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Por
ROSÂNGELA
ANGELIN
Militante feminista e doutoranda em Direito na Universidade de
Osnabrück – Alemanha. |
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Quando o “belo feminino” se torna
um pesadelo e uma obrigação
A
beleza é, em sua própria essência, algo muito relativo. Prova disto,
é que os padrões de beleza modificaram-se no decorrer da história da
humanidade. Dentro deste contexto, a mulher continua sendo o alvo
mais visado da “estética” corporal dominante em nossa sociedade. A
maior propagação dos “modelos de beleza” ocorre através dos grandes
meios de comunicação social, os quais reforçam os ditames do
consumismo capitalista, construindo um padrão de “beleza” dado como
obrigatório.
A corrida desenfreada para as academias
de ginástica e para a medicina estética, o uso de produtos
dietéticos para emagrecer, a anorexia e a bulimia, revelam uma
espécie de “ditadura da beleza” à qual a maioria das mulheres se
condiciona em busca de um corpo “perfeito”. Antes considerada um
atributo da natureza, a beleza passou a ser encarada como uma
questão de “conquista” e, nesta lógica, é necessário investir muito
dinheiro e tempo a fim de se alcançar a aprovação da sociedade. A
beleza, ou melhor, a feiúra, acabou gerando um lucrativo mercado no
mundo capitalista. Com muita propriedade, a escritora americana
Noemi Volf afirma, em seu livro O mito da beleza, que „ a
beleza é um sistema monetário assim como o ouro. É o último e o
melhor sistema de crenças que mantém a dominação masculina intacta.
Assim, o capitalismo usa as mulheres ‘bonitas’ como isca para a
venda dos seus produtos, lucrando com a discriminação das
consideradas ‘feias’ que buscam o maior número de produtos possíveis
para compensarem sua ‘feiúra’.”
A figura da mulher é exposta e explorada
como um “objeto”. Os grandes meios de comunicação social vêm
desempenhando um papel decisivo, através de revistas, jornais,
comerciais, novelas e programas em geral, contribuindo, desta
maneira, com a afirmação de um padrão de “beleza”. Um exemplo a ser
considerado, são os programas de televisão, principalmente os
humorísticos, onde as mulheres são apresentadas, em sua grande
maioria, como figuras bonitas e atraentes, porém, imbecis,
desprovidas de idéias e vontades. Constantemente, em contraste a
esta figura, encontra-se uma mulher feia. Esta, por sua vez é
apresentada como uma pessoa chata e desinteressante, embora, algumas
vezes dotada de certa inteligência. Estes estereótipos reforçam a
idéia de que são os “dotes físicos” de uma mulher que realmente
importam.
A discriminação do corpo da mulher
também ocorre, de uma forma específica, através da maioria dos
concursos de beleza, onde somente as
mulheres jovens e que se enquadram nos padrões estéticos impostos,
podem participar. Com este intuito, estas mulheres são avaliadas por
meros critérios físicos. Analogicamente
pode-se comparar os concursos de beleza com as mostras de
gado, realizadas em muitos estados do Brasil, onde os animais
desfilam na frente dos jurados e juradas que adotam critérios para a
avaliação física destes, como por exemplo, o tamanho e a textura dos
pernis, das paletas, a postura e desenvoltura do animal e, no caso
das vacas, seus úberes.
Lamentavelmente, este exemplo evidencia
a forte discriminação da mulher como ser humano, ditada pelo mundo
masculino e, muitas vezes, aceita pelas próprias mulheres. A
ideologia de “beleza física” acaba gerando uma inversão de valores,
nos quais a busca por um corpo perfeito, é considerada um sinônimo
de aceitação social, geralmente confundida com a felicidade.
Embora as mulheres, ao longo de muitos
anos, com muita luta e persistência, tenham conquistado direitos e
se afirmado em vários espaços da sociedade, lamentavelmente, ainda é
“normal” continuarmos sendo vistas e consideradas pelos contornos
físicos de nossos corpos, o que evidencia um empobrecimento da
capacidade de olhar o ser humano. Como afirma Maria Rita Kehl,
“a maior beleza está no corpo livre, desinibido em seu jeito de ser,
gracioso porque todo ser vivo é gracioso quando não vive oprimido e
com medo. É a livre expressão de nossos humores, desejos e odores; é
o fim da culpa e do medo que sentimos pela nossa sensualidade
natural; é a conquista do direito e da coragem a uma vida afetiva
mais satisfatória; é a liberdade, a ternura e a autoconfiança que
nos tornarão belas. É essa a beleza fundamental.” |
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