Por MÁRIO MAESTRI

Mário Maestri, 56, é professor do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS. É autor de, entre outros: Uma história do Brasil. O Império. 3 ed. São Paulo: Contexto, 2002.

 

A linguagem como registro do mundo*

 

Histórias Paralelas. De Luis González Palma – Guatemala (1995)I. Totalidade e parcialidade nas ciências sociais

As três irmãs univitelinas – História, Literatura e Lingüística – prosseguem cada uma tratando dos seus assuntos pessoais, quase renegando a origem e o patrimônio comuns.  Os raros momentos em que se visitam passam no salão de estar, cada uma falando de suas dores e dificuldades. Trataria-se de inocentes idiossincrasias de velhas senhoras se enorme parte da herança materna não se encontrasse depositada em cofre de três chaves, que cada uma tenta abrir por seu lado.

O estranhamento entre a História, Literatura e Lingüística realiza-se plenamente nos cursos de graduação, onde a visão do conhecimento atomizado materializa-se na tentativa de apropriar-se do objeto em estudo através de categorias isoladas, à margem da totalidade concreta que o circunscreve. Pretende-se que se aprenda história sem conhecimento profundo da literatura e da linguagem e que se conheça essas duas disciplinas sem apropriação substancial da primeira.

Comumente, o resultado é risível. Alunos de Letras ouvem falar que a “mais fina flor do Labéu” é o português, vendo no vocábulo torto idioleto camoniano do substantivo “laço”. Estudantes de História praticamente não imaginam que nos séculos 16, 17, 18 e 19 não se falava – e portanto não se pensava – como hoje, no Rio de Janeiro, no Posto 6. Vêem comumente o passado como na cinematografia estadunidense, “com heróis e heroínas da Antiguidade ou Idade Média, vestidos mais ou menos segundo a época, falando, sentindo e amando como acreditam e desejam fazer os espectadores contemporâneos”. [1]

Nos tratados gerais sobre o pouco mais de cinco séculos do Brasil, são raros os capítulos mesmo desmilingüido sobre as línguas faladas na Colônia, no Império e na República, ou apresentando sistematicamente os fenômenos histórico-sociais relacionados às expressões artísticas, em geral, e à literatura, em particular. A proposta de Werneck Sodré, em História da literatura brasileira: seus fundamentos econômicos, em vez de ser superada nas suas limitações, foi quase abandonada, não raro devido as suas qualidades.[2] Nesse início de terceiro milênio, ainda não possuímos no Brasil algo que se aproxime à História concisa de Portugal, de José Hermano Saraiva, com primeira edição em 1978, portanto, há mais de vinte e cinco anos! [3]

A apropriação crescente das determinações gerais de um objeto é necessária à apresentação de sua representação concreta, mesmo singularizada. Entretanto, esse processo não requer simples aproximação, nas suas especificidades, de culturas científicas singulares. Ela exige reconhecimento da unidade do objeto e, portanto, da sua necessária apreensão no contexto da totalidade que o constitui e o expressa. Karl Korsch lembrava em Marxismo e filosofia que, “segundo a concepção materialista da história [...], não pode haver nem ciências particulares independentes umas das outras nem uma investigação puramente teórica [...]”. [4]

História e texto

A historiografia sofre em um modo mais profundo o estranhamento assinalado, sobretudo porque fica à margem do imenso esforço metodológico empreendido pela Literatura e pela Lingüística, principalmente nas últimas décadas, no que se refere à compreensão daquele que é seu principal meio para a aproximação e apreensão dos fenômenos do passado – o texto oral e escrito. A gravidade dessa alienação aprofunda-se já que, não poucas vezes, o historiador não apenas desconhece as respostas como nem mesmo chega a se fazer as perguntas.

