Doutoranda do Programa
de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
A Complexidade
da Morte
Dissertar
sobre a morte é uma tarefa difícil, tendo em vista, a análise de
uma realidade irreversível inerente ao mundo dos vivos. A morte
sempre chega de surpresa, até mesmo quando o indivíduo encontra-se
em estado de saúde delicado, mas, continua lutando pela vida e, de
outro lado, a família, bem como os amigos, esperançosos por sua
possível recuperação.
No universo
racional dos homens, pode-se afirmar que a única certeza da vida é
a morte, no entanto, a grande maioria dos
homens a temem, e se pudessem adiariam-na convictos.
Para um estudo
mais aprofundado sobre o tema da morte, a pretensão das linhas
seguintes, é tirar proveito da noosfera responsável pelo
pensamento de um dos autores mais destacados do século XX,
trata-se de Edgar Morin, o criador da teoria da Complexidade.
Morin revela a
complexidade não como a chave do mundo, mas o desafio a enfrentar
as questões que atormentam o homem no mundo, haja vista, a
dificuldade do mesmo em encarar a realidade da vida.
A definição da
Complexidade é:
A Complexidade
é um tecido de constituintes heterogêneos inseparavelmente
associados: coloca o paradoxo do uno e do múltiplo. A complexidade
é efetivamente o tecido de acontecimentos, ações, interações,
retroações, determinações, acasos, que constituem o nosso mundo
fenomenal. Mas então a complexidade, apresenta-se
com os traços inquietantes da confusão, do inextricável, da
desordem, da ambigüidade, da incerteza... Daí a necessidade, para
o conhecimento, de pôr em ordem nos fenômenos ao rejeitar a
desordem, de afastar o incerto, isto é, de selecionar os elementos
de ordem e de certeza, de retirar a ambigüidade, de clarificar, de
distinguir, de hierarquizar...
(MORIN,2001:20).
E a morte? Na
terminologia do léxico significa: o fim da vida, fim, grande
pesar. (HOUAISS,2001:303).
Para o autor do
complexo, a morte pode ser entendida como objetividade da
subjetividade da objetividade. O que quer dizer?
·A
objetividade, devemos entendê-la como a
tradução do momento em que o indivíduo recebe a notícia da morte,
é o impacto;
·A
subjetividade, representa a
inaceitabilidade do fato, a sua incompreensão;
·A
objetividade da subjetividade, é a
consciência da irreversibilidade da morte, da sua concretude e sua
possível aceitação.
O horror da
morte é a emoção, o sentimento ou a consciência da perda de sua
individualidade. Emoção-choque, de dor, de terror ou horror.
Sentimento que é de uma ruptura, de um mal, de um desastre, isto
é, sentimento traumático. Consciência, enfim, de um vazio, de um
nada, que se abre onde havia plenitude individual, ou seja,
consciência traumática.
(MORIN,1997:33).
Mas será que a
morte é um fim em si mesma? A morte é cruel, fria, não cede espaço
para qualquer tentativa de dialogia, representa um mistério e, tal
fenômeno alija o homem de qualquer compreensão humana.
O homem, desde os
primórdios dos tempos até a atualidade, esforça-se para tentar
explicar a acepção da morte. De um modo geral, a produção
científica tem ampliado seu universo de pesquisas frente
as facetas do assunto, enfatizando
através da transdisciplinaridade, o resultado da simbiose entre as
ciências humanas, as ciências médicas e, recentemente, as ciências
cognitivas.
Através das
propostas teóricas e mesmo práticas, o objetivo do humano é a
complacência da finitude do ser. Dessa maneira, a razão do homem,
apesar de limitada, formula teorias capazes de proporcionar ao
indivíduo uma qualidade de vida mais saudável neste universo em
que os paradoxos imperam.
Os paradigmas
convivem no cosmo naturalmente, para isso, faz-se necessário um
equilíbrio mental ou espiritual, ou ambos, para que o indivíduo
possa crer numa lei maior regente no universo, evitando a ruína de
sua espécie.
Nas ciências
médicas, hoje, independentemente do quadro econômico de cada país,
o mundo dispõe a seu favor de tecnologia de ponta para descobrir
as causas e efeitos das doenças responsáveis pela aflição da
humanidade. As ciências cognitivas estão convictas de que as novas
ciências da mente precisam ampliar seus horizontes, inserindo a
experiência humana de todos os tempos. Além disso, a ciência,
de novo, diferentemente de outras práticas humanas e instituições
– encarna sua compreensão em artefatos tecnológicos. No caso das
ciências cognitivas, esses artefatos são máquinas de pensar/agir
cada vez mais sofisticadas, as quais têm o potencial de
transformar a vida cotidiana talvez ainda mais que os livros do
filósofo, as reflexões do cientista social, ou as análises
terapêuticas do psiquiatra. (VARELA,2003:15).
