COOPERAÇÃO: natureza social do homem
realizada às margens do sistema capitalista
Organizemos nossa sociedade de modo
a garantir a todos a possibilidade de um trabalho regular que
beneficie a comunidade, o que naturalmente implicará numa
transformação radical nas atuais relações entre o capital e o
trabalho.
Peter Kropotkin
(nas prisões russas e francesas 1887) grifos nossos
1 –
Introdução
A “naturalização” da sociedade e da
ciência social pelo método positivista busca tratar dos fenômenos
sociais como naturais, objetivos, separados e diferenciados da
subjetividade. O conhecimento, nesta perspectiva, deve ter uma
validade junto à certeza sensível, o que significa que a
observação é a condição primeira de toda a especulação científica.
A inspiração racionalista fornece os subsídios para a afirmação de
que só existe ciência quando se conhecem os fenômenos por suas
relações constantes. Empirismo e Racionalismo como fontes do
método positivo.
A subjetividade, neste caso, entendida
como uma “coleção” de sensos comuns passa a ser um obstáculo à
objetividade do saber em bases científicas. A prevalência da
realidade social sobre os indivíduos, objetiva integrar as
diversidades existentes; exercer a manutenção de uma coexistência
pacífica dos indivíduos, de suas esferas coletivas, de suas
dinâmicas particulares. O próprio Durkheim admitiu que suas
proposições metodológicas eram conservadoras,
uma vez que para ele a busca da objetividade eliminava a
possibilidade de crítica a esta mesma realidade social o que
significava, no máximo, apreender suas particularidades como
dados, como “coisa”. Exigia, portanto, do sujeito uma atitude
neutra (Queiroz, 2004).
Entretanto, se buscamos ir além destas
concepções, partimos do homem enquanto ser ativo, e que, não traz
dentro de si, de forma inata, sua dimensão social. Ou seja,
entendemos que esta dimensão não é natural ou biológica. É
construída continuamente por meio de relações que os próprios
homens estabelecem entre si. É, portanto, do conjunto dessas
relações, que encontramos a essência do ser humano, que,
obviamente está longe de ser algo imutável, por que é histórica.
A massa de trabalhadores – após as
constantes transformações na esfera produtiva, efeitos de um
contexto de crise econômica – tem buscado nas organizações de
trabalho em bases cooperativas, associativas, autogestionárias,
etc., uma forma alternativa de sobrevivência. Estas organizações
aparentam ser uma manifestação inovadora, e, ao mesmo tempo,
“natural” no interior da atual sociedade burguesa, entretanto,
necessitam de um exame – para além da “naturalização” destas
experiências – à altura dos agentes que, devido às suas atuais
condições de existência, tem criado este “universo diverso” de
experiências laborativas e de contestação às políticas
neoliberais.
O objetivo deste artigo é buscar
aspectos sociológicos relevantes que se relacionam com a temática
sobre as organizações cooperativas. Como primeira aproximação,
este trabalho constitui uma tentativa de síntese das múltiplas
reflexões sobre as principais referências teóricas sobre esta
temática e, no limite, ampliar esta reflexão por meio da análise
da manifestação destas organizações no contexto brasileiro
contemporâneo.
2 – Aproximações teóricas
A miséria traz – à luz da emergência
social – para dentro do debate acadêmico, análises importantes que
destacam seus efeitos.
Pressupomos que grande parte deste debate versa sim, sobre a
emergência de alternativas de trabalho que minimizem a
pauperização crescente no mundo contemporâneo. Alternativas, que
no geral correspondem a uma melhora relativa das condições de vida
de um determinado segmento da população. Porém, entendemos que
tais alternativas reproduzem, em maior ou menor grau, a lógica do
capital e grande parte destas alternativas encontram-se à margem
das relações econômicas capitalista e que, a forma como geralmente
são constituídas, não oferecem riscos estruturais a esta dinâmica.
Há uma tendência a dar uma prevalência
aos elementos que estão na superfície destes fenômenos. Partir de
uma possível “economia social”, que, sob o jugo capitalista, só se
realiza se os indivíduos se conscientizarem de que, para
sobreviver, necessitam estabelecer laços de cooperação e de ajuda
mútua entre seus pares. O “social” do conceito de economia social,
é bastante concentrado, ou seja, para além da temática econômica,
estas alternativas de trabalho permeia aspectos culturais,
sociológicos, antropológicos e psicológicos.
Segundo Bonilla e Troudi, “la economía social adquiere la
significación de herramienta para la derrota de la pobreza no sólo
económica, sino también cultural, política, ideológica” (2004:07).
Como está à superfície, o desafio é buscar, conforme a
crítica de Vainer, “juntar coisas que se repelem e se opõem –
economia e solidariedade”, pois “não é possível construir um
projeto de solidariedade social nos marcos das leis econômicas”
(2000).
