|
Por
AUGUSTO C. BUONICORE
Historiador,
doutorando em Ciências Sociais/Unicamp, membro do Comitê Central
do PC do Brasil, do conselho de redação das revistas Debate
Sindical e Princípios, do conselho editorial da revista
Crítica Marxista e diretor do Instituto Maurício Grabóis
(IMG) |
|
As peripécias de um Barão vermelho –
33 anos da morte de Aparício Torelly
“Este mundo é redondo, mas está
ficando muito chato”
Barão de Itararé.
Ele se chamava Apparício Fernando de
Brinkerhoff Torelly. Um nome pomposo para alguém que havia nascido
numa carroça, em Rio Grande, interior do Rio Grande do Sul, filho de uma índia
charrua. O próprio Torelly contou, bem humorado: "Viajava com minha
mãe numa diligência quando uma roda teve o aro quebrado. Com todo
aquele barulho, nada mais natural que eu me apressasse a sair para
ver o que se passava". Era 29 de janeiro do ano da graça de 1895.
A triste infância de Torelly, decerto,
não anunciava o humorista talentoso que faria rir gerações de
brasileiros. Logo cedo perdeu a mãe. O pai era um homem truculento e
de poucas palavras. Aos nove anos foi internado num colégio dirigido
por austeros jesuítas alemães. Apesar do ambiente repressivo, aos 14
anos elaborou seu primeiro jornalzinho manuscrito, o Capim Seco,
no qual já começava a revelar sua veia humorística.
Terminado o colégio, à contra-gosto, foi
cursar medicina em Porto Alegre, que acabou abandonando no 4ª ano.
Contam que numa prova oral, um dos professores perguntou-lhe
"Conhece esse osso?", ele disse ainda não e apertou-lhe dizendo:
"Muito prazer em conhecê-lo".
Neste período publicou poemas e artigos
em diversas revistas e passou a se dedicar exclusivamente ao
jornalismo. Fundou inúmeros e efêmeros jornais entre elas O Chico,
dedicado ao humor. Casou-se pela primeira vez com Alzira Alves com
quem teve três filhos.
Por indicações médicas, em 1925, partiu
para o Rio de Janeiro. Ali procurou a redação de O Globo. "O
que o sr. veio fazer?", perguntou-lhe Irineu Marinho. Para o qual
respondeu irônico: "Tudo, de varrer a redação a dirigir o jornal.
Creio não haver muita diferença". Foi imediatamente contratado.
Depois de alguns meses se transferiu para A manhã, no qual
passou a publicar uma coluna humorística diária intitulada “A manhã
tem mais ...”. Mas, o sonho de Apparício era ter o seu próprio
jornal. Em menos de um ano deixou A Manhã para fundar outro
periódico intitulado ironicamente A Manha – um órgão de ataque
... de risos. Este vem ao mundo no dia 13 de maio de 1926 – uma
forma encontrada de homenagear a abolição da escravidão e a sua
própria.
O jornal foi um sucesso e transformou-se
numa referência do novo humorismo jornalístico. Ele utilizou, pela
primeira vez, da fotomontagem para ridicularizar os governantes de
plantão e as elites brasileiras. Apesar da boa repercussão inicial,
a situação financeira se agravou rapidamente. Entre os anos de 1929
e 1930 teve que circular como encarte do jornal Diário da Noite,
pertencente a Assis Chateaubriand. Naquela conjuntura de crise
política, colocou-se então ao lado dos revoltosos da Aliança
Liberal, encabeçada por Vargas.
Em homenagem àquela que deveria ter
sido, e nunca foi, a maior batalha da “Revolução de 1930” se
auto-intitulou Duque de Itararé. Mais tarde, dando prova de extrema
modéstia, rebaixou seu título para Barão de Itararé. Nesta região de
São Paulo havia se concentrado o grosso das tropas legalistas que
deveria deter as forças revolucionárias que vinham do sul. Mas, os
generais acabaram destituindo o presidente Washington Luís e não
houve batalha alguma. As tropas comandadas Vargas simplesmente
contornaram as de São Paulo e seguiram triunfante ao Rio de Janeiro,
onde amarraram seus cavalos no Obelisco.
Porém, o namoro com o novo regime durou
pouco. Logo Aporelly – agora Barão de Itararé – voltou a suas
baterias contra o governo revolucionário de Vargas. Gostava, por
exemplo, de chamar o poderoso general Góes Monteiro de general Gás
Morteiro. Trocadilhos como estes lhe custou a primeira prisão, ainda
em 1932.
