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Por LEJEUNE
MATO GROSSO XAVIER DE CARVALHO
Sociólogo, professor de Sociologia e de Ciência Política da
Faculdade de Direito da Universidade metodista de Piracicaba.
Pós-graduado (mestrado) em Filosofia pela PUC de Campinas (1984) e
em Política Internacional pela Escola de Sociologia e Política de
SP (1995). Membro da Academia de Altos Estudos Árabe de Lisboa.
Co-autor dos livros Conflitos Internacionais num Mundo
Globalizado (Alfa Ômega, 2ª edição, 2003) e Luta
Antiimperialista e a Hegemonia Americana (Alfa Ômega, 2004) e
organizador do livro Sociologia e Ensino em Debate (Unijuí,
2004). É vice-presidente de Relações Internacionais da
Confederação Nacional das Profissões Liberais – CNPL e 1º
Secretário da Federação Nacional dos Sociólogos – Brasil – FNSB. |
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Geopolítica Mundial e as Perspectivas do Mundo Árabe
Com a chegada dos
neoconservadores ao poder nos EUA, pela fraude em 2000 e mais
recentemente com mais de 4 milhões de votos de vantagem nas eleições
de 2004, vai se esboçando uma nova política externa americana, que
Bush vai tentar impor, pela força econômica e das armas, aos seus
aliados no resto do mundo. Os sinais dessa nova política foram dados
em dois momentos: em outubro de 2001, pouco depois do bombardeamento
de setembro das torres gêmeas em Nova York e em janeiro de 2003,
quando Bush pronunciou o tradicional discurso perante o Congresso,
chamado de “O Estado da Nação”. Nesses dois momentos são formulados
as novas linhas gerais dessa nova política externa, cuja marca se
resume na célebre frase “ou se esta com os EUA ou se esta com os
terroristas”.
As coisas passariam a ocorrer de forma preventiva, ou seja, os EUA
atacariam antes e perguntariam depois. Este novo posicionamento do
governo americano é conhecido pela sigla em inglês NSS (National
Security Strategical – Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, que
vêm sendo formulada desde setembro de 2002.
Como
diz o professor Noam Chomsky, o cenário que se apresenta é
relativamente novo para o próprio EUA, onde os atores e jogadores da
política internacional, muitos deles passam a ter poder nuclear e em
muitos casos, o cenário é muito incendiário.
Em traços gerais, a política externa americana se
caracteriza por:
1. Ações unilaterais – tem sido essa a marca da
política externa do governo americano. Toma a decisão,
independente do que a ONU venha aprovar. O máximo que se tem é a
aprovação pelo congresso americano do uso da força militar pelo
presidente dos EUA, sem depender do sistema das Nações Unidas;
2. Proteção a todos os interesses americanos em
qualquer parte do mundo em qualquer tempo – valem os interesses
econômicos das empresas transnacionais, com sede e capital
estadunidense;
3. Contenção dos estados “vilões” – assim são
chamados os estados que apoiariam as ações terroristas. É um
recado mais direto para a Síria e o Irã, entre outros estados;
4.
Buscar a hegemonia mundial;
5. Garantir o suprimento de energia aos EUA e
6.
Estabelecer as primeiras bases militares americanas seguras num
estado dependente em meio às maiores reservas mundiais de energia.
As versões que Bush
apresentou ao mundo
Para justificar a sua guerra injustificável, Bush
teve que distorcer muitos fatos, contando suas próprias versões, que
foram reverberadas indistintamente e sem nenhum senso de apuração
jornalística, pelos maiores órgãos de comunicação de massa.
Recentemente o próprio jornal The New York Times fez uma
espécie de autocrítica pública sobre a forma como cobriu essa guerra
em 2003. Listamos pelo menos cinco grandes mentiras do presidente
americano:
1. Que o Iraque teria armas de destruição de massa
(na sigla em inglês Weapon Mass Destroction) – essa foi a
maior mentira de todas. Nada encontraram porque o Iraque não tinha
tais armas. O maior fiasco do setor de inteligência americana,
foram os relatórios feitos pela CIA fraudados e mentirosos que
afirmavam que Saddam possuía tais armas (isso fez pedir demissão
no início de junho o diretor geral da Agência, George Tenet,
aliado incondicional de Bush na guerra). No Oriente Médio o único
estado que possui armas de destruição em massa é Israel, com mais
de 200 ogivas nucleares, mas nunca condenado pelos EUA;
2. Que a guerra seria feita por uma coalizão de
países – foram apenas dois, Estados Unidos e Inglaterra, com
outros pequenos paises designando insignificantes contingentes de
soldados. Muitos desses países estudam hoje a saída completa do
Iraque. A Espanha já retirou todas as suas tropas do país desde a
vitória em 2004 do socialista Zapatero para primeiro ministro
espanhol;
3.