É possível que os pontos de vistas
acima reproduzam uma visão parcial do fenômeno, uma vez que,
conforme enfocaremos adiante, as cooperativas acabam por
reproduzir amplamente, no interior de suas organizações, as
relações econômicas capitalistas culminando em uma forma de
exploração do trabalho em bases cada vez mais exploradas e
precarizadas. E os agentes envolvidos de modo associado, ao
subordinar suas necessidades às exigências da produção e da
comercialização, em grande medida não reproduzem seus meios de
vida segundo relações de solidariedade e de igualdade, não porque
não querem, mas porque as condições não permitem.
Nesta perspectiva abordaremos a seguir
algumas vertentes teóricas baseadas no anarquismo, no socialismo
utópico, na social-democracia e alguns apontamentos de Karl Marx,
para nos auxiliar no exame da temática proposta.
2.1
– Anarquismo
A opção pela exposição de algumas
noções de alguns autores anarquistas tem o objetivo de inserir na
problematização do tema, alguns elementos que ora convergem, ora
divergem sobre a análise de como e porque são organizadas
cooperativas no interior da sociedade burguesa. A resposta
anarquista: “negação do princípio da autoridade nas organizações
sociais” (Faure: 1981:58), talvez não seja suficiente. Mas, ao
aliar a este princípio outros elementos importantes: a
participação ativa e direta dos trabalhadores como necessária
e fundamental; a liberdade como sendo a essência de toda
ação individual: “cada indivíduo deve forjar sua própria liberdade
e compartilhá-la com seus companheiros” (Woodcock, 1981:16), deste
modo, é do ser humano ser livre, e só poderá “resgatar” esta sua
essência se promover a igualdade. Neste caso, a igualdade
ocorre na esfera econômica, ou seja, só poderá existir se todos
(sem distinção de classes) organizar o trabalho de modo que, ao
final, todos recebam de acordo ao dispêndio de suas atividades (há
autores que sustentam a divisão eqüitativa e livre), para isto
deve haver um grau de solidariedade entre os trabalhadores e os
diversos setores da sociedade e ramos da produção e do consumo. A
solidariedade só existe se houver entre os trabalhadores um
amplo espaço educativo e formativo com o objetivo de promover um
processo de conscientização da importância do papel do indivíduo
no coletivo, no sentido de que sabedores da importância do
coletivo, os indivíduos passam a questionar realidade atual na
direção de uma sociedade baseada na autogestão. A autogestão
significa o controle da produção e da distribuição de
mercadorias pelos trabalhadores sem a intervenção do Estado. Neste
sentido, a gestão social do trabalho no interior de uma
determinada atividade produtiva busca equilibrar a sua natureza
coletiva com a reprodução dos mecanismos econômicos capitalistas.
Essencialmente o anarquismo
significa a negação da autoridade e a afirmação da liberdade. Para
toda ação individual há como premissa a autogestão social,
ou seja, a gestão da sociedade deve ser fruto da participação
direta, o que significa que a democracia participativa é
necessária e prevalente à democracia representativa. Ação
individual aqui traduzida por ação direta se realiza por
meio da propaganda, da educação e da cultura com o objetivo de
refletir e colocar em questão a autoridade do Estado sobre os
indivíduos, buscando a formação de um novo tipo de sociedade
alternativa à atual, uma sociedade que essencialmente reproduzirá
a liberdade.
Sinteticamente a luta anarquista almeja a abolição dos monopólios
econômicos, e a propriedade coletiva da terra e de todos os meios
de produção, para que estejam à disposição de todos sem distinção
de classes sociais. A liberdade só é possível se concebida em uma
base de igualdade econômica para todos.
O homem, como todos os seres vivos, se
adapta às condições em que vive e transmite, através de herança
cultural, seus hábitos adquiridos. (...) Quando o público estiver
convencido de que o governo é desnecessário e extremamente
prejudicial, a palavra “anarquia”, justamente pro significar “sem
governo” será o mesmo que dizer “ordem natural”, harmonia de
necessidades e interesses de todos, liberdade total com
solidariedade total. (Malatesta, 1981:58-59)
A nova sociedade anarquista será
construída, não só por meio da educação, mas também da criação de
fundos de ajuda mútua e de cooperativas. Estes elementos são
importantes para a constituição de espaços no interior do
capitalismo que gradualmente servirão de condutores a nova
sociedade. As bases econômicas destes elementos (fundos e
cooperativas) possuirão um sistema de distribuição (ou seja, o
mercado capitalista) voltado exclusivamente para suprir
necessidades sociais.
A
gestão comum dos meios de produção questiona o ideário
individualista. A forma como os bens produzidos serão
distribuídos, para os mutualistas, baseia-se no consumo é livre;
para o coletivismo, a distribuição será de acordo com o trabalho
realizado. Deste modo, a sociedade não será o reflexo das
atividades econômicas que a constitui, mas essencialmente estará
assentada sob os laços de solidariedade.