No final de 1934 fundou o Jornal do
Povo – publicação antifascista e com forte influência comunista.
Durou apenas 10 dias e foi o centro de um escândalo político. Na
suas páginas o Barão publicou uma série de artigos sobre a vida de
João Cândido, o Almirante negro que comandou a revolta dos
marinheiros em 1910. Isto foi encarado como uma afronta a Marinha de
Guerra brasileira.
A sede do jornal foi invadida, o Barão
seqüestrado, violentamente espancado e teve seus cabelos cortados
por oficiais daquela arma. Isto acarretou protestos por todo o país,
inclusive na Câmara dos Deputados. Os agressores jamais foram
punidos. Sem perder o humor, o Barão achou aconselhável mudar a
tabuleta na entrada de seu escritório. A nova inscrição dizia
simplesmente: “entre sem bater!”.
A principal vítima do Barão era os
integralistas de Plínio Salgado. Gostava de dizer que,
acidentalmente, quase entrou para as hostes dos “camisas verdes”,
quando ouviu um deles gritando “Deus, Pátria e Família”, pois havia
entendido: “Adeus pátria e família”. Ele era um inimigo do
militarismo e do belicismo tão em voga naqueles anos turbulentos,
que já anunciavam uma segunda guerra mundial. Gostava de dizer:
“Como se chama o assassinato de uma criancinha? Infanticídio. E o
assassinato de uma porção de criancinhas? Infantaria”.
Ao lado do perigo de uma guerra
iminente, crescia a ameaça do domínio planetário do nazi-fascismo.
Por isso mesmo o Barão foi um ativo organizador e militante da
Aliança Nacional Libertadora. Após o levante armado, comandado por
Prestes, ocorrido em novembro de 1935, foi preso novamente e ficou
encarcerado até o final de 1936. Primeiro no navio-presídio Dom
Pedro I e depois na Casa de Detenção do Rio de Janeiro, ao lado de
nomes como Graciliano Ramos. No Dom Pedro I deixou crescer uma
barba a la Dom Pedro II. Esta passaria a ser uma das marcas
registradas do Barão.
Dizem que quando o juiz federal lhe
perguntou por qual motivo acreditava ter sido preso, ele afirmou
que, possivelmente, teria sido graças ao cafezinho. Diante do juiz
perplexo explicou: sua falecida mãezinha o havia avisado para tomar
cuidado com o excesso de café. Justamente naquele dia ele havia
parado num bar e tomado oito xícaras e, assim, a polícia conseguiu
prendê-lo. O Barão era um daqueles que perdia um amigo (e a
liberdade), mas não perdia uma boa piada.
No seu livro Memórias do Cárcere,
o mestre alagoano, descreveu o convívio com o velho Barão. Sempre
alegre, buscando animar seus companheiros de infortúnio e
aparentando um otimismo a toda prova. Mas, nesta mesma obra, podemos
notar a amargura sentida por este homem nas noites sombrias da
prisão, que mais parecia um campo de concentração. Talvez para ele,
mais do que para qualquer outro, a cárcere tenha sido uma
experiência atroz. O sentimento de desolação era aumentado pela
morte de sua segunda esposa, ocorrida enquanto estava preso, e pela
preocupação com seus filhos que estavam entregues a um amigo pouco
confiável.
O Barão foi solto em dezembro de 1936 e,
imediatamente, reorganizou A manha. Novamente ela se
transformou numa trincheira na luta contra o fascismo e seus
representantes no país. O golpe do Estado Novo, em dezembro de 1937,
impediu a continuação de um jornal tão irreverente. O Barão teve que
buscar outro “ganha pão” e foi trabalhar no Diário de Notícias,
no qual ficaria por cerca de seis anos. A repressão política
continuava seguindo seus passos. Em janeiro de 1939 voltou a fazer
uma breve visita à carceragem da polícia política de Vargas. Em 1940
perdeu a sua segunda esposa num parto mal sucedido. Menos de quatro
anos depois morreu uma das filhas de seu primeiro casamento, vítima
de complicações pós-operatórias. Nuvens sombrias encobriam a vida do
humorista.
