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Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista,
professor do DFE da Universidade Estadual de Maringá (Pr), e
voluntário do CVV-Samaritanos de Maringá (PR)., tel.: [44]
30314111 |
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O
suicídio-espetáculo na sociedade do espetáculo
“Suicidar
é um ato inútil e insensato; destrói arbitrariamente o fenômeno
individual, enquanto a coisa em si permanece intacta”
A.
Schopenhauer
Embora
seja um tabu nas conversas do dia-a-dia, o suicídio tende a ser
aceito como mais um direito do sujeito contemporâneo. Entretanto, na
maioria das vezes, abreviar a própria vida não se trata de um ato
sustentado no livre-arbítrio, mas sim em conflitos entre a
consciência e o inconsciente, entre o sujeito e o grupo, a fé e a
ciência, etc.
A partir da
segunda metade do século 20, o suicídio tem sido também usado como
uma manifestação política e religiosa, causando assim mais desespero
e desesperança para o futuro da humanidade.
Dos casos de prática da
eutanásia aos homens-bomba, a escolha da própria morte é um
acontecimento crescente no mundo todo.
Os ataques suicidas, antes noticiados como gesto de fanáticos, após
o 11 de setembro de 2001, foram reconsiderados como um ato mais ou
menos racional, e imprevisível.
O
megaterrorismo deve ser visto também como um suicídio espetacular do
sujeito, que é representante de uma cultura dentro de uma sociedade
globalizada que faz do espetáculo a sua estética e ética de vida. Ou
seja, o que importa nesse terrível ato é ganhar a visibilidade na
mídia, não se importando veicular a idéia por meio da palavra, ou o
argumento que o sujeito que pensa ser o portador de uma lógica ou de
uma mensagem divina.
O
suicídio de indivíduos sozinhos ou em grupo deixou de ser um ato
puramente privativo para sê-lo em público, como se fosse um show,
em nome de uma causa muitas vezes incompreensível, principalmente se
esta é direcionada para ser decodificada pela cultura ocidental. O
suicido terrorista, podendo acontecer em qualquer parte do mundo e a
qualquer momento, mina qualquer forma de segurança preventiva, visto
que não existe meio para contê-lo. O ator do gesto suicida atua como
se fosse personagem de uma tragédia, como que uma lei acima dele o
empurra para o ato final. “É a vitória da pulsão de morte, o
triunfo do ódio e do sadismo. Também é o preço muito caro, sempre
pago para sustentar inconscientemente uma posição de domínio, na
alienação mais radical, pois o sujeito está até mesmo prestes a
pagá-la com sua vida” (Chemama, 1995, p.10).
A
cultura norte-americana,
historicamente violenta, soube projetar nos filmes homicídios e
suicídios estetizados, porém, nas últimas décadas está sendo vítima
de sua própria violência fabricada pelos meios virtuais, e também
pelo estilo de vida que espalha pelo mundo. O suicida-terrorista é
atingido por signos e termina também aspirando ter seus 30 segundos
de glória macabra nas telas do noticiário da televisão, que ele não
pode mais ver, mas pode gozar por antecipação, e, a mídia não tem
como evitar.
O
gozo de destruir se destruindo é crescente no mundo. E não é produto
unicamente de uma determinada cultura religiosa que produz
terroristas em série. O suicídio sempre esteve presente na cultura
humana. Faltam, porém, reflexões mais profundas, estudos
interdisciplinares, além de medidas preventivas mais efetivas, visto
que hoje já podemos falar de banalização do suicídio. Antes de 11/9,
os homens-bombas que atuavam contra a ocupação israelense tinham se
banalizado, eram apenas um efeito local, porém, depois do
internacionalismo da Al Qaeda e da ocupação do Iraque encabeçada
pela EUA, a prática do suicídio-homicídio promete ser crescente e de
proporções inimagináveis no mundo todo.
*
* *
Albert
Camus (s.d.) escreveu numa época de pessimismo pós-guerra, que só
há um problema verdadeiramente filosófico sério: o suicídio. Ou
seja, julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a
uma questão fundamental da filosofia, dizia o existencialista.
Se Camus vivesse os nossos dias teria ampliado sua observação, visto
que o suicídio cada vez mais é usado para fins políticos,
religiosos, e existenciais, para abreviar mais uma vida que perde o
sentido, comumente aceito como valor maior.