Para Proudhon
em uma sociedade livre, a propriedade
deve ser substituída pela posse; os mecanismos
econômico-financeiros devem ser recriados para atender as
necessidades das populações mais pobres, ou seja, é possível a
criação de um “banco do povo”.
A possessão individual é condição da
vida social. Cinco mil anos de propriedade demonstram isto. A
propriedade é o suicídio da sociedade. A possessão é um direito, a
propriedade é contra um direito, a propriedade é contra o direito.
Ao suprimir a propriedade mantendo a possessão, por simples
modificação de princípio revolucionaremos a lei, o governo, a
economia e as instituições, eliminaremos o mal da face da terra.
(Proudhon, 1981:64)
A formação de uma federação industrial
seria, segundo Proudhon, um exemplo prático de solidariedade, como
as indústrias são como irmãs, elas são
parte do mesmo corpo; nenhuma sofre sem que a outra sofra também.
Seu conjunto forma uma federação, não para serem absorvidas e
misturadas, mas para serem ordenadas no sentido de garantir
mutuamente as condições necessárias para uma prosperidade comum.
Uma harmonia que não menospreza sua condição de liberdade; pelo
contrário, dá à liberdade mais segurança e força (Proudhon,
2001:70-72).
Para
Bakunin, a
futura
organização social precisa ser construída em bases sólidas, por
uma livre associação ou federação de trabalhadores, primeiro em
seus sindicatos, depois em suas comunas, regiões, nações e
finalmente em uma grande federação, internacional e universal" e
"a terra, os instrumentos de trabalho e todo e qualquer capital
tornar-se-á propriedade coletiva a disposição da sociedade como um
todo para ser utilizada apenas pelos trabalhadores, em outras
palavras, pelas associações agrícolas e industriais. (Bakunin,
1999:112)
Para Kropotkin e Bakunin a associação
é um meio pelo qual as pessoas cooperam visando satisfazer
necessidades comuns.
Organizemos nossa sociedade de modo a
garantir a todos a possibilidade de um trabalho regular que
beneficie a comunidade, o que naturalmente implicará numa
transformação radical nas atuais relações entre o capital e o
trabalho. (Kropotkin, 1981:336)
Em uma comunidade livre, o coletivismo
pode apenas surgir em função da pressão das circunstâncias, não da
imposição de cima, mas pela livre movimentação espontânea de baixo
(Bakunin, 1999: 132).
As cooperativas abrem espaços de
trabalho pressupondo a abolição de uma autoridade hierárquica. A
formação de uma rede de cooperativas – entendendo que esta só é
possível se houver solidariedade entre os trabalhadores – poderia
gerar a formação de uma comunidade, na qual reinaria o princípio
de cooperação: cobrir riscos, bancar as despesas, distribuir
igualmente o fruto do trabalho, administrar o banco do povo, em
nome da coletividade.
Em
termos sociológicos, para o anarquismo o homem é um ser
naturalmente social, embora sobreviva sob circunstâncias nas quais
as instituições, como o Estado, segundo Woodcock, “deformam e
atrofiam” sua essência humana natural, o homem poderá reencontrar
sua natureza ao realizar ações que combinem sua condição de ser
social com a lei natural que rege o seu ser. Lei natural entendida
por cooperação. Ao reforçar os vínculos sociais em uma escala
reduzida: na comunidade, na cooperativa, na oficina, etc., é
possível ser introduzidos elementos que diminuem a distância entre
os indivíduos e o Estado – este como aquele que concentra as
funções sociais e políticas de todas as comunidades – e, em
especial, introduz a idéia de democracia participante, direta, o
que lhes dão a possibilidade de argumentar sobre a construção de
uma sociedade sem Estado.
Neste
sentido, as novas formas de luta da classe trabalhadora,
descoladas de partidos e sindicatos, passam pela organização da
autogestão social e pelo incentivo a formação de cooperativas e
associações de trabalho. Segundo Rey, ao analisar as
interpretações de Negri e Holloway, atribui a estas formas de
organização da produção social a possibilidade de um tipo de luta
política descartada de uma luta pela conquista do Estado, por
considerar esta, em si mesma, uma forma de reproduzir o poder. Ou
melhor, esta interpretação nos dá a perspectiva de que a
potencialidade autônoma das massas populares, poderá conduzir a
uma mudança radical que se dará fora das estruturas do Estado.
Ao analisar
este fenômeno, a autora sistematiza que, “aquí se engloban las
posturas tributarias del anarquismo, el comunismo libertario y el
'consejismo', en sus variantes de autonomismo, situacionismo,
'marxismo abierto', zapatismo, etc. nos artículos de Negri,
Holloway, Bonefeld, etc.” (Rey, 2003)
2.2
– Socialismo utópico
Na esteira de
Saint-Simon, o socialismo se desenvolve, mas às custas de inúmeras
divergências. Aqueles que o protagonizam consideram que a produção
é um dos objetivos essenciais à vida em sociedade, que dela
pressupõe um trabalho coletivo que não se reduz à atividade
econômica. Na primeira metade do século XIX, o socialismo surge
como resposta crítica à industrialização e às teorias que buscam
justificá-la. As bases deste socialismo se assentam em
argumentações mais de ordem moral do que econômica. Procura romper
com o individualismo da sociedade burguesa por meio da criação de
modelos alternativos de sociedade baseados no comunitarismo.
