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Educação Mineira em Tempos Difíceis
1.
O Estado como criador de ambiente para o
fluxo de capital
Em seminário organizado por Luis Carlos
Bresser Pereira, quando ministro da administração e coordenador da
reforma de Estado, o sociólogo Manuel Castells afirmou que o papel
do Estado havia sido redefinido no final do século XX. Segundo este
autor
Seu papel essencial consiste em receber
e processar os sinais do sistema global interconectado e adequá-lo
às possibilidades do país, deixando que sejam as empresas privadas
que assumam o risco (...). A incapacidade do Estado para decidir por
si só, em um mundo em que as economias nacionais são globalmente
interdependentes, obriga a adaptação de regulações inaplicáveis
(...). Assim, surge um novo tipo de Estado, que não é o
Estado-nação, mas que não o elimina e sim o redefine. O Estado que
denomino Estado-Rede se caracteriza por compartilhar a autoridade
(ou seja, a capacidade institucional de impor uma decisão) através
de uma série de instituições.
Mais adiante, este autor sugere que o
Estado deveria assumir uma tarefa de facilitação, limitando à
indução do desenvolvimento a partir de instrumentos de informação e
adequação do ambiente econômico a partir do fluxo de capital
internacional.
Desta proposição nascem práticas
estatais específicas, a saber:
a) a
criação de arenas de negociação de políticas públicas, que podem se
transfigurar em fóruns consultivos ou câmaras setoriais, onde
interesses privados e políticas estatais se ajustam;
b) uma
exacerbada preocupação com o controle do déficit público,
adotando-se a lógica administrativa empresarial para coordenação da
execução orçamentária estatal;
c) incorporação
de indicadores de avaliação do mercado (como Embi+ e relatórios de
investimento de agências de consultoria aos grandes investidores
internacionais) para definição ou ajuste de políticas
macroeconômicas;
d) subordinação
das políticas sociais às políticas macroeconômicas e ajustes
microeconômicos;
e) interlocução
política do Estado limitada aos agentes políticos
institucionalizados que garantem governabilidade no campo
Legislativo.
Tais práticas específicas sugerem uma
ação profundamente pragmática que reorienta políticas públicas e
subordina as políticas sociais e as principais organizações sociais
que mobilizam e ordenam tais demandas. A sociedade civil, em outras
palavras, perde grande expressão política para a condução das ações
estatais.
Em muitos casos, tal paradigma acaba por
impor uma prática auto-referente dos gestores públicos, diminuindo o
escopo do Estado: de instituição pública à organização
auto-referente. O discurso utópico se decompõe nas arenas criadas
pelo Estado, emergindo um discurso exclusivamente técnico, cujo
objetivo é a própria manutenção do Estado e sobrevivência do bloco
político que o dirige, além da facilitação do fluxo de capital no
mercado interno.
Assim, em termos de projeto social,
vivemos tempos difíceis, que atingem todo ideário estatal,
abrangendo toda gama de partidos políticos brasileiros. A década de
90 do século passado forjou este paradigma que se espraiou pelo
país, irradiou-se pelos partidos e envolveu um sem número de
organizações não-governamentais.
A pauta social passou a ser concebida a
partir de três princípios:
a)
A já citada subordinação
ao controle fiscal;
b)
A redução de seu escopo,
de políticas universais à política focalizada;
c)
À moeda política de
negociação com segmentos sociais que exercem pressão política sobre
agências estatais.
No caso das políticas sociais mineiras,
este receituário vem ajustando a ação governamental. O anúncio do
corte orçamentário da área educacional no início do atual governo
estadual, que surpreendeu até mesmo os dirigentes da Secretaria
Estadual de Educação, a ausência de qualquer definição orçamentária
de aplicação de recursos do Tesouro Público Estadual aos fundos
especiais (como o Fundo da Infância e Adolescência) e a reduzida
parcela do orçamento público direcionada à Secretaria de
Desenvolvimento Social e Esportes, revelam uma orientação
administrativista de subordinação das políticas sociais.
