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Por ROBINSON
DOS SANTOS
Doutorando em
Filosofia na Universidade de Kassel – Alemanha. Bolsista do
Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) |
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Considerações sobre a educação na
perspectiva marxiana
A
“história da humanidade”
deve
sempre ser estudada e elaborada
em
conexão com a história da indústria e das trocas.
(Marx e Engels)
O tema da educação
não ocupou um lugar central na obra de Marx. Ele não formulou
explicitamente uma teoria da educação, muito menos princípios
metodológicos e diretrizes para o processo ensino-aprendizagem.
Sabemos que sua principal preocupação fora o estudo das relações
sócio-econômicas e políticas e seu desenvolvimento no processo
histórico.
Entretanto,
a questão educacional encontra-se inevitavelmente enredada em sua
obra. Existem alguns textos que Marx, juntamente com Engels, redigiu
sobre a formação e o ensino em que a concepção de educação está
articulada com o horizonte das relações sócio-econômicas daquela
época. Assim, para compreendermos qual sua perspectiva na análise do
fenômeno educativo precisamos passar pelo seu modo de compreender a
sociedade. Na seqüência, nosso propósito é pontuar algumas das
questões que, em nosso entender, chamam a atenção para uma
re-leitura de Marx e Engels, hoje, no âmbito educacional.
O ponto de partida da história, para
Marx, é a existência de seres humanos reais que vivem em sociedade e
estabelecem relações. Para ele a essência do homem é o conjunto das
relações sociais. Assim, a corporeidade natural é uma condição
necessária mas não suficiente. A humanização do ser biológico e
específico só se dá dentro da sociedade e pela sociedade. Gadotti
(1984) nos lembra que, para Marx, o homem não é algo dado, acabado.
Ele é processo, ou seja, torna-se homem e, isto, a partir de duas
condições básicas: a) ele produz-se a si mesmo e, ao fazê-lo, se
determina como um ser em transformação, como o ser da práxis e; b)
esta realização só pode ter lugar na história.
O que distingue o ser humano dos outros
animais, conforme Marx, é o fato de ele, num dado momento da
história, começar a produzir os seus próprios meios de existência. O
que o ser humano é coincide com “o que” e “como” ele produz. Ao
contrário de Hegel, para quem a consciência determina a vida
concreta, real; em Marx é a vida concreta e real que determina a
consciência. Assim, “O que os indivíduos são, portanto, depende das
condições materiais de sua produção” (MARX; ENGELS, 1999, p. 28).
Deduz-se desta
perspectiva que, para a compreensão do processo educativo,
deve-se compreender aquele (processo) pelo qual os seres humanos
produzem a sua existência, isto é, o processo produtivo, o mundo do
trabalho e o âmbito de suas relações. Para essa análise é preciso
recorrer à situação da divisão do trabalho, o que permite
considerar o grau de desenvolvimento das forças produtivas de uma
sociedade. Assim, podemos tomar como exemplo a divisão entre campo e
cidade, entre trabalho comercial e industrial. A divisão do trabalho
conduz a diferentes interesses ocasionando até mesmo interesses
opostos.
O advento da
propriedade privada provocou um mudança decisiva na divisão do
trabalho. A partir da divisão do trabalho em trabalho manual
e trabalho intelectual surgem outras dicotomias: gozo e
trabalho, produção e consumo, miséria e opulência. Estas dicotomias
originam um conflito de interesses: o individual versus o coletivo,
o público e o privado.
Marx e Engels (1999,
p. 46) apontam para as conseqüências desta divisão: “(...) com a
divisão do trabalho fica dada a possibilidade, mais ainda, a
realidade, de que a atividade espiritual e a material – a fruição e
o trabalho, a produção e o consumo – caibam a indivíduos diferentes;
e a possibilidade de não entrarem estes elementos em contradição
reside unicamente no fato de que a divisão do trabalho seja
novamente superada”.
Aquele caráter
edificante, socializante e humanizante do trabalho, onde o indivíduo
constrói-se na inter-relacão com os demais indivíduos, desfaz-se sob
a economia capitalista, pois o ser humano passa a representar uma
força de trabalho que é vendida aos proprietários dos meios de
produção como aparente garantia de sua sobrevivência. A vida
torna-se, assim, um simples meio de vida. Como conseqüência disso
temos aquilo que Marx denominou como alienação, isto é, o trabalho
que o ser humano realiza produz objetos que não lhe pertencem e,
além disso, voltam-se contra ele como estranhos. A diferença entre o
que ele produz e o que ele é na vida cotidiana aumenta cada vez
mais. O trabalho torna-se cada vez mais alheio ao trabalhador.
