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Por MÁRIO MAESTRI* &
FLORENCE CARBONI**
* Mário Maestri, 56, é historiador –
maestri@via-rs.net
** Florence Carboni, 52, é lingüista –
florence@via-rs.net |
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"No Iraque ocupado, a mulher recuou
mil anos"
(Entrevista com Sammi Alaa - Militante e
porta-voz da Aliança Patriótica Iraquiana)
Em 1988, com
quatorze anos, Sammi Alaa deixou sua cidade natal, quando seu pai
e sua mãe, ambos enfermeiros de um hospital público e militantes
comunistas, partiram para o exterior para escaparem à polícia
política. Apenas em 1998, Sammi retornou ao Iraque, já como
militante da Aliança Patriótica Iraquiana, da qual constitui um
dos três porta-vozes no exterior. Sammi vive atualmente na
Dinamarca, onde concluiu seus estudos em sociologia. Sammi
participou do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, devido a uma
iniciativa do Campo Anti-imperialista –
campoantimperialista@libero.it. No dia
29 de janeiro, Sammi falou longamente sobre a atual situação no
Iraque.
O que é, precisamente, a Aliança
Patriótica Iraquiana?
A Aliança Patriótica Iraquiana
formou-se, no exterior, em 1992, como reação à primeira agressão
geral imperialista ao Iraque, com a reunião de militantes de
diversas origens, em grande parte refugiados no exterior, em geral
conhecidos lutadores políticos e sociais, que abandonaram suas
divergências em prol de programa anti-imperialista de defesa do
país. Na fundação da API, na Suécia, participaram militantes
baathistas dissidentes, pan-árabes, comunistas, marxistas,
marxistas-leninistas. A Aliança possui igualmente militantes
nacionalistas curdos, turcomanos, xiitas e sunitas, em menor número.
Em forma sintética, qual era o
programa da API?
Antes da ocupação imperialista do
Iraque, nossa grande reivindicação era a liberdade política e a
conciliação nacional que permitissem a unificação de todas as forças
patrióticas e populares contra a agressão imperialista. Para tal, em
2002, representantes da Aliança Patriótica Iraquiana procuraram
negociar com o governo iraquiano anistia geral que facilitasse a
formação de um movimento unificado contra a invasão. Com a guerra, a
direção da API decidiu o retorno de todos seus militantes ao país.
Na ocasião, decidiu-se que seriam mantidos três porta-vozes no
Exterior.
Qual o principal objetivo da API
quanto à resistência iraquiana?
Nosso movimento e nossos militantes
apóiam incondicionalmente a resistência militar à ocupação
imperialista, não reconhecendo qualquer negociação, órgão ou
instituição nascidos à sombra do poder invasor. Porém, um dos nossos
principais objetivos era e é a formação de frente política que
unifique e represente essa oposição. No desempenho desse esforço, em
4 de setembro de 2004, nosso secretário geral, Abduljabbar
Al-kubaysi, foi preso por tropas anglo-estadunidenses, que temem
fortemente essa unificação.
O
companheiro Al-kubaysi está desaparecido, não?
O companheiro Al-kubaysi é engenheiro
civil, de 58 anos, casado, com dois filhos. Antes de retornar ao
Iraque, ele viveu refugiado do regime de Saddam Hussein, primeiro na
Síria e, a seguir, por sete anos na França. Atualmente, sua família,
seus amigos e seus companheiros de luta e de idéias reivindicam que
a Cruz Vermelha e a Anistia Internacional exijam que os invasores
revelem onde está ou o que sucedeu a Al-kubaysi, já que eles negam
simplesmente a detenção, feita com operativo que envolveu dois
helicópteros, blindados e dezenas de soldados estadunidenses. Ou
seja, uma prisão feita, à luz do dia, diante de dezenas de
testemunhas. Após a ocupação, milhares de cidadãos, homens e
mulheres, jovens, adultos e idosos, foram e continuam sendo presos,
torturados e não raro, executados. O que a mídia revelou até agora é
apenas a ponta de um iceberg de dor e de terror.
Quais são atualmente as principais
forças da resistência?
Hoje, em forma geral, a resistência
militar tem três grandes vertentes. A primeira, é constituída por
núcleos de combatentes formados por militantes baathistas,
pan-árabes, socialistas, comunistas patrióticos, etc. A segunda, é
constituída sobretudo por oficiais e soldados do antigo exército de
Saddam, que não depositaram as armas e prosseguem resistindo. O
terceiro grupo é formado por militantes religiosos sunitas e xiitas.
Em geral, esses grupos foram formados por patriotas, que ingressaram
individualmente na resistência, e não devido a uma ordem superior de
um partido, de um líder, etc. São grupos esparsos, no máximo
articulados local ou regionalmente. Sobretudo por isso a API
mobiliza-se pela unificação política desse esforço patriótico.
Qual a real força dos grupos
religiosos islâmicos?
