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O mito do
aperfeiçoamento profissional na Era da Informação
O
estabelecimento de uma relação direta entre o avanço tecnológico e o
aperfeiçoamento profissional dos trabalhadores em geral, parece
constituir um consenso. É uma ideai da qual ninguém parece duvidar.
Só que a realidade é muito diferente.
Em sua monumental obra sobre a Era da
Informação, Manuel Castells aborda a questão sob o título de: “A
nova estrutura ocupacional”. Em suas palavras:
“Uma assertiva importante sobre o
pós-industrialismo é que as pessoas além de estarem envolvidas em
diferentes atitudes, também ocupam novos cargos na estrutura
ocupacional. De modo geral, previu-se que, conforme entrássemos na
chamada sociedade informacional, observaríamos a crescente
importância dos cargos de administração, técnicos e profissionais
especializados, uma proporção decrescente dos cargos de artífices e
operadores e aumento do número de funcionários administrativos e de
vendas” (CASTELLS, 1999:280).
A conclusão óbvia seria a de que a
“qualidade” dos empregos melhoraria consideravelmente. Mas o que
estamos vendo não é bem isso. Castells critica “a versão
‘esquerdista’ do pós-industrialismo [que] aponta a importância cada
vez maior das profissões de mão-de-obra semiqualificada
(freqüentemente não-qualificada) do setor de serviços como
contraponto ao crescimento do emprego para profissionais
especializados” (CASTELLS, 1999:280).
Após citar várias estatísticas sobre os
EUA, Canadá, Grã-bretanha, Japão, Alemanha e França, baseando-se em
uma série de comparações, que o próprio autor reconhece serem
extremamente difíceis, dado as diferenças de definição das
denominações de cargos e funções em cada país, ele conclui:
“... sabemos de outras fontes que houve
polarização da distribuição de renda nos EUA e em outros países nas
duas últimas décadas. Contudo, não concordo com a imagem popular da
economia informacional como geradora de um número crescente de
empregos de baixo nível no setor de serviços a uma taxa
desproporcionalmente mais alta que a taxa de aumento do componente
da força de trabalho formada por profissionais especializados e
técnicos. De acordo com esses dados [as tais estatísticas], isso não
é verdade” (CASTELLS,1999:284) .
O problema com esse tipo de análise,
feita por sociólogos e economistas, é que raramente captam as
mudanças na “natureza” do trabalho, nas plantas industriais e nos
complexos de escritórios. Muitos cargos, cuja denominação permanece
a mesma, são constantemente “esvaziados” de seus conteúdos
tradicionais. E conseqüentemente, perdem valor. Daí a “polarização”
da distribuição de renda proveniente dos salários.
Nesse caso, os próprios profissionais
das áreas de tecnologia, percebem melhor o problema. Mesmo em uma
obra didática, que trata de interfaces, sensores, atuadores, etc,
destinada a alunos de cursos de eletrônica, automação industrial e
robótica, podemos ler essa observação na introdução:
“É evidente, pelo colocado até aqui, que
a automação nas indústrias gera desemprego. Milhares de tarefas,
principalmente nas linhas de produção, que antes eram executadas por
operários de certa qualificação, agora são executadas
por robôs” (PAZOS, 2002:19).
Destacamos a expressão “certa
qualificação” porque os verdadeiros especialistas sabem que essas
tecnologias não eliminam pessoas que executam tarefas rudimentares.
A própria obra mencionada, não ensina a projetar máquinas que
multiplicam a “força” dos seres humanos e sim dispositivos
eletromecânicos, controlados por circuitos eletrônicos, capazes de
substituir o “raciocínio” dos trabalhadores. Isso faz toda a
diferença.
Mas o centro da questão é muito bem
colocado por um colega (o autor deste texto é engenheiro civil) que
se dedica, entre outras coisas, ao estudo da automação industrial.
Em suas palavras:
“A polêmica tradicional sobre a questão
da desqualificação deve ser recolocada. De um lado, argumenta-se que
as novas tecnologias exigem mais qualificações por parte dos
trabalhadores, qualificação evidenciada pela necessidade de que
adquiram capacidade de abstração para poder operar determinados
tipos de equipamentos, o que implica maior educação formal. Por
outro lado, especialmente à medida que as novas tecnologias
tornam-se user friendly (“amigáveis” para o usuário), sua
difusão estaria implicando, uma vez mais, um processo de
desqualificação para uma quantidade crescente de trabalhadores”
(TAUILE, 2001:122).
Aí está à chave da questão. Até o
advento das máquinas ferramenta de controle numérico (MFCN), a
operação de um torno, por exemplo, exigia que o operário possuísse
várias habilidades, manuais e mentais. Isso porque a precisão e a
qualidade do produto final dependiam de o operário entender
perfeitamente o funcionamento da máquina.
Com a introdução das MFCN, essas
habilidades se tornaram desnecessárias. Tauile nos conta que em uma
fábrica por ele visitada, ao lado de uma máquina de eletrofusão a
fio, isolada dentro de uma grande redoma de vidro, o operador (um
fresador muito experiente), foi perguntado sobre o que necessitaria
para melhorar o seu trabalho.