Quanto mais o trabalhador produz, mais ele nega-se a si mesmo, mais
arruína-se física e espiritualmente.
A propriedade
privada, portanto, constitui a base de todo o processo de alienação.
O conceito de alienação mostra concretamente o que impede o
desenvolvimento do ser humano e como se pode ultrapassar tais
impedimentos. Nos Manuscritos Econômico-filosóficos Marx
afirma que a superação da propriedade privada significa a
emancipação plena de todos os sentidos e qualidades humanos.
A educação, na
sociedade capitalista, é, segundo Marx e Engels, um elemento de
manutenção da hierarquia social; ou o que Gramsci denominou como
instrumento da hegemonia ideológica burguesa. A igualdade política é
algo meramente formal e não passa de uma ilusão visto que a
desigualdade social é concreta e inequívoca. Atualmente a situação
não parece ser muito diferente daquela vivida e descrita por eles.
No entanto, uma das
possibilidades de viabilizar a superação das dicotomias existentes e
da emancipação do ser humano reside na integração entre ensino e
trabalho. A esta integração eles designam ensino politécnico ou
formação omnilateral. Por meio desta educação omnilateral o ser
humano desenvolver-se-á numa perspectiva abrangente isto é, em todos
os sentidos. Conforme Gadotti (1984, p. 54-55) “A integração entre
ensino e trabalho constitui-se na maneira de sair da alienação
crescente, reunificando o homem com a sociedade. Essa unidade,
segundo Marx, deve dar-se desde a infância. O tripé básico da
educação para todos é o ensino intelectual (cultura geral),
desenvolvimento físico (ginástica e esporte) e aprendizado
profissional polivalente (técnico e científico).”
Marx e Engels não só
indicaram freqüentemente que o trabalho físico sem elementos
espirituais destrói a natureza humana como, também, que a atividade
intelectual à margem do trabalho físico conduz facilmente aos erros
de um idealismo artificial e de uma abstração falsa. Logo, a união
entre os dois dá um caráter integral à educação e tomará o lugar da
formação unilateral, especializada e alienada.
Assim, o ensino
aparece como instrumento para o conhecimento e também para a
transformação da sociedade e do mundo. Este é o potencial e o
caráter revolucionário da educação. O proletariado, por si só, não
conquista sua consciência de classe, sua consciência política,
justamente pelo fato de ter sido privado desde o início dos meios
que lhe permitiriam consegui-lo. Por isso,
há a necessidade de um processo educativo pautado em um projeto
político e pedagógico definido e voltado aos interesses da grande
maioria excluída. Aí é que surge o papel estratégico da escola, dos
educadores e intelectuais, os quais, em nosso entender, são
decisivos para a construção da consciência de classe do trabalhador.
Acreditamos que é
extremamente pertinente a concepção educativa de Marx e Engels,
visto que sua proposta recupera o sentido do trabalho enquanto
atividade vital em que o homem humaniza-se sempre mais ao invés de
alienar-se e a educação é concebida, não como instrumento de
dominação e manutenção do status quo mas, como processo de
transformação desta situação.
A obra destes
autores constitui uma crítica fundamental à concepção burguesa do
ser humano e de educação. Às concepções metafísicas e idealistas,
que são fundamentalmente conservadoras, estes pensadores opõem a
concepção materialista, histórica e dialética, isto é,
interessaram-se pelo ser humano real em carne e osso, por seus
problemas enquanto vivem em sociedade, visando uma transformação
positiva e humanizante. Esta concepção dialético-histórica do ser
humano toma como premissa fundamental o fato de ele não ser um dado,
mas essencialmente um construir-se. Deste modo, a educação deve vir
para corroborar esta construção que não é meramente teórica ou
abstrata, mas real, prática.
Na sociedade
capitalista contemporânea a educação reproduz o sistema dominante
tanto ideologicamente quanto nos níveis técnico e produtivo. Na
concepção socialista, a educação assume um caráter dinâmico,
transformador, tendo sempre o ser humano e sua dignidade como ponto
de referência. Uma educação omnilateral é o que continua fazendo
falta em nossa sociedade. O atual sistema educativo, sobretudo no
Brasil, vem confirmando o que se diz sobre reprodução, exclusão e
dominação. Projetos político-pedagógicos até existem e são
propostos, mas são postos em andamento aqueles que legitimam o
sistema e não representam para ele uma ameaça. |
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