No Brasil, desde o século dezenove, quando a historiografia começou a tomar consciência de sua especificidade como ciência, até inícios da segunda metade do século 20, ela manteve-se sobretudo sob a égide do positivismo, inclusive em sua mais refinada versão marxista.[5] Nesse longo período, onde o mesmo protagonista podia vestir, em forma consecutiva, o manto do ficcionista, do lingüista e do historiador, a literatura ficcional foi vista pelo último como produto da inspiração fortuita do artista.[6] Ou seja, como método de produção a ser evitado por disciplina que esperava conquistar o caminho da cientificidade prometida pela ascensão da burguesia industrial triunfante através do exorcismo radical aleatório.[7]

Nos anos 1960, durante a Ditadura Militar, a profissionalização do historiador deu-se através da institucionalização dos cursos de mestrado e, a seguir, doutorado. No contexto da mesma ordem político-social, mais comumente as visões positivistas foram refinadas e radicalizadas, e não superadas.  Em geral, à informação factual ministrada nos cursos de graduação em História, ajuntaram-se a prática e a reflexão sobre as técnicas de pesquisa, fornecidas nos cursos de pós-graduação, dando-se escassa importância à epistemologia da história propriamente dita.

Não apenas no Brasil, essa exacerbação neo-positivista alcançou verdadeiro paroxismo nos anos 1970, com o transitório prestígio da chamada “história quantitativa”, tentativa de purificar a disciplina de Clio  de qualquer subjetividade através de apreensão positiva dos fenômenos históricos em frias e pretensamente irretorquíveis séries estatísticas, tidas como reproduções naturais da realidade social.

No contexto do furor estruturalista nas ciências sociais, sobretudo na sua vertente francesa, a História aproximou-se também da Lingüística, com semelhante pretensão de espremer quase estatisticamente o texto, para que desvelasse os segredos dos fenômenos a que dizia respeito, à margem da apropriação das suas relações com a realidade que expressava.[8] Traduzido ao português em 1977, três anos após ser lançado em Paris, o livro História e lingüística, coordenado por Régine Robin, tornou-se espécie de manual dos cursos de pós-graduação, para logo ser abandonado quase sem deixar rastro na historiografia.[9] Há alguns anos, livraria de Porto Alegra oferecia dezenas de volumes encalhados do livro, por alguns reais a unidade.

Estranho mundo novo

Nos anos oitenta e noventa, as novíssimas gerações de jeunes loups da historiografia brasileira distinguiam-se de seus patriarcas de um século antes, no relativo à técnica, pelo enriquecimento, precisão, crítica e apresentação das fontes e, quanto ao método, sobretudo pelo acréscimo da história econômica e social à história política. Muitas vezes também se diferenciavam dos seus precursores pelo imenso desconhecimento da produção ficcional, regional, nacional e mundial, em uma espécie de concretização, par défaut, do programa positivista do  século 19 de liquidação da influência da narrativa romanesca na historiografia.

 Os novos historiadores, filhos da era da televisão que chegou ao Brasil nos anos 1960, mis habitualmente haviam ouvido falar de autores como Aluízio Azevedo, Honoré de Balzac, Bernardo Guimarães, Charles Dickens, Dostoievski, George Orwell, Gonçalves Dias, A. Huxley, José Alencar, etc., em forma telegráfica, nos bancos do segundo grau e, sobretudo, nos cursos pré-vestibulares. Poucos haviam vivido aventuras estéticas e culturais juvenis ao descobrirem os grandes ficcionistas do passado e do presente nas estantes paternas ou nas ainda mais raras bibliotecas públicas.

Mais comumente, iniciavam e completavam formação historiográfica sem jamais terem sido introduzidos, quando ainda adolescentes, em forma semi-consciente, no passado profundo, pela poderosa máquina do tempo que é a narrativa ficcional, em geral, e o romance histórico, em particular. Em um contexto em que a massificação do ensino foi acompanhada pela degradação do magistério como profissão, não raro chegavam nas licenciaturas e nos cursos de pós-graduação em História e Ciências Sociais com precária capacidade de registro escrito do pensamento lógico.

