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Por MÁRIO MAESTRI
Mário Maestri, 56, é professor do Programa de Pós-Graduação em
História da UPF, RS. É autor de, entre outros: Uma história do
Brasil. O Império. 3 ed. São Paulo: Contexto, 2002. |
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A linguagem como
registro do mundo
I.
Totalidade e parcialidade nas ciências sociais
As três irmãs
univitelinas – História, Literatura e Lingüística – prosseguem cada
uma tratando dos seus assuntos pessoais, quase renegando a origem e
o patrimônio comuns. Os raros momentos em que se visitam passam no
salão de estar, cada uma falando de suas dores e dificuldades.
Trataria-se de inocentes idiossincrasias de velhas senhoras se
enorme parte da herança materna não se encontrasse depositada em
cofre de três chaves, que cada uma tenta abrir por seu lado.
O estranhamento
entre a História, Literatura e Lingüística realiza-se plenamente nos
cursos de graduação, onde a visão do conhecimento atomizado
materializa-se na tentativa de apropriar-se do objeto em estudo
através de categorias isoladas, à margem da totalidade concreta que
o circunscreve. Pretende-se que se aprenda história sem conhecimento
profundo da literatura e da linguagem e que se conheça essas duas
disciplinas sem apropriação substancial da primeira.
Comumente, o
resultado é risível. Alunos de Letras ouvem falar que a “mais fina
flor do Labéu” é o português, vendo no vocábulo torto idioleto
camoniano do substantivo “laço”. Estudantes de História praticamente
não imaginam que nos séculos 16, 17, 18 e 19 não se falava –
e portanto não se pensava – como hoje, no Rio de Janeiro, no Posto
6. Vêem comumente o passado como na cinematografia estadunidense,
“com heróis e heroínas da Antiguidade ou Idade Média, vestidos mais
ou menos segundo a época, falando, sentindo e amando como
acreditam e desejam fazer os espectadores
contemporâneos”.
Nos tratados
gerais sobre o pouco mais de cinco séculos do Brasil, são raros os
capítulos mesmo desmilingüido sobre as línguas faladas na Colônia,
no Império e na República, ou apresentando sistematicamente os
fenômenos histórico-sociais relacionados às expressões artísticas,
em geral, e à literatura, em particular. A proposta de Werneck
Sodré, em História da literatura brasileira: seus fundamentos
econômicos, em vez de ser superada nas suas limitações, foi quase
abandonada, não raro devido as suas qualidades.
Nesse início de terceiro milênio, ainda não possuímos no Brasil algo
que se aproxime à História concisa de Portugal, de José
Hermano Saraiva, com primeira edição em 1978, portanto, há mais de
vinte e cinco anos!
A apropriação
crescente das determinações gerais de um objeto é necessária à
apresentação de sua representação concreta, mesmo singularizada.
Entretanto, esse processo não requer simples aproximação, nas suas
especificidades, de culturas científicas singulares. Ela exige
reconhecimento da unidade do objeto e, portanto, da sua necessária
apreensão no contexto da totalidade que o constitui e o expressa.
Karl Korsch lembrava em Marxismo e filosofia que, “segundo a
concepção materialista da história [...], não pode haver nem
ciências particulares independentes umas das outras nem uma
investigação puramente teórica [...]”.
História e
texto
A historiografia
sofre em um modo mais profundo o estranhamento assinalado, sobretudo
porque fica à margem do imenso esforço metodológico empreendido pela
Literatura e pela Lingüística, principalmente nas últimas décadas,
no que se refere à compreensão daquele que é seu principal meio para
a aproximação e apreensão dos fenômenos do passado – o texto oral e
escrito. A gravidade dessa alienação aprofunda-se já que, não poucas
vezes, o historiador não apenas desconhece as respostas como nem
mesmo chega a se fazer as perguntas.