Em
nossa época, o gesto suicida ocupa uma posição limítrofe, entre a
política e os interesses do Eu, entre a ciência e a fé, entre a
tradição e a modernidade, entre a aceitação da natural conservação
de si e a falta de sentido de existir. Como o sujeito de nossa época
não mais acredita na idéia de revolução, deixa-se levar pelos ventos
da paixão mística ou niilista, usando a morte do próprio corpo para
expressar sua revolta contra um mundo sem coração. Morre o corpo
para viver o transcendente. E, os terroristas islâmicos estão na
vanguarda desse movimento irracionalista porque escolheram o
suicídio como gesto político de sacrifício por uma causa difusa
entre o misticismo, a política, a estética e a ética tribal e
tradicionalista. O suicídio do terror despreza a vida terrena de si
e dos outros, em nome de uma causa mais voltada para a vida dos céus
do que a vida da terra. Os ataques suicidas de 11/9 ou de tantos
outros que ocorrem na Palestina, no Paquistão, Índia, Chechênia, ou
no Iraque não escolhem vítimas. Crianças, mulheres, velhos, civis,
militares e homens de governo, empresas, ongs humanitárias, ONU,
todos são como que merecedores de morrer e sofrer junto com o
suicida.
O
suicídio político-religioso da era contemporânea pode até ser
criticado como um gesto movido unicamente pela e paixão e fanatismo,
porém não pode ser negado, nele, a sua racionalidade, premeditação e
cálculo, tanto para causar destruição e impacto no inimigo como
também causar visibilidade no mundo, aproveitando-se sempre de uma
mídia sedenta de audiência a qualquer preço. Mesmo sendo um
ato político que ataca os símbolos do capitalismo ianque, ou da vida
ocidentalizada de Israel ou da democracia da Espanha,
o terrorismo-suicida contemporâneo não é inspirado em uma doutrina
de esquerda socialista, nem tem aspiração à democracia pluralista.
Pelo contrário. Conforme Rounaet (2001),
“são agentes de uma ideologia religiosa
de extrema direita, que apaga as fronteiras de classe e nesse
sentido funciona como ópio do povo, na mais pura acepção marxista".
O terrorismo-suicida contemporâneo também não deve ser confundido
como um movimento de guerrilha, visto que esta [a guerrilha] tende a
ser laica, racional, não usa os seus militantes para fins suicidas,
e desenvolve uma estratégia de luta visando o poder e não apenas a
destruição. As características dos “insurgentes” no Iraque de hoje
deve ser considerada mais para um movimento de guerrilha do que de
terrorismo.
O
suicídio, evidentemente, tem várias motivos: político, amoroso,
financeiro, sentimento de culpa ou remorso, doença fatal, reprovação
sócio-cultural, um meio de expressar uma causa mítica ou religiosa,
etc. Pode ser um gesto individual ou coletivo, de livre-arbítrio ou
influenciado por uma causa, líder carismático ou grupo. O suicídio
tem sido usado com freqüência por ser uma arma de guerra de baixo
custo, e causar grandes danos materiais e efeito moral do inimigo
poderoso que está mais preparado para uma guerra convencional.
A
ideologia patriótica que tradicionalmente estimulava "morrer pela
pátria" presente nas letras dos hinos nacionais, vem sendo cumprida
literalmente pelas "ongs" terroristas como resposta desesperada
contra uma ordem pervertida da economia, da estética e da ética no
mundo contemporâneo. Vandré, na sua canção “Pra não dizer que não
falei de flores”, mais conhecida por “Caminhando...”, naquela
época (anos 70), cuja luta era contra a ditadura militar, ironizava
o princípio de “morrer pela pátria e viver sem razão”. O suicídio
político e religioso pode ser interpretado como uma reação
desesperada contra um poder imperial – militar e/ou cultural –
invasor, que não respeita a cultura, nem a identidade de cada povo.
Assim, é preferível morrer do que entregar a alma para eles e viver
sem razão...
Uma “morte
gloriosa” na história
A prática de autoflagelação
pré-suicida vista nas manifestações públicas do Irã, a partir da
chegada ao poder da teocracia xiita que atemoriza o ocidente, era
comumente aceita pela cultura cristã. Não só no período da chamada
Igreja primitiva, e das cruzadas, como até o século 20, suicídios
coletivos
foram comandados por seitas neocristãs. Desde a Idade Média, a
interpretação movida pela fé cristã fazia do sofrimento e da dor um
significado redentor. O martírio fundado na fé religiosa não era
considerado um suicídio em si, mas um bom gesto de negação material
e a conseqüente supervalorização da alma em ascese. Acreditava-se
que não era o sujeito que escolhia tal ato, mas este era instrumento
do desejo divino ou das circunstâncias que o colocava em teste para
com a divindade. No período das cruzadas, os cristãos fervorosos
comumente faziam penitências, autoflagelação, martírios de todo
tipo, e iam para a guerra quase que se oferecendo para morrer, tudo
sustentado pela crença de obtenção de uma vida melhor pós-morte. Os
judeus de Massada, também praticaram suicídio coletivo para não
serem capturados por seus inimigos, escapando assim da degradação,
tortura, assassinado e abjuração de sua fé, além de buscarem com
esse gesto uma vida após a morte
etc.