Que os EUA seriam vistos como o “libertador” do Iraque – são
conquistadores, invasores, neocolonizadores. No período que
compreende 1890 e 2001, segundo estudos de Zoltan Grossman,
pelo menos 145 intervenções militares foram feitas pelos EUA para
defender os interesses das empresas estadunidenses;
4. Que os EUA iriam “democratizar” o Iraque – não
fizeram isso em lugar nenhum do mundo onde invadiram e ocuparam.
Ao contrário, apoiaram ditaduras sanguinárias. O governo títere
que hoje impõe ao povo iraquiano, com um presidente e um primeiro
ministro xiita e sunita, integrando ainda curdos e cristãos a esse
tal “novo” governo, não levará nenhuma democracia ao Iraque. Ao
contrário. Conforme se tem visto na grande imprensa, o Iraque é
hoje menos seguro do que antes e as restrições e censura à
imprensa e aos meios de comunicação de massa são iguais ou até
piores do que na época de Saddam Hussein. Não há liberdade alguma
no Iraque hoje. O governo iraquiano é meramente subserviente aos
interesses de Washington. São títeres que governam o país, sem
nenhuma autonomia. Nunca é demais indagar: porque democratizar
“só” o Iraque e não outros países árabes? Porque todos os outros
são aliados incondicionais dos EUA. O incrível é que a mídia
comprou e apoiou tais idéias. Assim, atos guerreiros do presidente
americano passam a ser vistos como “intervenções humanitárias” e
“a ocupação militar e assassinato de civis”, seriam vistos como
operações pela manutenção da paz, no dizer de Michael Chossudovsky;
5. Que o Iraque teria ligações com a Al Qaeda –
nunca teve; Bin Laden odeia Saddam, pois um é xiita e outro e
sunita. Saddam defende um estado laico e Bin Laden defende um
estado islâmico, teocrático.
Setores do governo americano
reconhecem que a estabilidade no Iraque é frágil.
O fato mais importante dos últimos
meses, diz respeito a uma declaração dada recentemente pelo general
Collin Powell, Secretário de Estado do governo de George Bush Filho.
Em uma surpreendente entrevista dada a uma rede de TV americana em
26 de setembro, Powell reconheceu o sentimento antiamericano vem
crescendo cada vez mais no Iraque ocupado, que a estabilidade
política é extremamente frágil e que as eleições marcadas como forma
de Bush propagandear a sua falsa democracia que ele quer “levar” ao
país árabe, não teria condições de ser realizada.
Essas declarações repercutiram
amplamente na mídia, até porque elas contradizem exatamente o que
Bush afirmou na ONU ainda neste mês de setembro, quando afirmava que
a democracia “avançava” no Iraque (sic) e que os EUA estavam
vencendo a insurgência. Isso não condiz com a realidade. A média de
iraquianos que vem morrendo por semana ultrapassa a 250 e mais de 20
americanos. A insurgência esta cada vez mais ativa e age nos
principais centros, cidades de médio e grande porte. Pode-se dizer
que as únicas regiões menos violentas, são as sob controle curdo. Há
um agravante ainda: existem estudos de especialistas respeitáveis,
em deles feito pela insuspeita Rand Corporation e pelo
Defense Science Board, que indicam que o número de soldados
americanos no Iraque é absolutamente insuficiente para as tarefas de
garantir a ocupação e apoiar o novo “governo” pró-americano. Algumas
informações afirmam que a insurgência já conta com mais de cem mil
homens organizados e armados e que pelo menos 36 cidades e vilas já
se encontram rebeladas e libertadas. São números significativos.
Não se pode dizer mais, como a mídia e o
governo americano divulgavam, que essas operações de guerrilha são
feitos por “seguidores” de Saddam. Também não se pode falar que são
“radicais” xiitas. Hoje, a resistência se alastrou de tal forma, que
é gente do povo que adere à luta. A instabilidade reina em todas as
partes. Em diversas cidades de grande porte, as forças de ocupação
dos Estados Unidos e da Inglaterra, sequer chegam perto. Já são
zonas libertadas pela guerrilha.