Os grupos religiosos não são mais do que
uns dez por cento de toda a resistência iraquiana. Todos os grupos
que participam da resistência têm direito ao apoio e ao respeito
total. Entretanto, nenhum desses grupos pode pretender aparecer,
diante da opinião interna e externa, com uma dimensão que não
possui, no seio da própria resistência.
O que unifica esses grupos?
Em geral, a resistência concorda com
dois grandes pontos. Ou seja, a necessidade de liberar o Iraque das
forças imperialistas de ocupação e de transformar o país em uma
nação independente e democrática, que respeite os direitos de todos,
sem exceção. Para chegarmos a isso é que reconhecemos como ilegítima
qualquer decisão e instituição nascida da ocupação militar, que
legitima os objetivos da própria ocupação.
Qual o real peso do fundamentalismo
islâmico no Iraque?
A sociedade iraquiana é uma sociedade de
grande tradição secular, multi-étnica e pluri-religiosa. No Iraque,
vivem povos de origem árabe, européia, curda, turcomana, etc., que
professam a religião cristã, judaica, muçulmana xiita e sunita, etc.
Em verdade, nenhum governo iraquiano, seja a monarquia, seja os
governos que se sucederam após a Revolução de 1958, jamais tentaram
impor um sistema único. Essa diversidade é uma das razões da
resistência à ocupação anglo-estadunidense, que tenta impor um
modelo único de vida.
Então, por que tem crescido a
importância da religião no Iraque?
As forças imperialistas pressionam
fortemente a sociedade iraquiana em direção à intransigência
religiosa e ao integralismo islâmico. Os imperialismos britânico e
estadunidense sempre apoiaram o fundamentalismo religioso, como meio
de combater o nacionalismo, o socialismo, o comunismo, o
pan-arabismo. Eles criaram e sustentam monarquias e ditaduras
integralistas muçulmanas anti-democráticas na Arábia Saudita,
Kuwait, Paquistão, etc. para explorar as riquezas dessas nações e
manter as populações submetidas. Em setembro do ano passado, Bush
declarou que não tem oposição ao surgimento de regime religioso no
Iraque. Os ataques aos direitos da mulher promovidos por Paul Bremer
devem-se a esse projeto.
O companheiro podia explicar melhor
essa questão?
Após a Revolução de 1958, a mulher
iraquiana adquiriu muitos amplos direitos, mesmo em relação ao
chamado Ocidente, no relativo ao trabalho, à educação, ao direito
familiar, ao comportamento, etc. A mulher possuía direito à educação
primária, secundária e superior gratuita. Minhas irmãs estudaram
sempre gratuitamente no Iraque. O apoio à maternidade e à mulher
trabalhadora era substancial. Minha mãe passou dois anos em casa,
após o parto, com salário integral. A mulher tinha direito a iniciar
ação de divórcio e a receber apoio econômico do ex-marido, quando
necessitava. Após o divórcio, tinha o direito incondicional de
guarda do filho até os sete anos. Apenas a seguir, era possível uma
decisão judiciária sobre a guarda da criança.
E na vida pública, administrativa?
Antes de 1990, as mulheres eram
numerosas na administração pública, ocupando em torno de quarenta
por cento dos cargos. Como parte do apoio ao fundamentalismo
islâmico, Paul Bremer promoveu os dois partidos xiitas e limitou a
participação das mulheres no governo. Mais ainda, ditou lei que
acabou com o anterior Estatuto Laico da Mulher, dando prioridade à
Charia, segundo a qual os clérigos integralistas decidem o que
querem. Com os estadunidenses, os direitos da mulher iraquiana
recuou mil anos no Iraque! Nós consideramos o ataque contra os
direitos da mulher como parte fundamental do plano de ocupação que
quer estabelecer um Estado religioso no Iraque.
Mas há também um islamismo popular,
anti-imperialista?
A resistência militar tende, igualmente,
a favorecer o fortalecimento do sentimento religioso. O partido
Baath, que sempre foi secular, e todos os outros partidos laicos que
se mobilizaram contra a ocupação, foram proibidos e reprimidos pelos
invasores. A população que se opõe de qualquer modo à ocupação,
mesmo militantes socialistas e comunistas, tendem a se dirigir
naturalmente à mesquita, que se tornou centro fundamental de ação
política.
Qual a avaliação da resistência, após
pouco mais de um ano de ocupação estadunidense?
A resistência fortaleceu-se, do ponto de
vista geográfico, estendendo-se do Norte ao Sul. No exterior,
aparece que ela se restringe sobretudo à área sunita. Em verdade, a
luta é mais forte ali onde há mais tropas estadunidenses. Do ponto
de vista étnico, todos os grupos iraquianos, sunitas, xiitas,
laicos, etc., participam da resistência. A resistência se fortaleceu
quantitativamente. A cidade de Falluja foi literalmente arrasada,
por aviões, blindados, etc., em início de novembro e, ainda agora,
em fins de janeiro, a luta continua na cidade. Rumsfeld foi obrigado
a confessar que a resistência está agora mais forte do que antes das
eleições estadunidenses. Houve também salto qualitativo, como prova
o abatimento, há dois dias, de helicóptero pesado estadunidense. Os
generais estadunidenses já reconheceram que há praticamente trinta
cidades resistindo. Há boa possibilidade de que, após a farsa das
eleições, a resistência passe a lutar pelo controle de cidades
inteiras.
