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Por PAULO ROBERTO
DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil
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Sete Previsões
Imprevidentes
minha “caixa de
surpresas” para o novo ano
Todo final ou todo
começo de ano é a mesma coisa: certos especialistas em prever o
futuro fazem, pelos jornais e programas de rádio e TV, suas
previsões sobre os fatos, processos, eventos, catástrofes (muitas),
bondades (algumas) e outros cataclismos e fatalidades que devem ou
podem ocorrer nos próximos doze meses. Dentre os especialistas
convidados pelos meios de comunicação para antecipar o futuro que
nos espera no ano que começa, há um pouco de todas as categorias:
economistas, astrólogos, cientistas políticos, futurólogos,
sociólogos, adivinhos, psicólogos, videntes, antropólogos,
cartomantes, prospectólogos, pitonisas modernas, programadores de
cenários, donas de bolas de cristal, estatísticos, jogadoras de
búzios, meteorologistas, pais-de-santo, enfim, toda a gama de
profissionais e de amadores que se dedicam de forma regular ou
ocasional às artes científicas ou às práticas cabalísticas, segundo
o gosto da clientela.
No gênero das
estimativas sérias, os jornais econômicos também costumam arriscar
seu lote de previsões sobre os cenários globais, seja em relação ao
preço do petróleo, ao comportamento das principais moedas, alguma
quebra de bolsa, as inevitáveis fraudes corporativas, o fim do
crescimento econômico chinês ou, até mesmo, o esperado fim do
protecionismo agrícola nos países desenvolvidos (também não custa
nada acreditar). Até mesmo o respeitável The Economist, não
contente em antecipar os próximos doze meses, costuma traçar
cenários para dez ou vinte anos à frente, mas não estou certo de que
os bookmakers londrinos aceitem apostas sobre essas
previsões.
Não pretendo, neste
modesto exercício previsionista, fazer concorrência a meus colegas
de academia ou aos especialistas do mundo das artes adivinhatórias.
Por isso mesmo nem tentarei falar de coisas previsíveis, plausíveis
ou suscetíveis de acontecerem, por necessidade ou por obra do acaso,
nos próximos meses ou mesmo anos. Prefiro, simplesmente, arriscar
minha (baixa, ou inexistente) reputação (nessa área) na previsão de
coisas impossíveis, aquelas que poderiam ser classificadas no gênero
“surpresas”. Sobre elas não estou disposto a aceitar qualquer aposta
ou, que seja, a menor responsabilidade intelectual por eventuais
fracassos, aliás implícitos e totalmente previsíveis no meu gênero
particular de previsão. Talvez minhas probabilidades de “acerto”,
estejam aí mesmo, no fracasso completo e definitivo de previsões tão
imprevidentes quanto as que pretendo fazer.
Para tornar ainda
mais aleatório este meu experimento de futurologia, vou restringir
meus “chutes” a um país sabidamente difícil em matéria de previsões,
este que nos abriga nesta aventura terrestre, o “florão da América”.
No Brasil, como costuma dizer o ex-ministro Pedro Malan, não é só o
futuro que é impossível de ser antecipado; também o passado se
revela difícil de ser “previsto", querendo ele com isso se referir,
obviamente, aos “esqueletos” financeiros derivados de planos
pretéritos de estabilização, que aliás continuarão assombrando as
autoridades orçamentárias pelos próximos anos. Uma última
advertência cabe quanto aos meus “poderes preditivos”: se por acaso
alguma de minhas “surpresas” se materializar na prática, terá sido,
como se alerta nos frontispícios dos romances policiais e em certos
filmes, por pura coincidência, não cabendo nenhuma correspondência
com fatos e personagens da vida real.
Feitas estas
ressalvas, vamos às minhas “surpresas” para o ano que começa, sem
nenhuma ordem especial, mas com esta característica de que nenhuma
delas escapa ao meu universo “obsessional” particular, qual seja, o
dos problemas econômicos, políticos, sociais e diplomáticos do
Brasil.
1. O governo
decreta sua conversão ao capitalismo.