As ciências
humanas, têm produzido em larga escala,
material de consistência no que tange pesquisa acadêmica e
cultural em prol da humanidade. No entanto, todas incapazes de
livrar o homem da morte.
E o que resta
então para o ser humano diante da veracidade de sua impotência
frente o fim?
Indubitavelmente,
não é o fim. O fim está na desistência de continuar vivendo na
mesma ambiência em que pairam o desconhecido, o medo, as dúvidas,
as incertezas, a ausência de harmonia entre o ter e o ser.
Para conviver com
a idéia de sua finitude, o homem precisa acreditar na complexidade
de tudo que o rodeia no universo, ampliando sua capacidade de
entendimento sobre o significado da tríade: “natureza, espécie e
humanidade”.
Nessa linha de
raciocínio, existem também as ligações essenciais dos paradoxos
que aparentemente são opostos, mas ao serem examinados em suas
raízes sob a luz da teoria do complexo, fatalmente, tornar-se-ão
adequados ao homem quando tocado em seus recalques interiores e
com o cosmo. São alguns:
·vida/morte;
amor/ódio;
·sagrado/profano;
certeza/incerteza;
·ordem/desordem;
natureza/materialidade;
·determinismo/dogmatismo;
crença/ceticismo;
·organização/desorganização;
poético/prosaico...
....e muitos outros.
A complexidade
aponta para o elo entre a vida e a morte de
maneira estreita, profunda, jamais imaginável no plano metafísico.
A morte não é simples, ela mesma aponta para um processo vivido
por etapas até que ela própria atinja o almejado fim, são eles:
Início do Morrer
/Morte Clínica / Morte Fisiológica /Morte Aparente e Morte Real.
Mesmo assim, o ser
humano pode optar em não por um ponto final na finitude. A própria
morte ensina como continuar a vida, eis aí mais um paradoxo.
Quando alguém morre, as atitudes práticas, burocráticas,
financeiras e racionais são providenciadas pelos que “ainda” estão
vivos. Destarte, torna-se impossível, para as pessoas presentes
nesse habitat a recusa de uma
reflexão sobre a sua própria morte.
E, considerando o
ato de pensar profundamente sobre a morte, a nossa cultura
oferece um leque ampliado de ponderações sobre o assunto. Alguns
para se meditar:
“O pensamento
da morte não corresponde à imagem da nossa própria morte: O
problema da vida é passá-la o mais agradavelmente possível, visto
que a morte não é nada para nós”.
(MARANHÃO,1992:65/66).
“É desse ponto
de vista que Epicuro examinou a morte, e assim tinha toda razão
em dizer que “ a morte não nos
concerne”; pois, disse ele que, quando somos, a morte não é, e
quando a morte é, não somos mais.“
(SCHOPENHAUER,2003:28).
“Só podemos
compreender a humanidade da morte compreendendo a especificidade
do humano”.
(MORIN,1997:24).
“A consciência
realista da morte é traumática em sua própria essência, a
consciência traumática da morte e realista da sua própria
essência. Onde o traumatismo ainda não existe, onde o cadáver não
está singularizado, a realidade física da morte ainda não está
consciente”.
(MORIN,1997:35).
“A consciência
da morte não é algo inato, e sim produto de uma consciência que
capta o real. É só “por experiência”,
como diz Voltaire, que o homem sabe que há de morrer. A morte
humana é um conhecimento do indivíduo.”
(MORIN,1997:61).
Esses e muitos
outros conjuntos de idéias movem o homem num sentido positivo
diante do fenômeno da morte, proporcionando qualidade de vida para
a parcela da humanidade adepta ao convite das diversificadas
filosofias, cujo intuito é aproximar-se do mistério do “morrer”
mesmo sabendo que é indecifrável.
Enfim, a morte, o
morrer não deixa brechas para possíveis indagações, é uma
experiência una, portanto, o homem só desvenda o segredo quando
chegada a sua vez.
Mas, apesar de
decisiva, a morte pode ser compreendida, sentida, chorada, de
maneira sadia, eficaz,apreendendo do
fato as melhores lições de vida e de amor das pessoas que fazem
parte do mundo e do universo particular de cada um.
Morin, Edgar. O Homem e a Morte. Rio de
Janeiro: Ed. Imago, 1997
________. Introdução ao Pensamento Complexo.
Instituto Piaget. Lisboa. 3ª edição,
2001
Maranhão, José Luiz de Souza. O que é a morte. São Paulo:
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