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Por
RITA DE CÁSSIA RAMOS LOUZADA
Professora do Dep. Psicologia Social e do Desenvolvimento (UFES). Doutoranda do
Programa de Pós-graduação em Psiquiatria e Saúde Mental do
IPUB/UFRJ |
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A Pesquisa em Saúde do Trabalhador no
Brasil: Anotações Preliminares
O campo da saúde do trabalhador surge,
no Brasil, durante os anos 80, com o compromisso de mudar o complexo
quadro de saúde da população. Suas origens são marcadas por
movimentos sociais que se configuram como resposta à posturas
específicas por parte das empresas e do Estado, que, em resumo,
atestam as dificuldades na adoção de políticas mais efetivas neste
campo. Além disso, a Saúde do Trabalhador aparece como questão no
bojo da luta por democracia, por cidadania e por liberdade na
organização dos trabalhadores. É de destacar também que os atores
envolvidos no campo são oriundos tanto de setores sindicais quanto
profissionais que, através de ações institucionais, atestam sua
opção pela centralidade da categoria trabalho. (Gomes-Minayo e
Thedim-Costa, 1997).
Na definição do campo “saúde do
trabalhador”, transcrita abaixo, podemos ver a influência desses
pressupostos e eventos:
[Saúde do trabalhador é] um corpo de
práticas teóricas interdisciplinares – técnicas, sociais, humanas –
e interinstitucionais, desenvolvidas por diversos atores situados em
lugares sociais distintos e informados por uma perspectiva comum
(Gomes-Minayo e Thedim-Costa, 1997:21)
Essa “perspectiva comum” resulta de uma
acumulação crítica advinda da Saúde Coletiva, especialmente da
Medicina Social Latino-americana e do Modelo Operário Italiano.
Tanto a primeira quanto a segunda tinham críticas às abordagens
funcionalistas predominantes nas décadas de 60 e 70, e vêm ampliar a
abordagem do processo saúde-doença, considerando como fundamental a
categoria trabalho.
Anteriormente à constituição do campo da
Saúde do Trabalhador no Brasil, os estudos que articulavam saúde e
trabalho vinculavam-se predominantemente à Medicina do Trabalho e à
Saúde Ocupacional. Estas, no entanto, não apresentavam instrumentos
para lidar com a chamada “organização do trabalho”, ou seja, os
ritmos, as hierarquias, os turnos, a divisão do trabalho etc. Além
disso essas abordagens propunham uma ação exclusiva sobre o
indivíduo, seja no diagnóstico seja no tratamento de problemas
orgânicos, revelando seu caráter marcadamente positivista. Esses
fenômenos – os impactos do trabalho sobre o corpo do indivíduo -
não são desconsiderados no campo da Saúde do Trabalhador, mas, para
além disso, abriu-se espaço nesta abordagem para a subjetividade,
para o saber e a percepção dos trabalhadores a respeito de suas
atividades, e passou-se a considerar tudo isso nas intervenções e
interpretações do real. (Lacaz, 1996).
Para este trabalho o
campo da Saúde do Trabalhador será enfocado a partir das práticas de
pesquisa. Objetivamos identificar os grupos que exercem esta
atividade no país a partir de dados oficiais do CNPq, tomando como
referência o mês de julho/2003.
MÉTODO
Trata-se de pesquisa documental onde
utilizou-se como fonte de dados a “base corrente” do Diretório de
Grupos de Pesquisa no Brasil, um dos recursos da Plataforma Lattes,
disponível na Internet. Uma vez acessado o banco de dados na
Plataforma Lattes, buscamos os grupos a partir do descritor “saúde
do trabalhador”.
As variáveis analisadas foram:
localização regional dos grupos, ano de fundação, instituições e
área de conhecimento em que estão inseridos, número de pesquisadores
e de alunos.
RESULTADOS
Foram identificados 53 grupos de
pesquisa que estudam o tema, ainda que não o façam de maneira
exclusiva. Quanto à localização desses grupos foi possível
observar que o sudeste apresenta maior número de grupos (n=31),
inseridos em 16 instituições diferentes. Destaque para o estado de
São Paulo com 16 grupos de pesquisa, em 9 instituições. Em segundo
lugar aparece a região sul do país com 13 grupos de pesquisa, em 10
instituições. É importante notar ainda que, excetuando-se apenas a
região central do país, todas as outras apresentam trabalho de
pesquisa neste campo (gráfico 1).