Parece coisa fácil e
simples, mas não é, pois a coisa mais rara de se encontrar, nos
discursos do governo e de seus representantes, são referências
positivas aos aspectos benéficos da economia de mercado e do próprio
sistema capitalista. Tudo o que tenho encontrado, nestes dois anos
de administração reformista, e ao longo dos últimos vinte anos de
preleções revolucionárias, são pregações desairosas sobre a
incapacidade da economia de mercado de promover a igualdade social,
a distribuição de renda ou até mesmo assegurar um crescimento sem
crises periódicas, sobressaltos financeiros ou que consiga escapar
da tradicional maldição da “acumulação excludente”, enfim, aqueles
diagnósticos requentados ‑ e na maior parte das vezes equivocados ‑
das velhas análises marxistas dos tempos em que todas as crises eram
“iminentes” e de quando o capitalismo tinha entrado em sua fase
financeira monopolista, prelúdio da inevitável queda final.
Tudo isso é
conhecido, mas tendo em vista a evidente vitória do capital sobre o
trabalho, ocorrida, justamente, naquele espocar do “fim da
história”, seria de se esperar que os antigos “inimigos de classe”,
sindicalistas da velha escola em sua maior parte, uma vez
convencidos, realmente, das sadias virtudes produtivistas da
economia de mercado e dos méritos progressistas do capitalismo velho
de guerra, declarassem aberta a temporada de revolução capitalista e
burguesa no Brasil. Reconheçamos que isso seria algo absolutamente
inédito em nossa história.
Com efeito, pela
primeira vez, um governo decidido a colocar o Brasil numa trajetória
de crescimento e de modernização social, proclamaria seu engajamento
irresoluto e integral com uma reforma verdadeiramente capitalista
das instituições ainda prebendalistas, cartelizadas,
anti-concorrenciais, corporativistas, estatizantes, enfim, numa
palavra, carcomidas, do velho capitalismo deformado e incompleto que
passa entre nós por um puro representante da raça. Quem quer que se
detenha sobre nossas incongruências econômicas e sociais, sobre
nossas desigualdades de renda e insuficiências produtivas, não pode
deixar de chegar à conclusão de que o Brasil enfrenta algo que
poderia ser definido como uma evidente “incompletude” do sistema de
mercado e de que ele necessita, de verdade, de uma boa revolução
capitalista para terminar sua transição para a modernidade. Trata-se
de uma tarefa que se encaixa totalmente na missão histórica de um
partido reformista que fez da pregação anti-capitalista o
leitmotiv de sua trajetória, mas agora seguindo aqui a velha
receita dos opostos que se atraem.
2. O Estado
decide retirar-se parcialmente de cena
Trata-se de
desenvolvimento derivado diretamente da ação anterior, pois que não
seria concebível uma ação destinada a operar, pela primeira vez na
história do Brasil, um retraimento do Estado da vida econômica e
social sem que os atores principais estejam comprometidos com o
estabelecimento de um novo modelo de organização social da produção
e da distribuição, que responda a outros critérios que não os do
tradicional centralismo e estatismo luso-brasileiro.
Como o Estado é uma
entidade (aparentemente) abstrata, quase amorfa e, em princípio,
destituída de vontade própria e de autonomia decisional, seria
preciso, em conseqüência, que os mais altos responsáveis
governamentais tomassem a si a tarefa de proclamar que, tendo
reconhecido o excessivo avanço do Estado sobre a vida econômica e
social da Nação, eles estavam iniciando uma marcha atrás, destinada
a conter essa entidade (amorfa, mas altamente invasiva) dentro de
limites razoáveis de orçamento e gestão, o que nunca foi o caso até
aqui. De fato, cada vez que o Estado precisa de mais recursos – e
pela lei das conseqüências involuntárias, ele sempre precisa de mais
recursos, pois são infindáveis as demandas da sociedade, ou melhor
dos políticos, supostamente em nome da sociedade – ele vai buscar o
dinheiro onde ele se encontra, ou seja, nos bolsos da classe média e
no caixa das empresas, ao mesmo tempo em que deixa ao relento os
mais necessitados (ao passo que os menos necessitados costumam ser
os mais assistidos).