Robert Owen
foi um grande industrial e filantropo. Sua biografia registra três
momentos importantes; dirigindo as empresas têxteis de New Lanark
e a New Harmony nos EUA com métodos poucos convencionais para sua
época, como redução da jornada e promovendo uma série de ações
voltadas à regeneração moral do indivíduo; suas idéias postas em
prática nesta empresa o fizeram converter, numa segunda fase, ao
socialismo associacionista e cooperativo que, por fim, fomentaram
a organização do movimento operário.
Nos anos de 1830,
tomou contato com a teoria do valor-trabalho de Adam Smith e
Ricardo, segundo a qual o trabalhador tinha direito ao usufruto de
todo o seu produto. Valendo-se desta teoria, fundou uma grande
bolsa de trocas onde o dinheiro era substituído por “bônus de
trabalho” e os produtos eram avaliados pelo número médio de horas
necessárias para sua produção. Queria construir paralelamente ao
mercado capitalista, um sistema que, no seu modo de pensar,
continha elementos claramente socialistas. Derrotado pelo fracasso
deste seu intento, procurou fundamentar suas idéias com a proposta
de combater a crise econômica e social, através da reorganização
da sociedade sobre bases cooperativistas. Preconizava o socialismo
associacionista e cooperativo por lhe conferir uma viabilidade
econômica e social capaz de “salvar” os desempregados e os
operários pobres da miséria. Para isto, concentrava seus esforços
na “esperança de transformar as trade unions que se
constituíram espontaneamente na Grã-Bretanha, em agrupamentos
produtivos e auto-administrados” (Petitils, 1977;82).
As organizações
cooperativas foram desdobramentos das experiências de seus membros
que, no momento de crise e de profundas transformações no interior
do processo produtivo, desenvolveram os meios conhecidos que lhes
conferiram união e sobrevivência.
O owenismo
influenciou em grande medida a formação de confederações sindicais
e cooperativas, no movimento operário. A pretensão de Owen era
construir um sindicato unificado, capaz de “estabelecer direitos
supremos do trabalho” e, com a ajuda mútua e através do
associativismo, “criar um novo estado de coisas”. O contexto de
miséria dos trabalhadores ingleses, as greves, a prisão dos
manifestantes não permitiam a assimilação de uma retórica voltada
para uma “revolução nos limites da razão”, conforme Owen propôs no
Congresso Cooperativo de Londres, a “Grande União Nacional Moral
das Classes Produtivas do Reino Unido”. As dissensões entre o meio
sindical e Owen, a ofensiva conjunta do patronato e do Estado, com
a repressão direta aos trabalhadores e a imposição de sanções
econômicas a estes, levaram à dissolução das numerosas
cooperativas sindicais.
O aspecto de
reformador social de Robert Owen não se alinhava à gestação
teórica e prática das lutas de classe deste período. Um exemplo: o
movimento cartista – Associação londrina de trabalhadores para
beneficiar política, social e moralmente as classes úteis – que
foi capaz de mobilizar a classe trabalhadora, nas suas variadas
vertentes, em torno da exigência da aprovação, no Parlamento, da
“Carta do Povo” (documento redigido por Lovett em 1838), cujas
exigências visavam à democratização da ordem estatal da
Inglaterra. Incluía seis pontos: sufrágio universal masculino,
distritos eleitorais iguais, parlamentos anuais, remuneração dos
parlamentares, voto secreto e nenhuma exigência de propriedade
para pertencer ao parlamento. Os elementos mobilizadores do
movimento cartista denotavam uma distância aos esquemas utopistas
e de reforma sociais, propostos por Owen, através das comunidades
cooperativas. Segundo Thompson, estas eram vistas por este
movimento, como “uma comunidade de escravos com o objetivo de
recobrir a face miserável do país com asilos de trabalho”
(1987:384).
O owenismo
significou a coexistência de diferentes tendências intelectuais
dentro do “movimento cooperativo”. A imprecisão do pensamento de
Owen, no interior destas tendências, pôde demonstrar “mais força
que seu próprio mestre” (Thompson, 1987:399). Aliados às tradições
de sindicalismo e de ajuda mútua, a cooperação pôde favorecer a
união de racionalistas cristãos, radicais e os politicamente
neutros. Os artesãos com sonhos de economia de mercado, os
trabalhadores qualificados, com seu impulso para o sindicalismo, a
fidalguia filantrópica com seu desejo de uma sociedade racional e
planejada, os pobres, com seu sonho de terras, os tecelões, com
esperanças de autonomia; e todos aqueles com suas imagens de uma
comunidade fraterna justa, onde a “ajuda mútua substituiria a
agressão e a concorrência” (Thompson, 1987:407).