É a partir desta reorientação que é
possível compreender a Avaliação de Desempenho Individual desfechada
pelo governo estadual. Em julho deste ano, todos órgãos da
administração pública estadual submeteram-se ao sistema de
avaliação. Na prática, o servidor que obtiver nas avaliações dois
conceitos sucessivos ou três conceitos interpolados de desempenho
insatisfatório em cinco avaliações consecutivas, poderá ser demitido
do seu cargo de provimento efetivo a partir de processo
administrativo instaurado. No caso de desempenho satisfatório, o
funcionário receberá adicional de Desempenho Individual. A avaliação
do serviço público é um direito social e um dever do governante.
Mas, justamente porque é um direito social, do cidadão, a concepção
do sistema de avaliação adotado parece revelar pouco interesse de
envolvimento direto da sociedade civil. No caso educacional, como
veremos mais adiante, esta ausência ou lacuna é ainda mais grave,
porque não adota o princípio da relevância social das ações
educacionais implementadas (para além dos conceitos tradicionais de
eficiência, eficácia e efetividade).
O cunho administrativista e financeiro
da condução das políticas sociais e sistemas de avaliação do serviço
público parecem ignorar alguns dos dilemas educacionais mais citados
por especialistas da área:
a) a
premissa da universalização do ensino básico versus o
crescente analfabetismo funcional dos alunos;
b) as
premissas pedagógicas das recentes reformas educacionais
(principalmente, ocorridas ao longo dos anos 90) versus a
permanência de estrutura administrativa, de tempo e processo
decisório nas escolas públicas e sistema de controle e mediação;
c) a
definição estatal da escola como espaço privilegiado de
desenvolvimento de integração social e comportamentos democráticos
versus a deslegitimação social acelerada por que passa esta
instituição;
d) a
explosão das atribuições escolares versus a desritualização
paulatina das salas de aula;
e) o
distanciamento acelerado da formação universitária e práticas e
dilemas escolares;
f) o
distanciamento gradativo da família na condução da educação básica
de crianças e adolescentes;
g) a
ruptura entre grau de instrução e emprego;
h) a
formalização e esvaziamento das práticas participacionistas
(envolvendo pais, alunos, funcionários, professores e comunidade do
entorno escolar) nas escolas.
Em tempos difíceis, como os atuais, a
escola e a educação estatal se apartaram da sociedade. Passaram a
ser tema de resultado administrativo, gerencial. Subordinaram-se ao
saneamento das finanças públicas. Revestiram-se de aura técnica,
operacional, gerando novas nomenclaturas e técnicas burocráticas,
pouco ou nada relacionadas aos dilemas de quem vive a sala de aula,
de quem, muitas das vezes, empenha seu futuro e sua esperança de
vida melhor no cotidiano dos corredores escolares, nos escaninhos
das salas de professores, nos intermináveis seminários e avaliações
sistêmicas. A educação, assim, é apropriada pela impessoalidade da
lógica racionalista e se distancia perigosamente da sociedade civil.
Perigoso porque, como dizia Hannah Arendt, o papel da educação é
humanizar os homens. Sendo apropriada pela frieza dos escritórios
burocráticos, a educação se desumaniza e perde seu objetivo,
tornando-se refém de fiscais e técnicos de plantão, mais afetos às
ordens de seus superiores que ao cotidiano e valores do cidadão.
2. Os pontos de estrangulamento da
política educacional mineira
Corte Orçamentário
Nos primeiros dias da gestão Aécio Neves
foi divulgado, pela Secretaria de Planejamento e Gestão, que o
déficit orçamentário previsto para 2003 seria de R$ 2,4 bilhões. Uma
série de medidas de restrição orçamentária foi tomada a partir de
então que gerou uma queda do déficit, ainda no final de 2003, para
R$ 1,4 bilhão.
O déficit passou a ser um dos mais
importantes motes da gestão estadual. O carro-chefe passou a ser
denominado pelo governo de “Choque de Gestão”, tendo como objetivo
explícito o saneamento das finanças públicas. Para tanto, foi
celebrado um convênio patrocinado pela Gerdau, Fundação Brava,
Votorantim, Fundação Djalma Guimarães e Companhia Vale do Rio Doce,
viabilizando a consultoria do Instituto de Desenvolvimento Gerencial
(IDG), para promover o ajuste de contas.