Nesse estranho novo mundo, a qualidade do texto, condição sine qua non dos discípulos de Clio no Brasil, no século 19 e inícios do século 20, decaiu como preocupação do historiador profissional, passando a serem consideradas casos de elogio a correção gramatical sumária e a leitura agradável de dissertação ou tese historiográfica. Em situações extremas, mas não incomuns, doutores em História têm dificuldades em corrigir seus orientandos nesse domínio.

Nesse quadro geral de indiscutível penúria, nos anos noventa, a historiografia realizou aproximação,  agora à Literatura. Porém, esse movimento constituiu sobretudo processo de reafirmação e radicalização das suas antigas diferenças e preconceitos, principalmente no relativo à Literatura, e jamais compreensão das possibilidades que lhe abriam os avanços metodológicos realizados pela crítica e pela teoria literária, devido às raízes comuns e aos laços indissolúveis existentes entre História e Literatura.

A morte da razão

A História aproximou-se da Literatura sobretudo no momento em que a maré neo-liberal de fins dos anos 1980 proclamou o “fim da história” e a “crise dos grandes paradigmas”, propondo que, devido à indevassável penumbra e opacidade que cobriria os fenômenos sociais, era impossível a intelecção das forças e tendenciais que regiam o devir social, caso elas existissem. Essa visão apologética e quietista reduzia a  historiografia a uma espécie de narrativa do já ocorrido, transformando a existência  humana em mera “superação individual” dos “impasses” “de uma vida desprovida de sentido”. [10]

No momento em que esta falsa ciência histórica anunciava o fim de sua cientificidade, mergulhando de ponta cabeça na piscina vazia do solipsismo, ela retirava do sótão as fantasias polvorentas que produzira no passado sobre a literatura romanesca, recusando novamente servir-se da mesma como depoimento singular essencial dos fenômenos sociais. [11] Ao se propor como espécie de narrativa aleatória do realmente ocorrido, abraçava-se na miragem que construíra da narrativa ficcional como  leitura arbitrária e subjetiva do que poderia ter ocorrido.

Com esse movimento, a historiográfico aproximou-se da literatura para melhor justificar seu abandono da objetividade, propondo-se como simples descrição de “jogos lingüísticos”; exclusiva “ficção do real”; mera “ciência do particular”. Raramente buscou na Literatura e na Lingüística apoio para penetrar as aparências dos fenômenos. E, não raro, essa aproximação fantasmagórica à Literatura – “história da vida privada”, “história do imaginário”, “nova história cultural”, etc. –,  deu-se a partir do desconhecimento das categorias e dos métodos da crítica e da teoria literária.

Ignorava-se portanto a lembrança vindo da outra margem do mesmo rio, de que a história “não conhece jamais séries isoladas. Uma série isolada, em si, é estática; em si mesmo, a alternância dos aspectos pode ser apenas uma articulação sistemática ou simplesmente uma disposição mecânica de séries, mas jamais um processo histórico: apenas a determinação de uma interação e de um condicionamento mútuo da série em questão com outras, cria uma aproximação histórica. É necessário deixar de ser apenas si mesmo para entrar na história. »[12]

Em alguns casos, questões exaustivamente analisadas pela Literatura prosseguiram  ignoradas. Continua habitual que a elipse do narrador seja tida como a única opção adequada ao discurso historiográfico, para que nenhum demiurgo introduza tensão subjetiva no texto. Manteve-se o uso corrente, em geral automático, do narrador onisciente neutro, paladino da ilusão positivista de neutralidade epistemológica. [13] E, ali onde o autor se intromete na narrativa, o plural majestático segue sendo de rigor.

Mundo, Linguagem e Consciência

Em forma geral, para a historiografia, a linguagem não é campo de reflexão. Ao contrário, constitui elemento dado, quase natural, despido de história, de ideologia, de conflito interno. É quase como se a palavra fosse hoje como sempre foi. Nesse campo, quanto muito, o objetivo máximo é a concordância morfológica e semântica. A preocupação com linguagem politicamente correta, que não escorregue no preconceito escarrado, já é um quase refinamento metodológico.

