Por JOÃO FÁBIO BERTONHA

Doutor em História (UNICAMP); docente na Universidade Estadual de Maringá (DHI/UEM)

 

A União Européia e a Turquia: uma nova identidade para a Europa?

 

EuropaNo último mês, a discussão a respeito da entrada da Turquia na União Européia espalhou a discórdia entre os vários governos europeus e também na opinião pública do continente. Os defensores e os adversários da candidatura turca já se mobilizam na França e a questão se tornou tema de campanha eleitoral na Alemanha, na Áustria, na Hungria, em Chipre e em outros países.

A respeito desse tópico, o primeiro ponto a se refletir são os interesses turcos nessa adesão. Afinal, não resta dúvida que a entrada turca na União Européia será, no máximo, tolerada, e que os turcos são, portanto, convidados indesejados. Por que os turcos insistem na sua candidatura quando está claro que eles não são bem vindos e boa parte da sua própria sociedade não considera essa adesão uma boa idéia?

Parece evidente que as elites turcas avaliam a sua entrada na União Européia a partir de seus interesses concretos. Pertencer à União Européia significa fazer parte de um dos mais bem sucedidos processos de integração de sociedades e economias das últimas décadas. Os turcos teriam acesso ao mercado europeu (no qual a economia turca já está bastante inserida), seus fundos de apoio aos países pobres e à uma moeda forte, o euro, com todas as vantagens daí decorrentes. Do mesmo modo, a adesão significaria um reforço de importância para o secularismo turco. Ao contrário do que escreveu Samuel Huntington anos atrás, portanto, a busca turca pela Europa não é um caso de miopia de líderes querendo algo impossível, mas uma análise ponderada de benefícios e perdas. E as elites turcas, ao menos hoje, parecem considerar que os primeiros superam largamente as segundas.

Para a Europa, aceitar a Turquia é extremamente complicado. Realmente, parece claro que, para a União Européia, seria muito mais conveniente que a Turquia e outros países muçulmanos da bacia do Mediterrâneo (como o Marrocos, a Tunísia e outros) aceitassem fazer parte de uma união doganal com a Europa, o que criaria um espaço econômico comum e uma área de influência européia sem que esses países participassem efetivamente das decisões do núcleo de poder europeu. A Turquia sempre se recusou a isto e busca, a décadas, a sua associação ao bloco. Por todos esses anos, a Grécia, em conflito com a Turquia por problemas de fronteira e pela questão de Chipre e, em alguns momentos, a Alemanha, exerceram o papel de “carrasco”, vetando sistematicamente os pedidos de adesão turcos.  Todos os outros países europeus lamentavam, mas, em última instância, ficavam aliviados.

No entanto,  à medida que as relações greco-turcas melhoraram e a União Européia abriu os braços para as muito mais recentes candidaturas dos países do Leste Europeu (deixando os turcos indignados), foi se tornando difícil continuar a adiar uma resposta definitiva, positiva ou não, o que conduziu a este momento de decisão.

Há vários argumentos a favor e contra à entrada da Turquia na União Européia, mas, como escreveu Gilberto Dupas em brilhante artigo publicado recentemente na revista “Panorama da Conjuntura Internacional”, todos eles são claramente do tipo “copo meio cheio, como meio vazio”, dependendo do lado em que se está.

Na geografia: a Turquia é um país essencialmente asiático, longe da história comum européia. Por outro lado, é sempre possível argumentar que ela sempre teve um pé na geografia e na história européias. Na economia: a economia turca ainda é subdesenvolvida e vai representar um dreno nos recursos comunitários. No entanto, não o são igualmente as economias de Chipre, Letônia ou Eslováquia, já admitidas na União?

No campo político, seu histórico de direitos humanos (especialmente no que se refere às mulheres e às minorias étnicas, como os curdos) é realmente negativo e seu sistema político ainda é dominado pelos militares, mas a Turquia é a nação mais ocidentalizada e laica do Oriente Médio e sua entrada na União poderia acelerar ainda mais a sua transformação.

Na demografia, os turcos trariam a sua vasta e crescente população à Europa, ajudando a aliviar a crescente redução do número de europeus. Os turcos, contudo, são culturalmente diferentes dos europeus e seria um pesadelo para muitos habitantes do velho continente ver dezenas de milhões de turcos se instalando em Paris, Londres ou Dusseldorf. Além disso, em poucos anos, a Turquia será o país mais populoso da União, superando a Alemanha, o que romperia todos os equilíbrios de poder dentro da Europa e seria visto, por muitos, como uma nova conquista otomana do velho continente.