Várias ações foram tomadas em paralelo
aos cortes orçamentários, destacando-se:
a) Leilão
de dívidas: os credores foram convidados para um leilão onde
aquele que apresentasse maior deságio receberia primeiro;
b) Controle
da folha de pagamentos: o
governo estadual divulgou que mais de 2 mil servidores não sofriam
qualquer controle na folha de pagamento. Foi centralizado todo
processo de pagamento e verificação das folhas e houve substituição
do adicional por tempo de serviço pelo adicional por desempenho;
c) Racionalização
de custos penitenciários e gastos com combustível;
d) Definição
de metas fiscais da receita e criação de setor de inteligência
fiscal: a Secretaria de
Planejamento e Gestão afirma que a receita aumentou em 14% acima do
índice nacional.
Uma das secretarias mais afetadas por
esta prioridade de ajuste das finanças públicas foi justamente a
Secretaria de Educação. O orçamento da Secretaria de Estado da
Educação de Minas Gerais para o exercício financeiro de 2003 foi de
R$ 3.463.957.417,00, incluindo emenda legislativa no valor de R$
4.317.000,00 (88,8% dos recursos seriam destinados para despesas de
pessoal, sendo 38,3% destes, dirigidos para pessoal inativo; 9,37%
dos recursos seriam destinados para merenda escolar, auxílio
transporte, refeição, doença e funeral, convênios com municípios,
entre outros). Contudo, em 1º de abril, o governo estadual anuncia
corte orçamentário, prevendo-se 5% envolvendo gasto com pessoal e
20% com custeio da máquina. A Secretaria de Educação sofreu um corte
de 31,4%, representando uma redução de R$ 17 milhões de
investimentos.
Jornais da grande imprensa mineira
chegaram a revelar surpresa dos dirigentes da Secretaria Estadual de
Educação. Rapidamente foram citadas as prioridades, a partir dos
cortes: a) manutenção do Programa Veredas, embora tenha sido vetada
sua ampliação, que garantiria ensino universitário para os
professores da rede; b) garantia de infraestrutura das escolas; c)
cooperação com os municípios (com destaque para o transporte); d)
manutenção da bolsa-escola (embora fosse vetada sua ampliação para a
região do Vale do Mucuri) e; e) ampliação das escolas das áreas de
risco de Belo Horizonte.
Coincidentemente, no mesmo mês em que se
anuncia o brutal corte no orçamento da educação, vem à público o
documento elaborado pela Secretaria intitulado “A Educação Pública
de Minas Gerais (2003-2006): o desafio da qualidade”, onde constam
as prioridades e diretrizes da educação mineira. O documento, em seu
início, faz uma crítica à queda de desempenho dos estudantes
mineiros no ranking nacional, de 2001 a 2003. A constatação implica
numa ação determinada para retomada do primeiro lugar no ranking (de
1º lugar, a performance dos estudantes mineiros caiu para 4º lugar),
apresentada no documento em cinco 7 pontos:
a) Racionalização
e modernização da administração do sistema estadual de ensino;
b) Universalização
e melhoria do ensino médio;
c) Ampliação
e melhoria do ensino fundamental;
d) Manutenção
de programas em andamento;
e) Qualificação
docente e;
f) Ouvidoria
educacional.
Algumas passagens do documento são
esclarecedoras porque definem os contornos do projeto original da
gestão estadual no seu início de trabalho. No que tange ao papel das
Superintendências Regionais de Ensino (SRE), o documento sugere que
“as Superintendências de Ensino serão reorganizadas e sua atuação
irá privilegiar o pedagógico e não o cartorial”. Esta aspiração é
antiga. Em levantamento realizado em meados da gestão Murílio Hingel,
foi constatado que menos de 15% dos funcionários das SREs estão
alocados em atividades-meio. O atendimento às escolas, excetuando-se
o diminuto quadro de inspetores de ensino, é feito na própria sede
das superintendências, exigindo deslocamentos constantes dos
diretores de escola. Para deixar o quadro ainda mais agudo e
crítico, o atendimento se faz de maneira profundamente segmentada,
por repartições e subrepartições (é comum encontrarmos
superintendências que possuem unidades com chefias de dois ou três
subordinados, apenas), sem que ocorra qualquer articulação ou
compartilhamento de informações entre cada instância. Assim, um
diretor de escola pode ser conduzido à uma dezena de repartições,
sendo que cada uma possui um grau de informação ou informação sobre
o mesmo assunto com grau de atualização diferenciada. Isto porque
cada repartição relaciona-se com a instância superior que, por sua
vez, trabalha desarticuladamente em relação às outras diretorias ou
superintendências centrais. Trata-se de um pesadelo kafkiano que
atinge duramente o cotidiano das escolas. É, ainda, comum que as
superintendências sejam utilizadas como moeda política, fatiando os
cargos entre dirigentes políticos locais ou regionais.
