Por JORGE ANTUNES

Professor titular da UnB, pesquisador do CNPq, membro da Academia Brasileira de Música

 

Mamãe, eu clero mamá!:

canta o cordão dos severinos

 

Osvaldo  (Folha de S. Paulo, 20.02.05, A16)Eu sempre afirmei que a vida imita a arte. Pelo menos na arte que fiz, e faço, sempre tentei imprimir técnicas retóricas que pudessem induzir resultados de uma espécie de persuasão pelo belo: a verdade estética, no meu entender, pode ganhar intelectos. Já cheguei a afirmar que a boa música pode ajudar a revolução. Assim, quando eu e o poeta Reynaldo Jardim fizemos o hino nacional alternativo em 1988, a proposta era desafiar a causalidade histórica. Um novo país não se construía à época. Apesar de tanta adjetivação para a nova constituição que, coitada, era chamada de cidadã, no fundo nada mudava. Se um país novo surgisse, certamente ganharia um novo hino oficial.

Acreditei, então, numa anti-causalidade: com um novo hino, progressista, revolucionário, talvez no futuro o povo brasileiro pudesse vir a construir um novo país inspirado e espelhado naquele novo hino.

Essas reflexões me acodem neste momento em que mortes e vidas severinas tomam de assalto a pauta de reflexões nacionais. Alguns severinos mortos, no campo, desvelam a barbárie que precisa ser enfrentada, com toda a energia, pelo povo brasileiro. Outros severinos muito vivos, no Congresso, revelam a energia que pode ser acumulada pela união de desdenhados ditos representantes do mesmo povo.

Voltemos à minha tese da anti-causalidade. A Câmara dos Deputados sempre foi uma caixa de ressonância dos anseios e ações diretas de nosso povo. Pois chegou a hora de se inverter a flecha causal pois é preciso que as massas populares se transformem na caixa de ressonância do Congresso. Severino, o da casa do povo, aglutinou o baixo clero para mostrar que a união dos pequenos pode derrubar a arrogância e o autoritarismo dos pretensamente grandes. Os demais severinos, que constituem o povo brasileiro e que enobrecem nossa força de trabalho, não podem ser qualificados como baixo clero porque não passam de coroinhas, pobres infelizes que prestam serviços como ajudantes de ladainhas intermináveis: o baixíssimo clero é eterna populaça esperançada, vítima de lengalengas governamentais e estatais. Mas a massa de nossos severinos, na cidade e no campo, já começa a se aglutinar. Isso é muito promissor.

Para servir de exemplo a um processo de anti-causalidade nada melhor que um anti-severino. O severino do baixo clero é, na verdade, um anti-severino: ascendeu e deslumbrou-se tal como o outro também pernambucano que traiu a baixa sacristania da base da pirâmide.

A proximidade severina com o baixo clero é antiga: nos anos 80 o padre Vito Miracapillo foi expulso de Pernambuco por um único severino, simplesmente porque o frei defendia todos os outros severinos vilipendiados pelos usineiros. Conhecendo bem a figura, o governo agora terá que reinventar os velhos mecanismos que facilmente provocam a união dos velhos pícaros. As reformas neoliberais, entre elas a da reforma universitária, precisará de aliados que se interessem pelo enriquecimento dos mercadores da educação. Então, nas relações com a nova presidência da Câmara, os governistas certamente não serão muito severos. Sabem que severino não deixa de ser uma espécie de diminutivo de severo. Assim, tudo se arranjará em acordos, daqueles que provocam vômitos nos cidadãos decentes.

Os meus leitores certamente estarão surpresos por estar eu escrevendo artigo que não trata de assuntos de arte, de política cultural ou de temática musical. Para não fugir à regra vou então terminar meu texto embrenhando-me na música e até mesmo em resquícios do carnaval recente. Blocos e cordões hão, como sempre, de serem formados na casa do povo. O anti-severino vai puxar o cordão dos pequenos vitoriosos, com a assegurada adesão dos grandes derrotados, para que se aumentem salários de modo absurdo. As tetas do estado brasileiro serão atacadas pelo cordão pós-carnaval que vai sair cantando "mamãe eu clero, mamãe eu clero mamá".

 

 
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