O socialismo
proposto pelo owenismo pretendia promover aldeias cooperativas,
oficinas e lojas e, por meio de um desenvolvimento educacional,
transformar o capitalismo sem nenhum embate.
Charles Fourier fez a crítica à
sociedade francesa e à “civilização” concebendo um sistema
econômico baseado na livre associação de indivíduos, capazes de se
entregar ao jogo harmonioso das paixões como reação ao
individualismo, produto do liberalismo econômico. Suas idéias
preconizavam que a libertação passional é a condição para o
progresso material e intelectual. Deste modo, desprezava as idéias
coletivistas, por valorizar que o talento individual poderia ser
recompensado segundo um sistema complexo de “elos societários”
chamados de falange, que agrupados formariam os “falanstérios” –
união da palavra falange e monastérios (Konder, 1998:12). Seriam
edifícios societários com uma arquitetura adequada à diversidade
de setores e trabalhos voltados para se produzir em harmonia.
Para o autor, sob os “falanstérios”, o
homem estaria livre de contradições e plenamente integrado com a
sociedade. O desencadeamento pacífico das paixões humanas – e não
o aspecto doutrinário e religioso do associacionismo – é a
condição primeira e o aspecto revolucionário do seu pensamento.
Propunha mudanças sociais sutis e transformações humanas
profundas, através de uma leitura do real, mesclando a sátira ao
racionalismo burguês com uma interpretação histórica e dialética.
Os que empreenderam as teorias de
Fourier fizeram adaptações que consistiram em mudanças profundas
em suas idéias. Os “falanstérios” de Fourier foram incorporados
numa perspectiva socialista reformista, reduzindo-o inclusive a
“pai incontestável da cooperação” (Poisson apud Konder,1998:56),
ou ainda como o principal teórico do cooperativismo. Além de
“pai”, foi o “profeta e o precursor genial desse sistema
econômico” (Gide apud Petitfils:1977;110). Uma posição contrária a
estas opiniões pode ser encontrada nos especialistas em Fourier,
segundo os quais a ligação existente entre seu pensamento e o
cooperativismo ocorre de forma indireta, a partir das tentativas
heterodoxas de implantação de “falanstérios” ou fazendas
societárias em alguns países, inclusive no Brasil.
As lutas sociais
propiciaram um grau de politização que transformava o que “os
utópicos” chamavam de socialismo numa extensão da democracia
política, e desdobrava teorias, até as mais idealistas, em
considerações cada vez mais pragmáticas. Foram numerosos, na
época, os socialistas que percorrem o caminho que vai do “utopismo
ao realismo, e deste ao reformismo” (Petitfils, 1977:117)
Constantin Pecquer,
Willian King,
Philippe Buchez,
e Louis Blanc
procuraram demonstrar a importância da associação operária, da
cooperativa de consumo e de produção e a participação dos
operários nos lucros das empresas – no que consiste a
auto-administração dos ramos industriais. Concentrando-os,
conforme Blanc, nas “oficinas sociais”. Estas idéias procuravam
mostrar a capacidade de retirar do que havia de concreto e
realizável nas diferentes doutrinas utópicas de sua época. Com
isto, puderam antever a conduta do socialismo reformista, na qual
somente o Estado democrático é capaz de impulsionar reformas, ou
melhor, que “a conquista democrática do poder deve anteceder a
transformação socialista da economia” (Petitfils 1977:119).
Baseando-nos no
Manifesto Comunista, segundo Marx e Engels os socialistas
utópicos se contrapõem à organização do proletariado por projetar
uma sociedade, não “percebendo no proletariado nenhuma iniciativa
histórica, nenhum movimento político que lhe seja próprio”. ao
substituir a atividade social “pela imaginação pessoal” não
reconhecem, por ser idealistas, as condições materiais de
emancipação. Buscam na moral o exemplo de reforma social e,
imaginam ingenuamente que as experiências em uma escala reduzida
poderão expandir e, por meios pacíficos transformar a sociedade.
2.3 – As
cooperativas para Marx
Enquanto forma de
organização dos trabalhadores capaz de articular a luta política e
econômica, as associações e as cooperativas revelaram sua
importância, em 28 de setembro de 1864, no manifesto inaugural da
Associação Internacional dos Trabalhadores. Redigido por Karl
Marx, destaca a importância do “movimento cooperativo” e das
fábricas cooperativas criadas sem apoio do governo, mas por
iniciativa dos trabalhadores, como parte de um processo de
reorganização dos trabalhadores após as derrotas transcorridas em
1848. Tal pressão culminou na redução da jornada de trabalho para
dez horas.