A promessa explicitada no documento
acima constitui, portanto, um ato de coragem e determinação de
mudança nesta realidade.
Contudo, a despeito das intenções, o
corte orçamentário parece ter desarticulado a capacidade inovadora
da Secretaria Estadual de Educação. Embora o governo estadual
procure divulgar algumas ações nesta área,
parece cada vez mais nítido que o conjunto de programas e projetos
não se articulam e não constituem uma ação acabada. Na prática,
parece existir uma lacuna ou ausência de projeto educacional nítido
para o Estado.
Casos evidentes são:
a) Reelaboração
da proposta curricular estadual, que não se efetiva e que envolve
equipe técnica que já produziu o mesmo produto nas duas gestões
anteriores;
b) Incapacidade
de mudança da estrutura burocrática, em especial, a estrutura de
atendimento direto às escolas, sob responsabilidade das SREs;
c) Poucos
avanços nos programas de formação de professores, incluindo atraso
na concepção formativa (de processual e continuada para o retorno
aos eventos formativos, concebidos como training);
d) Implementação
de acompanhamento pedagógico apenas em algumas escolas selecionadas,
retornando à proposta da década de 70 de criação de
escolas-referência;
e) Pouco
avanço nos modelos de gestão participativo escolar;
f) Indefinição
em relação ao sistema de ciclos de formação.
Em suma, tanto na estrutura gerencial,
quanto na proposta pedagógica, a Secretaria de Educação parece
sentir os efeitos dos cortes excessivos no seu orçamento. Os cortes
orçamentários, enfim, parecem ter abalado as intenções para as
políticas educacionais do Estado.
Da universalização à focalização
Juntamente com a inclusão de crianças de
seis anos de idade ao ensino fundamental, a criação das
escolas-referência foi destacada como inovação significativa pela
Secretaria Estadual de Educação. Surpreendentemente, a política de
focalização no atendimento pedagógico (as escolas-referência) é
duramente criticada pelos expoentes da área educacional do PSDB.
Este é o caso de Eunice Durham, ex-Secretária de Política
Educacional do Ministério da Educação, para quem a criação de
escolas privilegiadas no atendimento pedagógico (refere-se
especificamente aos Centros Educacionais Unificados da capital
paulista) constitui um nítido atraso, atinge frontalmente a
concepção da educação como direito universal e sugere casuísmo de
tipo populista por parte dos governos.
Entretanto, o documento oficial que
institui as escolas-referência sugere um caminho contrário ao
sugerido por Durham e abandona o conceito de sistema de ciclos.
Vejamos algumas passagens do documento de lançamento das
escolas-referência:
A SEEMG,
visando o desenvolvimento de ações que buscam a reconstrução da
excelência na rede pública, está iniciando a implantação do
Projeto Escolas-Referência. Este Projeto busca identificar e
apoiar aquelas escolas que se destacam nas respectivas comunidades
seja pelo trabalho que realizam, seja pela sua tradição ou pela
dimensão do atendimento à população de ensino fundamental e médio da
localidade, visando torná-las focos irradiadores da melhoria da
educação no Estado.
As
escolas que se destacam pela qualidade do trabalho realizado,
especialmente aquelas que evidenciam uma postura empreendedora no
seu âmbito de atuação – desenvolvendo projetos bem sucedidos na
solução de problemas educacionais relevantes – terão papel
fundamental neste Projeto. Essas escolas já possuem uma
característica fundamental de uma escola-referência: a capacidade de
investir no próprio desenvolvimento, o que as torna potencialmente
capazes de contribuir para o desenvolvimento do sistema, desde que
fortalecidas e colocadas em interação com as demais.
O outro
grupo de escolas atingido pelo Projeto – aquelas cuja história está
marcada pelo papel de destaque que já desempenharam no cenário da
educação pública e aquelas que atendem a um grande número de
educandos – também terá sua capacidade de ação fortalecida para que,
apropriando-se da promoção do próprio desenvolvimento, venha a
integrar uma rede de influências interescolares capaz de movimentar
todo o sistema.
