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Por
PAULO ROBERTO
DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil
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Economistas
Voláteis e Juízes Malucos:
dois males do
Brasil contemporâneo (I)
I. Os males
do Brasil: do simples ao desnecessariamente prolixo
Nos tempos de
Monteiro Lobato e de Mário de Andrade, os males do Brasil pareciam
mais simples e eram, talvez, até mesmo mais prosaicos: as saúvas, a
febre amarela, o bicho do pé e, quem sabe, aquela preguiça
macunaímica que nos distanciava da ética calvinista do trabalho.
Aparentemente era um número reduzido de questões a serem resolvidas,
quando, na verdade, elas constituíam por si sós, todo um programa de
governo ‑ que digo. um imenso problema de Estado ‑ capaz de assustar
qualquer candidato a Hércules em busca de novos trabalhos
impossíveis.
Nos tempos
modernos, depois de décadas de saneamento, de progressos na
industrialização, de avanços na educação do povo e até mesmo,
acreditem, de melhorias reais no funcionamento das instituições ‑
com uma democracia plena, de ampla participação, ainda que de má
qualidade, em substituição ao voto de cabresto e ao poder dos
coronéis ‑, os males do Brasil também se sofisticaram e apresentam
hoje maior complexidade técnica. Eles constituem, em todo caso,
males de uma qualidade superior àqueles prosaicos problemas do nosso
subdesenvolvimento clássico.
Hoje temos, por
exemplo, o crime organizado, a fuga de capitais, a corrupção (esta,
aliás, desde sempre), a insegurança pública nos grandes centros
urbanos, a deterioração ambiental (como os desmatamentos
incontrolados e a poluição industrial), os desequilíbrios regionais
e sociais mais graves do que nunca, as supostas ameaças dos
transgênicos e das células-embrionárias, a instabilidade cambial e,
até mesmo, acreditem, a tal de teologia da prosperidade, um imenso e
abrangente mecanismo de captação das poupanças privadas, um imenso
sorvedouro dos recursos dos mais humildes por uma pujante e
empreendedora ação religiosa, mais ativa, por certo, em determinados
ramos e especialidades dessa florescente indústria do que em outras,
mais tradicionais.
Esses problemas
atuais são graves, sem dúvida alguma, e a eles vêem agregar-se uma
série de outros, de tipo estrutural ou conjuntural, como o
desemprego, o aumento do custo de vida ‑ nos tempos de Lobato se
falava de carestia ‑, as mensalidades da escola privada, o peso dos
impostos e taxas, o nível dos juros e, até mesmo, acreditem, a falta
de bons programas na televisão aberta. Não pretendo tratar, contudo,
inclusive por uma questão de falta de competência, de todos esses
problemas. Mas gostaria, tanto por deformação econômica como por
vício sociológico, de abordar dois problemas que considero cruciais
para o sucesso continuado dos processos de estabilização
macroeconômica e de diminuição de riscos sistêmicos e institucionais
no Brasil contemporâneo.
O título deste
ensaio já terá revelado ao leitor a que tipo de problema eu me
refiro, mas os dois adjetivos que anexei às nobres categorias dos
economistas e dos juízes merecem certamente uma qualificação mais
detalhada, de molde a não induzir esse mesmo leitor a pensar que eu
considero todos os economistas voláteis por natureza e todos os
juízes malucos potenciais. Longe disso: a maior parte dos
representantes dessas duas categorias profissionais é constituída de
pessoas normalmente bem formadas, sendo de ordinário sensatas e
reputadas por um natural reservoso, típico daqueles que encaram sua
profissão como um sacerdócio, não como um laboratório público,
propenso a todo tipo de teste, para fins de melhorias sociais ou de
reformas experimentais.
Desejo, no
entanto, tratar de dois espécimes particulares dessas famílias mais
amplas que, como todo ramo da especiação darwiniana, são capazes de
abrigar tipos “desviantes”, seja por deriva genética seja por
inclinação lamarckiana. A esses tipos especiais da espécie eu chamo
de “economista volátil” e de “juiz maluco”, e já explico por que.
Ambos têm por missão perturbar o habitat em que vivem, introduzindo
custos de oportunidade social ‑ isto é, um uso alternativo dos
recursos caracterizado por uma má alocação de fatores ‑ que são, no
geral, mais elevados do que os retornos produzidos por sua
participação na divisão social do trabalho. Ambos pretendem
representar o conjunto da família, quando na verdade são elementos
sui generis dentro da espécie, assim como eles nunca se
assumem pelo que realmente são, já que pensam combater os mesmos
males que ocasionalmente criam, com suas propostas heterodoxas e
sentenças arbitrárias.