Mas dizemos mais ainda: esse primeiro
ministro títere, Yiad Alawi, ex-agente da CIA, um mero serviçal do
Departamento de Estado, não manda nada no país, não controla nada e
como diz o combativo jornalista inglês, Robert Fisk, do The
Independent, esse cidadão sequer controla bairros inteiros da
própria capital do país, Bagdá.
O crescimento do poder militar
americano
Em recente artigo do professor José Luis
Fiori, sociólogo e cientista político, professor da UFRJ,
ele também aborda o processo eleitoral americano e o contexto
mundial ele ocorre. O professor menciona um certo consenso entre
estudiosos de assuntos internacionais, de que estaria crescendo e
seguiria muito forte, o poder militar global dos Estados Unidos.
Quanto a isso, é um fato com o qual não discordamos. Qualquer ponto
da terra hoje está a no máximo duas horas de vôo de um caça
americano, tamanha a expansão e extensão de suas bases militares em
todos os continentes e em todos os mares e oceanos, com seus
porta-aviões e suas esquadras e frotas navais. Com o final da
chamada guerra fria, em 1991, não há no mundo hoje potência militar
ou econômica alguma, para fazer frente a esse poderia americano. E
esse poderio não é só militar e econômico, mas também e sobretudo,
cultural.
Senão vejamos. Com a desintegração da
URSS em 1991 (quando assumiu o anticomunista Boris Ieltsin), surge a
Rússia, que teve reduzido seu poderio econômico, através do
encolhimento de seu PIB em mais de 50%. Perdeu poder militar também,
com a desintegração de seu exército vermelho, antes mais poderoso. O
Japão e a Alemanha, que nos últimos 30 anos emergiram como potências
econômicas, seguem sendo como se fossem uma espécie de satélites dos
Estados Unidos ou protetorados (além do que estariam com suas
economias estagnadas há um certo tempo). A União Européia, que
avança na sua unificação, expande-se para o leste, amplia o número
de países que a integram, em função de muitas divergências internas,
nacionalismos, impede que ela se transforme mesmo em uma grande
potência ou, ao que se espera, isso ainda durará muito tempo. Por
fim, temos a China, que cresce economicamente a quase 9% ao ano,
ainda prefere uma atitude de cautela, pois seu projeto estratégico é
de longo prazo e não dá nenhum sinal de que fará qualquer
enfrentamento ao poderio americano. Nesse cenário, as dificuldades
para o mundo são imensas, pois não há país, povo, governo ou nação,
na terra, capaz e disposto a enfrentar o poderio americano (ainda
que setores ditos esquerdistas no nosso país, cobrem de nosso
presidente uma atitude “mais radical” e de enfrentamento dos
americanos).
Cresce e se fortalece no mundo a visão
neoliberal e de que só devem ser fortalecidas as chamadas
“democracias de mercado” (conforme o disse o ex-presidente americano
Bill Clinton em discurso na ONU em setembro de 1993). A política
americana, desde o final da guerra do Golfo de 1991, quando Bush pai
era o presidente, é a de conter qualquer potência regional em
qualquer continente que possa vir a fazer qualquer tipo de ameaça,
que possa oferecer qualquer sombra ao poderio militar americano.
Equivocam-se os que dizem que existe
muita diferença entre a política externa americana sob governos
democratas e republicanos. Nos oito anos que Clinton esteve à frente
do governo dos Estados Unidos, esse país se envolveu em exatos 48
conflitos militares, um número muito maior do que em toda a guerra
fria (de 1945 a 1991). A partir do final dessa primeira guerra no
Golfo, cresceu a posição na elite americana de que os EUA deveriam
interceder de forma explícita e em qualquer parte do mundo, de forma
unilateral e sem qualquer autorização do sistema das Nações Unidas,
como vem fazendo. Como afirma Chalmers Johnson (citando por Fiori),
quando identifica dois grandes grupos dentro da política externa
americana “aqueles que advogam a dominação americana irrestrita e
unilateral do mundo e aqueles que defendem um imperialismo com
objetivos “humanitário’”.
As
perspectivas do mundo árabe
O que chamamos hoje de mundo árabe, engloba 22 países
e uma população em torno de 350 milhões de pessoas. Considera-se
árabe todos os moradores da região do Oriente Médio, na península
arábica, entre o Golfo de Áden, no Iêmen até o Golfo Arábico (que a
imprensa chama de Pérsico), bem como todo o norte da África,
conhecido como Magreb. Os povos árabes são descendentes dos povos
semitas que habitam a região há pelo menos quatro mil anos. Não
devemos confundir os árabes com os persas (povo que habita o Irã) e
os turcos.