Como regra de
princípio, nessa nova política de retirada estratégica do Estado,
seria estabelecida a regra da subsidiaridade, que diz que toda
tarefa que pode ser deixada para a esfera privada ou para instâncias
inferiores de decisão, como a própria sociedade auto-organizada ou
as esferas subfederais, não seria jamais elevada à responsabilidade
do Estado central, operando-se em conseqüência as pertinentes
adaptações constitucionais. Trata-se, mais uma vez, de uma
mini-revolução em nossa maneira de ser, em nossa mentalidade
histórica, na tradição do centralismo ibérico que faz do Estado a
peça chave, central, incontornável de qualquer arranjo social.
Pode-se, com efeito,
resumir as diferenças entre as sociedades anglo-saxãs e as ibéricas
nesta simples constatação: como princípio geral, tudo o que não
estiver expressamente proibido, por leis votadas pela comunidade, na
velha tradição saxã (desde antes dos tempos da Magna Carta, passando
pelas aldeias medievais britânicas, até seus modernos derivativos na
América do Norte e no continente australiano), está ipso facto
devidamente autorizado, e qualquer cidadão pode se entregar a
qualquer atividade produtiva na certeza de que seus direitos e
propriedades serão respeitados e garantidos pelas autoridades
políticas e judiciais; inversamente, nas sociedades ibéricas de
tradição centralizadora, como a portuguesa, tudo o que não for
expressamente autorizado pelo príncipe, por algum decreto estatal,
por um alvará régio ou qualquer outro instrumento de “concessão”,
está devidamente proibido e dependerá daquele favor “real” para
poder ser transformado em alguma eventual atividade produtiva (que
obviamente não estará garantida contra futuras exações por parte do
Estado, sob a forma de impostos ou mesmo expropriação arbitrária).
Diga-se de passagem
que a possibilidade de ocorrerem restrições à liberdade de
iniciativa já assustava os liberais ingleses do século XIX, tendo o
jovem Disraeli observado uma vez que o pesadelo dos pensadores
políticos britânicos, nessa época, era a possibilidade de se chegar
a uma situação na qual “no avenue to wealth and honor would exist
save through the government”. Ora, reconheçamos que, na nossa
tradição lusitana, os caminhos para a glória, a fama e, sobretudo, a
riqueza passam necessariamente pelo Estado, em especial pelos
governos em vigor a cada momento, como sabem muito bem certas
oligarquias regionais. Daí, portanto, a minha proposta de retirada
estratégica do Estado, justamente para diminuir as possibilidades
dessa redistribuição perversa de renda e permitir a explosão das
iniciativas individuais que tanta falta fizeram à sociedade
brasileira em toda a sua trajetória histórica de
(sub)desenvolvimento estrutural.
Essa “surpresa”, de
alto significado para a vida nacional, adquire relevância especial
no caso da estrutura fiscal e tributária, onde o avanço do Estado
adquiriu dimensões excepcionais, por (quase) todos reconhecidas como
excessivas e altamente prejudiciais para a vida econômica do país.
Segundo alguns analistas, o Estado tornou-se mesmo o principal –
senão o maior ‑ obstáculo ao crescimento econômico, onerando os
agentes privados, sugando a poupança privada e erodindo a capacidade
de investimento do país, ao concentrar recursos para o seu próprio
funcionamento ou para transferências altamente regressivas do ponto
de vista da distribuição e da justiça social.