Não estou
exagerando nas acusações, pois pretendo trazer provas do que afirmo,
em cada um dos casos representativos. A única coisa que eles não
fazem é atuar de comum acordo, embora possa ocorrer que juizes
malucos tendam a se apoiar em propostas igualmente malucas de
economistas voláteis e estes, por sua vez, podem aplaudir sentenças
que eles julgam conforme o sentido da história ou pelo menos
orientada para a correção das imensas desigualdades que mancham o
nosso país. Vejamos esses casos mais de perto. Pretendo tratar,
neste primeiro ensaio, dos economistas voláteis, deixando os juízes
malucos para um segundo ensaio, certamente tão iconoclástico quanto
este.
II. A
Economia Política da Instabilidade Garantida
O que querem,
afinal, os economistas voláteis? Nada do que nós, os comuns dos
profissionais acadêmicos ou simples cidadãos, também não desejemos:
juros baixos, volatilidade mínima nos mercados de capitais, maiores
gastos sociais, redução das desigualdades sociais, câmbio favorável
às exportações, mercado amplo de massas, redução das disparidades
econômicas entre os países, sem falar naqueles aspectos de políticas
sociais que não pertencem estritamente ao mundo econômico, mas que
sem ele não saberiam se sustentar, como educação e saúde de boa
qualidade para todos e a custos razoáveis, infra-estrutura decente
para todos os usuários e para o sistema produtivo, segurança
pública, justiça expedita e de amplo acesso, enfim, a cornucópia
conhecida das velhas utopias dos reformadores sociais (e dos
demagogos da vida política).
O que distingue
o economista volátil de um “normal”, com o perdão dos próprios, é a
pressa e o método, e nisso reside todo o caráter perturbador de sua
ação, em geral bem intencionada. Vejamos isso através de um exemplo
ainda fresco em nossa memória.-Em novembro de 2004, pela “enésima”
vez desde o início da atual administração, um grupo de economistas
voláteis divulgou mais um desses manifestos de oposição à economia
política palocciana, isto é, o modesto “feijão com arroz” que nos é
servido atualmente como única política econômica compatível com os
objetivos de crescimento sustentável e sustentado, ao menor custo
social possível, ou seja, combinando desenvolvimento com
estabilidade financeira e responsabilidade fiscal. E o que pedem no
seu “enésimo” manifesto os economistas voláteis? Tudo isso e mais um
pouco, ou seja, a combinação desses bons efeitos, no menor prazo
possível, sem nenhum dos efeitos indesejados e indesejáveis que
políticas apressadas costumam provocar no tecido econômico e social
do país.
O novo
manifesto, intitulado “E nada mudou”, se situa inteiramente na linha
reta do manifesto anterior, de junho de 2003, chamado “A agenda
interditada”, no qual esse grupo de mais de 300 economistas advertia
para o agravamento da crise social em face do aprofundamento, pelo
Governo Lula, da política macroeconômica herdada do Governo
anterior. Ignoro, no momento em que escrevo ‑ final de 2004 ‑
quantas centenas de economistas já terão subscrito o novo manifesto
antimudancista, o que permitiria aferir, pelo menos, o grau de
volatilidade da classe, ainda que esse tipo de aferição seja
meramente impressionístico. No novo texto, os voláteis se permitem
dizer que “que a situação social se agravou de uma forma inequívoca,
e que o ligeiro suspiro de crescimento que se tem verificado este
ano não muda o caráter excludente e pauperizador da política
econômica. Ou seja, continuamos no rumo errado, mas há alternativa.”
O diagnóstico
por eles oferecido dos efeitos e conseqüências da atual política
econômica é nada menos que brutal: “A política econômica do governo
coloca a sociedade brasileira em uma armadilha de tal forma que
qualquer ameaça ou chantagem, externa ou interna, é enfrentada com
medidas monetárias e fiscais restritivas que agravam a crise social.
Além de travar a economia, o superávit primário, agora elevado para
4,5% do PIB, e os juros básicos de agiotagem, agora elevados para
16,75% a.a., são uma verdadeira máquina de transferência de renda de
pobres para ricos, na medida em que implicam a tributação indireta
dos pobres, e o aumento da tributação direta da classe média, para o
pagamento dos juros da dívida pública aos ricos.”
Em face desse
quadro dramático, os voláteis acham que “A sociedade brasileira deve
ser conscientizada de que a atual política econômica não é capaz de
nos tirar desta crise e, na verdade, tende a agravá-la
recorrentemente. E a sociedade brasileira deve ser igualmente
conscientizada de que há alternativa.” E qual é, exatamente, a
alternativa proposta pelos voláteis?