A consolidação desse mundo chamado de “árabe”, vem
especialmente desde a consolidação da religião islâmica, cujo líder
foi, no século VII da era cristã, Mohhamad, cuja ocidentalização de
seu nome deu origem a Maomé. A partir da construção do império
islâmico em 620 e mesmo com a morte do profeta os Islã dez anos
depois em 630, os árabes se expandem, com a força de sua religião.
Os quatro Califas que sucederam o profeta, até por volta de 670,
conquistaram todo o Oriente Médio, incluído Jerusalém, em mãos dos
cristãos, parte da Europa (Espanha, Portugal, sul da Itália e parte
da França), norte da Índia, quase dois terços da África. Muitos
historiadores chamam esse processo de arabização de uma parte do
mundo.
Tal império, considerado por muitos historiadores
como dos maiores que a humanidade conheceu, cresce sucessivamente e
mesmo depois que os turcos assumem o seu comando, mantendo ainda a
sua feição islâmica, a expansão continua, ainda que o seu apogeu
tenha ocorrido em mãos árabes. Não é nosso objetivo aqui discorrer
sobre a importância cultural desse período histórico, mas apenas
tratar das perspectivas históricas e políticas desse povo,
especialmente nos dias atuais.
Não há como falar em mundo árabe, sem falar também no
Islã, cuja religião é ao mesmo tempo normas e preceitos de vida, de
administração pública, de convivência social e até mesmo regras e
normas de alimentação, de ética, de vida pública. O Islã
considera-se como a religião sucessora do judaísmo e do
cristianismo. É considerada a última religião revelada por Deus aos
humanos, suas criaturas e Maomé é seu último profeta. Se a religião
cristã e católica se consolida com o imperador Constantino, no
século IV e passa a ser a religião do império romano, a do Islã tem
em Maomé o seu próprio imperador, que a transforma não só na maior
religião da época, como no maior império já visto no Oriente Médio,
superando o dos Persas, o Macedônio e outros. A força da religião é
a maior força, se comparada com outras religiões. O papel das
Mesquitas não tem comparação com o papel das Igrejas cristãs e as
Sinagogas judaicas. É um centro irradiador de cultura, de educação,
de moral, de política e mesmo um centro militar, para a expansão do
império.
Nesse
sentido, não há como se falar em separação de Estado e religião, nos
moldes do que conhecemos no ocidente, especialmente depois das
revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII. Não há separação
entre atividade religiosa e a atividade secular. Ambas estão
interligadas. A religião é parte da vida e do cotidiano dos
muçulmanos.
Como diz o professor Lewis, “o Islã é não apenas uma questão de fé e
prática é também uma identidade e uma lealdade que, para muitos,
transcendem todas as demais”.
Também é da natureza do Islã a relação direta não só com as questões
administrativas e de estado, mas também militares, pois acaba sendo
dever de todos os fies a luta pela expansão de sua religião.
Desde o final da chamada guerra fria, com o fim do
bloco socialista e dos países ditos “comunistas”, o imperialismo
americano perdeu de certa forma um inimigo mais visível do sistema
capitalista. Assim, seria preciso criar um novo “inimigo” para
continuar justificando não só os gastos militares astronômicos
(diga-se de passagem, o orçamento militar americano de 400 bilhões
de dólares e metade do que todo o planeta gasta em armamentos e
forças armadas). Ao que tudo indica, a campanha contra o
“terrorismo” se insere nesse contexto e os muçulmanos, que se
encontram hoje na linha de frente de resistência ao projeto
hegemônico de dominação do mundo pelos Estados Unidos, acabaram
sendo enfrentados e perseguidos nesse sentido.