Também no plano
regulatório, a presença do Estado, não necessariamente indesejada,
se faz de maneira excessivamente intrusiva, no pressuposto de que o
cidadão, ou o empresário, vai automaticamente fraudar o fisco ou o
tesouro público, quando os procedimentos nesse sentido são
basicamente defensivos e justamente motivados pela excessiva
voracidade fiscal ou tributária do Estado. Não creio que essa
redução do peso do Estado e da carga fiscal possa ser feita de
maneira simples ou imediata, e provavelmente será um processo que
demorará muitos anos e exigirá uma grande vontade política por parte
dos governantes e uma enorme capacidade de pressão por parte da
sociedade, mas se trata de um processo que deveria começar, algum
dia, para ser desenvolvido gradualmente ao longo dos próximos dez ou
quinze anos. A visão de estadista deveria fazer com que algum
governante tomasse essa iniciativa, mas, pelo que constato do “andar
da carruagem” em termos de finanças públicas – tanto no plano
federal, como nas esferas estaduais e municipais ‑, não estou certo
de que minha “surpresa”, pelo menos nesta parte, seja atendida
any time soon.
3. Radical
inversão das políticas sociais
Depois da pesquisa
do IBGE, sobre padrões nutricionais no país, que revelou que o
principal problema alimentar brasileiro não é bem a fome, mas a
obesidade crescente da população, não há mesmo muito que fazer com o
muito alardeado, mas pouco avaliado, programa Fome Zero. A rigor,
esse programa emergiu antes de um impulso do que de uma avaliação
precisa sobre o número de pobres no Brasil e sua situação
nutricional real. Não se sabe bem de onde saíram os números que
foram apresentados à sociedade no decurso dos últimos meses: segundo
os responsáveis do programa, haveria 11 milhões de famílias, ou
seja, 44 milhões de pessoas, pelo menos, em situação de carência
absoluta, elegíveis, portanto, para o bolsa-família e o fome zero.
Segundo outros
setores do governo, como o IPEA e o IBGE (no Relatório Nacional
de Acompanhamento dos Objetivos do Milênio), o número absoluto
de pessoas em situação de extrema pobreza poderia se situar entre 8
e 17 milhões de pessoas, segundo o critério que se usa para traçar a
linha de indigência. Um balanço do final de 2004 apresentado pelo
próprio governo informa que, até novembro desse ano, havia 5,9
milhões de famílias recebendo em média R$ 75,43 (mas 52% daquele
número recebem R$ 80 ou mais). Ainda segundo esse relatório, os
recursos alocados ao programa cresceram 140% de 2003 a 2004,
passando de R$ 3,4 milhões a R$ 5,3 milhões. Ora, se projetarmos os
valores em recursos financeiros para as expectativas formuladas pelo
próprio governo teríamos que esse contingente de 11 milhões de
família poderia passar a custar, em 2006, o dobro dos montantes hoje
gastos no programa. Mas não se sabe, de fato, quantos, daquele
contingente, constituem pessoas passando fome ou com graves
carências nutricionais. Na verdade, de acordo com a Pesquisa de
Orçamentos Familiares, do IBGE, em 2004 o número de pessoas
enfrentando um déficit de peso não excedia 3,8% (ou 3,6 milhões),
num universo de mais de 95 milhões de brasileiros. Em contrapartida,
aqueles com excesso de peso ultrapassavam largamente o número dos
“com fome”.
Assim, tanto o
programa Fome Zero, quanto o bolsa-escola (integrado ao
bolsa-família), que de fato não controla, como se sabe, a freqüência
escolar dos contemplados, deveriam ser radicalmente alterados, no
sentido de se despirem de suas características basicamente
assistencialistas, atualmente, para assumirem o caráter de programas
de inserção social via capacitação educacional, treinamento
profissional ou mesmo provimento de serviços universais, como saúde,
saneamento e infra-estrutura social, incluindo aqui a justiça e a
segurança pública. Da forma como eles estão concebidos, no presente
momento, eles não se destinam, de fato, a eliminar o contingente de
assistidos com a mesada mensal governamental, inserindo-os no
mercado de trabalho, mas sim a perpetuar o exército clientelístico
cuja justificativa talvez esteja nas eleições de 2006. De resto, o
maior programa de inclusão social já feito no Brasil, como
confirmado em pesquisa do IBGE, de 2004, sobre os indicadores
sociais municipais (a partir dos dados do Censo de 2000), foi
realizado no decorrer dos anos 90, quando se efetivou a
universalização dos benefícios da seguridade social: essa pesquisa
confirma a importância das aposentadorias – a maior parte obtida sem
a comprovação da contribuição original ao sistema geral – no
rendimento familiar mensal nas áreas rurais, por meio do Programa de
Assistência ao Trabalhador Rural e do Fundo de Assistência e
Previdência do Trabalhador Rural.
