Por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

Carolina Maria de Jesus no Kansas:

uma história de amor

 

Carolina Maria de Jesus. Quarto de Despejo - Diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2001. No dia 19 de outubro do ano passado, abri meu email e recebi uma mensagem de uma pessoa que se identificava como “carolinamariadejesus". Como eu tenho há muitos anos grande interesse em qualquer assunto relacionado com Carolina Maria de Jesus,  este nome do remetente chamou a atenção. Abri a mensagem e li o seguinte texto, em inglês: “Nós somos um grupo de estudantes de Uniontown, Kansas, fazendo uma pesquisa para apresentar no “Dia da História". Estamos no momento procurando um tópico para a nossa pesquisa. Há uns dias vimos o nome de Carolina Maria de Jesus. Já sabemos um pouco sobre a vida dela, e que ela era do Brasil. Nós gostaríamos de saber se você tem alguma informação sobre esta mulher ou seus descendentes. Qualquer ajuda seria muito apreciada!” Quatro nomes começando com a letra “K” assinavam a mensagem.

Antes de responder a mensagem, eu dei uma olhada na Internet pra ver onde fica tal lugar, e se existe mesmo. Descobri que Uniontown é uma cidadezinha muito pequena, com 701 pessoas, e localizada a um pouco menos de 100 milhas de Kansas City. A cidadezinha tem uma escola de segundo grau, e as mocinhas que assinavam a mensagem eram de lá. Respondi a mensagem delas, dando algumas informações, e pedindo outras delas, e assim seguimos. No decorrer destes últimos cinco meses, cheguei a conhecer bem este grupo de jovens estudantes que deram a Carolina Maria de Jesus um tratamento que ela não tem recebido dos próprios compatriotas no Brasil. O roteiro deste trajeto que ainda estou fazendo com estas elas me dá ao mesmo tempo muita alegria e muita tristeza.

A alegria é devida ao fato de que a obra e a história de Carolina Maria de Jesus chegou até uma cidadezinha como Uniontown, no meio do Kansas, e comoveu um grupo de mocinhas brancas, de classe média, que não falam português, que não dançam samba, e nunca comeram uma feijoada. Este grupo, composto por Kalisa, Kylie, Kayle e Kaity (que se apelidam “as meninas ‘K’”) enxergou, mesmo através da distância geográfica, lingüística, cultural e temporal, que Carolina Maria de Jesus foi uma mulher excepcional, merecedora de atenção, e cuja vida é um exemplo de fibra e determinação.

O exemplo de Carolina Maria já começou a funcionar imediatamente: as mocinhas tiveram que convencer sua professora de História que a brasileira é assunto para um trabalho de equipe, e para uma apresentação formal no “Dia da História,” onde elas estariam competindo com trabalhos de toda a escola. De alunas do colegial, Kalisa, Kylie, Kayle e Kaity passaram a professoras, elas mesmas, primeiro ensinando a própria professora, e depois, no dia da apresentação do “History Day,” aos que vieram ver a apresentação, dia 9 de fevereiro deste ano. Estas mocinhas passaram o feriado de Natal lendo Quarto de despejo, e Casa de alvenaria em inglês, e discutindo comigo, por email, alguns aspectos dos livros. De vez em quando uma delas dizia, na mensagem, “esta mulher Carolina Maria de Jesus foi sensacional!” ou “que pessoa forte e inteligente a Carolina Maria de Jesus foi!” ou “que sorte temos de ter encontrado para nosso trabalho um assunto tão maravilhoso". A admiração delas aumentava à medida que liam mais, e sabiam mais.

Aos poucos, nas nossas mensagens, também fui descobrindo detalhes importantes sobre a cidadezinha de Uniontown. Além de ter somente 701 pessoas (de acordo com o censo de 2000), a cidade tem somente umas 8 pessoas negras. Minhas “informantes,” as próprias mocinhas do grupo, não têm certeza quanto a este número. Isto é explicável em termos da colocação geográfica de Kansas, no meio-oeste, e porque não é um centro urbano. O mais provável é que elas jamais entraram em contacto direto com uma pessoa negra. Por isto, o fato de elas terem se interessado pela vida de Carolina Maria de Jesus faz com que esta brasileira, cujo livro Quarto de despejo foi traduzido em muitas línguas, e lido no mundo inteiro, continua sendo não só uma representante do Brasil, mas, especificamente, dos negros brasileiros—e ainda mais, da negra brasileira.