No Brasil, desde
o século dezenove, quando a historiografia começou a tomar
consciência de sua especificidade como ciência, até inícios da
segunda metade do século 20, ela manteve-se sobretudo sob a égide do
positivismo, inclusive em sua mais refinada versão marxista.
Nesse longo período, onde o mesmo protagonista podia vestir, em
forma consecutiva, o manto do ficcionista, do lingüista e do
historiador, a literatura ficcional foi vista pelo último como
produto da inspiração fortuita do artista.
Ou seja, como método de produção a ser evitado por disciplina que
esperava conquistar o caminho da cientificidade prometida pela
ascensão da burguesia industrial triunfante através do exorcismo
radical aleatório.
Nos anos 1960,
durante a Ditadura Militar, a profissionalização do historiador
deu-se através da institucionalização dos cursos de mestrado e, a
seguir, doutorado. No contexto da mesma ordem político-social, mais
comumente as visões positivistas foram refinadas e radicalizadas, e
não superadas. Em geral, à informação factual ministrada nos cursos
de graduação em História, ajuntaram-se a prática e a reflexão sobre
as técnicas de pesquisa, fornecidas nos cursos de pós-graduação,
dando-se escassa importância à epistemologia da história
propriamente dita.
Não apenas no
Brasil, essa exacerbação neo-positivista alcançou verdadeiro
paroxismo nos anos 1970, com o transitório prestígio da chamada
“história quantitativa”, tentativa de purificar a disciplina de
Clio de qualquer subjetividade através de apreensão positiva dos
fenômenos históricos em frias e pretensamente irretorquíveis séries
estatísticas, tidas como reproduções naturais da realidade
social.
No contexto do
furor estruturalista nas ciências sociais, sobretudo na sua vertente
francesa, a História aproximou-se também da Lingüística, com
semelhante pretensão de espremer quase estatisticamente o texto,
para que desvelasse os segredos dos fenômenos a que dizia respeito,
à margem da apropriação das suas relações com a realidade que
expressava.
Traduzido ao português em 1977, três anos após ser lançado em Paris,
o livro História e lingüística, coordenado por Régine Robin,
tornou-se espécie de manual dos cursos de pós-graduação, para logo
ser abandonado quase sem deixar rastro na historiografia.
Há alguns anos, livraria de Porto Alegra oferecia dezenas de volumes
encalhados do livro, por alguns reais a unidade.
Estranho
mundo novo
Nos anos oitenta
e noventa, as novíssimas gerações de jeunes loups da
historiografia brasileira distinguiam-se de seus patriarcas de um
século antes, no relativo à técnica, pelo enriquecimento,
precisão, crítica e apresentação das fontes e, quanto ao método,
sobretudo pelo acréscimo da história econômica e social à história
política. Muitas vezes também se diferenciavam dos seus precursores
pelo imenso desconhecimento da produção ficcional, regional,
nacional e mundial, em uma espécie de concretização, par défaut,
do programa positivista do século 19 de liquidação da
influência da narrativa romanesca na historiografia.
Os novos
historiadores, filhos da era da televisão que chegou ao Brasil nos
anos 1960, mis habitualmente haviam ouvido falar de autores como
Aluízio Azevedo, Honoré de Balzac,
Bernardo Guimarães, Charles Dickens,
Dostoievski, George Orwell, Gonçalves Dias, A. Huxley, José
Alencar, etc., em forma telegráfica, nos bancos do segundo grau e,
sobretudo, nos cursos pré-vestibulares. Poucos haviam vivido
aventuras estéticas e culturais juvenis ao descobrirem os grandes
ficcionistas do passado e do presente nas estantes paternas ou nas
ainda mais raras bibliotecas públicas.
Mais comumente,
iniciavam e completavam formação historiográfica sem jamais terem
sido introduzidos, quando ainda adolescentes, em forma
semi-consciente, no passado profundo, pela poderosa máquina do tempo
que é a narrativa ficcional, em geral, e o romance histórico, em
particular. Em um contexto em que a massificação do ensino foi
acompanhada pela degradação do magistério como profissão, não raro
chegavam nas licenciaturas e nos cursos de pós-graduação em História
e Ciências Sociais com precária capacidade de registro escrito do
pensamento lógico.
