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Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo
de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP),
do Conselho Editorial da Revista Margem Esquerda e Doutor
em Educação pela Universidade de São Paulo
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Sobre a vaidade no campo acadêmico
Ele
entra na sala de aula e escreve o seu nome na lousa: Prof. Dr.
fulano de tal. Durante sua brilhante exposição – de acordo com a
sua própria opinião – um aluno, um tanto desatento às exigências
hierárquicas e ritualísticas, lança-lhe uma pergunta. O problema não
está no questionamento. O Prof. Dr. fulano de tal, do alto da
sua sapiência naquilo que lhe dá o status de “o” especialista, tem
resposta para tudo (e se não tem, enrola, pois quem ousará duvidar
da sua autoridade?!). Não, a irritação que o Prof. Dr. fulano de
tal expressa em seu tom de voz é uma reação à impertinência do
aluno. E ele, o professor, deixa-o claro na resposta: “Aqui em sala
de aula – e aponta para o escrito na lousa – sou o Prof. Dr.
fulano de tal. Pobre aluno que ousou chamá-lo apenas de
professor!
Ela é doutora, uma das poucas naquela
instituição. Isto lhe parece garantir status diferenciado em
relação aos demais. Os colegas comentam nos corredores sobre a
arrogância da Profª Drª fulana de tal. Mas eles têm lá as
suas vaidades e, no final das contas, a Profª Drª fulana de tal
sabe que, embora não tenham o mesmo título, desempenham a mesma
função – e quem sabe, sejam melhores naquilo que fazem! Por via das
dúvidas, ela tem o cuidado de não ultrapassar certos
limites. Muito diferente se dá em relação aos seus alunos. Estes,
coitados, têm apenas como mérito a vitória no funil do vestibular.
Para a ela isto não tem grande valor – e talvez ela tenha
razão, pois não há correspondência direta entre memorização de
conteúdo, inteligência e capacidade de reflexão crítica.
Ela não admite intromissão dos alunos; os que ousam lhe dirigir a
palavra são rispidamente colocados em seu devido lugar. A Profª
Drª fulana de tal não admite, sobretudo, questionamentos sobre
as verdades que verte diante dos pupilos. Os que insistem em
questioná-la são silenciados e ela não hesita em usar adjetivos nada
positivos para aquelas mentes em formação. “São uns burros! Estudem
primeiro!” (Quem sabe quando tiverem doutorado possam conversar de
igual para igual; o que não sabemos é se a Profª Drª fulana de
tal ainda estará sobre ou sob a face da terra). Mas eis que os
alunos decidem protestar e mostram que são inteligentes o suficiente
para adotar uma estratégia cujo resultado é tão positivo quanto
dolorido: o desprezo. Um belo dia ela se dirige à sala de
aula e se vê diante de uma situação inusitada: a sala está vazia; os
alunos e os móveis utilizados por estes estão na parte externa da
sala; dentro, apenas a mesa da Profª Drª fulana de tal. A
propósito para que serve o educador se não tem a quem educar?
Ele é um excelente professor. Domina o
conteúdo e se impõe em sala de aula. Para ele, rigor científico
equivale às grandes teorias expostas por autores que escrevem em
estilo ininteligível para a maioria dos seres mortais.
Para ler tais textos, e compreendê-los minimamente, seus alunos
precisam recorrer aos dicionários das várias áreas do conhecimento
humano. Ele não se importa, afinal já sabe e teve que passar
por isso. Sua linguagem obedece à formação teórica, política e
ideológica que teve: é igualmente ininteligível. Numa das suas
aulas, os alunos conseguem trazê-lo para o mundo real e estabelecem
acirrado debate sobre as eleições. Ele se vê pressionado pelo
questionamento da sua posição política. Então, ele recorre àquele
tipo de argumento aparentemente inquestionável e que finda qualquer
discussão: “Vocês não compreendem, vocês só lêem o jornal Folha
de S. Paulo”. Pronto! Em outras palavras: “Como ousam discutir
comigo, eu que tanto li e que tenho a experiência dos anos? Cresçam,
leiam os textos que li, estudem os autores que estudei e, então,
talvez terão condição de me questionarem”. A vaidade dificulta o
entendimento de que a retórica pomposa nem sempre dá conta de tudo;
que a realidade é mais rica que a cinzenta teoria; e que, para se
posicionar politicamente, nem sempre é necessário o domínio das
teorias complexas. Sua atitude demonstra uma visão elitista e
preconceituosa em relação ao conhecimento que não se enquadra nos
cânones formais da academia. O professor perdeu o debate político,
as estribeiras e do alto da sua alegada experiência, fundada no
acúmulo de leituras, ele se mostra incapaz de manter o equilíbrio
diante dos seus tão inexperientes alunos. Ele perdeu também a
oportunidade de refletir sobre os vínculos entre a excelência do seu
conhecimento teórico e a vaidade no inconfessável sentimento de
superioridade.