A historiografia paga duramente por essa sua despreocupação, ao produzir trabalhos vertidos em língua muitas vezes parida por segmentos sociais do passado, cujas visões de mundo pretende criticar. Pouca atenção é dada ao aviso que a  “linguagem não é um meio neutro”, mas que, ao contrário, “está povoada e sobre-povoada de intenções estrangeiras”. [14]  Em geral se desconhece que “todas as linguagens do plurilingüismo, [...], são pontos de vista específicos sobre o mundo, formas de sua interpretação verbal, perspectivas objetais semânticas. » [15] Ignora-se o sentido profundamente histórico e social da linguagem, o fato de que todas as palavras evocam uma profissão, um gênero, uma tendência, um partido, uma obra precisa, um homem preciso, uma geração, uma idade, um dia, uma hora.”[16]

O resultado desse desconhecimento é a incrustação da voz de um outro na fala do autor, impregnando fortemente sua narrativa com conteúdos em oposição frontal às suas visões de mundo. Em forma quase universal, categorias sociais são perfilhadas sem preocupação com as vozes que carregam consigo de contrabando. Prossegue-se utilizando categorias como “amo” ou “senhor”, em acomodação ou oposição ao “escravo” ou “servo”, forjadas no passado pelos exploradores dos trabalhadores escravizados. [17] 

Trabalhos historiográficos sobre a escravidão brasileira servem-se e transcrevem em forma imediata a linguagem produzida pelo mundo escravista, não raro a partir dos próprios processos judiciários, introduzindo nos textos visões paridas por aquele mundo, que determinam as apreciações dos leitores menos sensíveis ou agridem a consciência dos receptores mais atentos. Esquecem que a “classe dominante procura dar ao signo ideológico um caráter supra-classista, eterno, procura apagar e sufocar no interior do signo a luta das relações sociais, de transformá-lo em expressão de uma visão única,  imutável.”[18]

II. O sentido histórico do texto

A fonte principal da produção historiográfica continua sendo o texto oral e escrito, em geral visto, como já assinalado, como chato, monocórdio, rígido, em um contexto em que importantes setores da Literatura e da Lingüística o apreendem crescentemente como discurso social, histórico, dialógico e plurilíngüe. Ou seja, como expressão e registro verbal das visões de mundo das diversas classes de locutores, em uma época e um espaço determinados. “As relações de produção e a estrutura sócio-política que a condicionam diretamente determinam todos os contatos verbais possíveis entre indivíduos, todas as formas e os modos de comunicação verbal [...].”[19]

Uma visão da linguagem segundo a qual nenhuma “enunciação verbalizada pode ser atribuída exclusivamente a quem a enunciou”, já que, nos fatos, ela é “o produto da interação entre falantes”, ou seja, produto da “situação social em que [...] surgiu”. Isto é, “todo produto da linguagem do homem, do simples enunciado a uma complexa obra literária, em todos os momentos essenciais, é determinado não pela vivência subjetiva do falante, mas pela situação social em que se dá a enunciação.” [20]

A ruptura com a falsa consciência sobre o caráter aleatório da linguagem escrita ou oral permite que a historiografia avance substancialmente na solução de questões cruciais. Entre elas se encontra o pretenso silêncio que encobriria, no passado, a palavra fraca do explorado, devido à voz altissonante e única do explorador. Um silêncio construído devido ao hábito de se ver no texto apenas o timbre da linguagem única que, nascida ou determinada no passado, se espraia em seu processo de consolidação-metamorfose aos dias de hoje. [21]