Nesse estranho
novo mundo, a qualidade do texto, condição sine qua non dos
discípulos de Clio no Brasil, no século 19 e inícios do século 20,
decaiu como preocupação do historiador profissional, passando a
serem consideradas casos de elogio a correção gramatical sumária e a
leitura agradável de dissertação ou tese historiográfica. Em
situações extremas, mas não incomuns, doutores em História têm
dificuldades em corrigir seus orientandos nesse domínio.
Nesse quadro
geral de indiscutível penúria, nos anos noventa, a historiografia
realizou aproximação, agora à Literatura. Porém, esse movimento
constituiu sobretudo processo de reafirmação e radicalização das
suas antigas diferenças e preconceitos, principalmente no relativo à
Literatura, e jamais compreensão das possibilidades que lhe abriam
os avanços metodológicos realizados pela crítica e pela teoria
literária, devido às raízes comuns e aos laços indissolúveis
existentes entre História e Literatura.
A morte da
razão
A História
aproximou-se da Literatura sobretudo no momento em que a maré
neo-liberal de fins dos anos 1980 proclamou o “fim da história” e a
“crise dos grandes paradigmas”, propondo que, devido à
indevassável penumbra e opacidade que cobriria os fenômenos sociais,
era impossível a intelecção das forças e tendenciais que regiam o
devir social, caso elas existissem. Essa visão apologética e
quietista reduzia a historiografia a uma espécie de narrativa do já
ocorrido, transformando a existência humana em mera “superação
individual” dos “impasses” “de uma vida desprovida de sentido”.
No momento em
que esta falsa ciência histórica anunciava o fim de sua
cientificidade, mergulhando de ponta cabeça na piscina vazia do
solipsismo, ela retirava do sótão as fantasias polvorentas que
produzira no passado sobre a literatura romanesca, recusando
novamente servir-se da mesma como depoimento singular essencial dos
fenômenos sociais.
Ao se propor como espécie de narrativa aleatória do realmente
ocorrido, abraçava-se na miragem que construíra da narrativa
ficcional como leitura arbitrária e subjetiva do que poderia ter
ocorrido.
Com esse
movimento, a historiográfico aproximou-se da literatura para melhor
justificar seu abandono da objetividade, propondo-se como simples
descrição de “jogos lingüísticos”; exclusiva “ficção do real”; mera
“ciência do particular”. Raramente buscou na Literatura e na
Lingüística apoio para penetrar as aparências dos fenômenos. E, não
raro, essa aproximação fantasmagórica à Literatura – “história da
vida privada”, “história do imaginário”, “nova história cultural”,
etc. –, deu-se a partir do desconhecimento das categorias e dos
métodos da crítica e da teoria literária.
Ignorava-se
portanto a lembrança vindo da outra margem do mesmo rio, de que a
história “não conhece jamais séries isoladas. Uma série isolada, em
si, é estática; em si mesmo, a alternância dos aspectos pode ser
apenas uma articulação sistemática ou simplesmente uma disposição
mecânica de séries, mas jamais um processo histórico: apenas a
determinação de uma interação e de um condicionamento mútuo da série
em questão com outras, cria uma aproximação histórica. É necessário
deixar de ser apenas si mesmo para entrar na história. »
Em alguns casos,
questões exaustivamente analisadas pela Literatura prosseguiram
ignoradas. Continua habitual que a elipse do narrador seja tida como
a única opção adequada ao discurso historiográfico, para que nenhum
demiurgo introduza tensão subjetiva no texto. Manteve-se o
uso corrente, em geral automático, do narrador onisciente neutro,
paladino da ilusão positivista de neutralidade epistemológica.