Ela escreve mal. Seu estilo é
panfletário. Uma eterna repetição de slogans e fórmulas
desgastantes, recheadas por inumeráveis citações, argumentos de
autoridade que, repisados à exaustão, demonstram pelo menos uma
coisa: ela é leitora de um único autor.
Sua verdade é a verdade revelada pela interpretação do
texto sagrado. Ela talvez não tenha consciência do que faz, mas age
como sacerdotisa de um culto profano. É a guardiã do dogma, é
sectária. Mas... ela é sua Ex.ª a Drª., e tudo lhe será
perdoado! Como disse Aquele cujo nome conhecemos: “Ela não sabe o
que faz!” Ela continuará a associar as palavras e se imagina a
auctoritate no assunto. Uma autoridade menor, é verdade; uma
espécie de reflexo de uma luz maior e poderosa, isto é, a autoridade
na qual se espelha e cita abusivamente.
Ela propaga esta luminosidade, se nutre dela. Em sua humilde
condição de discípula, ela se vê como o instrumento de difusão da
energia que deve alimentar a humanidade. Todo o seu poder advém do
autor sacralizado e dos seus livros canônicos.
Não obstante, não esqueçamos: ela é a Ex.ª a Drª E isto lhe
dá mais força em sua missão redentora; dá-lhe, ao menos, a condição
de estabelecer um séqüito de aprendizes e guardiões do dogma. Seu
profeta ainda não foi canonizado pela Santa Madre Igreja, mas
foi elevado à altura dos cânones reconhecidos pelos profanos, os
quais constituem várias igrejas – que polemizam entre si, mas se
saciam nas mesmas fontes.
Ele escreve bem! Seu estilo é erudito e
demonstra ruptura com os enquadramentos estanques entre as diversas
áreas do conhecimento humano. Definitivamente, ele não é um
especialista. O que o qualifica positivamente, pelo menos na
percepção de alguns dos seus colegas, é visto como embuste pelos
mexeriqueiros a postos. “É um charlatão!”, dizem as más línguas. Não
devemos legitimar este tipo de comentário, nem participarmos do jogo
mais antigo e preferido dos que passam a própria vida a falar da
vida alheia. Contudo, como diz o dito popular, “onde há fumaça, há
fogo”. Quando se escreve sobre tudo e todos, arrisca-se a perder o
bom senso sobre a limitada capacidade humana em relação ao
conhecimento. Assim, se tais injúrias nos chegam aos ouvidos,
devemos ter o bom senso de pensar sobre o nosso proceder. Mas eis
que entra em cena a vaidade: imersa em sua própria luz, sua Ex.ª
o Dr. faz ouvido de mouco. E a sua fama atinge o ápice. Um olhar
atento e não propenso aos mexericos poderia ajudá-lo a perceber que
sua pretensa erudição não é suficiente para mascarar o conhecimento
enciclopédico e dicionáristico; e, talvez o mais importante, poderia
contribuir para que ele tivesse o bom juízo de não se imiscuir no
que não deve. Mas quem ousará falar-lhe sobre tema tão complexo e,
ainda por cima, tenha a capacidade de não ferir sua vaidade? O risco
é que ele, embevecido, não o escute e ainda lhe atire a pecha de
invejoso ou algo parecido.