4. Concentração
dos recursos nacionais na educação fundamental
O Brasil tem essa
característica única no mundo – uma dentre muitas outras – que faz
com que as despesas educacionais apresentem o formato de uma
pirâmide invertida, isto é: se gasta muito mais com o reduzido
número de estudantes do terceiro ciclo – menos de 5% da faixa etária
correspondente – do que com o universo aparentemente tendente à
universalidade das crianças e jovens inscritos no ensino
fundamental. Ora, o elemento básico de qualquer programa de inserção
social, com a qualificação produtiva e profissional da população
economicamente ativa, consiste na elevação dos padrões educacionais
dos estudantes dos ciclos elementar e médio e do sistema de ensino
técnico-profissional. É essa a política estratégica que garantirá a
elevação progressiva da produtividade do trabalho no Brasil, bem
como, mais importante, o início da redução gradual do coeficiente de
Gini, isto é, dos padrões anormalmente elevados de concentração de
renda observados desde sempre no país.
O senador (e
ex-ministro da Educação) Cristovam Buarque propôs uma idéia radical:
a federalização do ensino básico, projeto com o qual, no que
concerne a idéia de um patamar mínimo de remuneração e o propósito
de formação e qualificação dos professores, estou inteiramente de
acordo. Os aspectos organizacionais e de estrutura física da rede
escolar são igualmente importantes, mas poderiam ser deixados para
os níveis atualmente responsáveis pela sua manutenção, isto é, as
esferas estadual e municipal, mas os padrões curriculares e os de
qualificação e de remuneração dos professores seriam administrados
com base em parâmetros definidos nacionalmente (ainda que objeto de
possíveis especificidades regionais e locais), com o que se
asseguraria a elevação da qualidade geral do ensino fundamental no
Brasil.
Trata-se,
provavelmente, de uma grande revolução social, não apenas no ensino,
enquanto tal, mas na própria maneira da sociedade conceber o papel
da educação na formação da nacionalidade e na melhoria do perfil
redistributivo da renda nacional. A rigor, essa “federalização” do
ensino público fundamental não constitui uma idéia radical, mas a
simples aplicação do bom senso a um elemento fundamental, definidor
da própria nacionalidade e dos requisitos de cidadania. Por isso
mesmo, não creio que ela venha a ser sequer considerada pelos
responsáveis pelo setor. Em todo caso, seria a mais agradável das
surpresas em quase 200 anos de independência.
5. Acaba a era
Vargas: abolida a Justiça do Trabalho
A Justiça do
Trabalho é uma excrescência que não tem porque subsistir num país
moderno e avançado como pretende ser o Brasil. Ela representa o que
há de mais atrasado, junto com a unicidade sindical por categoria e
a obrigatoriedade do imposto correspondente de qualquer trabalhador
registrado, na estrutura corporativa – alguns diriam fascista – que
rege as relações contratuais e trabalhistas em nosso país. Além de
fonte de corrupção, incontáveis arbitrariedades – tanto contra os
trabalhadores, como contra os empregadores – e outras tantas mazelas
administrativas, ela não tem nenhuma razão fundamental, de ordem
processual ou substantiva, para sobreviver num mundo que deve
aproximar-se o mais possível da flexibilização das relações
trabalhistas como condição de se atingir altos patamares de
empregabilidade em qualquer sistema econômico. Ela pode ser
substituída, com inteira satisfação de resultados, por comissões
arbitrais ad hoc, a partir de grupos de árbitros previamente
selecionados e habilitados a exercer esse papel de mediadores
(amadores), e por juízes (profissionais) que seriam os da justiça
universal, especializados nessa área (em regime de varas, portanto).