E, ali onde o autor se intromete na narrativa, o plural
majestático segue sendo de rigor.
Mundo,
Linguagem e Consciência
Em forma geral,
para a historiografia, a linguagem não é campo de reflexão. Ao
contrário, constitui elemento dado, quase natural, despido de
história, de ideologia, de conflito interno. É quase como se a
palavra fosse hoje como sempre foi. Nesse campo, quanto muito, o
objetivo máximo é a concordância morfológica e semântica. A
preocupação com linguagem politicamente correta, que não escorregue
no preconceito escarrado, já é um quase refinamento metodológico.
A historiografia
paga duramente por essa sua despreocupação, ao produzir trabalhos
vertidos em língua muitas vezes parida por segmentos sociais
do passado, cujas visões de mundo pretende criticar. Pouca atenção é
dada ao aviso que a “linguagem não é um meio neutro”, mas que, ao
contrário, “está povoada e sobre-povoada de intenções estrangeiras”.
Em geral se desconhece que “todas as linguagens do plurilingüismo,
[...], são pontos de vista específicos sobre o mundo, formas de sua
interpretação verbal, perspectivas objetais semânticas. »
Ignora-se
o sentido profundamente histórico e social da linguagem, o fato de
que todas as palavras evocam uma profissão, um gênero, uma
tendência, um partido, uma obra precisa, um homem preciso, uma
geração, uma idade, um dia, uma hora.”
O resultado
desse desconhecimento é a incrustação da voz de um outro na
fala do autor, impregnando fortemente sua narrativa com conteúdos em
oposição frontal às suas visões de mundo. Em forma quase universal,
categorias sociais são perfilhadas sem preocupação com as vozes que
carregam consigo de contrabando.Prossegue-se utilizando categorias como “amo” ou “senhor”, em
acomodação ou oposição ao “escravo” ou “servo”,
forjadas no passado pelos exploradores dos trabalhadores
escravizados.
Trabalhos
historiográficos sobre a escravidão brasileira servem-se e
transcrevem em forma imediata a linguagem produzida pelo mundo
escravista, não raro a partir dos próprios processos judiciários,
introduzindo nos textos visões paridas por aquele mundo, que
determinam as apreciações dos leitores menos sensíveis ou agridem a
consciência dos receptores mais atentos. Esquecem que a “classe
dominante procura dar ao signo ideológico um caráter
supra-classista, eterno, procura apagar e sufocar no interior do
signo a luta das relações sociais, de transformá-lo em expressão de
uma visão única, imutável.”
II. O sentido histórico do texto
A
fonte principal da produção historiográfica continua sendo o texto
oral e escrito, em geral visto, como já assinalado, como chato,
monocórdio, rígido, em um contexto em que importantes setores da
Literatura e da Lingüística o apreendem crescentemente como discurso
social, histórico, dialógico e plurilíngüe. Ou seja, como expressão
e registro verbal das visões de mundo das diversas classes de
locutores, em uma época e um espaço determinados. “As relações de
produção e a estrutura sócio-política que a condicionam diretamente
determinam todos os contatos verbais possíveis entre indivíduos,
todas as formas e os modos de comunicação verbal [...].”
Uma visão da linguagem segundo a qual nenhuma “enunciação
verbalizada pode ser atribuída exclusivamente a quem a enunciou”, já
que, nos fatos, ela é “o produto da interação entre falantes”,
ou seja, produto da “situação social em que [...] surgiu”. Isto
é, “todo produto da linguagem do homem, do simples enunciado a uma
complexa obra literária, em todos os momentos essenciais, é
determinado não pela vivência subjetiva do falante, mas pela
situação social em que se dá a enunciação.”
A
ruptura com a falsa consciência sobre o caráter aleatório da
linguagem escrita ou oral
permite que a historiografia avance substancialmente na solução de
questões cruciais. Entre elas se encontra
o pretenso silêncio que encobriria, no passado, a palavra
fraca do explorado, devido à voz altissonante e única do explorador.
