Por ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI

Doutorando em Ciências Sociais na Universidade de Osnabrück – Alemanha

 

A atualidade da leitura

 

“Uma das heranças mais perniciosas da Ilustração foi, precisamente, a de pensar que o novo é sempre melhor”

 (Atílio Borón).

 

Uma das características que, certamente, chamam a atenção de um estrangeiro na Alemanha é o hábito de leitura do povo alemão. Nos trens, nas bibliotecas, nos cafés, nos bosques e parques é normal encontrar pessoas lendo. Com o intensivo período de inverno e a permanência prolongada das pessoas dentro de casa, a leitura é uma atividade que continua atraindo muitas pessoas. Na lista de livros mais lidos figuram, especialmente, romances, histórias de sucesso de pessoas famosas e, é claro, os campeões de vendas como O Senhor dos Anéis e Harry Potter. Por outro lado, é impressionante como a jovem geração alemã conhece pouco acerca de seus grandes pensadores. Na universidade, não são raros os momentos em que estudantes manifestam um completo desconhecimento das obras clássicas de filósofos alemães, de reconhecida contribuição universal à humanidade.

Nos mercados de artigos usados da Alemanha é comum encontrar pessoas vendendo livros valiosos, muitas vezes pertencentes a familiares já falecidos ou, simplesmente, encontrados no lixo por pessoas que, através da venda dessas mercadorias usadas, encontram uma fonte de renda adicional. Livros bons e baratos podem ser encontrados com facilidade, seja através da compra direta, de antiquários ou mesmo através de um mercado virtual de usados, onde vendedores e compradores negociam através da Internet. Em especial, despertam a atenção as obras marxistas que, depois do desmoronamento da União Soviética e da queda do Muro de Berlim, são fáceis de encontrar em grandes quantias e a preços extremamente baixos. Se perguntamos pelo motivo que leva as pessoas a venderem esses livros, obtemos a simples resposta de que eles “já não são mais atuais”. Mas, qual seria o critério para definir a atualidade de um livro ou de uma teoria nele representada?

É claro que cada teoria deve ser entendida no contexto em que ela é formulada. Assim, também os livros e a preferência dos leitores revelam um contexto, um momento histórico de determinada sociedade, seus valores, utopias e perspectivas. Diante da alta taxa de desemprego, insegurança e angústia de muitas pessoas, podemos compreender a procura por leituras que possam oferecer alguma resposta concreta a indivíduos que almejam sucesso profissional no mundo competitivo ou que, ao alimentar o desejo improvável de realização, ao menos permitam o “mergulho num mundo isolado dos problemas cotidianos”. O crescente desinteresse por obras clássicas e a rejeição de leituras críticas por parte da maioria da população revelam, no entanto, um problema mais profundo da sociedade alemã: a ausência do debate político com vistas à transformação da realidade social, cujos sintomas mais claros se evidenciam através da desesperança da maioria das pessoas com relação ao futuro.

Se compararmos a sociedade atual com as anteriores, certamente podemos concluir que a humanidade avançou em muitos sentidos, mas a produção e o debate teórico estão em decadência. Para uma minoria privilegiada, a vida certamente nunca esteve tão boa. Para imensas camadas sociais, entretanto, as quais continuam sem acesso aos direitos básicos de se alimentar, de morar, de vestir, estando submetidos à violência cotidiana e aos regimes mais cruéis de exploração que a humanidade já conheceu, a realidade certamente é muito diferente. Para uns, a “civilização”; para outros, “a barbárie” – dois mundos que dificilmente se encontram. Quem participa de um tende a negar a existência do outro e alguns intelectuais vêm-se posicionando duramente contra as tentativas de descrição da barbárie por parte de seus colegas críticos, afirmando que a atual geração dispõe das melhores condições de vida da história da humanidade. Evidentemente, as potencialidades de emancipação social que a atual sociedade oferece são inúmeras. Mas, a abundância de uns – que contrasta com as condições miseráveis de outros – é um fenômeno que passa a se generalizar também para o chamado Primeiro Mundo. Autoridades políticas vêm sendo alertadas para a necessidade de criação de mecanismos que impeçam a entrada dos pobres nesses países e isso em plena época de “abertura de fronteiras entre as nações”.

Se, nesse contexto, e com os recursos que a atual geração dispõe para refletir sobre a realidade social, a produção teórica, se comparada a gerações anteriores, é medíocre, só podemos visualizar o agravamento dessa situação se levarmos em conta a ocupação literária da assim chamada elite acadêmica. Afinal, como poderíamos entender a complexidade desse mundo desprovido do acúmulo crítico da análise social? Como interpretar os conflitos sociais sem a utilização de categorias fundamentais como a luta de classes? Como avançar na construção de alternativas de resistência ao capital sem procurar compreender a sua lógica? Como formular teorias atuais desprezando o pensamento clássico, suas contradições e as lições do debate histórico da humanidade?

O desprezo do conhecimento crítico acumulado e sua refutação sob a alegação de inutilidade no mundo atual têm contribuído para a consolidação de uma interpretação fatalista dos problemas sociais e para a ausência de utopias. A dificuldade de operar com categorias teóricas para a compreensão da realidade e a reduzida capacidade de discernimento entre teorias vem conduzindo a uma visão mistificada da realidade, terreno fértil para a reprodução da ideologia e da dominação. Paradoxalmente, a busca desenfreada pelo “novo” vem reforçando a hegemonia de antigos pressupostos do liberalismo, assim como a rejeição da possibilidade de superação da sociedade capitalista serve de substrato à passiva aceitação do desmonte do Estado de bem-estar social que está em curso na Alemanha. Permanece a constatação histórica de que na ausência de “saudade do futuro”, o que se consolida é o retorno acrítico ao passado.

 

 

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