Aliás, os casos de conflitos trabalhistas necessitando regulação
externa só ascenderiam à esfera judicial depois de esgotados os
recursos na esfera arbitral de primeira instância, que também teriam
validade judicial.
A Consolidação das
Leis do Trabalho mereceria, igualmente, uma revisão radical, no
sentido de se eliminar o caráter essencialmente mandatório que ela
possui hoje, em favor de um desenvolvimento do contratualismo como
regra de base das relações do trabalho. O objetivo, obviamente, é o
de facilitar a criação de empregos, não o de garantir uma reserva de
mercado para os já empregados, que, sim, teriam os seus direitos
respeitados num sistema bem menos propenso à corrupção e às
manipulações como ocorre atualmente.
Não há, contudo,
possibilidade de qualquer “surpresa” aqui: o setor continuará
prisioneiro do atual sistema caracterizado pelo regulacionismo
excessivo, a partir de uma CLT anacrônica, detalhista e “tutelista”,
assim como de um processualismo exagerado, a partir de uma “justiça”
do trabalho inútil, cara e, sobretudo, vocacionada para a criação e
a manutenção de um “conflitualismo” permanente. Por que
surpreender-se que seja assim?: milhares de “intermediários” vivem
dessa realidade surrealista e não têm nenhuma interesse em que ela
termine.
6. Decretado o
fim da reforma agrária
De fato, não há
propriamente qualquer “surpresa” aqui: simplesmente não existe mais
nenhuma possibilidade de continuidade da “reforma agrária” no
Brasil, pela razão evidente de que o campo já se reformou sozinho há
muito tempo. Os que ainda falam em reforma agrária estão lendo
textos carcomidos de meio século atrás e não tomaram conhecimento da
revolução agrícola – capitalista, obviamente – que se processou no
campo brasileiro a partir dos anos 70, com ênfase agregada a partir
do final dos anos 80 e em todo o decorrer da década seguinte (aliás
com mais intensidade nos dias que correm, sob os nossos olhos).
Isso não quer dizer
que todo o campo brasileiro, todas as atividades agrícolas e
pecuárias sejam dominadas pelo chamado agronegócio, longe disso. A
chamada agricultura familiar responde ainda por parte apreciável do
produto agrícola, isto é, da produção de alimentos de primeira
necessidade, e do emprego rural. Mas, trata-se de uma agricultura
plenamente integrada aos circuitos mercantis, ao lado da qual
vegeta, em alguns casos sobrevive em condições de marginalidade
estrutural, uma pequena agricultura camponesa, de baixa
produtividade, que terá igualmente de transformar-se num sentido
mercantil para poder aspirar a fazer parte do negócio agrícola no
Brasil.
Todos aqueles que
clamam por “reforma agrária” – a começar por um partido
neobolchevique, que delira com os modelos russo de 1917, chinês de
1957 e cubano de 1961, mas que não tem a mínima noção de como
funciona, de verdade, a economia agrícola brasileira – são
profundamente ignorantes das novas realidades do campo, no Brasil,
bem como da pujança, totalmente ricardiana, da competitividade
agrícola em condições capitalistas. O Brasil é simplesmente
imbatível em produtividade agrícola, por uma série de razões
“naturais” e outras tantas “adquiridas”, com o suor do rosto dos
trabalhadores, mas também com as maravilhas da tecnologia da
Embrapa, da excelência do gerenciamento capitalista no setor
primário – que de primário não tem mais nada, constituindo agora um
complexo técnico-produtivo altamente sofisticado, juntando terra,
tecnologia, capital, serviços e inteligência humana – e da
progressiva ampliação dos mercados agrícolas em todo o mundo – em
que pese o caráter sempre inaceitável da “loucura agrícola comum” da
UE e do protecionismo e subvencionismo escandalosos nos EUA e em
outros países (Japão, Suíça, Coréia, etc.). Continuaremos imbatíveis
pelo futuro previsível, para maior glória de David Ricardo e o
orgulho de todo economista de bom senso (embora os políticos que
aparentam bom senso apenas proclamam sua adesão de princípio às
teses do livre-comércio, mas continuam a praticar o mais descarado
protecionismo).