Por
outro lado, o conceito de suicídio honroso ou suicídio como forma de
luta, teria surgido no Japão, através do código de ética samurai. Na
2a. Guerra Mundial, o Japão recrutava e treinava
secretamente kamikazes ("vento dos deuses", em japonês) para pilotar
e lançar o avião de guerra ou barco, sobre os navios inimigos, no
caso eram, os norte-americanos. Consta que a ação mais ousada dos
kamikazes aconteceu em 25 de outubro de 1944, quando o almirante Te
Aima, lançou um ataque de grandes proporções contra a Força Tarefa
38 dos EUA, do almirante Mitscher, arrasando a esquadra que
patrulhava águas filipinas. Foram usados mais de 2 mil aviões em
batalha. Ao todo 2.198 pilotos morreram por devoção ao imperador,
tido como um deus pelo povo japonês. Informações divulgadas pelo
governo americano dão conta de 34 navios foram afundados e 288
danificados com os ataques kamikazes.
A
morte auto-infligida em combate, portanto, era um recurso extremo
que condizia com a tradicional cultura-moral samurai que a
valorizava e, por conseguinte, era considerada honrosa e divina
pelos pilotos suicidas japoneses.
Já o harakiri, mais conhecido como seppuku no Japão,
era um antigo ritual suicida de extirpação das entranhas. No
seppuku, o suicida, posicionado em ritual, corta seu abdome com
uma faca ou espada pequena, da esquerda para a direita. Região essa
que tem um significado especial. Segundo a crença dos antigos
japoneses é nesse lugar que se encontra a alma humana. No início da
era feudal, esse tipo de suicídio foi se ritualizando e, durante o
Período Edo (1600-1868), tornou-se uma das cinco categorias de
punição dos malfeitores entre a classe dos samurais. Era uma maneira
de morrer preservando a honra. O seppuku ficou inalterado na
revisão do código penal japonês promulgado em 1873, mas o
nacionalismo do Período Miji (1868-1912) contribuiu para a
perpetuação da prática, não de forma oficial mas sim como um método
corajoso e digno de dar fim à própria vida.
No
início do século 21, quando o Japão passa por uma crise econômica,
faz desencadear uma nova onda de suicídios que preocupa o governo
japonês que gastou 2,7 milhões em programas de prevenção ao
suicídio. Em 2002 o orçamento para tais programas chega a 4,5
milhões. Comparando o número de suicídios entre 1998 e 2002, houve
um alarmante aumento de 50%. Ou seja, mais de 30 mil casos de
suicídios, anualmente. Segundo uma pesquisa, os japoneses que mais
buscam o suicídio são homens entre 40 e 60 anos de idade, que
perderam seus empregos e a perspectiva de prosseguir a carreira
profissional; os idosos escolhem o suicídio para evitar serem
"pesos" para suas famílias, e os adolescentes escolhem morrer a
contar aos pais que foram reprovados nos exames escolares.
Observa-se que os suicídios dos japoneses obedecem em parte à
tradição cultura e moral, ou seja, cumprem mais ou menos o ritual
samurai, é reservado, e foge da encenação de espetáculo geralmente
praticada pelo suicídio político-religioso.
No
período da guerra do Vietnã, quando os EUA, chegaram a sustentar
mais de 500 mil homens lutando na Indochina, principalmente no
território vietnamita, tornou-se freqüente ocorrerem suicídios de
monges budistas, em protesto contra a guerra que se alongava sem
perspectiva de terminar. É comovente a descrição do fato ocorrido no
centro da cidade de Saigon (hoje, Ho Chi Minh) feito por um
jornalista e documentado em fotos: "os monges formam um círculo
em torno de um deles, já idoso, que senta-se numa almofada e cruza
as pernas. Dois desses monges despejam gasolina no crânio raspado e
no manto amarelo de monge idoso. Logo, esse monge arde em chamas, em
posição de lótus, impassível".