*

Por que, então, Carolina Maria de Jesus continua sendo quase que completamente ignorada no Brazil? Esta foi uma pergunta que as jovens do Kansas me fizeram. Por que é que há tão pouco interesse na história de Carolina desde os anos sessenta?

Ilustração do livro (p. 11)Em nossas mensagens, discutimos esta questão, e creio que uma das razões é o fato de Carolina Maria ser mulher. Se ela fosse homem, seu relato teria sido considerado muito mais “forte". Afinal, Carolina fala desde o ponto de vista da mulher, num país tradicionalmente machista, em que o homem, até bem recentemente, era quem tinha o direito de falar no espaço público. O que é pior: ela era mãe solteira de três filhos, cada um de um homem diferente. Outro fator: ela fala da periferia. Não somente da periferia da cidade –ela morava na favela do Canindé quando Quarto de despejo foi publicado—mas também da periferia do poder.  Quem era esta mulher negra, mãe solteira, semi-alfabetizada, que tinha por profissão juntar papéis e outros materiais para vender? Ela não era nada, e isto lhe foi feito muito claro várias vezes, inclusive quando tomou um elevador com um político e ele lhe disse que o elevador de serviço era outro, e ela não deveria estar ali. O diário de Carolina Maria de Jesus, que atraiu a atenção do jornalista Audálio Dantas, era a sua única arma, a sua única válvula de escape para compreender a situação de desvalia em que vivia.

Quando o diário foi editado por Dantas (um assunto que hoje em dia, nos estudos brasileiros aqui nos Estados Unidos, tem sido muito debatido), e publicado sob os auspícios do jornalista, o texto foi usado contra a própria favela, que foi desmanchada e os moradores removidos. Ao invés de ser lido como um grito dos subalternos, Quarto de despejo foi lido como a reclamação de uma pessoa. Não é de se admirar que quando Carolina Maria foi buscar sua mudança, os vizinhos apedrejaram o caminhão. Ela se mudava pra sua sonhada casa de alvenaria, e os vizinhos a culpavam da sua má sorte de terem que sair em busca de outro lugar para viver.

Ilustração do livro (p.21)Mas Carolina Maria de Jesus não foi feliz na casa de alvenaria. Ela foi vista pelos novos vizinhos além de negra, como uma “pobre", recém chegada da favela. Na sociedade brasileira, sempre pronta a fazer distinções de classe a agir baseada nelas, esta mudança não poderia jamais ter dado certo. Em pouco tempo, cansada de ver seus filhos perseguidos e agredidos pelas crianças do novo bairro, Carolina comprou uma chácara e se mudou para lá, definitivamente. A estas alturas, o furor de seu livro havia se abatido, e ela era “notícia velha". Ela ainda conseguiu publicar algumas coisas, mas não obteve nenhum reconhecimento. Todos a abandonaram, descartaram, esqueceram. Menos os estrangeiros: antes de sua morte, um grupo de professores e jornalistas da França a visitaram em sua chácara, e ela lhes deu os manuscritos de seu diário chamado Diário de Bitita. O Diário de Bitita que eu tenho informa que os direitos autorais são da Éditions A. M. Métailié, e foi publicado no Brasil pela Editora Nova Fronteira em 1986. O que é interessante, na ficha de apresentação do volume, que o livro está na categoria de “ficção". No entanto, o que há neste livro é um testemunho raro, da vida de uma mulher negra nascida em 1914, em Minas Gerais, e que viu de perto o doloroso sistema de preconceito contra os negros nestas primeiras décadas depois da libertação dos escravos.