Parece irônico que
nos tenhamos batido, isto é, os economistas ditos progressistas,
durante mais de meio século, para escapar da sina aparentemente
“maldita” de ser um “país essencialmente agrícola”, investindo
pesado – e transferindo parte dos custos incorridos justamente para
a agricultura – no processo de estabelecimento de um moderno parque
industrial – numa espécie de “stalinismo” industrializador –, para
nos encontrarmos, ao cabo desse processo, como um “país
essencialmente agrícola” novamente. A ironia é apenas em parte
justificada, pois que nosso caráter agrícola, hoje em dia, não tem
nada a ver com os aspectos mais toscos e rudimentares da atividade
conhecida como agropecuária até o início dos anos 60, como ainda
parecem acreditar os neobolcheviques reacionários que mobilizam
marginalizados rurais (e em grande medida urbanos, também) para
tentar justificar um projeto político revolucionário que não tem
absolutamente nada a ver com a “reforma agrária” (no sentido
clássico do termo).
Repito minha
“previsão” para não ser acusado de ambigüidade: não há mais
possibilidade de reforma agrária no Brasil, e sim a necessidade de
se continuar o processo de modernização das estruturas produtivas no
campo, com a integração plena de pequenos proprietários e dos
trabalhadores rurais aos circuitos da produção mercantil no setor
rural (aliás, cada vez menos “rural”, no sentido clássico do termo).
Esse processo tem sido essencialmente conduzido pelos novos
empresários rurais, grandes, médios e pequenos (familiares), que são
proprietários ou arrendatários, “cooperativizados” ou operando em
bases individuais (mas sempre organizados em associações ou grupos
de interesse setorial ou regional), com a notável assistência
técnica das instâncias federal, estaduais e locais e a disseminação
crescente de um imenso corpo técnico de engenheiros rurais, de
agrônomos e de tecnólogos de todo tipo que garantem o alto padrão do
agronegócio no Brasil.
Quanto aos
“camponeses marginais” e os trabalhadores expulsos do campo, ou
mesmo os marginalizados urbanos, mobilizados pelo reacionário
partido bolchevique que vive de agitar o fantasma da “reforma
agrária”, seu destino seria o de incorporar-se gradativamente às
atividades rurais e urbanas, agrícolas, industriais ou de serviços,
que continuam a se expandir em bases capitalistas no Brasil. O mito
da “repartição do latifúndio” é exatamente isso mesmo, um mito,
apenas alimentado pelos oportunistas já referidos e outros
ignorantes das novas realidades, entre os quais se incluem teólogos
de velhas e novas igrejas, que simplesmente não sabem informar-se
sobre – ou não querem ver – as novas realidades criadas pelo
desenvolvimento do capitalismo no campo, exatamente como analisado
por Lênin, em seu famoso estudo (aliás muito mal) feito no exílio
siberiano em 1898.
Mas, os mitos são
evidentemente poderosos e certas “promessas” são ainda mais difíceis
de serem renegadas, razão pela qual o “objetivo” da reforma agrária
continuará a ser oficialmente proclamado (e muito dinheiro público
sendo gasto inutilmente), em torno dessa fantasia tão inútil quanto
desnecessária, histórica e economicamente. Aqui eu seria capaz de
apostar que a minha “previsão” configura-se como 100% irrealizável,
o que é um sucesso pleno.
7. Maior abertura
e inserção econômica internacional, fim da soberania estatal
O mundo vive, desde
a paz de Vestfália, num mundo “vestfaliano”, isto é, respeitador das
soberanias estatais e do princípio da não intervenção nos assuntos
internos dos Estados nacionais. Essa característica tem sido a fonte
dos piores abusos já perpetrados contra os direitos humanos, as
liberdade civis (e religiosas) e a própria democracia (que contudo
ainda é muito jovem, historicamente, em que pesem os exemplos, algo
equivocados, da Grécia clássica e de algumas tribos “primitivas”). É
evidente que os primeiros atentados a esses direitos começam no
plano interno, para só depois projetar-se no plano das relações
externas e aí provocar guerras, destruições e outras calamidades
feitas pela mão do homem.
