|
Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo
de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PCU/SP),
do Conselho Editorial da Revista Margem Esquerda e Doutor
em Educação pela Universidade de São Paulo
|
|
Mario Luiz
Neves de Azevedo e Afrânio Mendes Catani. Universidade e
Neoliberalismo: o Banco Mundial e a Reforma Universitária na
Argentina (1989-1999). Londrina: Práxis, 2004 (254 p.)
Universidade e Neoliberalismo
Antonio Ozaí da Silva
Não é muito comum que nos preocupemos
com o que acontece com os nossos vizinhos latino-americanos. De
fato, somos culturalmente colonizados e eurocêntricos. Conhecemos
muito mais a história da Europa, seus heróis e datas comemorativas,
do que a nossa própria história. Isso não se modifica muito se nos
posicionamos, do ponto de vista político-ideológico, à esquerda.
Muitos de nós temos os nossos heróis, os profetas sagrados,
cujos nomes são muitas vezes estranhos à maioria dos seres mortais
comuns, e datas a sempre serem relembradas. Não que devamos jogar na
lata do lixo a história universal. Mas chama a atenção o
desconhecimento e, até mesmo, um certo desprezo, por nossa história
e a da América Latina.
Talvez seja por isto que os autores
iniciem o livro respondendo uma questão explicitamente colocada e
que está no imaginário de muitos: Por que estudar a Argentina?
“Entre as respostas a esta pergunta
objetiva, pode-se justificar que a Argentina é um dos países em que
se implementou com grande radicalidade uma agenda reformista na
América Latina e seria interessante lançar um olhar meridional em
direção às políticas para a educação superior naquele país, com a
finalidade de entender os efeitos das reformas liberalizantes sobre
o sistema universitário, o que pode servir de parâmetro para
comparações com o reformismo dominante desde o início dos anos 1990,
no Brasil”. (p. 19)
Além disso, a pesquisa sobre a Argentina
também se justifica por sua posição estratégica na América do Sul e
sua participação no Mercosul. E, ainda, é fundamental compreender
como se dá o movimento de implementação das reformas econômicas e
sociais, as quais modificam a sociedade argentina, a relação
Estado/Mercado e influi sobre o contexto regional (as relações
políticas e econômicas com o Brasil e o Mercosul).
Os deveras acostumados às polêmicas no
seio da esquerda internacional podem se equivocar quanto aos termos
reformista e reformismo utilizados pelos autores. Não,
não se trata do debate reforma ou revolução ou da
social-democratização do partido potencialmente revolucionário. Não.
Os autores se referem à política de reforma do Estado, amparada no
receituário neoliberal. Para ser mais exato, o objetivo é estudar
como as políticas públicas de viés neoliberais foram adotadas entre
los hermanos argentinos, especialmente ao seu sistema de
educação superior. Almeja-se, assim, “entender melhor como esse país
tem respondido às suas demandas internas, às recomendações das
agências internacionais e aos problemas colocados pela mundialização
e integração regional”. (p. 21)
O livro aborda o período dos mandatos do
presidente Carlos Saúl Menem (1989-1995 e 1995-1999). Foi na gestão
menemista que se implantou a política neoliberal de cunho ortodoxo,
justificada então pela necessidade de inserir o país no primeiro
mundo. Assim, o governo Menem passou a adotar o monetarismo da
Escola de Chicago e, em termos de política externa, vinculou os
destinos dos argentinos aos humores e interesses da política
norte-americana.
É esta política mais geral que explica a
política adotada em relação à educação superior na argentina. Para
compreender seu alcance e implementação em solo argentino é preciso,
antes, aprender o real significado do neoliberalismo. É sobre este
tópico que os autores se ocupam no primeiro capítulo. Eles fazem uma
abordagem do neoliberalismo, enquanto fator detonador das reformas
em curso durante o governo Menem e apresentam uma síntese da
conjuntura política e econômica, abrangendo a década de 1990 à
eleição de Néstor Kirchner, em 2003.