Como vê as eleições? O que as forças
de ocupação procuram com ela?
Por paradoxal que pareça, a própria
farsa das eleições é concessão do imperialismo à resistência. Ao
ocuparem o Iraque, os anglo-estadunidenses declararam que
governariam por dez anos, antes de entregar o governo aos títeres.
Nessa época, a resistência apenas começava a mostrar seu punho de
ferro. Logo, os anglo-estadunidenses foram obrigados a formar o
governo fantoche e, a seguir, quando a resistência armada incendiou
o país, tiveram que promover eleições. Os ocupantes não conseguem
uma vitória militar e tentam forjar uma vitória política. As
concessões formais deveram-se também à vontade de legitimar a
ocupação, já que a própria carta das Nações Unidas exige que as
forças de ocupação se comportem segundo as leis internacionais.
Mas quais são as forças que apóiam
a ocupação imperialista?
Os dois partidos xiitas que apóiam as
eleições chegaram ao Iraque na esteira dos blindados e são partes do
plano dos estadunidenses, que darão o poder para eles, desde que
sustentem seus objetivos. Esses partidos não representam a população
xiita. O norte do Iraque encontra-se, há anos, fora do poder do
governo iraquiano. A maioria da população curda considera que os
estadunidenses podem protegê-la. A revolução de 1958 nacionalizou as
riquezas do país, golpeando duramente a burguesia comercial sunita e
xiita. Ela certamente apóia a política de privatização empreendida
pelos anglo-estadunidenses. O boicote ditado pelos USA através da
ONU, após a agressão de 1991, fez quase desaparecer a classe média
iraquiana. Alguns setores da mesma certamente procurarão se
locupletar com a nova ordem.
Quais eram as condições de vida da
população antes da guerra e do boicote de 91?
Do ponto de vista econômico e social, as
condições eram muitos boas. Porém, o mesmo não ocorria do ponto de
vista político. A Revolução de 1958 garantiu o direito à saúde, com
gratuidade do tratamento e dos remédios. A educação era grátis, do
primário à universidade. Todo mundo tinha direito ao trabalho e a um
terreno urbano ou rural, para construir uma casa, em boa parte
financiada pelo Estado. Tudo era pago com a renda do petróleo
nacionalizado. Depois da guerra estadunidense e do boicote da ONU, a
situação piorou muito, já que o governo não tinha dinheiro para
nada. Nos fatos, o boicote preparou a invasão yankee.
E atualmente, qual é a situação da
população?
Agora, depois da ocupação, quase setenta
por cento da população está sem trabalho. Falta luz, falta água,
falta trabalho, Falta, até mesmo, gasolina! E, agora, com as
privatizações, temos que pagar por tudo. O ministro estadunidense
que assumiu inicialmente a pasta da Agricultura, declarou aos
populares que reivindicavam, a cada dia, na porta do ministério, que
eles tinham que abandonar o espírito socialista, no qual o Estado dá
tudo! Os manifestantes eram trabalhadores do ministério que exigiam
os salários atrasados! Hoje todo o Estado está privatizado. Não há
mais medicina gratuita, não há mais remédios gratuitos, não há mais
educação gratuita.
Qual a avaliação sobre o movimento
mundial contra a ocupação militar imperialista do Iraque?
O movimento é fraco, comparado à
gravidade da agressão. Em geral, não se vê a seriedade do que está
acontecendo. No Iraque se está lutando pela liberdade de todos os
países e de todos os povos do mundo.
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A Grande Revolução Iraquiana de
1958
Nos
anos 1940, a revolução voltou a agitar o Oriente colonizado. Em
1943, intelectuais sírios fundavam o partido Baath –
Renascimento –, nacionalista, laico e pan-árabe, que cresceu
rapidamente na Síria, ao contrário do Iraque, onde era
fortíssimo o partido comunista. Em 14 de julho de 1958, oficiais
nacionalistas depuseram a monarquia pró-britânica. A família
real foi executada e a população tomou as ruas das cidades. Na
época, o Baath iraquiano tinha uns mil militantes. A obra
revolucionária seria profunda: nacionalização do petróleo, nas
mãos inglesas; limitação da propriedade da terra irrigada e
não-irrigada; imposto sobre os altos rendimentos; congelamento e
diminuição dos aluguéis; controle dos preços dos gêneros de
primeira necessidade; regulamentação da jornada de trabalho;
educação pública e gratuita das crianças pobres de ambos os
sexos; reconhecimento de direitos da mulher. Em 1961, a
Revolução foi vergada por golpe promovido pelo partido Baath,
apoiado pelos grandes proprietários e pelos estadunidenses. Nos
anos 1960, Saddam Hussein subiu ao poder, para, em fins dos anos
1970, impor sua ditadura e, a seguir, envolver o país em guerra
fratricida contra o Irã, a serviço do imperialismo
estadunidense. (MM) |
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