A promulgação
dessa lei pôde demonstrar que não foi um “triunfo prático mas um
triunfo de princípio”, pois pela primeira vez a
economia da classe operária derrotou, em pleno dia, a economia
política do trabalho. O triunfo completo se consolidaria sobre a
economia política da propriedade e o “movimento cooperativo” pôde
comprovar na prática que uma produção em escala era possível sem
que os meios de produção estivessem nas mãos de um capitalista. E
ainda, que o “trabalho sob as formas de emprego assalariado, de
trabalho servil e de trabalho escravo é somente uma forma
transitória e inferior destinada a desaparecer ante o trabalho
associado” (Marx, 1983b:11).
Em 1866, Marx
redigiu as resoluções da assembléia, da Primeira Internacional
Comunista sobre o trabalho cooperativo e, resumidamente, reconhece
que:
1.
O
“movimento cooperativo” é uma das forças transformadoras da
sociedade baseada em antagonismos de classe; que seu grande mérito
é mostrar que a cooperação subordinada do capital, causadora da
miséria da classe operária, pode ser superada pela “associação de
produtores livres e iguais”;
2.
Ao
se elaborar por esforços privados dos “escravos assalariados” o
sistema cooperativo, por si só, nunca irá transformar a sociedade
capitalista. Para converter a produção social num sistema amplo de
trabalho livre e cooperativo são requeridas mudanças das condições
gerais da sociedade, que nunca serão realizadas a não ser pela
transferência do poder do Estado capitalista para os próprios
produtores;
3.
Que
os operários invistam mais na criação e manutenção de cooperativas
de produção do que de consumo, porque aquelas subvertem o
capitalismo em sua base, ao passo que o consumo só o afeta na
superfície;
4.
Que
as sociedades cooperativas invistam na propaganda de seus
princípios promovendo o estabelecimento de novas fábricas
cooperativas;
5.
Para
evitar que se degenerem em vulgares companhias por ações da classe
média, todos os sócios devem receber igualmente e aos acionistas
estabelecer uma taxa de lucro baixa (Marx, 1983a:84-85).
Algumas das
concepções do programa do Partido Operário Alemão podem ser
destacadas para demonstrar como se sustentava a proposta de criar
associações e cooperativas como meio necessário para solucionar o
problema social.
O igualitarismo se
faz presente, no programa do partido, no sentido de que todos os
membros numa sociedade comunista devem receber, de forma
eqüitativa o fruto do trabalho, sendo este, a fonte de toda a
riqueza. Tal formulação é concebida no interior da esfera da
distribuição, vislumbrada como independente da esfera da produção
capitalista.
Marx, no principal
de seus raros esboços de uma sociedade comunista, fez uma crítica
profunda ao igualitarismo. Para igual participação no fundo social
de consumo, uns obteriam mais que os outros e, portanto, “o
direito não teria que ser igual, mas desigual”. Cada qual segundo
suas necessidades, seria o resultado da desaparição da divisão do
trabalho; da distinção entre o trabalho intelectual e manual; do
trabalho como primeira necessidade vital; do desenvolvimento do
indivíduo em todos os seus aspectos; do crescimento das forças
produtivas e da riqueza coletiva (Marx, 1975:237).
Dentre as
propostas do Partido Operário Alemão, a menção às cooperativas se
encontrava como meio para solucionar o problema social, com a
ajuda do Estado e sob o controle democrático do povo trabalhador,
e que delas pudesse surgir uma organização socialista de todo o
trabalho (Programa do Partido Operário apud Marx, 1975:237).
Marx, ao fazer a
crítica a este enunciado, destaca que: a organização socialista é
resultado de um processo revolucionário; o conceito de “povo
trabalhador” não é consistente para definir a composição da classe
trabalhadora que, na Alemanha, consistia numa maioria de
camponeses e não de proletários, naquele período; na noção de
democracia, apontada no Programa, não está adequada à noção de
governo do “povo trabalhador”, porque este nem está no poder e nem
se acha maduro para governar; o programa adequou as “receitas” dos
socialistas franceses e abandonou o ponto de vista do movimento de
classes, para “retroceder ao movimento de seitas”; se os operários
optam por
trabalhar coletivamente, na sua casa e numa escala nacional, isto
nada em a ver com a formação de cooperativas com a ajuda do Estado
porque, as sociedades cooperativas
só
têm valor na medida que forem organizadas pelos próprios
trabalhadores, sem estar vinculadas ao Estado e a burguesia (Marx,
1975, 237-238 grifos do autor).
2.4 – A
social-democracia
Tradição herdada
de Lassalle, a social-democracia adquiriu um caráter revisionista
das obras de Marx, a partir de Eduardo Bernstein, nos últimos anos
do século XIX. Para este autor, o socialismo não se constituía por
uma
necessidade
histórica definida na materialidade das relações econômicas do
capitalismo. E, diante de sua ‘adaptabilidade’ sua natureza
poderia ser deduzível de uma fundamentação ética e valorativa. A
realização do socialismo dar-se-ia, então, por meio da
instrumentalização de instituições presentes no próprio seio da
ordem do capital, particularmente o sindicato e a cooperativa (Del
Roio, 2000:85)
Rosa Luxemburgo
demonstrou que as propostas de Bernstein promoviam uma ruptura
entre a luta por reformas sociais e a luta pela revolução
socialista, tendo em vista que as argumentações desta teoria se
fundamentavam num programa idealista, ou melhor,
o método
bernsteiniano consiste em combater o modo de repartição
capitalista, na esperança de conseguir estabelecer
progressivamente, por este meio, o modo de produção socialista.
