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Por FLORENCE CARBONI &
MÁRIO MAESTRI
Florence Carboni
(52, italiana, lingüista)
Mário Maestri
(56, gaúcho, historiador).
Autores
de A linguagem escravizada. São Paulo: Expressão Cultural,
2003. |
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Apenas estadunidenses
Em "Estadunidense", artigo publicado
recentemente na Folha de Paulo [13.1.2005], Demétrio Magnoli
dedicou-se à doce e cada vez mais comum prática de atacar
corajosamente os fracos e defender caninamente os fortes. Sem papas
na língua, denunciou a impugnação, por "antiamericanos" raivosos, do
direito dos cidadãos USA de serem chamados de "americanos". "Eles
eram americanos, foram rebaixados a norte-americanos e hoje não
passam de estadunidenses."
Para Magnoli, a negação no mundo das
palavras do direito dos cidadãos USA de se auto-denominarem
"americanos" expressa, simbolicamente, nada menos do que a vontade
de fazê-los desaparecer do mundo real. "A privação do nome próprio
equivale a uma eliminação simbólica do inimigo e funciona como
prelúdio ideológico do extermínio prático, que permanece como
ideal."
América abre as asas sobre nós!
Trata-se de denúncia muito séria, já que
aponta plano terrorista de destruição de massas, dirigido
contra toda aquela população! Magnoli revela portanto um novo e até
agora desconhecido Eixo do Mal. O lingüístico! Assim sendo,
investido de furor santo, pontifica, grave: "América, ao contrário
do que pensam os antiamericanos, é o nome legítimo dos EUA!"
A apologia do intelectual orgânico do
Big Brother não se limitou ao campo lingüístico, invadindo o
campo histórico com a mesma falta de contenção. "A Revolução
Americana instaurou a primeira república contemporânea e antecipou a
Revolução Francesa. O princípio da igualdade política dos cidadãos,
realizado na América, contrastava com o Antigo Regime [...]."
Mais ainda. Magnoli propõe que "os 'Pais
Fundadores' enxergavam os EUA como portadores da missão de difundir
a liberdade. Esse conceito contém as sementes do espírito cruzadista
que ainda anima a política externa americana, mas não deixa de
refletir a grande ruptura com o mundo dos privilégios de sangue que
inaugurou a nossa era."
Palavra e poder
A palavra não é jamais neutra. Ela é
forjada no contexto do mundo social, embalado por relações de poder,
das quais constitui representação e simbolização, ainda que o
falante possua, em geral, consciência muito frágil da origem social
e ideológica da língua e da palavra das quais se serve.
É já um truísmo que o dominador procura
universalizar sua essência singular e imortalizar seu caráter
transitório. Em um mundo atravessado pelos conflitos de poder, a
possibilidade de uma palavra possuir vários sentidos – polissemia –
constitui palco privilegiado da pretensão, do pólo social dominante,
apresentar-se como o todo, encobrindo a parte dominada.
Originariamente, a palavra homo
descrevia toda a espécie humana. Sua apropriação como designativo do
indivíduo de sexo masculino, no contexto da ordem patriarcal,
apoiou, no mundo da língua, o encobrimento e a subalternização da
mulher, no mundo das coisas.
A língua do Império
A apropriação evasiva do designativo
"americano" pelos habitantes USA é tão imprópria quanto seria a
pretensão dos habitantes da Espanha à exclusividade da designação de
"ibéricos", lançando os portugueses ao mar. Simbolicamente, é claro!
Ou, dos cidadãos da África do Sul exigirem o uso exclusivo do
qualificativo "africano", por portarem o nome do continente no da
nação.
A designação dos habitantes USA como
americanos não é neutra e anódina, desprovida de decorrências
políticas, culturais e ideológicas. Ela obriga naturalmente
os demais americanos a assumirem apelativos restritivos para
definirem o pertencimento à América – centro-americanos,
sul-americanos, latino-americanos.
O uso polissêmico da categoria
"americano" enseja que, ao lado dos "americanos" imediatos, plenos e
legítimos, já que política, econômica e militarmente dominantes,
surjam "americanos" necessariamente mediados, parciais e
semi-legítimos, devido a sua subalternização continental. O império
no mundo dos fatos se reflete e se reforça no mundo das palavras.
Somos todos americanos
A designação exclusiva dos habitantes
USA como norte-americanos é igualmente incorreta, já que canadenses
e mexicanos são também habitantes da América do Norte. Convenhamos
que, apesar de sua dimensão geográfica, não cabe ao Brasil o direito
de reservar prepotentemente ao seu habitante o designativo exclusivo
de "sul-americano"!
A definição dos cidadãos USA como
estadunidenses constitui a única nominação pátria correta,
lingüística e sociologicamente. Ela constitui restauração
lingüística, desprovida de julgamento de valor, do sentido inicial
do termo "americano" – habitante da América –, que sofreu
deslocamento semântico impróprio devido ao poder material e cultural
do imperialismo estadunidense.
Contrariamente ao que pensa Magnoli, a
impugnação da impertinência lingüística "americano" não possuí
qualquer sentido genocida, já que permite a sobrevida plena dos
cidadãos USA, no mundo da linguagem e dos fatos, ao lado dos outros
povos das Américas. Todos designados como "americanos", no geral,
sem exclusivismo, e referidos por seus designativos pátrios –
cubanos, brasileiros, estadunidenses, etc. –, no particular.
Luta lingüística
A categoria "estadunidense" não
constitui tentativa esquerdista de riscar do mundo da linguagem e
dos vivos a população daquela grande nação, como já assinalado.
Trata-se apenas de pequena tomada de consciência e restauração da
legalidade lingüística e simbólica dos direitos políticos e
materiais dos povos oprimidos da América.
Do ponto de vista histórico, é
igualmente risível o esforço de Magnoli de comparar a gloriosa
Revolução Francesa, surgida da luta e ideais plebeus dos
Sans-culottes, dos Bras nus e do campesinato
insurrecionado, com o movimento de independência das treze colônias
britânicas da América do Norte, sob o permanente controle das
classes proprietárias.
As diferenças de qualidade entre os dois
movimentos foram exuberantes. Após abolir a escravidão e ditar os
direitos cidadãos, a Revolução de 1789 encerrou seu ciclo ascendente
sob o signo da emancipação dos trabalhadores, na Conjuration des
Egaux. A guerra de independência de 1776 materializou sua essência
na Constituição dos "Pais Fundadores" que, por quase um século,
sancionou a desigualdade civil a partir da desigualdade racial!
Um Dachau tropical
Não é pequeno detalhe o fato de que a
república estadunidense tenha nascido e se mantido escravista até
1865 – seis anos antes da Comuna de Paris! –, e que a discriminação
civil e social do afro-estadunidense, devido a sua cor, fosse
praticada e reconhecida em imensas regiões dos USA Unidos, por mais
outros cem anos!
As raízes senhoriais, despóticas e
racistas da democracia estadunidense ajudam a compreender a
profunda imobilidade da imensa maioria da cidadania daquele país em
relação aos atos de abismal desrespeito aos direitos mínimos humanos
empreendidos nos campos de concentração de Guantanamo, diante dos
olhos do mundo, a homens de outro credo, de outra língua e de outra
cor do que os dos Pais Fundadores! |
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