Em 1977, Carolina Maria de Jesus morreu, na sua chácara. Ela tinha apenas 63 anos de idade. Neste mesmo ano, no Rio de Janeiro, morreu Clarice Lispector, aos 57 anos. As duas mulheres, ambas brasileiras, mas de classes sociais diferentes, tiveram vidas diferentes, e estilos diferentes. Mas, de certa maneira, ambas se encontram no sentido mais profundo do seu trabalho. Ambas viram, e documentaram, à sua maneira, o sofrimento das pessoas, especialmente o sofrimento da mulher. A diferença entra as Carolina e Clarice está em como cada uma é percebida pela intelligentsia brasileira. Uma, porque era pobre, e negra, e sem poder, foi rejeitada e esquecida. A outra, porque era branca, filha de imigrantes europeus (Clarice não nasceu no Brasil, mas veio para cá com alguns meses de vida), viajada pelo mundo, amiga de figurões, cronista  para O Jornal do Brasil, recebe loas até hoje. Em 1997, na comemoração dos 20 anos da morte de Clarice, houve muitas homenagens, muitas leituras de seu trabalho, muitas expressões de saudade, da falta que ela nos faz. Que eu saiba, ninguém sequer de mencionar publicamente os vinte anos da morte de Carolina Maria de Jesus. Aqui vemos a continuação das divisões de cor e classe que são marcas registradas do Brasil.

**

Na segunda mensagem às estudantes do Kansas, para responder a elas porque o trabalho de Carolina Maria de Jesus não tem muita repercussão no Brasil, eu lhes mandei uma versão muito resumida da história de sua vida. Levando-se em conta que infelizmente, até hoje, no Brasil, muitos (inclusive intelectuais negros e negras) não têm tido a oportunidade de se encontrar com a obra de Carolina Maria, eu vou colocar aqui o texto, traduzido:

Prezadas Kayla, Kalisa, Kylie e Kaity:

Então o seu projeto para o Dia da História deve estar pronto para o próximo ano? Assim estará perfeito, porque vocês todas terão tempo de ler pelo menos um dos livros de Carolina, Child of the Dark. Este livro era seu diário quando ela era somente uma mulher pobre e semi-analfabeta, que apanhava coisas no lixo e as vendia para se sustentar e sustentar aos seus três filhos. Mas Carolina era muito mais que isto: ela era uma verdadeira intelectual, e uma mulher de grande coragem.

Para entender a situação de Carolina Maria de Jesus vocês precisam entender também a história dos negros brasileiros e como, depois que eles foram oficialmente “libertados” (em 13 de maio de 1888), o que realmente aconteceu foi que a maioria dos antigos donos de escravos os colocaram na rua, sem nenhuma indenização, sem treinamento profissional; eles os jogaram fora.

Muitos dos antigos escravos foram às pequenas cidades em busca de trabalho, mas a maioria pessoas se recusavam a ter qualquer coisa a ver com eles (a vítima era considerada culpada da própria vitimização), e, além do mais, os empregadores preferiam dar emprego aos imigrantes brancos europeus, ou aos japoneses, que começaram a chegar em grande número ao Brasil no começo do século XX , devido a políticas do governo brasileiro

Então, quando um antigo escravo pedia um empréstimo para comprar terra (por exemplo), ele era recusado. Quando uma pessoa branca, de origem européia ou uma pessoa japonesa pedia um empréstimo, vocês podem adivinhar o que acontecia? Os brasileiros negros, que não tinham recebido educação, ou nutrição, ou um tratamento justo durante a escravidão, continuaram a sofrer estas formas de discriminação depois que foram libertados.

Isto tudo quer dizer que a história dos negros brasileiros é uma história de exploração, racismo, discriminação. Carolina Maria de Jesus, embora tenha vindo da origem mais humilde, foi capaz de refletir sobre a situação do país inteiro, sobre a sua situação de mulher, e mulher negra, solteira, com três filhos. Ela refletiu, ela escreveu, ela sofreu as conseqüências de seu livro. É realmente uma pena que ela ainda não é reconhecida no Brasil por sua grande inteligência e pelo valor de  seu testemunho. Realmente, ela é uma das pessoas mais incríveis que já nasceram no Brasil.

***

O projeto para o Dia da História que as estudantes de Uniontown fizeram, com a vida e obra de Carolina Maria de Jesus como assunto, recebeu o segundo prêmio do colégio. Agora as quatro mocinhas vão colocar os painéis, as fotos, as ilustrações, nos carros dos pais, e vão participar da mostra a nível estadual, dentro de algumas semanas. Elas continuam lendo os livros, lendo sobre o Brasil, fazendo perguntas. Elas querem saber, e querem passar o que aprenderem aos demais. O trabalho de Carolina Maria de Jesus, brasileira, intelectual orgânica, negra e mulher, embora esquecido no Brasil, continua sua função no mundo.

 

 

Clique e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço Acadêmico

clique e acesse todos os artigos publicados...

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2005 - Todos os direitos reservados