Por uma sociedade solidária
ou os limites da competitividade
Vários leitores, ao comentarem o texto
sobre
Economia Solidária, apontaram para os aspectos aparentemente
positivos e as vantagens hipotéticas da concorrência e da
competitividade entre empresas e também entre nações.
Não se pode negar que a concorrência
nos mercados tenha exercido uma função central e fundamental na
gênese e na expansão do sistema de produção capitalista.
Contribuiu para a geração e acumulação de riquezas materiais,
estimulando e fortalecendo as aspirações de seus principais atores
sociais, os empreendedores, para exigir uma organização política
mais democrática em oposição ao regime feudal ou absolutista, em
determinado período da história do mundo ocidental.
Mas, ao se tornarem objetivos
exclusivos e excludentes, concorrência e competitividade produzem
efeitos negativos, fragilizando as relações sociais e econômicas e
ameaçando os ecossistemas do nosso planeta. Os defensores da
liberdade dos mercados e da concorrência irrestrita, ao fazerem a
apologia da competitividade parecem ignorar a necessidade
imperativa de cooperação e solidariedade para garantir o
equilíbrio e a sobrevivência da sociedade em nível nacional e
mundial.
A globalização das finanças, da
indústria e das comunicações constitui um imenso desafio para a
humanidade dividida em Estados-nações. Estes se mostram a cada dia
menos capazes de enfrentar e resolver os intrincados problemas
decorrentes da concorrência em nível mundial. A concorrência entre
as empresas e entre as economias nacionais se tornou um fim em si,
uma ideologia “sagrada” que perverte todas as esferas da vida
individual e coletiva. Como todas as ideologias, também a da
competitividade expressa os interesses de quem a promulga, defende
e dela se beneficia no contexto de uma determinada estrutura
econômica e política.
Os conceitos de inovação tecnológica,
de produtividade e de crescimento econômico constituem os
elementos centrais desta ideologia que abstrai ou pretende ignorar
seus custos sociais e ambientais. De uma instituição necessária
para a modernização de estruturas produtivas obsoletas em certo
momento histórico, a concorrência se constituiu no maior obstáculo
à democratização das relações sociais dentro e entre sociedades.
Em sua forma atual, a concorrência está na origem da desigualdade
socioeconômica e da concentração da riqueza e do poder nas mãos de
pequenos grupos ou organizações dificilmente controláveis pelos
governos. A fim de competir na busca da lucratividade e de
acumulação de capital, minimizam os valores da vida, dos direitos
humanos e da preservação do meio ambiente. A concorrência e sua
materialização nos mercados impedem qualquer esforço de
planejamento e de previsão do futuro, porque funcionam em curto
prazo e visam a maximização da rentabilidade dos investimentos sem
preocupação com o seu custo social. Assim, a própria lógica da
concorrência e da busca irrefreada de competitividade implicam que
haja sempre os que ganham (uma minoria) e os perdedores (a
maioria). O processo de exclusão daqueles que não conseguem
competir é um elemento intrínseco da luta pela sobrevivência nos
mercados que tende, inevitavelmente, para a marginalização e
exclusão de contingentes crescentes da população.
Os padrões de comportamento do
neoliberalismo econômico e de seu imperativo de competir nos
mercados estimulam e reforçam o individualismo e o consumismo
exacerbado. Tendem a desestruturar a vida coletiva na escola, na
empresa, na família e na comunidade, justificando-se como um
darwinismo social e exigindo a submissão dos “fracos” à hierarquia
do poder. Dominados por oligopólios que procuram eliminar os
concorrentes, os mercados deixaram, há muito tempo, de
assemelhar-se ao regime de concorrência “perfeita”.
O mundo globalizado se parece cada vez
mais a um imenso campo de batalha, sem preocupações éticas e
sentimentos de compaixão, numa luta interminável por posições
hegemônicas. Isto não impede os defensores da ideologia da
competitividade – os agentes publicitários das grandes empresas,
os economistas, as escolas de administração e os líderes políticos
– a proclamar as supostas virtudes e vantagens da concorrência.
Chegam a advogar em nome da competitividade a guerra fiscal entre
municípios e estados e apelam ao governo federal para protegê-los
da concorrência externa. Da mesma forma, exigem a Reforma
Trabalhista, a precarização e flexibilização das relações de
trabalho, a extensão legalizada do horário de trabalho e a redução
de salários a serem definidos pela “livre” negociação entre
trabalhadores e empresas. As vítimas destas políticas irracionais
são tratadas com indiferença, taxadas de inempregáveis e
merecedores, na melhor das hipóteses, de esmolas filantrópicas.
A teoria de sistemas ensina que “o
todo é diferente da soma das partes”: aplicada à nossa discussão,
inferimos que a concorrência entre empresas, geralmente
oligopólios, não resulta em maior equilíbrio e racionalidade dos
mercados. Ao contrário, a erosão dos mercados pelos movimentos
especulativos e multibilionários das grandes empresas acaba
minando e enfraquecendo o papel do Estado como promotor e defensor
dos interesses públicos coletivos.
As contradições e os lances
especulativos do capitalismo competitivo – vide as fusões,
incorporações, e aquisições de ativos bilionários – são projetados
em escala global e resultam em graves crises financeiras,
desemprego e segregação. Os conflitos étnicos e religiosos ampliam
o fosso social no interior de cada nação e entre as nações. A
exploração desavergonhada de trabalhadores e sobretudo do trabalho
infantil é freqüentemente invocada como necessária para aumentar a
competitividade. Entretanto, nosso mundo se tornou cada vez mais
interdependente, o que exige um novo contrato social contra as
tendências à marginalização e discriminação dos mais fracos.
Ao postularmos o papel de todos os
homens como sujeitos e gestores de seus destinos, exigimos também
o estabelecimento, mediante políticas públicas, de limites à
concorrência e à competitividade. No estágio atual de
desenvolvimento da humanidade, a concorrência e a competitividade
sem limites levam em seu bojo padrões de comportamento irracionais
e retrógrados como o nacionalismo xenófobo, a intolerância e o
autoritarismo.
É por isso que propomos e defendemos o
fortalecimento da democracia ancorada na conscientização e
mobilização dos atores sociais na luta por um regime político
capaz de equacionar e solucionar os problemas comuns a partir de
um novo pacto social entre a sociedade e o Estado, caracterizado
pelo pluralismo, a participação, a cooperação, a solidariedade e o
respeito aos direitos humanos – enfim um novo marco civilizatório.