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Por
JORGE ANTUNES
Professor
titular da UnB, pesquisador do CNPq, membro da Academia Brasileira
de Música |
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Mamãe, eu clero
mamá!:
canta o cordão
dos severinos
Eu sempre afirmei
que a vida imita a arte. Pelo menos na arte que fiz, e faço, sempre
tentei imprimir técnicas retóricas que pudessem induzir resultados
de uma espécie de persuasão pelo belo: a verdade estética, no meu
entender, pode ganhar intelectos. Já cheguei a afirmar que a boa
música pode ajudar a revolução. Assim, quando eu e o poeta Reynaldo
Jardim fizemos o hino nacional alternativo em 1988, a proposta era
desafiar a causalidade histórica. Um novo país não se construía à
época. Apesar de tanta adjetivação para a nova constituição que,
coitada, era chamada de cidadã, no fundo nada mudava. Se um país
novo surgisse, certamente ganharia um novo hino oficial.
Acreditei, então,
numa anti-causalidade: com um novo hino, progressista,
revolucionário, talvez no futuro o povo brasileiro pudesse vir a
construir um novo país inspirado e espelhado naquele novo hino.
Essas reflexões me
acodem neste momento em que mortes e vidas severinas tomam de
assalto a pauta de reflexões nacionais. Alguns severinos mortos, no
campo, desvelam a barbárie que precisa ser enfrentada, com toda a
energia, pelo povo brasileiro. Outros severinos muito vivos, no
Congresso, revelam a energia que pode ser acumulada pela união de
desdenhados ditos representantes do mesmo povo.
Voltemos à minha
tese da anti-causalidade. A Câmara dos Deputados sempre foi uma
caixa de ressonância dos anseios e ações diretas de nosso povo. Pois
chegou a hora de se inverter a flecha causal pois é preciso que as
massas populares se transformem na caixa de ressonância do
Congresso. Severino, o da casa do povo, aglutinou o baixo clero para
mostrar que a união dos pequenos pode derrubar a arrogância e o
autoritarismo dos pretensamente grandes. Os demais severinos, que
constituem o povo brasileiro e que enobrecem nossa força de
trabalho, não podem ser qualificados como baixo clero porque não
passam de coroinhas, pobres infelizes que prestam serviços como
ajudantes de ladainhas intermináveis: o baixíssimo clero é eterna
populaça esperançada, vítima de lengalengas governamentais e
estatais. Mas a massa de nossos severinos, na cidade e no campo, já
começa a se aglutinar. Isso é muito promissor.
Para servir de
exemplo a um processo de anti-causalidade nada melhor que um
anti-severino. O severino do baixo clero é, na verdade, um
anti-severino: ascendeu e deslumbrou-se tal como o outro também
pernambucano que traiu a baixa sacristania da base da pirâmide.
A proximidade
severina com o baixo clero é antiga: nos anos 80 o padre Vito
Miracapillo foi expulso de Pernambuco por um único severino,
simplesmente porque o frei defendia todos os outros severinos
vilipendiados pelos usineiros. Conhecendo bem a figura, o governo
agora terá que reinventar os velhos mecanismos que facilmente
provocam a união dos velhos pícaros. As reformas neoliberais, entre
elas a da reforma universitária, precisará de aliados que se
interessem pelo enriquecimento dos mercadores da educação. Então,
nas relações com a nova presidência da Câmara, os governistas
certamente não serão muito severos. Sabem que severino não deixa de
ser uma espécie de diminutivo de severo. Assim, tudo se arranjará em
acordos, daqueles que provocam vômitos nos cidadãos decentes.
Os meus leitores
certamente estarão surpresos por estar eu escrevendo artigo que não
trata de assuntos de arte, de política cultural ou de temática
musical. Para não fugir à regra vou então terminar meu texto
embrenhando-me na música e até mesmo em resquícios do carnaval
recente. Blocos e cordões hão, como sempre, de serem formados na
casa do povo. O anti-severino vai puxar o cordão dos pequenos
vitoriosos, com a assegurada adesão dos grandes derrotados, para que
se aumentem salários de modo absurdo. As tetas do estado brasileiro
serão atacadas pelo cordão pós-carnaval que vai sair cantando "mamãe
eu clero, mamãe eu clero mamá". |
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