Um valioso trabalho sobre a resistência do trabalhador escravizado sulino registra o quase consenso historiográfico sobre o caráter partidário da fonte histórica escrita: ”[...] a quase totalidade dos documentos a respeito dos escravos oferece uma versão que, em geral, é a dos senhores, da ordem pública e das autoridades. As falas colocam em evidência o pensamento dessas autoridades, mas raramente permitem a ‘fala’ do negro, sujeito oculto, ágrafo na maioria das vezes [...].” O cativo seria assim um protagonista que “apenas indireta e raramente pode manifestar-se ou ter seu pensamento registrado”, já que, dele, “muito pouco restou que possa ser computado.” [22]

De certo modo, a narrativa sobre a dificuldade de apreensão da visão de mundo dos segmentos explorados por falta de documentos diretos  registrando sua voz repete a desculpa já superada de que a história da escravidão não podia ter sido escrita, já que Rui Barbosa, primeiro ministro republicano da Fazenda, mandara queimar os papéis sobre a instituição, a fim de apagar do passado brasileiro o registro da pecha negra do cativeiro.

Procurar para encontrar

Como no caso da Águia de Haia, o silêncio sobre a palavra das classes exploradas se deve sobretudo ao ouvido mouco dos escribas do presente, e não à ausência do ressoar forte, ainda que abafado, de suas vozes no passado. Apesar de o Estado brasileiro ter sido o último a abolir a escravidão colonial, em 1888, praticamente não contamos com coleta de depoimentos de cativos, ao contrário dos USA, onde abundam esses documentos, apesar de ali a escravidão ter sido extinta em 1865.[23] Em verdade, não possuímos sequer um registro sistemático da palavra direta do cativo, ao igual da narrativa de don Estéban, o quilombola cubano.[24]

Entretanto, no Brasil, são múltiplas as fontes que possibilitam registrar traços significativos da voz e da visão de mundo dos trabalhadores escravizados. Entre elas encontram-se documentos diretos tais como os provérbios, as canções, a tradição oral familiar e comunitária etc. produzidos por esses locutores silenciados, ainda não explorados sistematicamente. [25] Sobretudo no século 19, o carteio senhorial;  a dramaturgia; a narrativa ficcional em prosa – conto, novela, romance; a documentação administrativa, com destaque para os papéis judiciários; a narrativa humorística, etc.; constituem um muito rico registro da voz dos subalternizados, caso se reconheça o sentido histórico e dialógico dessa produção e se afine os procedimentos epistemológicos necessários para sua análise. [26]

Esses processos metodológicos permitirão ao historiador reconhecer, um pouco como o astrônomo que identifica corpo celeste desconhecido no desvio que causa na órbita dos astros visíveis,  os fios de vozes do cativo aterrorizado diante do delegado inquisidor, registrados na linguagem estilizada e esterilizada do escrivão a serviço da sociedade escravista. [27]

A pesquisa dos hiatos, das categorias discrepantes, dos desvios do jargão policial e judiciário, das formas de dizer dos depoimentos, etc., identificará certamente, nessa produção, o timbre e a voz, ainda que traduzidos, do locutor silenciando, nos quadros de uma época e de um espaço delimitados. Nesse processo, certamente se destacam as tentativas de transcrição, mesmo corrigidas, das produções verbais singulares de depoimentos judiciais prestados pelos membros das classes já ditas infames.

Aqui e ali, sem sequer exigir atenção e apuro metodológico, a voz profunda do cativo grita, em forma quase límpida, por entre as linhas do seu depoimento policial e judiciário. Em 1835, no início da guerra Farroupilha, a serra do Couto, nas cercanias de Pelotas, principal centro escravizador sulino, foi estremecida por um grupo de quilombolas armados, comandado por Manuel Padeiro, que assaltava e destruía chácaras, justiçava capatazes, apropriava-se de bens e raptava cativas.