Na linguagem
empolada dos economistas alternativos, os “eixos estruturantes da
retomada de um projeto nacional de desenvolvimento são a redução da
vulnerabilidade externa e a promoção do pleno emprego”. O tal de
“projeto nacional” é uma constante de qualquer proposta alternativa,
com tal recorrência que pode-se perguntar como é que a sociedade
brasileira suportou tantos anos e décadas sem um projeto nacional.
Mas, redundâncias à parte, vejamos quais “medidas imediatas” que
propõem os economistas voláteis (e aqui transcrevo, simplesmente, as
propostas):
1. Reduzir
drasticamente a atual taxa de juro básica (Selic), que serve para
remunerar os títulos públicos; portanto, a taxa de juro passa a ser
focada no ajuste das contas públicas;
2. Desvincular
a taxa de redesconto (que remunera os empréstimos do Banco Central
aos bancos) da taxa Selic, liberando o Bacen para a utilização ativa
das taxas de redesconto, depósitos compulsórios e cobrança de IOF
como formas de regulação seletiva do crédito;
3. Estabelecer
mecanismos de controle no fluxo de entrada e saída de capitais
externos do país, controlando a conta de capitais, com o objetivo de
impedir a evasão externa de divisas, em face da queda da taxa de
juros;
4.
Interromper a
captação de recursos externos pelo setor público, recompor de forma
contínua as reservas internacionais do país e estabelecer critérios
para o processo de endividamento externo privado;
5. Promover
a redução do "spread" e dos custos dos serviços dos bancos privados
por meio da rivalidade agressiva derivada da oferta de crédito e de
serviços financeiros pelos bancos públicos;
6. Realizar
uma reforma fiscal que priorize os investimentos na economia interna
e nos programas sociais e inclua um sistema progressivo de
tributação, capaz de acelerar a distribuição da renda e, em
conseqüência, o crescimento sustentado da economia e das
oportunidades de trabalho;
7.
Realizar uma auditoria financeira e social
da dívida externa, para
dar transparência e justiça ao processo de endividamento e para
tornar efetivo o controle democrático;
8.
Administrar a política cambial de maneira favorável às exportações e
à substituição das importações, e compatível com o equilíbrio dos
fluxos de capitais externos;
9. Reverter
o processo de desnacionalização dos setores de produtos não
comercializáveis internacionalmente, de modo a reduzir a rigidez das
contas externas do país (o que implica cancelar o programa Parceria
Público Privado);
10. Utilizar
os recursos públicos, ora esterilizados no superávit primário, em
programas de dispêndio público voltados para a
expansão e melhora dos serviços públicos básicos, como
educação, saúde, habitação popular, assim como para investimentos de
infra-estrutura e apoio decisivo à agricultura familiar, reforma
agrária e economia solidária.
Acrescento agora
os meus próprios comentários a cada uma das propostas dos
economistas alternativos, que, como antecipei, são de molde a
provocar mais volatilidade do que estabilidade na economia
brasileira.
III. Aritmética dos zeros: a volatilidade na prática
1.
Redução dos juros:
Os
economistas voláteis partem do pressuposto de que são as autoridades
monetárias que fixam, ao seu bel prazer, o nível dos juros básicos
da economia, em total autonomia em relação ao que se passa no
mercado. Eles acham, contra todas as evidências contrárias, que esse
nível pode ser fixado em total independência em relação ao nível da
dívida pública e das obrigações que daí decorrem. Ou seja, eles se
situam num patamar que simplesmente desqualifica o argumento
reducionista, por ignorância completa das condições sob as quais foi
contraída a dívida pública e a necessidade de seu financiamento
contínuo. Se eles conduzem sua análise na ausência dessa variável, a
medida por eles proposta é simplesmente irrealizável. A menos, é
claro, que o que eles estejam propondo seja, na verdade, o calote da
dívida, com seus efeitos inevitáveis, em matéria de inflação, fuga
de capitais e ausência quase completa de investimentos, sem falar
das conseqüências para o próprio mercado de capitais e a formação de
poupança. Ou seja, a única recomendação que se pode fazer em face
desse argumento seria a de que os economistas voláteis deveriam
voltar para suas casas, ou para as faculdades de economia, revisar
com cuidado seus argumentos e não se apresentar novamente ao
distinto público antes de feito o dever de casa de forma mais
elaborada. Por enquanto, eles ficam com nota zero.
2.