Os muçulmanos sentem que possuem uma missão
histórica, de certa forma divina, de expandir sua religião, de
“iluminar” o mundo com as suas pregações. Nesse sentido, os
americanos são vistos não só como imperialistas, mas como o “grande
satã”, como o aiatolá Khomeini os chamava desde a revolução iraniana
de 1979. Mas, é preciso que se diga, para ser fiel ao fato
histórico, as ações que os lutadores e guerrilheiros árabes praticam
nada tem a ver com as determinações do Corão, seu livro sagrado. Não
se encontra em nenhuma das suratas do livro sagrado para os
muçulmanos, a determinação de que devem dar suas vidas, na forma de
suicídios, para atacar seus inimigos. Por isso, quando um árabe,
muçulmano ou não, põe fim à sua vida em alguma operação de
guerrilha, em algum atentado contra alvos inimigos, como ocorrem
fartamente hoje no Iraque, esta ação nada tem a ver com o Islã,
como insiste ema firmar a mídia e certos analistas políticos
internacionais.
Nesse contexto, é mais do que óbvio que quando Bush
ataca um país árabe, quando estaciona suas tropas na Arábia Saudita,
terra sagrada para os muçulmanos, quando suas tropas atacam cidades
e aldeias árabes matando civis inocentes com armamentos americanos,
este passa a ser visto como inimigo dos povos árabes e dos
muçulmanos em geral. E passa-se a impressão de que uma nova cruzada
cristã esta em curso contra os povos árabes.
Há também na grande mídia um forte preconceito contra
os muçulmanos. Quando na década de 1970 e 1980, os irlandeses
cristãos ligados ao IRA, Exército Republicano Irlandês fazia suas
operações de guerrilha, a mídia não os chamava de terroristas
“cristãos”. A mesma coisa com os bascos na sua luta na Espanha,
também eles cristãos. Quando o americano Timothy MacVeight explodiu
o prédio do FBI em Oklahoma, matando quase 200 pessoas, ninguém da
mídia disse que era um cristão fundamentalista. Ou seja, os árabes e
muçulmanos percebem de forma clara que existem duas políticas, dois
pesos e duas medidas, na forma do Ocidente tratar com os povos do
Oriente, especialmente os que professam a fé islâmica.
O
termo fundamentalista não tem uma definição única e de consenso
entre estudiosos. Alguns se dizem dessa forma como defensores dos
“fundamentos” originários de sua religião. Tarik Ali, renomado
escritor paquistanês tratou disso em sua vigorosa obra Confrontos
de fundamentalismo e a ex-freira Karen Armstrong, em seu livro
Em nome de Deus, trataram desse assunto em profundidade.
Defender os princípios e os fundamentos de sua religião não é
privativo dos muçulmanos, mas também existem correntes cristãs e
judaicas que o fazem. Para o professor Lewis, fundamentalistas
muçulmanos são “aqueles que sentem que os atuais problemas do mundo
muçulmano resultam não de modernização insuficiente, mas de
excessiva modernização, que vêem como uma traição aos autênticos
valores islâmicos”.
Há um forte sentimento entre os muçulmanos,
especialmente os árabes (ao todo, a Organização da Conferência
Islâmica reúne 47 países, com uma população de 1,3 bilhões de
pessoas, mas apenas 22 são árabes com 350 milhões de habitantes), de
saudosismo ao antigo Império Árabe, do período de sua glória, de
suas conquistas, das ciências e da cultura que ele irradiava para o
restante do mundo. Assim, qualquer ataque americano ou de qualquer
outra nação contra qualquer povo árabe, contra qualquer nação árabe,
é encarado como uma agressão generalizada.
Circulou pela Internet de forma ampla um documento,
cuja confirmação de autoria de Bin Laden sobre o mesmo nunca foi
devidamente autenticada, que trata de reivindicações que os
muçulmanos tem para com os EUA, uma espécie de Carta à América. De
forma resumida, os seus pontos são: 1. Aceitar o Islã; 2. Parar com
as agressões, mentiras, imoralidades e orgias; 3. Admitir que a
América é uma nação sem princípios e costumes; 4. Deixar de apoiar
Israel na Palestina e os indianos na Caxemira, bem como os russos na
Tchetchênia e o governo de Manila contra os muçulmanos nas
Filipinas; 5. Desocupar as terras árabes; 6. Deixar de apoiar os
líderes corruptos dos países árabes e 7. Lidar com os muçulmanos com
base em interesses e benefícios mútuos, em vez de políticas de
subjugação, roubo e ocupação (Lewis). Há muita lógica e coerência
nestes pontos.