Em
seguida, o documento de apresentação desta iniciativa indica dois
sub-projetos denominados de estruturantes: ampliação e melhoria do
ensino fundamental e universalização e melhoria do ensino médio. Os
sub-projetos são, como se percebe, incongruentes com a declarada
focalização da política em escolas que já possuem “postura
empreendedora” ou escolas com algum grau de distinção na rede
(destaques na tradição educacional mineira ou que atendem grande
número de estudantes). A distinção é exatamente o oposto da
universalização no serviço público. Uma distinção pela tradição ou
pelo papel empreendedor implica, ainda, no risco do pré-julgamento
ou preconceito justamente porque os critérios subjacentes ao
destaque são arbitrários. Qual critério a ser utilizado para
destacar uma escola em relação à sua contribuição para a educação
mineira? Seriam as escolas mais antigas, o que envolveria uma gama
imensa de escolas rurais ou localizadas em municípios interioranos?
Seriam as escolas que teriam acolhido as famílias com maior poder ou
destaque social? Não haveria o risco de uma escolha declaradamente
elitista, que sub-avaliaria a contribuição histórica de escolas e
professores à margem dos holofotes da grande metrópole?
No que
tange ao programa das Escolas-Referência, a pauta sugerida é
surpreendente porque está situada na aspiração republicana,
universalizante, integradora. Em outras palavras, utiliza-se um
escopo universalista para ser implementado a partir de um
referencial discriminatório. A incongruência parece relevante, neste
caso. O referido documento de apresentação da Escola-Referência
propõe a “reconstrução da excelência na escola pública, promovendo o
desenvolvimento pedagógico e institucional, o desenvolvimento da
gestão da educação escolar, o desenvolvimento profissional dos
alunos, o desenvolvimento da solidariedade e da cultura do trabalho
colaborativo. Mas esses não seriam os princípios da escola pública
em geral?
”.
A
intenção explícita do projeto, ao revelar a incoerência com o gesto
prático de sua implementação, não estaria desvelando uma
conseqüência do corte orçamentário? Enfim, um projeto de natureza
republicana não pode ser amparado por exclusivismos e escolhas de
tipo elitista. Seria um anacronismo crônico em termos de políticas
públicas.
A ampliação do ensino fundamental
A grande bandeira de início de gestão
foi a incorporação de alunos com seis anos de idade ao ensino
fundamental o que, na prática, ampliou este nível educacional de
oito para nove anos de duração. Esta iniciativa, do ponto de vista
pedagógico, só ganha sentido em relação ao sistema de ciclos de
formação. Nas experiências de referência em que este sistema foi
adotado (destaca-se a experiência da Bélgica), o ciclo da infância
estaria incorporando estudantes de seis anos aos oito anos de idade.
É um período particularmente importante, de passagem para uma fase
heterônoma para o início da construção dos primeiros passos em
direção à autonomia intelectual. Requer, portanto, uma atenção
específica e um acompanhamento rigoroso do processo de
desenvolvimento. Autores clássicos, como é o caso de Jean Piaget,
advertiam (desde seus primeiros relatórios de pesquisa, na década de
30 do século passado) para os erros em se desconsiderar o
envolvimento afetivo e a potencializar as obrigações e chantagens
envolvendo crianças nesta faixa etária.
Incluir crianças com seis anos de idade
no ensino fundamental ganha, portanto, sentido na medida em que o
projeto curricular incorpora este específico momento no
desenvolvimento humano. Caso contrário, perde todo sentido
pedagógico e, neste caso, ganha contornos meramente
administrativo-financeiros, na medida em que amplia o número de
estudantes atendidos e, conseqüentemente, o valor a ser repassado
pelo Fundef.
Este aspecto parece significativo.
Em reunião da Comissão de Educação,
Cultura, Ciência e Tecnologia da Assembléia Legislativa de Minas
Gerais, ocorrida em 4 de junho de 2003, a Secretária Estadual de
Educação, Vanessa Guimarães Pinto, chegou a afirmar que, na ausência
de professores para dar cobertura para as aulas dos alunos de seis
anos, reformularia a atribuição, reduzindo ou excluindo disciplinas
consideradas menos importantes (citou educação física, artes e
ensino religioso) e deslocando essas vagas para as disciplinas
prioritárias. A despeito da postura executiva da Secretária, seu
discurso colide com a proposição pedagógica do sistema de ciclos.