Desvinculação da taxa de redesconto da taxa Selic e regulação
seletiva do crédito.
Em
outros termos, os economistas voláteis pretendem a estatização
completa do mercado de crédito, com subsídios implícitos e no mais
das vezes explícitos para a maior parte da oferta de capitais. É
simplesmente inacreditável que economistas que não se pretendem
socialistas, mas juram defender o velho e duro capitalismo, ousem
propor tal manipulação estatal de todo o mercado de créditos no
Brasil, pois esta seria a conseqüência inevitável de seu sistema
“seletivo”. Ele não seria seletivo e sim geral, pois implica,
simplesmente, em regular toda a oferta bancária de crédito. Mais um
zero redondo para os voláteis.
3.
Controle na entrada e saída de capitais para impedir a evasão de
divisas, em face da queda da taxa de juros.
Do
jeito que é proposto o controle, total, não há porque se preocupar
com a saída de capitais, pois que eles simplesmente não entrarão
mais, e os capitais internos descobrirão “n” formas de se escafeder,
por sua vez. Ou seja, a medida é totalmente contrária aos progressos
que vêem sendo feitos, nos últimos anos, para tornar o Brasil um
país mais normal do que ele foi no passado. Cabe surpreender-se,
novamente, com o fato inacreditável de que uma idéia maluca desse
tipo volta a freqüentar esses manifestos de oposição: deve ser algum
comportamento atávico, de inspiração socialista ou estatal, que vê
nos controles públicos a melhor forma de regular a economia, em
total desrespeito a compromissos já assumidos no plano internacional
e até interno. Desta vez, os voláteis merecem um duplo zero.
4.
Interromper a captação de recursos externos pelo setor público,
recompor as reservas internacionais e estabelecer critérios para o
endividamento externo privado.
Novamente, cabe o espanto: inacreditável! Ao que agrego o epíteto de
contraditório: se pretende, ao mesmo tempo, parar a captação de
recursos externos e recompor as reservas! Trata-se da quadratura do
círculo, a negação da negação, a matemática do impossível.
Revela-se, novamente, o vezo estatizante, ao pretender condicionar o
comportamento do setor privado – que se abastece no mercado externo
não por gosto estrangeirizante, mas porque é mais barato – aos
problemas do setor público. O triplo zero, desta vez, vai por
atentado à lógica formal, por ofensa à matemática elementar e pela
irracionalidade econômica.
5.
Redução do "spread" e dos custos dos serviços dos bancos privados
por meio da rivalidade agressiva derivada da oferta de crédito e de
serviços financeiros pelos bancos públicos.
Continuam os atentados à lógica formal e ao simples bom senso: se se
pretende ocupar o espaço do mercado de capitais com a oferta
pública, como ter, em seguida, concorrência no setor privado? Foge à
minha compreensão, assim como à de qualquer indivíduo medianamente
formado em economia. Já na primeira proposta, se tinha uma quase
estatização completa do crédito; aqui se pretende fazer concorrência
pela não concorrência. Digno de mais uma nota zero, por
desconhecimento de como funciona o sistema financeiro e bancário.
6.
Reforma fiscal que priorize investimentos internos e programas
sociais; sistema progressivo de tributação, com distribuição da
renda, crescimento da economia e do emprego.
Novamente a mão pesada do Estado regulando investimentos e
distribuição de renda, contra todas as evidências, de décadas, de
que os piores efeitos redistributivos – em favor do ricos,
entenda-se – decorreram dessas políticas redistributivas dirigidas
pelos governos que sempre desgovernaram a economia brasileira. Do
ponto de vista econômico, o “sistema
progressivo” anunciado teria o efeito imediato de paralisar os
investimentos, propiciar fuga de capitais e não criar um emprego
sequer. Ou seja, as medidas teriam o poder de atuar no sentido
totalmente inverso ao pretendido, o que nos faz pensar se os
alternativos conhecem a experiência histórica do Brasil e as regras
elementares da economia nas condições do Brasil. Não há como escapar
de uma nova nota zero, o que já começa a ficar redundante.
7.
Auditoria “social” da dívida externa, para dar transparência e
tornar efetivo o controle “democrático”.
Incrível, mais uma vez. Como é possível que economistas formados em
faculdades brasileiras consigam disparar tal disparate, sem sequer
ficarem corados de vergonha? A proposta é de tamanha incongruência
econômica que só pode ser “explicada” por cegueira política, o que
reduz a pó todo o manifesto, e me convence que estou perdendo meu
tempo nestes comentários. Eles deveriam merecer aqui quatro zeros
qualificados, se tal fosse possível. Em todo caso, esta proposta se
situa abaixo de qualquer crítica e digna de um único julgamento:
delirante.