O estudo sobre outro país, especialmente
quando se trata de países vizinhos, embute o risco de “incorrer em
simplificações preconceitos, aproximações indevidas e comparações
imperfeitas” (p. 19). Apesar do alerta, a leitura deste primeiro
capítulo produz um déjà vu e nos faz pensar sobre a política
econômica empreendida pelo governo FHC no Brasil – e ainda vigente
no governo atual. É certo que tanto o governo anterior quanto o
atual, no Brasil, não foram tão radicais quanto Menem. Porém, ainda
que sob o perigo de equivocar-se em comparações, não há como ler
sobre a Argentina e não pensar em nossa própria realidade. Não
escapa ao leitor, por exemplo, que o presidente Menem, como nota os
autores, “foi eleito por uma plataforma de natureza
desenvolvimentista e “popular” e, adotou uma política completamente
oposta à esta. (p. 32)
No segundo capítulo, os autores fazem
uma análise detalhada sobre a universidade na Argentina: sua
composição, características do trabalho docente, formas de ingresso
dos estudantes etc. Eles também mostram como o governo Menem foi,
paulatinamente, influindo sobre o ensino superior argentino. As
políticas governamentais para esta área não precisaram ser
implantadas de chofre, não era uma questão premente. Por outro lado,
a correlação de forças no meio universitário, e a sua tradição
autonomista, influíam sobre a estratégia governamental.
A leitura deste capítulo é também
importante para rompermos com a tendência à naturalização da nossa
realidade. Por exemplo, tendemos a ver a universidade pública no
Brasil como algo dado e sem possibilidade de que seja adotada
mudanças substanciais, como no que se refere ao ingresso dos
estudantes através do vestibular. Descobrimos, então, que o sistema
de ensino superior argentino, no período estudado, é massivo,
majoritariamente público e que o ingresso estudantil, na maioria dos
casos, é aberto a todos os que têm o diploma do ensino secundário.
Os autores analisam as virtudes e limitações deste sistema. Contudo,
apontam o seu caráter democrático. Não por acaso, uma das
preocupações da reforma do ensino superior foi institucionalizar
formas de seleção restritivas para o ingresso de estudantes e, por
outro lado, cobrar taxas e anuidades. Lá, como aqui, o principal
argumento é que há setores estudantis que podem pagar os seus
estudos e que não é justo que a sociedade, tão necessitada de
investimentos em outros setores, financiem-nos. O interessante,
neste caso, é que foi o governo peronista quem instituiu, em 1947, a
gratuidade do ensino; e, é um governo do mesmo partido, o partido
justicialista, que promove políticas para a extinção desta.
Os autores analisam ainda as condições
de trabalho dos docentes. Eles mostram que são condições precárias
e, em sua maioria, os docentes não trabalham em regime de dedicação
exclusiva. Uma das táticas do governo foi dividir para reinar, ou
seja, adotar determinadas políticas que fortalecem, financeira e
politicamente, uma certa elite universitária e, simultaneamente,
cooptam-nos. Outra medida foi instituir formas de avaliação
institucional.
As políticas do governo Menem em relação
ao setor universitário não foram implementadas sem resistência. O
governo foi obrigado, inclusive influenciado pela conjuntura
política interna, a “construir um difícil consenso com atores não
favoráveis a qualquer questionamento à autonomia da universidade
argentina”. (p. 85) Neste processo, deve-se levar em conta: 1) a
relação umbilical entre a política universitária e a política
partidária em geral (o peronismo, o radicalismo e as demais forças
políticas no âmbito acadêmico); e, 2) que o campo acadêmico
(os autores usam o conceito de P. Bourdieu) é um campo em disputa;
e, 3) que a universidade, como o setor público em geral, apresenta
dilemas e configura uma crise, fatores facilitadores para a
aceitação do discurso neoliberal perante a opinião pública. Este
último elemento está vinculado aos que os autores denominam de
fundamentos prévios para a consecução dos planos de
reforma da universidade. Em outras palavras, admite-se a realidade
caótica e do setor público: sua deterioração, apropriação por
agentes privados, descontrole e incapacidade de atender às
necessidades da população e de maneira qualitativa. Como reconhecem
os autores:
“Existem verdadeiros e reais problemas
nos serviços e atividades públicas em países da América Latina. As
reformas de matriz neoliberal têm se sustentado em críticas, deve-se
dizer, não desprovidas de pertinências, à administração da coisa
pública, pois muitas das atividades relativas à manutenção da vida
em comum e ao fornecimento de serviços destinados aos cidadãos não
têm sido geradas a contento. Nesse sentido, a crise existente na
esfera pública acaba por ser outra justificativa fundamental das
reformas neoliberais”. (p. 143)
Isto é claro, joga água no moinho dos
que pregam o desmonte do Estado, privatizações e o império do
mercado enquanto critério de organização da sociedade. Esse império
pressupõe outro pilar dos fundamentos prévios: o
fundamento ideológico. Segundo os autores, este
“...poderia ser interpretado como a
forte inculcação nos componentes da sociedade de valores
individualistas e pró-privatistas, tendo por núcleo irradiador uma
fração social que cultiva sentimentos antipúblicos e não solidários.