Como advertia Kant
em seu projeto de paz “perpétua”, esta só seria possível entre
“repúblicas”, o que para ele queria dizer também monarquias
constitucionais (ou seja, o que nós chamamos hoje de regimes
democráticos). A democracia é, em princípio, um sistema que assegura
uma administração civil consensuada, a partir do voto da maioria,
com garantias de representação de todos os grupos existentes – o que
compreende, portanto, as minorias e seus direitos legítimos –, com
base num conjunto de regras legais, garantidas por mecanismos
corretores e compensatórios do tipo dito de “checks and balances”
(ou seja, o equilíbrio de Montesquieu). Aspecto importante nas
democracias modernas é a divisão de poderes, independentes e
harmônicos, com suas competências executivas, legislativas e
judiciais bem delimitadas. Com base nesse conjunto complexo de
princípios e de normas, é possível assegurar-se aquilo que Max Weber
chamou de “monopólio do uso legítimo da força”, isto é, o poder de
polícia (ou de coerção) concentrado numa autoridade reconhecida.
Estas realidades,
obviamente, estão longe de existirem no plano internacional, onde a
ONU é um mero arremedo de “poder” normativo, carente de qualquer
força própria e menos ainda de legitimidade política, uma vez que
ela não dispõe de, e está longe de obter, mecanismos de
representação proporcionais aos “cidadãos universais” em que nos
convertemos a partir do aprofundamento do processo de globalização.
O Conselho de Segurança tem alguma força, mas dificilmente o seu
monopólio, e não é de toda forma “legítimo”, no sentido de lograr
seu reconhecimento universal. Na sua forma atual ele é totalmente
político, e portanto arbitrário, não podendo ser fonte de direito
internacional.
A chance de evolução
do sistema internacional para uma situação na qual a força do
direito passe a prevalecer, verdadeiramente, sobre o direito da
força depende, em minha opinião, de uma intensificação dos processos
de abertura econômica dos países (de forma unilateral, portanto) e
de globalização, aqui no formato de uma caótica marcha incontrolável
em direção da integração dos mercados, fenômenos que vai contra os
interesses dos Estados nacionais e apenas atua em favor das empresas
multinacionais (mas não necessariamente em detrimento dos interesses
dos cidadãos “universais”). A condição para isso é, evidentemente,
uma diminuição progressiva dos espaços de liberdade e de arbítrio
deixados às autoridades estatais nacionais, mas não necessariamente
em favor de uma “autoridade internacional” pouco definida e, em
tese, difícil de ser alcançada no presente horizonte histórico. A
opção seria por um fim “natural” de Vestfália, isto é, o poder
político concentrado dos Estados sendo superado pelo poder atomizado
dos mercados, a despeito mesmo dos perigos de monopólios e cartéis
(mas quanto mais houver livre concorrência, mais difíceis ficam
essas coalizões perversas de interesses puramente econômicos).
Não creio que esse
mundo “utópico” esteja perto de se realizar, mas não seria de todo
mau se caminhássemos progressivamente em sua direção. Mais
interessante ainda se o movimento em favor do fim da soberania
estatal e a favor da globalização irrestrita do sistema
internacional – que compreenderia, portanto, a globalização dos
direitos humanos, da democracia, da educação, da liberdade
religiosa, da dignidade humana, enfim – pudesse partir do Brasil. O
Brasil talvez não consiga ser o primeiro país verdadeiramente
“multinacional” do planeta – papel que parece reservado aos Estados
Unidos –, mas pelas características de seu povo, por sua abertura
irrestrita a todas as influências universais, pela plasticidade de
seu sistema social e cultural, ele talvez esteja perto de se
converter na primeira sociedade verdadeiramente multirracial do
planeta. O que conta, verdadeiramente, nesse plano, são as pessoas,
não os Estados. Por isso eu aposto no fim da soberania estatal, mas
apenas a muito longo prazo: digamos nos próximos 150 anos, para ser
otimista... |
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