Por TERRY CAESAR

Professor de literatura norte americana na Mukogawa Women’s University em Nishinomiya, Japão, e autor de vários livros, incluindo estudos críticos do sistema universitário nos Estados Unidos.


VERSÃO EM INGLÊS:

The Foreign Student as Terrorist

 

O aluno estrangeiro como terrorista

[Tradução: Eva Paulino Bueno]

 

“A admissão de um grande número de estudantes, especialistas, negociantes e turistas movimenta a nossa economia, vitalidade cultural, e alcance político”.

Relatório da Comissão 9/11

 

Há uns dias o Consulado Americano em São Paulo recusou o visto de estudante ao meu enteado brasileiro. Por quê? A secção 212-B da lista de razões dadas pelos consulares: suspeita de intenção de imigrar. Os propósitos acadêmicos de Daniel foram completamente ignorados; o mesmo ocorreu com seus laços familiares (cinco irmãs, um irmão, pai, e inúmeros parentes) que o unem ao seu país. E o documento I-20 emitido por uma universidade americana? Irrelevante. A cidadania americana de sua mãe? Esta foi considerada ao mesmo tempo sem a menor importância e mais razões para a suspeita.

O pior de tudo é que Daniel acaba de fazer vinte e quatro anos. Nos corredores das embaixadas e consulados americanos hoje em dia, isto seria o mesmo que entrar cantando o Corão enquanto esperava por sua entrevista com o oficial consular. Estas entrevistas são obrigatórias agora. Os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 têm sido responsabilizados pelas grandes mudanças no processo pelo qual estudantes de outros países podem receber seus vistos. Estas mudanças, por sua vez, são a única razão dada para o fato que, embora aproximadamente 580.000 alunos estrangeiros estudam em universidades americanas, os pedidos para admissão sofreram uma baixa de 28% no ano passado, e as matrículas baixaram 6%.

Este declínio é justificado? Quem pode dizer se, de fato, não há mais terroristas a caminho? Considerando ainda outro ponto de entrada: o procedimento pelo qual os alunos estrangeiros recebem vistos, ou são negados vistos, é altamente elusivo, porque todos os casos devem ser, no fim de contas, julgados individualmente. Não importa, de uma maneira muito distinta, que as regras são extremamente claras: o indivíduo deve demonstrar um nível financeiro aceitável por parte do seu patrocinador ou de sua família, uma razão que o faça a voltar a seu país, e assim por diante.

Entre as regras está a que diz que cada pedido é particular em cada caso, e em casos particulares não há regras, exceto o julgamento do oficial consular. Esta situação nunca fez sentido lógico, contrariamente ao mero sentido do procedimento. Hoje, em uma atmosfera política tensa, esta situação abre caminho para resultados grotescos. As decisões dos oficiais consulares americanos sobre quem é e quem não é aceitável como estudante nos Estados Unidos deveria já ter se transformado em um escândalo nacional, se estas decisões chegassem a ser examinadas. O problema é que elas não podem ser examinadas.

Em anos recentes, os resultados de uma destas decisões consulares só foi conhecido uma vez — e uma vez bastou. Será que os agentes consulares (quase todos estacionados na Arábia Saudita) que foram responsáveis por darem o visto de entrada aos terroristas de 11 de setembro de 2001 receberam algum tipo de disciplina? Nada que eu li ou ouvi indica que eles foram pelo menos admoestados. O Relatório 11 de setembro silencia sobre o assunto. Ações diplomáticas rotineiras são supostamente supervisionadas. Mas só internamente, por outros diplomatas, e aí se acaba a história.

Houve um tempo em que o processo para os pedidos de visto de estudantes eram muito desleixados; de acordo com o Relatório, um grupo de segurança liderado por Richard Clark propôs uma revisão mais cuidadosa dos procedimentos para vistos de estudantes seis meses antes de 11 de setembro de 2001. Agora, no entanto, os procedimentos se tornaram rígidos demais. Qualquer pessoa que tenha qualquer coisa a ver com estudantes estrangeiros em universidades americanas sabe de histórias de flagrante falta de sentido, pra não dizer injustiça, similares à do meu enteado.

O dia em que eu soube da decisão, eu telefonei para o escritório do meu deputado local e pedi que eles enviassem uma carta ao consulado de São Paulo, pedindo esclarecimentos. A funcionária que atendeu minha ligação estava trabalhando em uma outra carta similar a esta, a pedido de outra família angustiada. Também naquele caso, nem o I-20 nem todo o resto, incluindo a passagem de avião já comprada, uma vez que o filho admitiu que não tinha nenhuma razão para retornar à Inglaterra, a embaixada americana em Londres o botou sumariamente pra fora.

Eu me lembrei então de outros dois alunos estrangeiros que eu conheço melhor atualmente. Uma é da América do Sul. Ela estuda aqui há dois anos e meio. Seu pai é um administrador de uma empresa multinacional. A família da moça não mora no país de origem há muitos anos. Como ela conseguiu um visto? O outro estudante é do Oriente Médio. Ele também está aqui há dois anos. Seu pai é ministro. A família não quer que ele retorne porque ele pode acabar sendo envolvido na violência da região. Embora seja fácil entender como ele conseguiu o visto, por que não foi um fator mais decisivo a possibilidade de que ele não possa ou não queira retornar ao seu país?