Seja num ou noutro caso, o que escreve
bem ou mal, é muito difícil tecer qualquer comentário sem ferir
susceptibilidades. A propósito, há no meio acadêmico uma falsa
identificação entre titulação e capacidade de escrever. O fato de o
indivíduo ter o título de doutor não é garantia automática de que
ele saiba escrever bem e, muito menos, que é um bom professor – no
sentido didático e pedagógico. Escrever bem não é apenas juntar
palavras e formar frases altissonantes. A suposta erudição
demonstrada num texto ininteligível não é, necessariamente, uma
qualidade intelectual; pode ser, simplesmente, pura afetação. A
complexidade na linguagem muitas vezes caracteriza um exercício de
arrogância, de pose acadêmica, relacionado à necessidade do
intelectual em se firmar pelo status.
Mas, voltemos à sua Ex.ª o Dr. No
fundo ele se imagina imune ao risível. Portanto, ele age com
naturalidade, como se os simples mortais, incluindo seus alunos,
fossem obrigados a pagar um tributo à sua titulação. Estes, por seu
turno, projetam nele o futuro a ser alcançado. Suas atitudes passam
a ser modelares – para o bem e para o mal. Além de modelo a ser
seguido – ou repudiado – o Prof. Dr. fulano de tal, pela
posição que ocupa na hierarquia acadêmica, tem recursos para manter
aos alunos sob sua dependência.
É claro, há as exceções. Tomemos os
exemplos acima como tipos ideais. Não significa que existam
na realidade exatamente como descritos, mas representam espécies
que podem ser encontradas na selva acadêmica. E, a favor, destes
tipos, devemos acrescentar que: 1) a cultura e os valores
predominantes no campo acadêmico são elitistas; 2) a universidade
reproduz os princípios que fundamentam a competição na sociedade; 3)
a vaidade é humana.
Demasiadamente humano
A vaidade é humana, demasiadamente
humana! Eis um pleonasmo necessário. Sim, porque muitas vezes são
precisamente tais características as que menos se tornam objeto de
nossas reflexões – e não me refiro aos exercícios mentais
filosóficos, sociológicos ou coisa do tipo, mas sim, a uma atitude
que, me parece, deveria pautar nossas ações cotidianas. Comecemos
por assumir que, em menor ou maior grau, todos somos vaidosos. Já os
antigos, através do mito de narciso, ensinaram que o desejo
desenfreado em atrair a admiração e a atenção produz conseqüências
que podem ser trágicas. No limite é uma demonstração de tremenda
sandice.
É incrível como, mesmo diante de
situações nas quais a vaidade não faz qualquer diferença, os homens
e mulheres não conseguem se livrar deste sentimento. O diálogo entre
um jardineiro e o visitante de um cemitério, escrito por Alexandre
Dumas Filho (2003:47), em A Dama das Camélias, ilustra bem
este aspecto:
“Quero dizer que existe gente que é
orgulhosa até no cemitério. Parece que esta mademoiselle
Gautier fazia a vida, desculpe a expressão. Agora ela está morta e é
igualzinha às mulheres que nada fizeram de reprovável e das quais
regamos as flores todos os dias. Pois bem, quando os parentes das
pessoas que estão enterradas ao lado dela souberam a vida que essa
moça levava, revoltaram-se por ela ter sido enterrada aqui e
disseram que deveria haver um lugar só para esse tipo de mulheres,
como há para os pobres. O senhor já viu uma coisa dessas? Eu teria
postos essas pessoas no lugar deles! Gente gorducha que vive de
rendas, que não vem sequer quatro vezes por ano visitar seus
defuntos, que traz pessoalmente as flores... e veja que flores! Eles
reclamam dos gastos de conservação das sepulturas daqueles por quem
dizem chorar, escrevem nas lápides sobre lágrimas que jamais
derramaram e se fazem de difíceis, querendo escolher a vizinhança”.
Durante muito tempo acreditei que a
morte nos igualava. “Pelo menos isso!”, pensava. Hoje, tenho
consciência de a sociedade cria desigualdades que extrapolam o
próprio caráter da finitude humana. Mas deixemos estes homens e
mulheres de ares aristocráticos em seus próprios devaneios e
retomemos o fio da meada.