Esse grupo de difusão ideológica, embasado em referências
internacionais, procura estender ao conjunto da sociedade sua
maneira de pensar”. (pp. 218-219)
Observa-se a influência destas
“referências internacionais” na política menemista adotada para a
educação superior através do papel desempenhado pelo Banco Mundial e
por outras agências multilaterais na configuração de um modelo de
reforma referenciado em suas recomendações. A política externa
do governo Menem, incluindo a aceitação dos conselhos de
instituições como o Banco Mundial, constituem um dos pilares dos
fundamentos estratégicos da reforma universitária. São
recomendações que se materializam em medidas políticas
consubstanciadas no Programa de Reforma da Educação Superior da
Argentina (PRES). É este aspecto que os autores analisam no terceiro
capítulo.
Não obstante, a leitura da obra deixa
claro que não há, da parte dos autores, uma concepção
conspiracionista. A influência da política externa só é eficiente
porque encontra solo propício para enraizar-se e frutificar. Há na
sociedade argentina, e no meio universitário, setores que tem muito
a ganhar com a aplicação da política reformista. Há, ainda, quadros
formados na perspectiva neoliberal em templos universitários
norte-americanos, os quais passam a influir de maneira determinante
no âmbito do Estado, ocupando postos-chaves no governo. Estes
aspectos são analisados pelos autores no último capítulo. Aqui, eles
se debruçam sobre a realidade dos atores constitutivos dos campos
sociais e os fundamentos da reforma menemista:
“Saber quem são os autores internos
beneficiados e/ou sustentadores da política menemista enseja a
recuperação de uma de nossas hipóteses iniciais: há um fundamento
de política interna na efetivação dos anos 90 da reforma no
Sistema de Ensino Superior argentino. Isto significa dizer que,
sendo a universidade um campo social, isto é, um espaço ocupado por
atores sociais em luta por determinadas posições, a reforma
menemista da universidade tornou-se uma oportunidade de
deslocamentos espaciais no campo universitário argentino”. (p. 145)
A proposta de reforma só vem à tona se
há fundamentos prévios que a tornem, inclusive no âmbito do senso
comum, uma possibilidade. Sua implementação só se torna viável se há
uma demanda, isto é, se ela consegue o apoio de setores internos
passíveis de serem beneficiados. Isto significa que a reforma não é
apenas um projeto governamental, mas que ela tem raízes na própria
sociedade. Mas, se há ganhadores, também há perdedores.
Vale ressaltar que o fundamento de
política interna diz respeito à “possibilidade de deslocamentos
ascendentes no espaço social e político” (p. 104). Nas condições da
sociedade argentina, isto representou a adoção de um discurso
governamental que privilegia a estabilidade pela estabilidade. A
economia tornou-se senhora toda poderosa e argumento intocável
(novamente, o sentimento de déjà vu, se olharmos para a
realidade brasileira atual). O efeito desta política foi a
despolitização da sociedade argentina. Afinal, se todos os
governantes adotam a mesma política econômica e esta se coloca acima
de qualquer crítica, para que eleições? Isto, é claro, influiu sobre
os atores e favoreceu as teses neoliberais.
Em tempos de reformas da universidade
brasileira, a obra de Azevedo e Catani representa uma importante
contribuição. Com este livro, os autores também contribuem para o
conhecimento da história, da política e o fortalecimento dos nossos
laços latino-americanos. E isto, apesar das rivalidades
futebolísticas e da neocolonização cultural que envolvem-nos a
todos, brasileiros e argentinos. |
|

|