Incansável, em 1945 encabeçou
abaixo-assinado exigindo liberdades democráticas. No mesmo ano
voltou a editar A Manha. O clima político marcado pela
democratização do país era amplamente favorável a uma publicação
daquele tipo. Entrou de cabeça na campanha eleitoral do Partido
Comunista do Brasil. A vitória do PCB, que elegeu 14 deputados
federais e um senador, encheu-o de alegria.
No início de 1947 seria ele próprio
candidato a uma cadeira na Câmara Municipal do Distrito Federal. A
cidade vivia uma constante falta de água e nas padarias os
proprietários adicionavam água no leite, burlando a lei e
prejudicando os pobres fregueses. Por isso, decidiu que seu lema de
campanha seria “mais leite, mais água e menos água no leite”. Foi
eleito vereador pela chapa comunista e passou a compor a maior
bancada do legislativo municipal. Afirmou Prestes: “o Barão com seu
espírito não só fez a Câmara rir, como as lavadeiras e os
trabalhadores. As favelas suspendiam as novelas para ouvir as
sessões da Câmara que eram transmitidas pelo rádio”.
Naqueles dias memoráveis, quando
circulava pelos corredores do Senado, encontrou o ex-ditador,
Getúlio Vargas. Este, sorridente, se dirigindo a ele exclamou: “Até
tu, Barão?”, E ele, sem pestanejar, respondeu irônico: “Tubarão é o
senhor, eu sou apenas o Barão de Itararé”. Por outro lado, a
oposição liberal-conservadora criticava a constante mudança de
posição dos comunistas em relação a Vargas. Sem perder a compostura
respondeu aos críticos: “Não é triste mudar de idéias; triste é não
ter idéias para mudar”.
O registro do PCB foi cancelado em maio
de 1947 e, em janeiro de 1948, os parlamentares comunistas foram
cassados. Entre as vítimas deste ato arbitrário estava o Barão. Ele
afirmou solene: “saio da vida pública para entrar na privada”. Neste
mesmo ano, devido à repressão política e a crise financeira, A
Manha deixou de circular. A situação ficou feia para o seu lado.
“Devo tanto que, seu chamar alguém de ‘meu bem’ o banco toma”,
escreveu.
Na pendura, se uniu ao cartunista
Guevara e lançou o Almanhaque – ou Almanaque d’A Manha.
O sucesso levou-o e reorganizar o jornal desta vez na capital
paulista. Mas, a alegria durou pouco e em 1952 deixou de circular
definitivamente. O fim de A manha não significou o fim da
carreira do velho Barão. Ele passou a colaborar com o jornal A
Última Hora e lançou ainda dois Almanhaques em 1955.
Diante da crise que ameaçava derrubar Getúlio em 1954 lançou a frase
que fez carreira entre os comentaristas políticos: “Há qualquer
coisa no ar, além dos aviões de carreira”.
Em 1955 casou-se pela quarta vez. Pouco
depois ocorreu uma nova tragédia. Sua esposa se suicidou. A morte
parecia acompanhá-lo, buscando retirar dele toda a alegria. Já
cansado e doente voltou para o Rio de Janeiro. Sua última velhice
passou sozinho e doente num pequeno apartamento. Estava pobre e
quase esquecido. Dedicava-se aos estudos matemáticos e a
numerologia. Parecia que tinha dificuldades a se adaptar as rápidas
transformações pelas quais passava seu país. Seus olhos,
possivelmente, viam com tristeza a constituição uma modernidade
capitalista associada à miséria e ao autoritarismo. Vivíamos o auge
ditadura militar. A boca pequena se dizia que ele enlouquecia
dia-a-dia.
Mais do que nunca uma de suas máximas
favoritas traduziria seus sentimentos mais profundos e a trágica
situação em vivíamos: “Este mundo é redondo, mas está ficando muito
chato”. No dia 27 de novembro de 1971 falecia o Barão de Itararé.
Uma amiga afirmou: “Morreu sozinho para que não sofressem por ele”.
Poucas pessoas compareceram ao seu enterro e um jornalista apressado
afirmou, sem graça, que os tempos do velho Barão já haviam passado.
Será mesmo? Eu, ao contrário, diria que talvez os tempos do velho
Barão ainda não tenham chegado.
Escreveu ele: “Nunca desista de seu
sonho. Se acabou numa padaria, procure em outra”. É isso aí, Torelly.
As padarias do mundo ainda parecem infinitas. |
|

|