Língua e consciência

No longo processo, organizado naquele ano, pelas autoridades de Pelotas, está registrado o depoimento das “escravas e pardas libertas”, “tomadas do poder dos quilombolas na Serra dos Tapes”,  realizado na residência de João de Sousa Maria, escrivão juramentado, com a presença do juiz de paz do Terceiro Distrito do Termo de Pelotas e de duas  testemunhas, igualmente membros das classes dominantes de então. [28]

Dorothea, nascida no Brasil, de “quinze anos de idade mais ou menos”, que se reconheceu no depoimento como “escrava de Florinda [...]”, relatou que, “estando na companhia” de “sua senhora", na mesma Serra dos Tapes, na casa de um conhecido da mesma, na  noite de doze de junho, os “quilombolas” “avançaram” para a moradia, ferindo e desbaratando os senhores e as senhoras que ali se encontravam.

Após o assalto, os quilombolas Manoel Padeiro e Matheus, “pretos escravos de Boaventura Rodrigues Barcellos”, se apoderaram dela e da “crioula Florência, escrava” “dizendo-lhes que estavam forras”. Certamente traduzida na sintaxe erudita e burocrática dos documentos da época, essa produção verbal registra a palavra e visão de mundo de Manoel Padeiro da obtenção da forração através da ruptura, pela força, de dominação que, apesar de se propor como fundada na legalidade e justiça, se impunha, efetivamente, sobretudo, pela força. O mesmo documento registra longas conversas noturnas de Manoel Padeiro com trabalhadores ainda sujeitos dos seus escravizadores.

Trinta anos mais tarde, no início da guerra contra o Paraguai, em 1864, delação da conspiração de cativos, em Gravataí, levou à fuga de alguns sediciosos e à morte de dois chefes do movimento, Alexandre e Nazário. Quatro dos réus denunciados no processo correspondente aos fatos eram africanos e cinco crioulos. Nossa aproximação a esses protagonistas essenciais do passado será necessariamente limitada. Registre-se que quase nada sabemos das línguas e padrões lingüísticos que eles falavam.

Os autos do processo congelaram a fala do crioulo Feliciano, possivelmente também corrigida na sintaxe e no léxico, quando convidara o preto Justo para participar da revolta: “[...] os brancos” são “uns pelos outros, por isso os negros também” devem “fazer o mesmo.” [29] Essa locução registra inegavelmente um claro salto de consciência, ao menos dos setores mais avançados dos trabalhadores escravizados, já que propõe a existência de interesses de classe opostos aos escravizadores e escravizados, sobre os quais se articulavam as ações dos primeiros, devendo-se, portanto, ocorrer o mesmo, com as dos segundos.

Situação de ruptura

As duas passagens de depoimentos de trabalhadores escravizados, registrados por escrivões, em ambiente de enorme tensão, já que obtidos imediatamente após transgressões graves, quando os depoentes estavam prestes a serem, ou já haviam sido, duramente castigados, registram, no texto dos dominadores,  flashes da consciência de membros do mundo do trabalho, em situação de ruptura com a institucionalidade dominante.

A exploração sistemática, em maior profundidade, da documentação judiciária, das diversas regiões e épocas do  Brasil escravista, certamente permitirá registrar, com importante precisão, aspectos muito ricos da fala e, portanto, da consciência das populações escravizadas, tidas como praticamente impossíveis de obter-se, devido à inexistência de documentação produzida diretamente por aqueles segmentos sociais.

Por um outro lado, essa documentação processual, sobretudo quando apoiada em depoimentos contraditórios, não aponta, comumente a verdade, no sentido de reconstituição precisa dos atos e intenções dos protagonistas. Não raro, não se tem certeza da inocência ou da culpabilidade dos depoentes, mesmo segundo a legislação da época.

Mais comumente, as falas de depoentes em contradição, de mesma ou diversa idade, profissão, etnia, extração social, etc., sugerem diversas tramas possíveis,  aproximando, opondo e enredando as vidas dos personagens. Na Justiça, esse emaranhado de propostas é um problema, já que tende a escamotear a verdade procurada e, portanto, impedir a reparação proposta pela Lei.