Quanto
ao ano de fundação, o Diretório indica que os dez primeiros
grupos de pesquisa criados no país foram os seguintes: Saúde
Ambiental e Ocupacional (UFBA – 1976); Segurança e Saúde no Trabalho
Rural (FUNDACENTRO – 1977); Centro de Pesquisas Epidemiológicas – (UFPEL
– 1982); Estudos Fenomenológicos sobre a Morte e o Morrer (USP –
1986); Trabalho/Produção, Ambiente e Saúde (UFRJ – 1986);
Organização do Trabalho e Saúde Mental – (UFRJ – 1988); Centro de
Documentação, Pesquisa e Formação em Saúde e Trabalho (UFRGS –
1990); Núcleo de Estudos sobre Saúde e Trabalho (USP – 1989);
Laboratório de Educação Ambiental e Saúde (FIOCRUZ – 1990) e Grupo
de Pesquisa em Saúde Mental e Reinserção Social (FUNREI – 1990).
Tabela 1 – Distribuição
de freqüência dos grupos conforme o ano de fundação
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Período |
f |
|
1970 – 1979 |
2 |
|
1980 – 1989 |
7 |
|
1990 – 1999 |
17 |
|
2000 – 2002 |
27 |
Os dados do Diretório permitem ver
também que os grupos de pesquisa encontram-se dispersos em 33
instituições diferentes, das quais 30 são instituições de ensino
superior (na maioria públicas), duas vinculam-se ao governo federal
- ligados ao Ministério do Trabalho e Emprego (FUNDACENTRO) e ao
Ministério da Saúde (FIOCRUZ) - além de uma outra ligada ao governo
do estado de São Paulo (SEADE). A USP é a instituição com maior
número de grupos de pesquisa (n=6). Logo depois aparecem FIOCRUZ
(n=5); UFRJ, UNICAMP, UFRGS (n=3); UERJ, UFPB, UFBA, UFF, UFPEL
(n=2) e todas as autoras com apenas um grupo de pesquisa (FCMSCSP,
FUNDACENTRO, FUNREI, FURB, PUCCAMP, PUCRS, SEADE, UCS, UECE, UEL,
UEM, UESB, UFAM, UFMG, UFRN, UFSCAR, UFV, UNEB, UNG, UNISC E UNITAU)
Quanto à área de conhecimento em
que os grupos se inserem, pudemos perceber que 41,5% estão na Saúde
Coletiva (n=22). Em segundo lugar aparece a Enfermagem com 9 grupos
e depois a Psicologia com 7 grupos. Vale notar também que, no
momento da pesquisa, apenas um grupo aparecia na área da Medicina.
Quanto ao número
de pesquisadores e estudantes foi constatado que os primeiros
totalizam cerca de 300. Se compararmos este número ao total de
pesquisadores existente no país – aproximadamente 60 mil - veremos
que este ainda é um pequeno contingente de pesquisadores. O
mesmo se pode dizer a respeito dos estudantes – atualmente em
torno de 200 .
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nossos achados
apontaram para uma grande concentração de grupos de pesquisa em
Saúde do Trabalhador, na região sudeste, em consonância com a
tendência geral dos grupos de pesquisa brasileiros. Além disso, foi
possível identificar que , apesar de recente, esse campo tem
mostrado tendência de crescimento no cenário científico brasileiro.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GOMES-MINAYO, C & THEDIM-COSTA, S.
(1997) “A construção do campo da saúde do trabalhador: percurso e
dilemas” Cad Saúde Pública, Rio de Janeiro, 13, suppl. 2,
21-32
LACAZ, F. A C.(1996) Saúde do
trabalhador: um estudo sobre as formações discursivas da
academia, dos serviços e do movimento sindical. Tese de doutorado.
Departamento de Medicina Preventiva e Social, Faculdade de
Ciências Médicas, Unicamp, Campinas, 435 pp.
SATO, L Prevenção de agravos à saúde
do trabalhador: replanejando o trabalho através das negociações
cotidianas. Cad Saúde Pública, 2002, v. 18, n. 5,
1147-1157.
SELIGMANN-SILVA, E. Desgaste
mental no trabalho dominado. Rio de Janeiro: UFRJ/Cortez,
1994.
SILVA FILHO, J.
F. & JARDIM, S. (orgs) A danação do trabalho. Organização
do trabalho e sofrimento psíquico. Rio de Janeiro: Te Corá, 2001 |
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