e Molière,
respectivamente, como o primeiro grande representante e o ponto
culminante do verdadeiro drama moderno.
Para encerrar este breve percurso pelo
prefácio de Cromwell, transcrevemos um momento fundamental do
texto por bem resumir a teoria do drama romântico de Victor Hugo.
Assim afirma ele: “Se tivéssemos o direito de dizer qual poderia
ser, em nosso gosto, o estilo do drama, quereríamos um verso livre,
franco, leal, que ousasse tudo dizer sem hipocrisia, tudo exprimir
sem rebuscamento e passasse com um movimento natural da comédia à
tragédia, do sublime ao grotesco; alternadamente positivo e poético,
ao mesmo tempo artístico e inspirado, profundo e repentino, amplo e
verdadeiro” (HUGO, 2002: 77). |
|

|