Um silêncio construído devido ao hábito de se ver no texto apenas o
timbre da linguagem única que, nascida ou determinada no
passado, se espraia em seu processo de consolidação-metamorfose aos
dias de hoje.
Um valioso
trabalho sobre a resistência do trabalhador escravizado sulino
registra o quase consenso historiográfico sobre o caráter partidário
da fonte histórica escrita: ”[...] a quase totalidade dos documentos
a respeito dos escravos oferece uma versão que, em geral, é a dos
senhores, da ordem pública e das autoridades. As falas colocam em
evidência o pensamento dessas autoridades, mas raramente permitem a
‘fala’ do negro, sujeito oculto, ágrafo na maioria das vezes [...].”
O cativo seria assim um protagonista que “apenas indireta e
raramente pode manifestar-se ou ter seu pensamento registrado”, já
que, dele, “muito pouco restou que possa ser computado.”
De certo modo, a
narrativa sobre a dificuldade de apreensão da visão de mundo dos
segmentos explorados por falta de documentos diretos registrando
sua voz repete a desculpa já superada de que a história da
escravidão não podia ter sido escrita, já que Rui Barbosa, primeiro
ministro republicano da Fazenda, mandara queimar os papéis sobre a
instituição, a fim de apagar do passado brasileiro o registro da
pecha negra do cativeiro.
Procurar para
encontrar
Como no caso da
Águia de Haia, o silêncio sobre a palavra das classes exploradas se
deve sobretudo ao ouvido mouco dos escribas do presente, e não à
ausência do ressoar forte, ainda que abafado, de suas vozes no
passado. Apesar de o Estado brasileiro ter sido o último a abolir a
escravidão colonial, em 1888, praticamente não contamos com coleta
de depoimentos de cativos, ao contrário dos USA, onde abundam esses
documentos, apesar de ali a escravidão ter sido extinta em 1865.
Em verdade, não possuímos sequer um registro sistemático da palavra
direta do cativo, ao igual da narrativa de don Estéban, o
quilombola cubano.
Entretanto, no
Brasil, são múltiplas as fontes que possibilitam registrar traços
significativos da voz e da visão de mundo dos trabalhadores
escravizados. Entre elas encontram-se documentos diretos tais como
os provérbios, as canções, a tradição oral familiar e comunitária
etc. produzidos por esses locutores silenciados, ainda não
explorados sistematicamente.
Sobretudo no século 19, o carteio senhorial; a dramaturgia; a
narrativa ficcional em prosa – conto, novela, romance; a
documentação administrativa, com destaque para os papéis
judiciários; a narrativa humorística, etc.; constituem um muito rico
registro da voz dos subalternizados, caso se reconheça o sentido
histórico e dialógico dessa produção e se afine os procedimentos
epistemológicos necessários para sua análise.
Esses processos
metodológicos permitirão ao historiador reconhecer, um pouco como o
astrônomo que identifica corpo celeste desconhecido no desvio que
causa na órbita dos astros visíveis, os fios de vozes do cativo
aterrorizado diante do delegado inquisidor, registrados na linguagem
estilizada e esterilizada do escrivão a serviço da sociedade
escravista.
A pesquisa dos
hiatos, das categorias discrepantes, dos desvios do jargão policial
e judiciário, das formas de dizer dos depoimentos, etc.,
identificará certamente, nessa produção, o timbre e a voz, ainda que
traduzidos, do locutor silenciando, nos quadros de uma época e de um
espaço delimitados. Nesse processo, certamente se destacam as
tentativas de transcrição, mesmo corrigidas, das produções
verbais singulares de depoimentos judiciais prestados pelos membros
das classes já ditas infames.
Aqui e ali, sem sequer exigir atenção e apuro metodológico, a voz
profunda do cativo grita, em forma quase límpida, por entre as
linhas do seu depoimento policial e judiciário.
