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Por EVA PAULINO BUENO
Depois
de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino
Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em
San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do
povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland,
1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh
Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I
Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan
(JPGS, 2003)
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Era uma vez, na Ásia
O
desastre sem precedentes que avassalou partes da Ásia e de Sri Lanka
neste dia 26 de dezembro de 2004 traz, inevitavelmente, lembranças a
qualquer um que teve a oportunidade de visitar os lugares agora
devastados pelo maremoto. No ano 2001, em Janeiro, estive na ilha
Crabi, na Tailândia, chamada Ao Nang pelos nativos, e também na ilha
Phi Phi. Pra quem mora no Japão, ir a Tailândia é coisa comum, e bem
razoável no preço. O lugar é lindíssimo, com rochas ilhas
despontando de dentro do mar, barquinhos carregando turistas ou
pescadores pontilhando o horizonte.Mas, além de tudo, uma visita à
Tailândia é algo inesquecível por causa das pessoas.
Enquanto assistia pela televisão as
imagens aterradoras das ondas gigantescas varrendo tudo em seu
caminho, impossível conter as lágrimas e o horror. Hoje, assistindo
ainda mais imagens da destruição, e vendo os testemunhos dos
sobreviventes ocidentais, fica sempre e renovação daquilo que
aprendi a apreciar e a amar sobre aquele país: o povo tailandês. Já
começam a aparecer as muitas histórias de gente que obteve ajuda dos
locais, pescadores, camponeses, gente simples, repartindo com os
estrangeiros o que tinham, ajudando, fazendo curativos, dando a
pouca comida e água, enquanto eles mesmos estavam no meio da maior
desgraça que já lhes ocorreu. Mas há muitas histórias que vão ficar
sem contar, enquanto as imagens das valas comuns se multiplicam, e
vemos, dia a dia, pais e mães e filhos chorando a perda de entes
queridos. A tristeza e a desolação não podem deixar de afligir a
quem vê estas imagens de hoje, mas, para mim, outras se misturam a
estas.
Algumas das imagens mais antigas
retornam à minha memória, e agora assumem quase um caráter de um
filme, de um documentário. Em Crabi, uma manhã, em 2001, num pequeno
hotel na beira da praia, resolvi sair para andar pela aldeia. No
fundo das pequenas casas (quase choças), alguns animais, bicicletas,
varais de roupa. Me lembro de ter visto uma mocinha sair da casa,
pegar uma caneca de plástico, e tirar água de um pote e se jogar a
água no corpo, numa inocência que me fez olhar para o outro lado,
para não interromper o ritual matutino da mocinha. Por todo lado, os
tailandeses sorriem para você, cumprimentam, sem importar se você
está comprando algo, ou só olhando. Sempre que podem, se aventuram a
“bater um papo” com os turistas, só pelo prazer de conversar. Me
lembro do jovem dono ou gerente de um restaurantezinho em Ao Nang
tentar me explicar, metade em inglês e metade em Thai, que aquela
noite de lua cheia iam ter uma festa na praia, e que todos estávamos
convidados. De fato, quando a noite chegou, turistas e gente da
aldeia se reuniram em volta de uma fogueira, cantaram e dançaram,
enquanto as crianças corriam até a beira da água e voltavam dando
gritos de alegria. Naquele momento, numa noite do sudoeste da Ásia,
éramos todos irmãos, não importando a cor, a idade, a nacionalidade,
a língua materna. Na confraternização que fizemos ali, o que
importava era que a noite era bonita, o mar calmo, a brisa
refrescante, e estávamos todos vivos, juntos naquelas horas mágicas.
Hoje, vendo os escombros, especialmente
de Crabi, não posso deixar de pensar naquele rapaz que nos convidou
para a festa, ou naquela mocinha se levando na porta da cozinha de
sua casa. Estarão vivos ainda? Estarão mortos? Feridos? Impossível
saber, desta distância.
Mas algumas coisas podem ser sabidas,
mesmo do outro lado do mundo. Uma delas é que, de fato, a bondade do
povo tailandês se manifesta não só em convites pra festas na beira
da praia, mas na hora de acudir o estranho ferido. Outra é que a nós
que fomos poupados de tal desgraça nos cabe ajudar de alguma forma.
Não podemos — e nem devemos, já que nem todos temos o treinamento
necessário — ir à Ásia ajudar em pessoa. Mas podemos, e devemos,
tentar ajudar de outras maneiras, com dinheiro, com pedidos aos
nossos governos, para ajudar a reconstruir as áreas afetadas tanto
na Tailândia como na Indonésia, na Índia, e nos outros países.
A Cruz Vermelha dos Estados Unidos
relata que, desde o dia 26 de dezembro, as doações não têm parado.
Mais de cem milhões de dólares já foram doados, não por gente rica
necessariamente, mas por gente simples, dólar por dólar. O povo
americano é generoso em geral, mas parece que esta catástrofe
solicitou—e obteve—uma generosidade sem precedentes.
O que nós do Brasil podemos fazer? Não
tenho como saber se as doações à Cruz Vermelha do Brasil aumentaram
nestes últimos dias. Espero que sim, mesmo sabendo que temos nossas
próprias catástrofes a resolver. A Cruz Vermelha abriu uma conta
corrente específica para receber doações para as vítimas da Ásia:
Cruz Vermelha Brasileira Banco do Brasil Ag. 2865-7 (1º de Março)
Conta corrente: 400.087-0 CNPJ: 33651803 0001 65 As doações para a
ONU deverão ser feitas através de cheques administrativos em nome de
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, que devem ser
enviados para o seguinte endereço: Organização das Nações Unidas
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento A/C Cristiano
Otoni SCN Quadra 02 Bloco A, 7º. andar Edifício Corporate Brasília,
DF CEP 70712-901. O governo brasileiro também está enviando
alimentos, água, roupas, remédios para a Ásia e para a Sri Lanka.
Se todos ajudamos um pouco, ainda não conseguiremos retornar as
vidas perdidas, mas pelo menos poderemos aliviar a fome e as
necessidades presentes dos que sobreviveram, e assim evitar mais
mortes por doenças e fome.
Nas notícias nacionais dos Estados
Unidos, no dia 3 de janeiro, foi mostrado um soldado que estava no
Iraque, e agora está em Sri Lanka, ajudando a descarregar um avião
com provisões, água, remédios. Ele disse que nem lá no Iraque tinha
visto tal devastação, e que estava contente de poder ajudar o povo
de Sri Lanka. O governo dos Estados Unidos prometeram 350 milhões de
dólares para ajudar aos países e pessoas afetadas. Isto é muito
pouco, comparando com os mais de 87 bilhões já gastos na guerra do
Iraque, mas é um começo.
De novo me lembro daquela noite em Ao
Nang, quando, a uma certa altura, um grupo de pessoas começou a
cantarolar a música “Imagine,” de John Lennon. Sim, imaginemos que
um dia, talvez, já não existam países, mas só uma única humanidade,
vivendo em paz, ajudando-nos um ao outro. Talvez, desta desgraça
horrível que afetou nossos irmãos de tão longe nos fique uma lição.
Quando trabalhamos todos juntos, esquecendo as barreiras
superficiais, temos mais força, e podemos fazer uma diferença. |
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