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Por ALTAMIRO BORGES
Jornalista,
editor da revista Debate Sindical e autor, com
Marcio Pochmann, do livro “Era FHC: A regressão do trabalho”
(Editora Anita Garibaldi) |
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Claudia Mazzei NOGUEIRA.
A Feminização no Mundo do Trabalho.
São Paulo: Editora
Autores Associados, 2004.
A feminização do mundo do trabalho
Lançado em
meados de 2004, o livro de Claudia Mazzei Nogueira, “A
feminização do mundo do trabalho” (Editora Autores Associados),
serve de importante alerta para todos os que atuam na frente
sindical ou se preocupam com o avanço das lutas dos explorados. Além
de evidenciar a crescente inserção da mulher no trabalho, a autora
enfrenta algumas instigantes polêmicas colocadas por essa nova
realidade. Discute, por exemplo, se essa participação representaria
a almejada emancipação da mulher ou se estaria a serviço da
precarização do trabalho imposta no mundo inteiro pelo capitalismo
“globalizado”. Ela trata, também, da complexa relação entre a luta
contra a opressão de gênero e a luta contra a exploração do capital.
Na introdução e nos dois primeiros
capítulos, o livro aborda a trajetória da mulher no chamado mundo do
trabalho. Conforme demonstra, nas sociedades pré-capitalistas ainda
era bastante reduzida sua presença e seu espaço pertencia,
basicamente, à esfera doméstica, reproduzindo a divisão social do
trabalho com sua opressão de gênero. Só a partir do século XIX, com
o desenvolvimento da Revolução Industrial Inglesa, é que se verifica
a “intensificação da inserção feminina, já que a maquinaria pode
dispensar o uso da força muscular. O trabalho humano passa então a
ser ‘apêndice da máquina’ (Marx). E, junto com o advento da
maquinaria, deu-se o ingresso definitivo da mulher no mundo do
trabalho”.
O modo de produção capitalista leva ao
extremo a exploração. Recorrendo às contribuições dos teóricos
marxistas, a autora conclui que “o capitalismo usa da divisão sexual
para incentivar a competição entre os trabalhadores, rebaixando
salários em decorrência do ingresso da força trabalho feminina... O
mundo do trabalho acentuou profundamente a divisão sexual do
trabalho, reservando às mulheres espaços específicos que, na maioria
das vezes, se caracterizavam pela inferioridade hierárquica, pelos
salários menores e por atividades adaptadas as suas capacidades
inatas”. Essa segregação preconceituosa inclusive será reproduzida
nos jovens sindicatos operários, que procuraram afastar as mulheres
do espaço fabril.
Após analisar as características
centrais do fordismo-taylorismo e do chamado toyotismo, Claudia
Mazzei constata que a atual reestruturação produtiva tem provocado
“aumento significativo do trabalho feminino, expressão da
articulação entre as relações de gênero e de classe, possibilitando
que 40% ou mais da força de trabalho seja composta de mulheres em
diversos países capitalistas ocidentais”. As tabelas expostas no
terceiro capítulo ilustram esse aumento vertiginoso e ininterrupto.
Na Europa, por exemplo, as mulheres representavam 30% da PEA nos
anos 60; em 1996, detinham 42,5%. O espetacular aumento da atividade
feminina foi acompanhado da estagnação e declínio do emprego
masculino. O mesmo ocorreu no Brasil!
Precarização desigual
Essa crescente inserção da mulher,
entretanto, é ofuscada pela brutal precarização das suas condições
de trabalho. No mundo inteiro, elas recebem os piores salários, são
as maiores vítimas de contratos parciais e temporários e as mais
atingidas pelo subemprego e o desemprego. A farta documentação
apresentada pela autora é inquestionável e deprimente e comprova sua
tese “de que a divisão social e sexual do trabalho, na configuração
assumida pelo capitalismo contemporâneo, intensifica fortemente a
exploração do trabalho, fazendo-o, entretanto, de modo ainda mais
acentuado em relação ao mundo do trabalho feminino”.
Após observar que há uma tendência, no
mundo e no Brasil, do trabalho parcial estar mais reservado às
mulheres, ela explica que “essa situação se dá porque o capital
necessita também do tempo de trabalho das mulheres na esfera
reprodutiva já que isso lhe é imprescindível para o processo de
valorização, uma vez que seria impossível para o capital realizar
seu ciclo produtivo sem o trabalho feminino realizado na esfera
doméstica”. A autora também constata que as mulheres têm sido
“cobaias” em vários experimentos do capital de precarização do
trabalho, sendo pioneiras em formas de contratação temporária e
parcial.
Com base nesse conjunto de reflexões,
Claudio Mazzei enfrenta, com maestria e instrumental dialético, a
polêmica sobre a emancipação ou precarização da mulher no trabalho.
“A conclusão a que cheguei é a de que as metamorfoses do mundo do
trabalho (dentre as quais supomos que a principal delas talvez seja
sua feminização) acabam sendo positivas, uma vez que permitem
constituir e avançar no difícil processo de emancipação feminina e,
desse modo, minimizar as formas de dominação patriarcal no espaço
doméstico. Mas são também negativas, pois essas transformações vêm
agravando significativamente a precarização da mulher
trabalhadora... Trata-se, portanto, de um movimento contraditório”,
dentro da lógica do capital.
De forma corajosa, a autora também
“recusa a falsa dicotomia que freqüentemente tem sido estabelecida
entre gênero e classe... Na ação que busca a emancipação do gênero
humano, há uma inter-relação entre as trabalhadoras e os
trabalhadores. Esse processo tem no capital e no seu sistema de
metabolismo social a fonte da subordinação e alienação. E a luta
contra esse sistema é, ao mesmo tempo, uma ação da classe
trabalhadora contra o capital e sua dominação (ação esta que
pertence ao conjunto da classe trabalhadora), mas é também uma luta
feminina contra as mais diferenciadas formas de opressão masculina”.
Diante do exposto nesta instigante obra,
fica a pergunta: será que o sindicalismo brasileiro está atento à
crescente inserção da mulher no mundo do trabalho e às formas
brutais da sua exploração ou continua sendo um espaço masculino –
fortemente machista – distante dessa nova e desafiadora realidade? |
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