8.
Política cambial favorável às exportações e à substituição das
importações, e compatível com os fluxos de capitais externos.
Décadas de controle cambial e de manipulações por parte dos governos
não foram suficientes para convencer nossos voláteis economistas de
que o regime de flutuação é o mais adaptado às economias modernas,
justamente por não redundar em subsídios indiretos – quando não
diretos a qualquer setor –, em taxas múltiplas ‑ e portanto ágio e
corrupção cambial ‑ e em outros mecanismos artificiais ‑ porquanto
politicamente determinados ‑ de administração cambial. Nossos
alternativos pretendem redistribuir a renda da sociedade em favor de
uma pequena categoria de agentes econômicos, os que auferem receitas
de exportação, o que constitui um notório mecanismo concentrador. A
nota zero aqui vai pelo desconhecimento da história.
9.
Reverter a desnacionalização dos setores de mercado interno, para
reduzir a rigidez das contas externas (e cancelar as parcerias
público-privadas).
Algum economista alternativo seria capaz de explicar qual é a
diferença exata entre mercado interno e mercado externo?
Praticamente há meio século, o que coincide historicamente com a
aceleração da industrialização brasileira, que se ouve falar de
desnacionalização dos setores produtivos ligados ao mercado interno,
sem que seja possível descobrir como e porque isso tenha fragilizado
economicamente o país. O que os economistas voláteis pretendem aqui
é acabar com a remessa de juros, lucros, dividendos, royalties e
outros pagamentos ao capital estrangeiro, numa reação típica do
primitivismo econômico estilo anos 1950. Ou seja, pretendem nos
fazer regredir meio século, pelo menos, no processo de crescente
integração da economia brasileira ao mundo real. Nisso eles são
absolutamente reacionários, pois pretendem fazer rodar para trás a
roda da história. Quanto às PPPs, tampouco considero esse tipo de
recurso como a pomada maravilha que vai resolver todos os males do
subinvestimento brasileiro, e de fato sua utilização nos remete um
século atrás, aos tempos do Império, quando os principais
investimentos em infra-estrutura assumiam essa modalidade por
absoluta carência de recursos por parte do Estado e pela ausência de
um mercado de capitais digno desse nome no país. As PPPs não são uma
solução, no máximo um tapa-buracos, mas antes isso do que a ausência
completa de novos investimentos nos setores carentes de recursos
públicos. Mas, o que se revela, mais uma vez, é que os voláteis
pretendem também determinar como deve funcionar a economia privada,
o que apenas confirma o seu vezo estatizante, como se isso estivesse
ainda de moda. Inacreditável como eles são completamente “retrô”:
fica bem, talvez, para certos estilos de roupas ou arquitetônicos,
mas em economia só pode merecer mais um zero redondinho.
10. Utilizar recursos públicos em programas de dispêndio público,
como educação, saúde, habitação popular, infra-estrutura,
agricultura familiar, reforma agrária e economia solidária.
Incrível,
uma vez mais (ainda bem que é a última). Estamos no mundo das boas
intenções e das miragens concretizáveis, ao gosto do cliente. A
economia dos alternativos é uma cornucópia infindável e infinita, da
qual os recursos públicos jorram como o maná das legendas bíblicas.
Em que mundo vivem os voláteis? Eles não se dão conta de que o
superávit primário serve, tão somente, para os compromissos da
dívida pública, que de outra forma seria impagável e que isso,
portanto, inviabilizaria todo o funcionamento do sistema de crédito
público no Brasil? Não sei por que ainda me preocupo em responder a
tamanhos absurdos de lógica econômica. Só posso terminar atribuindo
mais um zero límpido e claro aos nossos voláteis economistas.
Em
outros termos, tendo acumulado zero sobre zero em suas propostas
malucas, os economistas alternativos só podem receber o que merecem:
um zero redondo em economia, outro zero em lógica e mais um zero por
desconhecimento da história, sem mencionar o mais importante, o fato
de que as medidas propostas aproximariam o Brasil de um alto grau de
volatilidade econômica.
Num próximo artigo vamos tratar de um outro bando de malucos, os
juízes que também pretendem encarnar o compromisso com o “social”,
ao querer fazer justiça “com as próprias mãos”, se ouso dizer. Por
outras vias, mas com efeitos igualmente nefastos para a economia
política do bem-estar social, esses juízes atuam como destruidores
do dinheiro alheio.
(Continua na Parte II) |
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