Quanta ressonância uma única vida tem? Virtualmente nenhuma, se não há nenhuma maneira de organizá-la e representá-la em alguma forma coletiva — e em relação à maneira que os consulados americanos processam os que pedem vistos de estudantes, não há nenhuma maneira. Os americanos não ouvem os protestos destes estudantes quando eles são rejeitados. De fato, mesmo que pudessem ouvir, os americanos não se importariam. As suas decisões são, em cada caso, imediatas e irrevogáveis. A entrevista com o oficial consular não é um diálogo. Estes oficiais não têm que se justificar perante aqueles que eles julgam.

Se pudéssemos comparar os casos dos estudantes do mundo inteiro que receberam vistos no ano passado, e aqueles que foram rejeitados, será que seria possível ver a diferença entre os dois grupos? Esta é uma especulação fútil, naturalmente. O sistema não tem espaço administrativo ou conceptual para tal comparação. Enquanto isto, este mesmo sistema vai mais e mais adquirindo um caráter especificamente político.

De uma maneira muito real, o processo pelo qual os estudantes estrangeiros são avaliados em consulados e embaixadas americanas hoje em dia se transforma na continuação da guerra contra o Iraque por outros meios. Não interessa o que o mundo pensa de nós. O que interessa é a nossa segurança enquanto nação.

Está bem, nós ainda achamos que agimos decentemente, pra não dizer, democraticamente, em relação à população dos países onde temos nossa representação diplomática, e esta população, por sua vez, deve admirar nossos ideais. O problema é que esta população é “perigosa”. Ela contêm demasiados “elementos” cujos motivos nós temos todas as razões de suspeitar. Então, o melhor a fazer é nos encontrarmos com as pessoas completamente equipados e armados.

Se nós fizermos algum erro, é pena, o que se pode fazer? Estamos em guerra. Nós podemos somente esperar que mais indivíduos se beneficiem do contacto com nossos ideais do que sofram a experiência da nossa determinação em infligir estes ideais a todo custo. Enquanto isto, no momento presente, quais expectativas podem ter os estudantes estrangeiros que talvez queiram vir estudar neste país? Os milhares destes alunos que conseguem vir aos Estados Unidos podem falar por eles mesmos sobre este ponto. Minha atenção se volta aos milhares que nunca terão a oportunidade de estudar aqui, e que não podem falar.

Eu ainda não perguntei ao Daniel o que ele diria, se pudesse. Ele ainda está chocado demais pela rejeição. Ele sabe que seu quarto está pronto em nossa casa e que a mensalidade já estava paga na universidade que o admitiu. Se ele soubesse como sua mãe estava ansiosa para, neste Natal, assar um peru que ela não resistiu comprar há algumas semanas, ele choraria pelo desperdício. Mas o desperdício não é só dele. O que vemos neste caso é o desperdício de milhares de estudantes no mundo todo. Gente demais agora deve ser rejeitada sumariamente por qualquer ninharia. Olhando a situação de uma perspectiva visão global, eles se acumulam como outras vítimas.

Neste contexto, há uma surpreendente estatística incluída no Relatório de 11 de setembro. As pessoas podem pensar, levando-se em conta a atual regra aplicada pelos consulados, que a maioria daqueles que a Comissão identifica como os “seqüestradores da linha de frente” (os que embarcaram nos aviões) entraram nos Estados Unidos com vistos de estudantes. Mas, na verdade somente dois tinham tais vistos! É por causa daqueles dois que a atual política do visto para estudantes está sendo aplicada. E o Relatório diz algo mais: “Todos os seqüestradores cujos pedidos de visto foram revisados poderiam ter sido rejeitados porque os formulários não tinham sido completamente preenchidos”. De fato, os oficiais consulares americanos no planeta inteiro agora usam a negação onde antes era só aceitação, não com mais justiça aos requerentes, e com ainda menos interesse nas conseqüências.

A promessa dos Estados Unidos! Alguns estudantes estrangeiros ainda podem acreditar nesta promessa, pelo menos no que diz respeito è educação superior. Mas, para os estudantes, tanto do Brasil como da China, que tentam conseguir seus vistos depois de 11/9/2001, ou da “Guerra-Contra-O-Terror”, eles têm que descobrir que este ideal tem que ser primeiro testado pelo cinismo da diplomacia americana; a promessa americana, para estes, pode acabar soando oca. Talvez, na prática, este já seja o caso. Como os americanos não podem perguntar aos alunos rejeitados (que, por sinal, antes de chegarem à entrevista têm que pagar pelo visto de qualquer maneira, quer o obtenham quer não), nós podemos perguntar aos alunos estrangeiros que já estão aqui. Qual o nível de politização o seu plano de estudo adquiriu? Como eles sobreviveram ao primeiro contacto com um oficial de consulado? Mais dentro do presente ponto, quanto eles sentiram que eles, e seus colegas estudantes, durante a entrevista, corriam o risco de serem tomados não somente como imigrantes potenciais mas como terroristas?

 

 
Clique e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço Acadêmico

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2004 - Todos os direitos reservados