Em 1835, no
início da guerra Farroupilha, a serra do Couto, nas cercanias de
Pelotas, principal centro escravizador sulino, foi estremecida por
um grupo de quilombolas armados, comandado por Manuel Padeiro, que
assaltava e destruía chácaras, justiçava capatazes, apropriava-se de
bens e raptava cativas.
Língua e
consciência
No longo
processo, organizado naquele ano, pelas autoridades de
Pelotas, está registrado o depoimento das “escravas e pardas
libertas”, “tomadas do poder dos quilombolas na Serra dos Tapes”,
realizado na residência de João de Sousa Maria, escrivão
juramentado, com a presença do juiz de paz do Terceiro Distrito do
Termo de Pelotas e de duas testemunhas, igualmente membros das
classes dominantes de então.
Dorothea,
nascida no Brasil, de “quinze anos de idade mais ou menos”, que se
reconheceu no depoimento como “escrava de Florinda [...]”,
relatou que, “estando na companhia” de “sua senhora", na mesma Serra
dos Tapes, na casa de um conhecido da mesma, na noite de doze de
junho, os “quilombolas” “avançaram” para a moradia, ferindo e
desbaratando os senhores e as senhoras que ali se
encontravam.
Após o assalto,
os quilombolas Manoel Padeiro e Matheus, “pretos escravos de
Boaventura Rodrigues Barcellos”, se apoderaram dela e da “crioula
Florência, escrava” “dizendo-lhes que estavam forras”. Certamente
traduzida na sintaxe erudita e burocrática dos documentos da época,
essa produção verbal registra a palavra e visão de mundo de Manoel
Padeiro da obtenção da forração através da ruptura, pela força, de
dominação que, apesar de se propor como fundada na legalidade
e justiça, se impunha, efetivamente, sobretudo, pela força. O
mesmo documento registra longas conversas noturnas de Manoel Padeiro
com trabalhadores ainda sujeitos dos seus escravizadores.
Trinta anos mais tarde, no início da guerra contra o Paraguai, em
1864, delação da conspiração de cativos, em Gravataí, levou à fuga
de alguns sediciosos e à morte de dois chefes do movimento,
Alexandre e Nazário. Quatro dos réus denunciados no processo
correspondente aos fatos eram africanos e cinco crioulos. Nossa
aproximação a esses protagonistas essenciais do passado será
necessariamente limitada. Registre-se que quase nada sabemos das
línguas e padrões lingüísticos que eles falavam.
Os autos do processo congelaram a fala do crioulo Feliciano,
possivelmente também corrigida na sintaxe e no léxico, quando
convidara o preto Justo para participar da revolta: “[...] os
brancos” são “uns pelos outros, por isso os negros também” devem
“fazer o mesmo.”
Essa locução registra inegavelmente um claro salto de consciência,
ao menos dos setores mais avançados dos trabalhadores escravizados,
já que propõe a existência de interesses de classe opostos aos
escravizadores e escravizados, sobre os quais se articulavam as
ações dos primeiros, devendo-se, portanto, ocorrer o mesmo, com as
dos segundos.
Situação de ruptura
As duas
passagens de depoimentos de trabalhadores escravizados, registrados
por escrivões, em ambiente de enorme tensão, já que obtidos
imediatamente após transgressões graves, quando os depoentes estavam
prestes a serem, ou já haviam sido, duramente castigados, registram,
no texto dos dominadores, flashes da consciência de membros
do mundo do trabalho, em situação de ruptura com a
institucionalidade dominante.
A exploração
sistemática, em maior profundidade, da documentação judiciária, das
diversas regiões e épocas do Brasil escravista, certamente
permitirá registrar, com importante precisão, aspectos muito ricos
da fala e, portanto, da consciência das populações escravizadas,
tidas como praticamente impossíveis de obter-se, devido à
inexistência de documentação produzida diretamente por aqueles
segmentos sociais.