Max Weber observou que a vaidade pode
levar o político a cometer um dos pecados fatais em política, ou
ambos, simultaneamente: se abster de assumir uma causa e do
sentimento de responsabilidade. Se o político está sujeito à
vaidade, o intelectual padece da mesma doença. “A vaidade é um traço
comum e, talvez, não haja pessoa alguma que dela esteja totalmente
isenta. Nos meios científicos e universitários, ela chega a
constituir-se numa espécie de moléstia profissional”, sentencia
Weber. (grifos nosso) Não obstante, o sociólogo alemão é
condescendente com os colegas acadêmicos, pois considera que a
vaidade do intelectual não oferece tanto risco à sua atividade
quanto o que ocorre em relação ao político: “Contudo, quando se
manifesta no cientista, por mais antipatia que provoque, mostra-se
relativamente inofensiva, no sentido de que, via de regra, não lhe
perturba a atividade científica”. (WEBER, 1993: 107) Será?! Para o
estudante ou o colega que tem que suportar a vaidade desmedida,
talvez seja o oposto que ocorra. Do ponto de vista puramente
empírico, os que nos oferecem mais riscos são os que estão mais
próximos!
Mas deixemos Weber em paz!
Independentemente das suas formulações sobre a vocação do cientista
e do político, o fato é que esta “espécie de moléstia profissional”
grassa em nosso meio. E as pessoas sensatas talvez se perguntem: por
que? Há, inclusive, a espécie de ingênuo que candidamente
imagina que este tipo de comportamento é algo contraditório com o
espírito culto que, em tese, permeia a universidade. “Como é
possível?, se pergunta. Ele tem a esperança de que os colegas,
através do diálogo e da persuasão, superem as influências nefastas
que os fazem agir incivilizadamente. Como diria aquele personagem
das histórias em quadrinhos: “Santa ingenuidade!!!”.
Todavia, observe-se que mesmo este tipo
de ingênuo padece da mesma “espécie de moléstia profissional”: na
essência sua postura é prisioneira de uma vaidade enrustida numa
pretensa humildade; é uma atitude idealista, no sentido de que
desloca a universidade – e os que nela trabalham – da realidade
social na qual está inserida; é elitista porque, no fundo, se
imagina como partícipe de um mundo constituído por seres especiais,
dotados de moral e cultura superiores e capazes de escapar às
futilidades humanas. Este personagem não se reconhece no mundo real
e se escandaliza porque seus pares não representam o mundo
imaginário do Olimpo. É vaidoso e talvez não o saiba porque lhe
parece natural a vaidade de sentir-se superior!
Concluindo...
Se a vaidade é humana, não é possível
compreendê-la apenas pelo senso comum quanto às atitudes observáveis
no campo acadêmico. A sociologia pode contribuir para compreendermos
este fenômeno.
E isso talvez seja um bom começo para evitarmos repetir o que
reprovamos nos outros. Mas, é claro, a sociologia – ou as grandes
teorias, em geral – não são antídotos para tal moléstia. Um
grande passo para quem deseje se curar é voltar-se para si
mesmo e... mudar de atitude. No mais é necessário muita, muita,
muita paciência!
A necessidade de citar e recitar está vinculada a uma espécie de
humilde sacerdócio. Como analisa BOURDIEU (1998: 162): “O
sacerdócio comum cita e recita; o grande sacerdócio suscita e
ressuscita. Pode acontecer que leve a audácia até o ponto de
expor as discordâncias ou mesmo as contradições (é o caso de
Abelardo) encontradas nas fontes de revelação”.
A identificação com o ‘profeta’ não é apenas um exercício de
sacerdócio, ela gera dividendos, isto é, ‘lucros’: “O eu
sacerdotal deriva da autoridade do profeta de origem; todavia,
por maior que seja a modéstia (condição de participação no
capital herdado de autoridade) que o impede de falar
efetivamente na primeira pessoa, ele não pode esquecer que
possui algum mérito por restaurar o capital em sua integridade
através da desbanalização, revolução da leitura que define a
revolução letrada.” (BOURDIEU, 1998: 160 e 62) Ele é o
instrumento de propagação da palavra, a qual, proferida por ele
parece-lhe ter a mesma autenticidade daquela pronunciada
(escrita) pelo profeta de origem: “O sacerdócio se
instaura como guardião da autenticidade da mensagem, a única
capaz de proteger contra a “recaída” nos erros...” [em relação
ao profeta] (Id.: 162-63).
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