Mesmo os estudos recentes, na área de neurologia, promovidos por
Howard Gardner, sugerem um impacto determinante de artes e educação
física no desenvolvimento das inteligências espacial, interpessoal e
lingüística exatamente na faixa etária em questão.
Em suma, a proposição de incorporar
crianças com seis anos de idade no ensino fundamental carece de
fundamentação pedagógica por parte da Secretaria Estadual de
Educação. Pode revelar, ainda, uma dificuldade política de
acomodação de linhas pedagógicas distintas no interior da estrutura
gerencial da educação estadual.
As dificuldades em operacionalização do
sistema de ciclos vêm se tornando, ao longo dos anos, uma
dificuldade adicional nas sucessivas gestões da Secretaria Estadual
de Educação. O sistema de ciclos exige uma nova organização do tempo
e espaço escolar, aumentando o tempo de trabalho coletivo dos
professores, o que implica na diminuição das atividades em sala de
aula.
Na gestão Murílio Hingel, a Secretaria
Estadual de Educ ação delegou às escolas a decisão de escolha do
sistema de ensino a ser adotado. A maioria das escolas (60% do
total) deliberou pelo sistema de ciclos. Contudo, poucas ações
administrativas foram tomadas para que este sistema avançasse. Não
se superou o tempo diminuto de reuniões coletivas por escola, o que
afeta diretamente a possibilidade de acompanhamento do processo de
desenvolvimento de uma turma e continua segmentando o currículo em
diversas áreas de conhecimento. Também não se incrementou o sistema
de avaliação sistêmica do processo pedagógico que teve início na
gestão João Batista Mares Guia e recebeu nova configuração na gestão
Hingel (SIMAVE). Os modelos de avaliação sistêmicos adotados nas
duas gestões são insuficientes para o sistema de ciclos justamente
porque adota o referencial da avaliação quantitativa,
classificatória, pouco útil para o acompanhamento processual. A
avaliação classificatória, por definição, parte de um patamar
idealizado de formação e é incapaz de perceber as peculiaridades dos
movimentos erráticos da formação intelectual. Os professores,
portanto, recebiam boletins técnicos que sugeriam o patamar atingido
pela escola a partir do modelo idealizado e esperado pelo órgão de
direção da educação estadual. A partir daí, não tinham como definir
estratégias de superação de problemas, justamente porque as
variáveis que interferiram no processo de desenvolvimento do
estudante não eram oferecidos. Enfim, os modelos de avaliação
adotados retratavam um momento e não o processo de formação. A atual
gestão não avançou em nenhum desses elementos necessários para a
efetivação do sistema de ciclos. Neste sentido, apresenta-se
paralisada, sem publicizar sua avaliação sobre a situação das
escolas que adotaram o sistema de ciclos. Não avançou, como seria
esperado, no aumento da jornada do professor e aluno, não aumentou o
tempo de trabalho coletivo, não propiciou a elaboração de
diagnósticos e construção de estratégias específicas na rede, não
avançou no modelo de gestão. Assim, a rede estadual permanece numa
situação de esquizofrenia pedagógica, que se mantém há quase uma
década.
Houve, é verdade, uma iniciativa ainda
tímida em relação à progressão continuada nos anos iniciais do
ensino fundamental. Segundo Ofício Circular n. 198/04, a progressão
continuada permite ao estudante avanços sucessivos, sem
interrupções. O principal recurso sugerido é a enturmação
específica, formada a partir de necessidades peculiares. Esta é a
estratégia utilizada na Europa nas escolas que adotam o sistema de
ciclos, em especial, os ciclos de aprendizagem, em que se adota uma
“assistência particularizada”, justamente porque acompanha o
peculiar desenvolvimento de cada aluno e do conjunto de turma.
Contudo, as condições de trabalho para a adoção da progressão
continuada continuam as de antes, vinculadas à lógica da seriação
(segmentação das disciplinas, poucas reuniões de trabalho conjunto e
pouco tempo de estudo de situações significativas de aprendizagem
por aluno ou turma, formação insuficiente para adoção de métodos
avaliativos e elaboração de estratégias específicas, módulo-aula
extremamente rígido e inadequado para a flexibilização curricular e
de enturmação sugeridas, entre outros problemas).