Volta a crescer em todo o mundo árabe, o sentimento
nacionalista, que já foi muito forte nas décadas de 1960 e 1970,
especialmente com Gamal Abdel Nasser (que governou o Egito entre
1952 e 1970). Não é nosso objetivo tratar de conceitos e definições
de nacionalismos, como bem o fez o professor Eugênio Chahúan, da
Universidade do Chile em recente Seminário “Diálogo Brasil-Países
Árabes”, realizado em São Paulo entre os dias 14 e 15 de setembro e
organizado pelo ministério das Relações Exteriores, como etapa
preparatória da Cúpula dos países Árabes que, pela primeira vez na
história, será realizada na América do Sul, Brasil, em abril de
2005, a convite do presidente Lula.
De
forma resumida, o conceito de nação envolve um povo, um território,
uma origem comum, uma língua comum, tradições e costumes, organizado
dentro de um estado político. Alguns autores incluem o componente
religioso como um fator religioso com importante. Alguns ainda a
relacionam com um conceito mais espiritual do que material, um
sentimento. Para certas correntes do judaísmo, a terra de Israel que
a bíblia menciona não deve ser construído na terra, mas é algo para
depois desta vida e portanto, tais grupos discordam da existência de
Israel e apóiam inclusive a luta dos palestinos. Marx trata também
do tema, abordando o tema com as características de idioma comum,
território, vida econômica e uma configuração intelectual comum.
Hoje o sentimento entre a nação e os povos árabes é
de um forte antiamericanismo. Não é para menos, pois os EUA hoje
ameaçam a Síria, ocupam o Kuwait e a Arábia Saudita (com o
consentimento da família real), ocupam o Iraque e mantém forte
influência entre a maioria dos governantes árabes, corrompidos e
reacionários em sua grande maioria. Também se vê de forma clara o
apoio unilateral que os americanos dão ao governo fascista de
Israel, que persegue os palestinos, que os ataca, que mantém
centenas de colônias nas terras palestinas ocupadas desde 1948 e
1967. Os aviões com que Israel bombardeia as aldeias e casas dos
palestinos, os tratores, chamados de Buldozzers, que demolem as
casas dos lutadores palestinos, deixando ao relentos milhares de
famílias palestinas, são todos construídos, fabricados e mesmo
doados pelos EUA à Israel. Dessa forma, é até compreensível a
revolta e a raiva que os árabes mantém dos americanos.
A correlação de forças no mundo segue profundamente
desigual, com a absoluta hegemonia americana. Temos visto,
observado, dezenas de vitórias de governos progressistas, populares
em vários países. No entanto, ainda não houve uma virada na
correlação de forças. Não vivemos no momento um novo 1945, quando as
forças de esquerda e os democratas, derrotaram o nazismo e o
fascismo, e quatro anos depois a China estabelece o seu governo
Popular e Socialista. Ao contrário. Vivemos um período de
resistência. Isso se reflete na situação específica do Oriente
Médio. Quais governos mesmo apoiariam a luta do povo iraquiano
contra os Estados Unidos? Mesmo fora do Oriente Médio, a própria
França, Alemanha, China e Rússia, que se opuseram à invasão do
Iraque, acabaram por legitimar a ocupação americana junto às Nações
Unidas.
Breves conclusões
Apesar disso, seguimos confiantes. A luta dos povos
árabes, dos palestinos, mais dia menos dia seguirá vitoriosa.
Devemos continuar manifestando a nossa integral solidariedade a
esses povos, pois a sua vitória, será também a vitória de todos os
povos que lutam por justiça, liberdade e igualdade em todo o mundo.
Não tenho saudade do mundo bipolar. No entanto, como
cidadão defendo que os povos tenham o direito a sua soberania
nacional e que suas decisões sejam respeitadas. A melhor proposta
hoje é que o mundo seja multipolar, sem que tenhamos uma nação que
mande nas outras e que predomine, mas que todos se respeitem em
relações internacionais baseadas no principio da democracia e
respeito pela diversidade de todas as culturas existentes na terra.
Temos a certeza e a convicção de que mais dia menos dia, vencerão os
povos que lutam pela sua autonomia, por justiça e por igualdade. Não
acho que seja simples o antigo império árabe, com suas luzes, com
seu avanço cultural, com sua tolerância, retornar. Mas espero que os
países e os povos árabes sejam devidamente respeitados não só pelo
seu passado e suas inestimáveis contribuições, mas pelo seu presente
e pelo futuro que se apresenta.
Maiores detalhes dessa política podem ser encontrados em
CHOSSUDOVSKY, Michel, Implicações do discurso de Bush em 7
de outubro. A aventura militar de Bush ameaça o futuro da
humanidade, in
http://globalresearch.ca/articles/CHO210A.html
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