A transformação
socialista é para ele o efeito e não a causa da repartição
(capitalista). Portanto, não pode o seu socialismo ter uma base
econômica. Depois de ter invertido completamente as finalidades e
meios do socialismo e, por conseguinte, suas condições econômicas,
Bernstein não pode dar ao seu programa uma base materialista; é
obrigado, por conseguinte, a construir uma base
idealista(Luxemburgo, 1999:86)
Seguindo os passos
do idealismo de Bernstein, Rosa demonstrou as incongruências de
cada um deles. E, no que se refere às cooperativas de produção, há
uma clara apreensão do que elas representam para o sistema
capitalista. São “seres híbridos” porque, de dentro da economia
capitalista, são capazes de produzir de forma “socializada”, mas
estabelecem a troca de forma capitalista. Se a troca capitalista
domina a produção, por sua vez domina também o processo produtivo
nos patamares de empresa capitalista. Tal forma “socializada” de
produzir ocorre pela “necessidade de intensificar o trabalho o
mais possível, de reduzir ou prolongar as horas de trabalho, de
empregar ou não conforme a situação do mercado de trabalho”.
Resulta daí que os operários, na condição de governarem-se a si
mesmos, vejam-se no papel absolutista de patrão capitalista. É sob
esta contradição que as cooperativas de produção “morrem”
(Luxemburgo, 1999:80-81). Para enfatizar o caráter contraditório
das cooperativas de produção, Rosa cita textualmente Marx:
As fábricas
cooperativas de operários são em si mesmas, nos quadros da forma
antiga, a primeira ruptura dessa forma antiga, se bem sejam
forçadas, naturalmente, a reproduzir em tudo, na sua verdadeira
organização todos os defeitos do sistema existente (Marx, O
Capital, Tomo III, apud Luxemburgo, 1999:81).
A forma de
contornar a reprodução destes defeitos para assegurar sua
existência no interior da economia capitalista está relacionada à
existência de um mercado, um círculo constante de consumidores.
Sob estas condições, as cooperativas de consumo são capazes de
ampliar sua base, enquanto as de produção ficam limitadas ao
mercado local, de preferência de produtos alimentícios, e acabam
por constituírem em anexos das de consumo. Levando em conta seu
caráter híbrido,
as cooperativas de
produção não podem ser consideradas uma reforma social geral, pela
simples razão de pressupor a sua realização geral, antes de tudo,
a supressão do mercado mundial e a dissolução da economia mundial
atual em pequenos grupos locais de produção e de troca,
constituindo no fundo, por conseguinte, um retrocesso da economia
do grande capitalismo à economia mercantil da Idade Média
(Luxemburgo, 1999:82-83).
Deste modo, a
realização destas cooperativas (de produção ou de consumo) se
estabelece, nos limites das lutas internas por melhores mercados
consumidores; reduzindo a luta contra o capital numa luta contra
os pequenos ramos do capitalismo.
As cooperativas
apresentam, nesta perspectiva, uma importância limitada na
transformação das estruturas sociais – mas devem ser instrumento
para isto e não um fim em si. Ao se tornarem um meio e um fim, os
seus protagonistas concedem às suas conquistas imediatas uma
grande realização, sem considerar estas como produto de relações
de produção estabelecidas entre classes sociais antagônicas. Estas
formas de organização coletiva se constituem como formas de
inserção de pessoas no sistema de produção capitalista e, deste
modo, sob a crítica de Luxemburgo, o processo de formação destas
coletividades já está moldado pela estrutura do Estado burguês.
3 – Quais as
idéias que estão por trás das práticas da economia solidária?
É possível
encontrar algumas interpretações sobre a economia solidária como a
possibilidade de construir um modelo econômico que se relaciona
com a construção de uma sociedade livre, no qual busca-se
desenvolver espaços de liberdade mediante a solidariedade, a
cooperação, a ajuda mútua, que na sua dinâmica encadeie elementos
de rupturas com as relações econômicas capitalistas. No máximo,
podem exercer claras ações de resistência popular não no sentido
político mais amplo, mas uma aproximação das conceituações
teóricas que privilegiam o resgate dos valores solidários,
cooperativos e humanistas e das práticas locais e comunitárias por
meio de ações educativas e morais, cujas ações implicam promover a
libertação do homem da individualização crescente.
Este modelo
econômico organiza espaços onde as pessoas se associam para
produzir e reproduzir meios de vida segundo relações de igualdade.