Neste mesmo ofício circular, a
Secretaria Estadual de Educação sugere a progressão parcial nos anos
finais do ensino fundamental e no ensino médio. O texto é claro e
direto: “a Progressão Parcial é o procedimento oferecido no sistema
seriado, que permite ao aluno avançar em componentes curriculares
para os quais já apresente o desempenho mínimo esperado”.Percebe-se
uma mudança radical de referencial pedagógico: num (na progressão
continuada), a avaliação define as mudanças curriculares em função
do desenvolvimento diagnosticado; no outro (progressão parcial), a
avaliação parte do desempenho mínimo esperado. Como o próprio texto
sugere, a esquizofrenia pedagógica permanece. Com efeito, a
dificuldade de adoção de um referencial pedagógico unitário implica
numa acomodação de linhas teóricas e de política educacional no
interior de todo sistema estadual de ensino. Arrisco sugerir que as
dificuldades financeiras da Secretaria Estadual de Educação
potencializam a esquizofrenia, na medida em que o sistema de ciclos
exige grandes investimentos e mudança significativa da estrutura
administrativa. Um exemplo concreto é a flexibilidade no módulo-aula,
em função do plano de ensino elaborado a partir de diagnósticos mais
complexos do processo de desenvolvimento das turmas, o que alteraria
todo cálculo de pagamento de horas trabalhadas pelos professores,
hoje definida a partir da fração do módulo-aula fixo.
A Política de avaliação individual
Uma última iniciativa desta gestão,
também destacada publicamente nos pronunciamentos dos gestores da
Secretaria Estadual de Educação e que, portanto, merece uma análise
de seu mérito, é a avaliação de desempenho dos professores. Trata-se
de uma iniciativa de governo e não apenas desta Secretaria, já que
se tornou bandeira do modelo de “choque de gestão” do atual governo
estadual.
Em dezembro de 2003 foi
institucionalizada a Avaliação de Desempenho Individual (ADI) para
todo funcionalismo público estadual. Um Manual da Avaliação de
Desempenho Individual foi enviado às escolas estaduais, orientando o
processo avaliativo na rede de ensino. A avaliação individual
objetiva facilitar o cálculo do Adicional de Desempenho (não
incorporado ao piso da categoria), promover pagamento de premiação
por produtividade ou provocar a dispensa ou pena sobre o
funcionário.
A ADI percorre os seguintes estágios: o
preenchimento do formulário de condições de trabalho; o
preenchimento do Plano de Gestão do Desempenho Individual; as
entrevistas realizadas pelas comissões de avaliação (compostas pela
chefia imediata do avaliado, dois membros eleitos pelos servidores e
dois membros indicados pela chefia imediata); e o registro final,
denominado Termo Final de Avaliação.
Este modelo de avaliação incorre nos
erros de toda avaliação sistêmica: ressente-se da relação com a
sociedade, fechando-se na lógica institucional. Em outras palavras,
não consegue relacionar condições de trabalho e produtividade com a
relevância do serviço para a comunidade. O conceito de relevância
pressupõe o que a comunidade escolar considera apropriado e
necessário para seu desenvolvimento. Relevância dialoga com outro
conceito contemporâneo na elaboração de políticas públicas: o
conceito de capital social, ou o grau de confiança comunitária em
suas instituições para superar seus problemas, diminuindo o grau de
dependência com órgãos superiores da gestão pública. A avaliação de
desempenho implementada não consegue estabelecer nexos entre o
trabalho individual e o projeto social contido em cada atividade
individual, relação típica do trabalho educacional. Assim, o
conceito de produtividade passa a ser definido pela orientação
superior da hierarquia do sistema educacional.
No mesmo sentido, não incorpora a
participação do professor nas atividades de gestão escolar, nem
mesmo procura avaliar a pertinência do Projeto Político Pedagógico
da escola ou relação com instâncias superiores, como as SREs.
Enfim, a avaliação peca por transpor – e
nem mesmo traduzir – modelos de avaliação de desempenho empresarial,
muito em voga nos anos 80 e início dos 90 (em especial, a partir dos
modelos de Estado Gerencial desenvolvidos no Reino Unido e
disseminados no Brasil pelo ex-ministro Luis Carlos Bresser
Pereira), fartamente criticados em estudos especializados dedicados
à dinâmica dos serviços públicos.