Todas as linhas de ação defendidas, mesmo em oposição, são em geral material e socialmente possíveis e prováveis. Todas elas apóiam-se e expressam vontades e desejos subjetivos dos depoentes, sem que o delegado, o juiz, os jurados e o historiador, saibam se entre elas alguma se aproxime tendencialmente da essencialidade dos fatos, objetivo da Justiça e da historiografia.

Devido a essa imponderabilidade, habitualmente o processo se enfraquece e o réu culpado pode escapar da punição, devido ao princípio de que In dubito pro reo.  Na História, essa indefinição fortalece, e não diminui, o valor do processo como fonte histórica, sobretudo quando se procura reconstruir os elementos essenciais de uma sociedade.

Múltiplos caminhos

Uma indefinição que se abre em pluralidade de caminhos e que apresenta multiplicidade de vozes supera a informação cabal e monocórdia.  Nesse caso, o objetivo não é reconstruir atos de um personagem isolado, mas de estabelecer as razões e as intenções de uma multiplicidade de protagonistas envolvidos, em uma mesma época e espaço, na mesma trama social.

A reconstrução histórica de comportamentos sociais  auxilia a informação sobre o que realmente aconteceu e o que poderia ter acontecido, sobretudo, mas não apenas, se o que poderia ter sucedido corresponde à gramática das necessidades comunitárias profundas. Nesse contexto, na definição da essência tendencial dos fatos, contribui substancialmente a categoria verossimilhança, própria à narrativa ficcional e aparentemente em oposição com a historiografia, ao menos nas suas versões positivistas e neo-positivistas.

Na “Antiguidade, Aristóteles lembrava que a Literatura produzia um passado possível e não real”, sendo que, para ele “o poeta, diferentemente do historiador”, não representava “fatos ou situações particulares",  mas apenas  criava "um mundo coerente em que os acontecimentos” eram “representados na sua universalidade, segundo a lei da probabilidade ou da necessidade".[30]

Dezenas de séculos mais tarde, Georg Lukács assinalava que o romance, sobretudo de cunho histórico,  para elevar-se ao nível artístico, é obrigado a registrar, comumente às custas da distorção dos seus temas, as tensões essenciais dos fenômenos que aborda. Esse processo, que resulta no registro singular da essência dos fatos, enseja superação da proposta aristotélica da coerência da arte, elevando-a à registro de determinações essenciais do seu objeto.

“[...] a fidelidade histórica do escritor consiste na reprodução artística fiel das grandes colisões, das grandes crises e reviravoltas da história. Para exprimir essa concepção histórica sob uma forma artística conveniente, o escritor pode tratar os fatos particulares em forma totalmente livre, enquanto que a simples fidelidade em relação aos fatos particulares da história, mas sem esta relação, é totalmente despida de valor.” [31]


* Agradecemos os comentários da lingüista Florence Carboni, do Programa de Pós-Graduação em História da UPF. Texto apresentado ao XXII Seminário Brasileiro de Crítica Literária - XXI Seminário de Crítica do Rio Grande do Sul – PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RS – Mesa Estudos Multiculturais

 

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[1]  Cf. MAESTRI, Mário. As sete mulheres e as negras sem rosto: ficção, história e trivialidade. Cadernos IHU Idéias. Instituto Humanistas Unisinos.  São Leopoldo, Unisinos. Ano 2, n. 17, 2004, 19 pp.

[2]   Cf. SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira: seus fundamentos econômicos. 5 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969.

[3]   Cf. SARAIVA, José Hermano. História concisa de Portugal. 21 ed. Portugal: Europa-América, 2001.

[4]   KORSCH, Karl. Marxismo e filosofia. Porto: Afrontamento, 1977. p. 94.

[5]  Cf. por exemplo, PRADO JÚNIOR, Caio. Evolução política do Brasil: e outros estudos. 8 ed. São Paulo: Brasiliense, 1975.