Por fim, a ativa política externa turca no Oriente Médio (que busca ampliar o espaço de Istambul nas áreas de língua turca da ex-União Soviética, isolar a Síria via aliança com Israel e se contrapor ao Irã) poderia levar a União Européia a se envolver em sérios problemas geopolíticos numa área instável do globo. No entanto, a sua força militar vasta e bem treinada seria um reforço mais do que bem vindo ao poder europeu no momento em que se busca uma política de defesa comum.

Em resumo, argumentos de lado a lado não faltam e, num certo sentido, todos estão corretos. A diferença central, a meu ver, está entre aqueles que defendem que,  apesar das desvantagens, vale a pena tentar absorver a Turquia e outros que consideram que, apesar das vantagens potenciais, é melhor mantê-la fora.

Os problemas de sistema político, econômicos, demográficos e estratégicos são realmente verdadeiros e, se um dia, outros países de peso, como a Ucrânia ou a Rússia, tentarem entrar na União Européia, eles reaparecerão. No entanto, o caso turco tem um agravante maior: o fato dos turcos não serem racialmente europeus e nem cristãos.

A resistência européia a absorver dezenas de milhões de muçulmanos não brancos está subentendida em todo o processo, mas, por ser politicamente incorreto, tenta-se manter esse elemento permanentemente embaixo do tapete. Mas ela é uma das chaves do problema, inclusive porque, conforme a resposta que seja dada ao pedido turco, a Europa terá que começar a definir  até onde irão as suas fronteiras e, mais grave ainda, qual a sua identidade, algo tão complexo e perigoso que ninguém ainda conseguiu responder.  Onde começa e onde termina a Europa e o quais os requisitos para fazer parte do clube, para ser “europeu”?

Uma possibilidade é imaginar que a Europa está restrita à raça branca e aos povos cristãos, como tantos defendem, mas isso geraria imensos conflitos com as populações não brancas e não cristãs que já vivem na Europa, além de outros com os Estados vizinhos, como a própria Turquia e os do Norte da África. Além disso, se europeu é sinônimo de cristão de raça branca, o que impediria, então, que Argentina, Canadá ou Costa Rica (países onde brancos cristãos predominam) pedissem ingresso na União? Hipótese remota, mas que demonstra como é complicada a definição da identidade e das fronteiras européias.

Seria também possível imaginar a União Européia como a metade do Ocidente mais preocupada com os direitos humanos e menos à direita do que a sua contraparte, ou seja, os Estados Unidos. No entanto, não apenas a definição de onde começa e onde termina o Ocidente é complexa, como essa definição política, além de temporalmente datada (pois a era conservadora nos EUA deve terminar algum dia),  abriria ainda mais as possibilidades para a Europa se estender ao infinito. Afinal, supondo que todo o planeta se torne democrático e progressista (o que é pouco provável, mas não impossível), todo o mundo poderia ser parte da União Européia? China, Índia, Arábia Saudita membros plenos da EU? Nesse caso, a Europa seria tudo, mas, ao mesmo tempo, não seria nada.

É provável que a futura definição da Europa acabe por mesclar esses componentes. A geografia deve pesar e a  Europa, possivelmente, se definirá como um condomínio de nações de origens cristãs e ocidentais, defensoras do desenvolvimento econômico, da democracia e dos direitos humanos, mas restrita ao espaço  entre os Urais e o Atlântico, com o norte da África e o Oriente Médio como áreas de influências. No entanto, ninguém tem absoluta certeza do que acontecerá e é essa certeza que torna o problema turco tão espinhoso. O pedido de adesão da Turquia não implica em imediata definição das coisas, mas já começa a conduzi-la, o que é incômodo para muitos.

Para os europeus, na verdade, seria conveniente deixar esse problema em aberto ainda por algum tempo, a espera de que a futura Europa se definisse. Seria ainda melhor  que os turcos aceitassem o papel de “ponte” entre a União Européia e o mundo islâmico, mas sem pretender uma adesão plena. Isso não ocorreu e não espanta, pois, a intensa discussão no velho continente a respeito.

 

 

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