Todas as organizações, cuja premissa passa pela noção de economia
solidária, buscam a socialização da riqueza e a gestão democrática
da atividade econômica.
É uma resposta à
crise no mundo do trabalho enquanto alternativa no interior do
capitalismo, na medida em que, prática e valores baseados na
solidariedade e na democracia coexistem com o individualismo e com
a desigualdade.
A economia
solidária possui um caráter histórico enquanto proposta de
reformas sociais no interior da tradição socialista. Pode-se dizer
que a concepção de economia solidária aglutina elementos que
encontramos nos ideários dos socialistas utópicos e da autogestão:
no anarquismo libertário; no trotskismo de Mandel; nos
conselhistas: Anton Pannekoek. Em suma, o associativismo e o
cooperativismo, agora transvestidos de economia solidária no
contexto neoliberal, são formas de conciliar os princípios
socialistas de redistribuição econômica com o pluralismo e o
liberalismo da sociedade democrática contemporânea.
Os debates acerca de um possível
terceiro setor
e de uma economia solidária tendem a colocar a pequena produção e
o trabalho associado como alternativas de geração de emprego e
renda, condicionando a maioria dos trabalhadores a não se
considerarem como
desempregados, ou excluídos, mas como
realizando atividades efetivas, dotados de algum sentido social.
Aqui há, por certo, um momento de dispêndio de atividade útil e
portanto positiva, relativamente à margem (ao menos diretamente)
dos mecanismos de acumulação. Mas é bom não esquecer, também, que
essas atividades cumprem um papel de funcionalidade em
relação ao sistema, que hoje não quer ter nenhuma preocupação
pública e social com os desempregados (Antunes, 2000: 113 grifos
do autor).
É importante destacar que estas
atividades compreendem uma variedade de trabalhos exercidos sob
determinações diversas. As cooperativas constituem parte destas
atividades. Enquanto forma de trabalho, organizada na pequena
produção ou na terceirização de serviços, as cooperativas podem
ser analisadas nos marcos de uma produção artesanal e/ou
domiciliar. Os trabalhadores organizados sob estas condições
acabam por ser vendedores de mercadorias e não de sua força de
trabalho. Ao trabalhar com meios de produção próprios e ao
reproduzir sua própria força de trabalho é possível que as
cooperativas criem mais-valia, ou seja, acabam por se apropriarem
do próprio trabalho excedente. Podem transformar a produção
artesanal – a cooperativa – numa pequena produção capitalista que
pode, inclusive, explorar o trabalho alheio, perder os meios de
produção e converter seus sócios cooperados em trabalhadores
assalariados ou, ainda, em mais um membro nas fileiras do
exército industrial de reserva. Estas são as tendências que
movimentam estas atividades na sociedade onde o modo de produção
capitalista predomina.
Segundo Paul Singer, a “revolução
social” começou com a introdução de instituições anticapitalistas:
o sufrágio universal, a legislação trabalhista, as cooperativas,
etc. Nesta perspectiva a economia solidária é caracterizada por
princípios opostos ao capitalismo, por meio das cooperativas, por
promover a socialização do resultado da produção e a gestão
democrática das atividades econômicas. Como se vê, segundo esta
concepção, as cooperativas são empresas socialistas, ou segundo o
autor, “implantes socialistas” (1998:131) no capitalismo. E,
ainda, a degeneração destas empresas não se deve às relações
econômicas capitalistas, mas sim situa-se na “descrença na
capacidade dos trabalhadores em gerirem suas próprias empresas”.
Administrar é uma “arte” e como tal exige experiência e prática na
gestão democrática (1998:121-133).
Sendo a principal “filosofia” dos
“empreendimentos comunitários”, a economia solidária parece
aglutinar não só uma heterogeneidade de concepções sobre
autogestão, passando pelos socialistas utópicos, pelos anarquistas
libertários, pelos conselhistas, sindicalistas, etc., como também
é possível encontrar uma ligação com a tradição durkheimiana da
escola francesa de sociologia política,
com o ativismo comunitário e com a solidariedade social.
Nesta perspectiva instaura-se uma
reflexão na qual o socialismo é tido como uma etapa, estágio, ou
ainda um processo do próprio devenir do progresso tecnológico do
processo de trabalho. O socialismo deixa de ser um processo
histórico, no qual a luta social é a sua pressuposição, para ser o
sentido que naturaliza a noção de “social” como pré-existente,
inato aos homens. E, em determinados contextos – em especial os de
crise – a existência de nichos onde predominam elementos do
trabalho coletivo são adequados e adaptados. Reproduzem relações
de produção à margem da lógica mercantil, porém sob condições
precárias e terceirizadas. Esvaem-se, nos planos subjetivo e
objetivo, as possibilidades de que a cooperativa contribua para o
incremento da organização política dos trabalhadores. Trata-se, ao
nosso ver, de um processo objetivo, embora não seja, obviamente,
irreversível, na medida em que pode ser afetado pela correlação de
forças mais ampla.