O operador sugeriu que lhe dessem um
espanador, e explicou porque: “Desde ontem, ás 14 horas, quando
começou a usinagem desta peça (que ainda iria até o final do dia),
não tenho nada para fazer... pelo menos, com um espanador, posso
procurar uma poeirinha para limpar” (TAUILE, 2001:130).
Está claro que com o tempo, após a
absorção integral da nova tecnologia, esse fresador acabará por ser
de fato substituído, por alguém com capacidade apenas para usar um
espanador...
Em nossa própria experiência na área de
análise e desenvolvimento de sistemas de informação para empresas de
comércio varejista e prestação de serviços, vemos com freqüência o
aparecimento de um tipo de funcionário que apelidamos de
“caderninhos”.
Isso porque copiaram de seus colegas
mais experientes, as anotações resumidas sobre como operar um
programa, executar certas rotinas periódicas, fazer backup, “fechar”
o mês ou ano, etc. Seguem cada passo, sem entender nenhum comando, e
muito menos o porque estão executando cada procedimento, mesmo no
limitado contexto de seu departamento.
Então de onde teria surgido o mito da
“maior qualificação” profissional? É simples. Quando da implantação
de novos sistemas, sejam MFCN computadorizadas, robôs ou redes de
computadores em escritórios, os antigos funcionários são essenciais
para o sucesso da transição. Qualquer profissional de automação e/ou
informática sabe muito bem disso.
Então são selecionados os elementos mais
experientes e leais á administração, para cursos de
“aperfeiçoamento”, ou seja, aprenderão noções de matemática com
números relativos, conceitos básicos de fluxogramas e programação de
computadores. Depois o curso se completa com as instruções de como
usar as novas máquinas e/ou os novos programas.
O objetivo disso não é “elevar” o nível
do profissional e sim estabelecer uma base de comunicação entre eles
e os responsáveis pela implantação dos novos equipamentos. A idéia é
que todos falem a “mesma língua”, pelo menos por algum tempo. Esse
tempo costuma coincidir apenas com um pouco mais do que o necessário
para os devidos ajustes do equipamento, e para que as adaptações a
“cultura” da empresa, com suas particularidades, conhecimentos
práticos e específicos, acabe por ser incorporada à rotina do novo
sistema.
O profissional assim “valorizado”
facilitará a automação das tarefas desempenhadas por ele, seus
colegas e eventuais ajudantes. Depois disso, a própria rotatividade
da mão-de-obra se encarregará de eliminar, aos poucos, esses
profissionais. Completado o processo e “digerida” a nova tecnologia,
poderão ser substituídos por pessoas que dominam apenas a operação
dos equipamentos, sem entender seu funcionamento.
Vários exemplos desse processo podem ser
apresentados. É a “supervisora” de caixas eletrônicos nos bancos,
que nunca viu uma linha de programa de computador e nem tem a menor
noção de contabilidade. São os atendentes de “call centers” que
seguem um rígido “script” e prestam inúmeras informações sobre
assuntos que na verdade, desconhecem completamente.
Um exemplo dramático é a diferença entre
o antigo “rádio-técnico”, responsável pelo conserto de aparelhos de
rádio, TV e som, e o profissional de manutenção de computadores. A
maioria desses últimos, não tem a menor idéia de como funciona um
circuito eletrônico. Alguns já dispensam até o tradicional
multímetro e outros nem sabem como usá-lo. Limitam-se a trocar
placas e a reinstalar todo o software, sem jamais entender o que
“deu errado” antes.
Cursos de informática, supostamente
responsáveis pela formação de uma nova elite tecnológica, na
realidade apenas habilitam usuários para a operação de
“aplicativos”. Isso não tem nenhuma relação com domínio tecnológico,
é como aprender a dirigir carros de passeio, a única exigência é não
ser analfabeto.
Analisando as ofertas de cursos de três
empresas líderes do mercado, apuramos o seguinte: O primeiro, com
150 unidades estabelecidas em várias cidades oferece um curso de
“Qualificação em administração e informática”.
Em quatro trimestres, ensina-se o MS Office de forma engenhosa.
Associam-se noções de secretariado com o Word, contabilidade como o
Excel, vendas e telemarketing com o PowerPoint, etc. Muito útil. Mas
nenhum dos módulos aborda programação.
Um segundo, com 120 unidades, oferece 14
cursos sobre aplicativos para no fim propor apenas dois de
programação: Visual Basic e Lógica.
Um terceiro oferece 10 cursos de aplicativos, quatro genéricos
(sendo um intitulado “Como conquistar um emprego”) e de novo apenas
dois relacionados com programação.
Conclusão: Mesmo um aparente crescimento
no número de pessoas em cargos de administração, técnicos e
profissionais especializados, não significa maior necessidade de
aperfeiçoamento profissional. O fato de alguém trabalhar em uma
linha de montagem de última geração, não significa que tenha idéia
de como ela funciona.
Usuários de programas sofisticados, de
bancos de dados relacionais e de recursos de redes, não sabem
necessariamente nem o que, nem porque estão fazendo o que
aprenderam. Com exceção de uma minoria realmente especializada, e
muito bem paga, a tendência é que os demais trabalhadores sejam cada
vez mais “homogeneizados” em uma massa que sabe apenas usar recursos
tecnológicos padronizados.
Ironicamente, quanto mais “inteligentes”
forem às máquinas, mais “simplórios” podem ser seus usuários.
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