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Urge definirmos a expressão
"comunidade universitária"
Convido
o leitor a fazer uma interessante investigação. Seja você professor
ou estudante universitário, sinta-se convidado a realizar a
experiência.
Caminhe até a Secretaria de sua Unidade,
seu Departamento, sua Faculdade. Certamente antes de chegar à
Secretaria você passará por velhos conhecidos e amigos da tropa que
atua na limpeza.
Cumprimente-os. Eles limpam os caminhos
que você percorre todo dia. São velhos amigos e conhecidos porque
conosco trabalham há anos – às vezes há mais de uma década – como
terceirizados.
Chegando na Secretaria, observe que ali
estão pessoas com as quais você também convive há muito tempo.
Cumprimente-as como você costuma fazer todos os dias. São
companheiros de velhas labutas e lutas. Alguns estão ali há mais de
dez anos. Todos se preocupam e colaboram com o sucesso de nosso
trabalho conjunto, em favor da aula, da pesquisa, da
infra-estrutura, do relatório, das atas, das matrículas, da
manutenção, do material de almoxarifado etc, etc.
Terminados os cumprimentos faça, de
chofre, uma pergunta em voz alta a todos: Quem, de vocês, é
funcionário do quadro e quem é terceirizado?
Você terá uma enorme surpresa. As
pessoas igualmente operárias, amigas, com afazeres nobres, têm
deveres iguais e direitos diferentes.
Essa experiência é de extrema
importância neste momento em que o Ministério da Educação divulga
sua "versão preliminar do Anteprojeto da Lei de Educação Superior".
O Ministério apresenta o documento com
prolegômenos demagógicos e com pretensos ares democráticos,
anunciando a abertura de uma "nova fase no processo republicano de
reflexão e transformação da educação superior brasileira". O MEC diz
que estará recebendo contribuições para a formulação do Anteprojeto,
"aberto a uma nova construção, através de um amplo diálogo no
interior da sociedade civil". O Ministro Tarso Genro diz que
pretende "recolher críticas, sugestões e opiniões visando à redação
do anteprojeto definitivo".
O problema é que o saco de maldades já
foi lançado de cima para baixo através de medidas provisórias, sem
"diálogos" e sem qualquer vontade de "recolher críticas, sugestões e
opiniões".
O Prouni já é fato consumado com o
governo comprando vagas nas Universidades privadas ao invés de
injetar recursos e abrir vagas nas Universidades públicas. Desde
agosto de 2004 está em vigor o Importa Fácil que dá aos
pesquisadores o direito de comprar equipamentos com dinheiro de seu
salário, com isenção de impostos. Essa passa a ser a saída para a
pesquisa nas Universidades federais sem verbas do Estado. Essa
ausência de recursos pode ser resolvida também com ações a serem
implementadas por vendilhões do templo do saber: parcerias com o
setor privado graças ao projeto de inovação tecnológica. A
transformação do templo do saber em uma Universidade de Serviços é o
caminho traçado pelo governo neoliberal, privatista e
pró-imperialista.
Uma análise aprofundada do Anteprojeto
tomaria muitas páginas. Estou certo de que outros colegas estudam
linhas e entrelinhas do texto e que preciosas análises pipocarão em
toda a academia. Assim, neste artigo eu quero apenas fazer duas
constatações estatísticas.
Duas expressões são usadas muitas vezes
no texto do Anteprojeto. Refiro-me à expressão "estatutos da
Universidade", mencionada 19 vezes, e à expressão "comunidade
universitária", usada 9 vezes.
O uso repetido da expressão "estatutos"
é compreensível, porque o Anteprojeto pretende tocar em mecanismos
internos das Universidades: desde a auto-organização até a eleição
de seus dirigentes máximos. É bem verdade que o eixo de expansão do
ensino público traçado pelo governo é o da privatização, com uma
fase em que as Universidades, para sobreviverem, deverão recorrer à
iniciativa privada. Mas o mesmo governo precisa dar a falsa
impressão de estar implementando um processo democrático e, assim,
abrirá flancos que organizadamente poderemos tomar.
Diversos pontos enfocados na nova Lei,
esboçada no Anteprojeto, certamente determinarão a necessidade de
que todas as Universidades deverão reformar seus estatutos e
regimentos internos.
Isso é muito bom. Engrenagens e vícios
anacrônicos, cristalizados por estatutos anacrônicos, poderão sofrer
bela transformação se a comunidade universitária, mobilizada e
organizada, souber aproveitar a oportunidade. Será o momento de não
se permitir que os novos estatutos venham a ser elaborados por
instâncias e Conselhos retrógrados montados nos moldes da Reforma
Universitária de 1965 imposta pela ditadura militar.
Para tanto, será necessária a luta
intransigente, por parte da comunidade universitária, em favor de
eleições para formação de uma ASSEMBLÉIA ESTATUINTE. Este é o único
caminho que pode apontar para uma oxigenação de uma Universidade
democrática. Professores, alunos e funcionários, eleitos pelos seus
pares, integrariam a Assembléia Estatuinte que vai elaborar os novos
Estatutos e Regimento de cada Universidade.
Acima eu também já usei bastante a
expressão "comunidade universitária". O MEC, em seu Anteprojeto, a
usa 9 vezes, sem defini-la. Urge que a definamos.
"Qualquer grupo de pessoas, considerado
como um todo em suas características específicas e
individualizantes, que convivem numa região determinada, têm um
mesmo governo, os mesmos interesses e objetivos e estão irmanadas
por uma mesma herança cultural e histórica." Será mais ou menos
assim a definição unânime de "comunidade" ao consultarmos Houaiss,
Aurélio, Caldas Aulet ou qualquer tratado de sociologia.
O artigo 39 do Anteprojeto diz: "Os
estatutos das universidades federais deverão prever a forma de
escolha de seus dirigentes máximos, reitor e vice-reitor, mediante
eleição direta pela comunidade universitária."
O grande avanço democrático a
construirmos deverá ser o de se definir a comunidade universitária
como sendo o grupo de cidadãs e cidadãos que trabalham, estudam,
pesquisam e ensinam na Universidade, sejam eles efetivos,
substitutos, do quadro ou terceirizados. |