[6]   Cf. MOREIRA, Maria E. Nacionalismo literário e crítica romântica. Porto Alegre: IEL, 1991. pp. 51 et seq.

[7]  Cf. MAESTRI, Mário. “História e literatura: O quatrilho, um caso de amor pela RCI”. HISTÓRIA DEBATES E TENDÊNCIAS. Brasil-Itália. Travessias. Universidade de Passo Fundo, IFCH, Programa de Pós-Graduação em História, 2003, Vol. 4, n. 2, pp. 11 et seq.

[8] Cf. ZILBERMAN, Regina. Estética da Recepção e história da literatura. São Paulo: Ática, 1989. p. 10.

[9] Cf. ROBIN, Régine. História e lingüística. São Paulo: Cultrix, 1978.

[10]. BAKHTIN, Mikhail. [VOLOCHINOV, V.]. O freudismo. São Paulo: Perspectiva, 2004. p. 92.

[11]  Cf. LUKACS.

[12]  BAKHTINE, Mikhaïl. Esthétique et théorie du roman. France: Gallimard, 1978. P. 38

[13]  Cf. LEITE, Ligia Moraes. O foco narrativo. 7 ed. São Paulo: Ática, 1994. pp. 32 et seq.

[14]  BAKHTINE, Mikhaïl. Esthétique et théorie  du roman. France: Gallimard, 1978. P. 115.[Traduzimos]

[15]   Cf. Id.ib. p. 113.

[16]   Cf. Id.ib. p. 114

[17]  CARBONI & MAESTRI. A linguagem escravizada. São Paulo: Expressão Popular, 2003.

[18] . BACHTIN, Michail M. Stilistica letteraria. ________.  Linguaggio e scrittura. Roma: Meltemi, 2003. p. 157. [Traduzimos]

[19]  VOLOCHINOV, V.N/BAKTINE, M. Le marxisme et la philosophie du langage: essai d´application de la méthode sciologique en linguistique. Paris : Minuit, 1977. P. 38. [Traduzimos]

[20]  Cf. BAKHTIN, Mikhail. [V.N. Volochínov]. O freudismo. São Paulo: Perspectiva, 2004. p. 79.

[21]  Cf. Id.ib. p. 95

[22]  PETIZ, Silnei de Sant’An. “Buscando a liberdade: as fugas de escravos na província de São Pedro para o Além-fronteira (1815-1851)”. Programa de Pós-Graduação em História, UFRGS, [2001]. [Dissertação de mestrado].

[23]   Cf. MAESTRI, Mário. Depoimentos de escravos brasileiros. São Paulo: Ícone, 1988.

[24]  Cf. BARNET, Miguel. Memória de um cimarrón. São Paulo: Marco Zero; MAESTRI, Mário. Depoimentos de escravos brasileiros. São Paulo: Ícone, 1988. 

[25] Cf. sobre a memória oral da escravidão: VECCHIA, Agostinho M. Dalla. Os filhos da escravidão: memórias de descendentes de escravos da região meridional do Rio Grande do Sul. Pelotas: EdiUFPEL, 1993.

[26]  Cf. BAKHTINE, Mikhaïl. Esthétique et théorei du roman. France: Gallimard, 1978. P.  98

[27]  Cf. Id.ib. p. 111.

[28]  Cf. APRGS. Processos crimes n. 81; maço 3, estante 36, ano 1835. Pelotas, Juri. AP

[29] Apud. MOREIRA, Paulo. Os cativos e os homens de bem: experiências negras no espaço urbano. Porto Alegre: EST, 2003.

[30].  MAESTRI, Mário. “O tempo, o vento e o negro: consolidação literária do mito da democracia pastoril: o cativo, em O continente, de Érico Veríssimo”.  Centro de Estudos Marxistas. Os trabalhos e os dias. Passo Fundo: EdiUPF, 2000.

[31]   LUKACS. Le roman historique. Paris: Payot, 1977. p 185.

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