Atear
fogo às próprias roupas também ocorreu com jovens que protestavam
contra a invasão dos tanques soviéticos em Praga em 1968.
Alexander Dubcek, embora primeiro-secretário do Partido Comunista da
Tchecoslováquia ao chegar ao posto mais importante do governo do
país correspondente ao de primeiro-ministro, procurou guiar a
Tchecoslováquia para o ocidente democrático, a liberdade de
expressão, e rompendo com o isolamento em que seu país tinha caído.
Considerado ousado demais, Dubcek encantou o povo tcheco, recebendo
adesão dos intelectuais e dos universitários, mas foi considerado
“perigoso” e “excessivamente independente” pelo governo soviético.
Atear fogo às próprias roupas, portanto, não deixava de ser um gesto
de protesto político que usava a mídia para divulgar fotos e filmes
das cenas reais de desespero e altruísmo. Talvez o suicídio
espetáculo tenha surgido nesse momento na Tchecoslováquia e não com
os monges budistas no Vietnã que, embora fosse um ato público, era
um gesto manso e sem intenção midiática.
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Influenciados
pela tática kamikase dos japoneses, o conceito de "morte gloriosa",
do "suicídio como tática de luta" ou "o suicídio por uma causa",
teria ressurgido entre os grupos palestinos, e fundamentalistas
islâmicos, como forma extrema de protesto por se sentirem alijados
do direito de também ter o seu próprio estado [palestino], após a
criação do Estado de Israel. O khomeinismo extremista também
produziu o movimento dos "bassidjis", jovens voluntários que morriam
na guerra contra o Iraque. Nesse período, o mundo ficaria sabendo
através do noticiário que homens-bomba eram doutrinados e treinados
para se lançarem em carros-bomba contra alvos norte-americanos e
israelenses. A escalada do terrorismo suicida internacional parece
ter chegado ao seu clímax – pelo menos por enquanto – , no dia 11 de
setembro de 2001, quando aviões de passageiros foram usados como
bombas para atacar às duas torres gêmeas americanas.
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Existem
algumas diferenças entre o suicídio de inspiração islâmica e o
suicídio budismo vietnamita. Embora ambos aspiram causar impacto no
adversário, o suicídio de inspiração budista o monge vietnamita
morria silencioso, manso, introspectivo e não levava mais ninguém
com ele para a morte. Já o suicida islâmico doutrinado na ideologia
da "guerra santa ou Jihad", é histérico, ruidoso, furioso,
catastrófico, e assassino coletivo sem limites. Portanto, ambos usam
o suicídio como forma de luta, mas se distinguem no estilo e no
efeito de seu gesto, ou seja, enquanto o budista com silêncio
conseguiu comover a opinião pública mundial, o segundo – o
terrorista-suicida islâmico – até o momento
só consegue aterrorizar a opinião
pública mundial.
Estrategicamente, o suicídio do terror tem se provado ineficaz como
forma de luta “racional” e “positiva” na época contemporânea. Existe
até o argumento de que Osama Bin Laden foi o principal cabo
eleitoral de G. W. Bush, que, após o 11/9, passou a ter um projeto
político internacional unilateralista, e internamente camuflou a
mediocridade do seu governo conservador. No caso de Israel, idem.
Após o atentado aos trens de Madrid, o terror fez mudar a opção do
povo por um candidato não beligerante e não alinhado automático dos
EUA.
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Ao
que pudemos apurar até o momento, o suicida islâmico embora no
início não acredite que sua morte poderá ocorrer através do atentado
terrorista, a doutrinação fundamentalista o leva a acreditar nos
privilégios do paraíso para os mártires da Jihad – a crença
na "guerra santa" contra os infiéis
- , além de receber a garantia dos grupos organizados para sua
família não passar necessidade, ou algum tipo de benefício material,
honras de herói-e-mártir, etc. Um ex-terrorista revela sobre esses
privilégios depois da morte:
"Falaram-me que o martírio levaria suas famílias para o paraíso, que
iria casar com 72 mulheres virgens. Lá no céu, o mártir estará com
pessoas pias e com os profetas. E Deus perdoará seus pecados (...).
Eles me convenceram dessa verdade. Também disseram que eu ganharia
algum dinheiro, uns 6 mil dólares para morrer na explosão.
Depois que morremos, nossa família recebe o dinheiro, pois sabemos
que nossa família vive em más condições. Disseram-me também que a
família e os amigos iam para o paraíso se eu fizesse um ato de
martírio"
.
