A relevância
das pinturas rupestres para o meio ambiente
Nós
humanos somos criadores de situações, ações e muitas outras coisas
no mundo. Além de nossas relações sociais e ou ainda com o meio
ambiente. Relações com animais, minerais e vegetais. Mas pouco nos
damos conta destas relações e sua importância para a manutenção de
nossas próprias vidas.
Estas relações
ocorrem desde tempos imemoriais na historia da espécie humana. E
como criadores que somos estamos ligados a esta ordem memorial,
ancestral e natural mesmo que não queiramos.
Esta
relação de criação nos faz complexos, pois temos em nós inscritos
desde as épocas mais remotas da existência humana esta relação. E
as obras de arte criadas são parte de nossa singularidade e
unicidade, enquanto espécie. Elas são a nossa expressão e
impressão do mundo que nos cerca. Nelas nos fazemos presente e
representamos o que vemos ou desejamos.
As obras de arte, no caso as pinturas,
nos apontam a profunda relação que temos com o meio ambiente e a
necessidade que temos dele. E que não podemos deixá-lo sucumbir.
Os artistas, que
são os criadores, nos possibilitam que a ligação entre nós e o
meio não se desfaça. Fazem-nos ver como é o mundo e nos permitem
enxergar beleza em tudo. E também tudo que a terra tem a
disposição para ser admirado.
É a partir dos
artistas, mas não só deles, que construímos a nossa cultura. “A
cultura que é o conjunto das praticas coletivas universais”. (Levi-Strauss,2004)
E sem cultura não há humanidade nem mesmo natureza ou meio
ambiente, pois somos nós quem controlamos a vida na terra. Este
controle ocorre há milhares de anos as pinturas rupestres servem
para nos mostrar isso em suas cenas do cotidiano humano.
A arqueologia ajuda-nos a fazer o
resgate do inconsciente da terra. Ela também nos revela as
sociedades e suas complexas formas de vida. O modo como elas
viviam durante milhares de anos e como era a relação destes com o
meio. E as pinturas rupestres tem apontado estes modos de vida
humanos.
A cultura revelada pela arqueologia
compõe o conjunto etnográfico, discutido, dotado de afastamentos
significativos e das constantes ligadas a esses afastamentos que
nos fazem humanos.
Esta concepção auxiliar-nos para o
entendimento das relações sociais entre os grupos humanos, em
todos os períodos históricos. E, também, nas relações dos humanos
com o meio. Apresentadas pelos artistas do período em suas obras
de arte, as pinturas rupestres.
As obras de arte teriam a missão de
auxiliar, ao menos em parte, a administração do território que os
humanos ocupavam. Ao menos no que diz respeito à caça, a coleta e
a garantia da própria vida dos grupos. Elas poderiam garantir em
suas formas simbólicas os conhecimentos acumulados ao longo dos
anos. Como em cenas: de lutas, de andanças, de rituais e de
caçadas.
Conhecimentos que foram construídos,
modificados e ampliados de acordo com os interesses e necessidades
dos grupos. E de suas relações sociais entre os grupos e com o
meio ambiente.
As sociedades antepassadas caçadoras,
pescadoras e coletoras nunca morrem, como todas as outras, se
refazem e se recriam de diversas formas no contexto de vida das
futuras sociedades.
É preciso que notemos a relação que há
entre estes grupos humanos com o meio ambiente. As pinturas
rupestres uma das muitas formas artísticas de expressar os
intuitos humanos ajudariam na permanência das informações em suas
imagens.
Desde o período paleolítico (há mais
de 12 mil anos) e mesmo na transição para o neolítico os humanos
mantiveram uma relação de dependência e reciprocidade com o meio
circundante. Relação que, de certa forma, nós hoje perdemos em
grande medida, devido ao desenvolvimento tecnológico desenfreado e
destruidor.
A relação ocorria quando os humanos
criavam e recriavam a sua cultura material, de instrumentos,
adornos e obras de arte, etc., a partir do que o meio lhes
oferecia.
Ocorria, também, no uso do meio em
seus deslocamentos pelo espaço terrestre à procura de melhores
condições de vida, não só alimentares, mas de moradia ou sociais
também. Ou, ainda, para explicarem o próprio mundo em que se
viviam uns para os outros (cultos religiosos e cerimoniais
presentes nas pinturas).
A cultura rupestre mostra-nos em suas
cenas os humanos com seus instrumentos necessários a
sobrevivência. Instrumentos que eram produzidos e desenvolvidos a
partir do que estava “a disposição no meio” (Leroi-Gourhan,
1975: 103/104). Sem estes instrumentos a vida destes grupos teria
sido muito mais difícil.
Mostram-nos, ainda, em suas cenas de
humanos ou de animais uma coloração viva. Mostram, também, a
participação e contribuição de diversos grupos em suas formas e
imagens apresentadas (as diversas tradições de pinturas espalhadas
pelo país comprovam esta realidade).
Apontam, assim, que já existia a
mistura inter-étnica e as inter-relações entre os grupos humanos.
Conforme acreditamos que nosso país seja o da maior miscigenação.
Seria um modo muito antigo de se relacionar em nosso território.
As misturas culturais significariam
que já praticávamos as relações que temos, hoje, como “Homo
universalis” (SERRES, 2003), homens do mundo. Grupos abertos
para o outro o diferente. Não aqueles fechados a novas
experiências.
As pinturas
rupestres em suas cenas de relações sociais nos ajudariam a
compreender melhor a história desde os tempos imemoriais. E,
também, as nossas relações com o meio ambiente terrestre. Relações
que são essenciais para a nossa vida em sociedade global. Como são
as relações hoje. Elas ainda nos apontariam uma direção para uma
convivência mais harmônica e plena com o meio. E nos permitiriam
notar a continua “reinvenção” da espécie humana (Ceruti,
2004: 75) em seus símbolos.
As pinturas,
então, teriam tido grande relevância para a vida social dos
primeiros habitantes do Brasil. Serviriam para eles como um guia
prático de como lidar com o meio ambiente. Ambiente ainda inóspito
para a maioria dos grupos humanos.
Teriam elas
contribuído muito para a vida humana. Conservavam em seus códices
os conhecimentos dos humanos sobre o meio ambiente. Conservado-os,
ainda, para os futuros grupos que viessem a habitar aquele mesmo
espaço. Desta forma as pinturas teriam em suas formas uma enorme
relevância para o desenvolvimento das culturas ancestrais do país.