No caso específico da avaliação das
condições de trabalho do servidor, os critérios de avaliação
adotados (qualidade do trabalho, produtividade do trabalho,
presteza, aproveitamento em programas de capacitação, entre outros)
são perigosamente vagos, indefinidos, cometendo-se o risco de
enveredarem na subjetividade.
3. Em busca do tempo perdido
Estamos às vésperas de ingressarmos no
penúltimo ano da atual gestão estadual. É sabido que o último ano de
uma gestão pública é dedicado à apresentação de resultados, no
âmbito da disputa eleitoral. Assim, o ano de 2005 se apresenta como
de realizações, preliminar da disputa que se avizinha, onde parece
fundamental a diferenciação de uma gestão em relação às anteriores.
É o que, em termos de marketing político, denomina-se
“posicionamento”, ou seja, a diferenciação em relação aos
concorrentes. Nestes termos, o próximo ano é emblemático e deve
traduzir o perfil da gestão estadual. A área educacional não foge
desta sina.
Contudo, a breve retrospectiva aqui
registrada não indica um projeto unificado ou mesmo uma ação
inovadora ou mesmo tópica, que atinja os principais problemas da
rede estadual, já diagnosticado em inúmeros estudos e consultorias
da área pública. Pelo contrário, a gestão educacional estadual
parece sofrer os cortes orçamentários realizados no início da
gestão. A Secretaria Estadual de Educação, a partir de então,
tornou-se absolutamente fiel (e refém) às orientações dos setores de
planejamento. A escolha geral, contudo, desarticulou a capacidade de
trabalho da área educacional.
A partir daí, o trabalho da Secretaria
Estadual de Educação fragmentou-se em inúmeros projetos e ações, que
perdem sua capacidade inovadora, justamente porque se fragmentam e
não dialogam entre si. Outro fator que potencializa a pouca
efetividade dessas iniciativas é a citada esquizofrenia pedagógica
do Estado. Não se potencializa uma concepção tradicional, fundada na
seriação, e nem mesmo se avança numa concepção mais ousada e
inovadora, fundada no sistema de ciclos de formação. As
atividades-fim, assim, tornam-se reféns da ausência de unidade e
ousadia. Administram o tempo. Daí não se poder exigir
“produtividade”, justamente porque o produto final é híbrido,
fragmentado, sem personalidade nítida. E, neste caso, a culpa não é
do professor, mas de uma lógica política pouco pública.
Marilena Chauí, ao analisar os dilemas
da Universidade brasileira, no penúltimo encontro da ANPED (2002),
realizado em Caxambu, lamentava a lógica que substituía o estatuto
de instituição das universidades pelo de organização. A autora
argumentava que a lógica das organizações é autoreferente, procura
garantir sua reprodução e, não raro, constrói sua missão na disputa
cruel do mercado. Ao contrário, as instituições dialogam com os
dilemas e intenções sociais, universais. Relaciona-se com o penoso
percurso civilizatório. As duas lógicas são contraditórias e fundam
crenças distintas sobre o papel do serviço a ser prestado. Um, é
declaradamente privado; outro é idealmente público.
Este é o dilema atual do sistema
educacional mineiro. Ele precisa se definir. Precisa definir seu
caráter, sua função social, seus objetivos. Não se trata de um
dilema novo, mas é um obstáculo que se arrasta perigosamente.
Perigoso porque afeta o futuro dos mineiros e impede que a esperança
de nossos jovens seja factível. Sem esperança, sem possibilidade
mínima de nossos sonhos se realizarem, todo arcabouço institucional
público perde legitimidade.
Este é o risco permanente que os
educadores sentem cotidianamente nas salas de aula. Às vezes, como
prenúncio. Às vezes como discurso que não se articula com as
realizações práticas. Às vezes, ganhando contornos mais dramáticos,
como aquele que emoldurava a fala de um professor da rede estadual
mineira que, num encontro de formação continuada, afirmou que sentia
“saudades do futuro”.
E, sabemos, educação sem futuro é como
amor que não desperta amor recíproco: é impotente, uma desgraça. |