O
ponto de vista estritamente psicológico entende que esse tipo de
suicídio, mesmo isento de intenção sádica, visa obter um certo gozo
fundado no delírio psicótico ou parafrênico. A combinação letal do
suicídio e terrorismo pode ser analisada como decorrente de um
pathos (paixão) mais religioso do que político. Os ataques
suicidas podem ser interpretados também como um retrocesso na
civilização que possui outros meios políticos mais eficazes e menos
letais de luta. Tais atos lembram os movimentos primitivos de reação
contra a exploração capitalista (ex: Comuna de Paris), isto é,
quando a organização política ainda não tinha sido inventada a massa
raivosa quebrava e queimava tudo que encontrava pela frente. Sendo
um gesto irracional e brutal, os ataques suicidas apenas usam a
explosão como argumento. Os vídeos de Bin Laden não trazem nenhum
argumento favorável a sua causa; mostram-no apenas fazendo pregação
religiosa
onde sua palavra é passada como revelação divina. Não existe projeto
político ou pauta de reivindicação minimamente elaborada pela
organização Al Qaeda.
Concluindo...
A radicalidade do gesto e a
diversidade de motivos que levam uma pessoa ou grupo ato suicida são
suficientes para nos impor prudência de raciocínio e modéstia em
qualquer reflexão e debate. Portanto, esse artigo não tem pretensão
de analisar com profundidade o problema do suicídio, mesmo o
suicídio de fundo político e religioso. Nossa intenção foi apenas
‘mostrar’ que na sociedade do espetáculo até a escolha da própria
morte pode ser também um espetáculo. Precisamos inventar um método
científico para melhor compreender esse novo tipo de
suicídio.
Os
poetas costumam ser os que primeiro ousam compreender as coisas
“demasiadamente humanas”. Fernando Pessoa, além de
compreender algumas coisas humanas, faz um importante alerta
preventivo aos suicidas potenciais. Diz o poeta:
"[Depois
do ato suicida, quando estiveres] verdadeiramente morto, muito mais
morto que calculas.../ Só és lembrado em duas datas,
aniversariamente: quando faz anos que nasceste, quando faz anos que
morreste,/ Mais nada, mais nada, absolutamente nada./ Duas vezes por
ano pensam em ti./ Duas vezes por ano suspiram por ti os que te
amaram,/ E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala de ti./
Encara-te a frio, e encara a frio o que somos.../ Se queres
matar-se, mata-te.../ [Se pensas que és importante?] És importante
para ti, porque é a ti que te sentes/...E se és assim, ó mito, não
serão os outros assim?/
[grifo nosso].
Através
de seu heterônomo Álvaro Campos, o grande poeta português ainda faz
um convite: devemos transformar os momentos de desespero (trágico),
não em ato suicida, mas sim em arte poética. Tal como ele
próprio realizou através de sua poesia, propõe que transformemos os
normais momentos trágicos em drama,
conquistando assim um jeito de levar a existência de modo mais
criativo. Em “Bicarbonato de soda” ele se pergunta para em seguida
responder:
Devo tomar
qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou
existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir...
“A coroa e a estrela” (Folha de S.Paulo-Mais!,
18/11/2001). Também o professor da UFRGS, Luis Milman, no
interessante artigo
“Origem dos movimentos islâmicos revolucionários”, chega a
identificar a simpatia dos nacionalistas árabes pelo
nazifascismo no período em que esta era a principal força
política na Europa, e que ambos aspiravam derrotar o
imperialismo anglo-francês. Observa que o fundamentalismo
islâmico não é um fenômeno novo. “O fundamentalismo político
desenvolveu-se desde 1928, com a criação da A Irmandade
Muçulmana (Al Ikhwan al-Muslimun) por Hasan Al Bana e meia
dúzia de estudantes, no Cairo. Seu arcabouço doutrinário pode
ser resumido em alguns pontos: rejeição ao colonialismo e aos
valores ocidentais, retorno à pureza do Islã, sacrifício
extremo pela causa, assistencialismo islâmico, tomada do
poder político por meios revolucionários, refundação do califado
unificado no mundo muçulmano, sob a autoridade exclusiva do
Corão e abolição de todas as instituições implantadas no mundo
islâmico pelo Ocidente, com a conseqüente extinção dos estados
árabes tais como existem, além da eliminação de Israel”
(grifo nosso).
rev. Época, jun/ 2002, p. 62.
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