Por um outro
lado, essa documentação processual, sobretudo quando apoiada em
depoimentos contraditórios, não aponta, comumente a verdade, no
sentido de reconstituição precisa dos atos e intenções dos
protagonistas. Não raro, não se tem certeza da inocência ou da
culpabilidade dos depoentes, mesmo segundo a legislação da época.
Mais comumente,
as falas de depoentes em contradição, de mesma ou diversa idade,
profissão, etnia, extração social, etc., sugerem diversas tramas
possíveis, aproximando, opondo e enredando as vidas dos
personagens. Na Justiça, esse emaranhado de propostas é um
problema, já que tende a escamotear a verdade procurada e,
portanto, impedir a reparação proposta pela Lei.
Todas as linhas
de ação defendidas, mesmo em oposição, são em geral material e
socialmente possíveis e prováveis. Todas elas apóiam-se e expressam
vontades e desejos subjetivos dos depoentes, sem que o delegado, o
juiz, os jurados e o historiador, saibam se entre elas alguma se
aproxime tendencialmente da essencialidade dos fatos, objetivo da
Justiça e da historiografia.
Devido a essa
imponderabilidade, habitualmente o processo se enfraquece
e o réu culpado pode escapar da punição, devido ao princípio
de que In dubito pro reo. Na História, essa indefinição
fortalece, e não diminui, o valor do processo como fonte
histórica, sobretudo quando se procura reconstruir os elementos
essenciais de uma sociedade.
Múltiplos
caminhos
Uma indefinição
que se abre em pluralidade de caminhos e que apresenta
multiplicidade de vozes supera a informação cabal e monocórdia.
Nesse caso, o objetivo não é reconstruir atos de um personagem
isolado, mas de estabelecer as razões e as intenções de uma
multiplicidade de protagonistas envolvidos, em uma mesma época e
espaço, na mesma trama social.
A reconstrução
histórica de comportamentos sociais auxilia a informação sobre o
que realmente aconteceu e o que poderia ter acontecido, sobretudo,
mas não apenas, se o que poderia ter sucedido corresponde à
gramática das necessidades comunitárias profundas. Nesse contexto,
na definição da essência tendencial dos fatos,
contribui substancialmente a categoria verossimilhança,
própria à narrativa ficcional e aparentemente em oposição com a
historiografia, ao menos nas suas versões positivistas e
neo-positivistas.
Na “Antiguidade,
Aristóteles lembrava que a Literatura produzia um passado
possível e não real”, sendo que, para ele “o poeta,
diferentemente do historiador”, não representava “fatos ou situações
particulares", mas apenas criava "um mundo coerente em que os
acontecimentos” eram “representados na sua universalidade, segundo a
lei da probabilidade ou da necessidade".
Dezenas de
séculos mais tarde, Georg Lukács assinalava que o romance, sobretudo
de cunho histórico, para elevar-se ao nível artístico, é obrigado a
registrar, comumente às custas da distorção dos seus temas, as
tensões essenciais dos fenômenos que aborda. Esse processo, que
resulta no registro singular da essência dos fatos, enseja superação
da proposta aristotélica da coerência da arte, elevando-a à
registro de determinações essenciais do seu objeto.
“[...] a
fidelidade histórica do escritor consiste na reprodução artística
fiel das grandes colisões, das grandes crises e reviravoltas
da história. Para exprimir essa concepção histórica sob uma
forma artística conveniente, o escritor pode tratar os fatos
particulares em forma totalmente livre, enquanto que a simples
fidelidade em relação aos fatos particulares da história, mas sem
esta relação, é totalmente despida de valor.”
Agradecemos os comentários da lingüista Florence Carboni, do
Programa de Pós-Graduação em História da UPF. Texto apresentado
ao XXII Seminário Brasileiro de Crítica Literária - XXI
Seminário de Crítica do Rio Grande do Sul – PONTIFÍCIA
UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RS – Mesa Estudos Multiculturais
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