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Por ANTÔNIO
INÁCIO ANDRIOLI
Doutorando em
Ciências Sociais na Universidade de Osnabrück – Alemanha |
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O
capitalismo educa para o parasitismo social
“Fôssemos infinitos, tudo mudaria.
Como somos finitos, muito permanece”.
(Bertolt Brecht).
A
suposição de uma natureza parasitária do ser humano continua atual.
Afirmações como a de que a exploração sempre tenha existido, ou de
que ela seja uma mera manifestação da natureza humana, continuam
sendo usadas para legitimar a expansão da barbárie capitalista. Na
Alemanha, a crença numa suposta natureza capitalista da humanidade é
expressa tanto pelo senso comum como por alguns intelectuais quando
se debate a possibilidade de uma sociedade não-capitalista, sendo
apresentada normalmente como explicação para o desmoronamento da
experiência soviética nos países do Leste Europeu. Como se pode
fundamentar essa argumentação e qual seria mesmo a base do
parasitismo social?
Na história do pensamento houve muitas
tentativas de afirmar uma natureza do ser humano, geralmente
tentando comparar o comportamento humano com o dos animais. Assim,
surgem as idéias do ser humano como naturalmente racional, político,
social, etc. Na relação com o parasitismo, ou seja, com a situação
em que um ser humano vive na condição de parasita de outros, as
posições teóricas de Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau são
demarcadoras para o debate teórico seguinte. Segundo Hobbes, os
seres humanos são como lobos entre si, ou seja, maus por natureza, e
seria necessário constituir um Estado forte, um Leviatã, para
impedir que a humanidade se destrua a si mesma. Para Rousseau, ao
contrário, o ser humano natural seria bom e justamente as
instituições políticas, a sociedade civil, o teriam corrompido.
Rousseau propõe um contrato social para que, com base na vontade
geral, a humanidade possa resgatar sua liberdade e igualdade
original. A posição de Hobbes parece ter sido a mais difundida,
possivelmente por ter servido melhor aos interesses do liberalismo
com o avanço do capitalismo, legitimando a desigualdade realmente
existente e servindo à justificação da violência de classe do
Estado. Para Rousseau, a tarefa teórica foi muito mais difícil, pois
teve que identificar o momento original em que teria se dado a
passagem do estado natural para a sociedade civil. Essa origem da
desigualdade entre os seres humanos é identificada por Rousseau na
instituição da propriedade privada.
Ambos os filósofos recorrem à criação de
uma realidade imaginária para afirmar uma proposta de Estado e
marcam profundamente o surgimento do liberalismo em superação ao
absolutismo do fim da Idade Média e começos da Moderna. A
identificação com um ou outro paradigma teórico, certamente, conduz
a conseqüências frontalmente opostas. A utopia de um outro mundo
possível é muito influenciada pela interpretação da história da
humanidade, ou seja, a identificação de um período em que não teria
havido exploração e desigualdade, poderia aumentar a possibilidade
de concretização de uma nova sociedade. A caracterização da
desigualdade existente como algo que “sempre existiu”, ao contrário,
tende a reforçar uma postura de legitimação que serve de obstáculo à
utopia de transformação da realidade social. Como não há provas da
existência de um período livre de injustiça, exploração e
desigualdade na história da humanidade, a discussão continua no
campo imaginário, o que também é a base da utopia. A afirmação de
uma natureza humana também é meramente imaginária, motivada por
determinadas interpretações do passado e projeções interessadas de
futuro.
Se afirmamos a existência de um
parasitismo social na sociedade capitalista, podemos, entretanto,
nos perguntar acerca da sua origem. A resposta nos remete a
sociedades anteriores que também se alicerçaram na exploração, como
o feudalismo e o escravismo. Mas, também, podemos imaginar a
existência de sociedades em que a exploração entre os seres humanos
não tenha existido. Em uma situação de abundância natural, na qual
os meios de produção, acumulação e armazenamento não estão
desenvolvidos, a idéia da apropriação privada perde sua força.
Porém, em uma situação de escassez e com o desenvolvimento da
organização produtiva do trabalho, a competição e a possibilidade de
distribuição desigual da produção passam a ser mais prováveis. Com
base nessa hipótese, podemos identificar o modo de produção e
organização da sociedade como responsável pela existência
parasitária de grupos humanos.
A história humana registra diferentes
modos de produção, demonstrando que a sociedade “nem sempre foi
assim” e, por isso, não precisa, necessariamente, “continuar assim”.
A exploração e a exclusão são conseqüências da forma como as pessoas
se organizam para produzir e distribuir os resultados do trabalho
humano. No comunismo primitivo, a ausência da propriedade privada e
do excedente econômico permitiam a abundância no acesso aos bens
necessários das pessoas que, organizadas em comunidades nômades,
viviam basicamente da coleta de frutos da natureza, da caça e da
pesca. O fator decisivo para a acumulação privada de bens por parte
de uns às custas dos outros é a existência de um excedente
econômico, o qual permite a divisão social entre os grupos humanos:
uma maioria de produtores, de um lado, e os responsáveis pela
organização do trabalho e segurança da comunidade, de outro. Com o
desenvolvimento da tecnologia, o surgimento da agricultura e da
pecuária, as forças produtivas geraram o excedente, e a sua
apropriação por parte de quem não ajudou a produzi-lo, ocasionou a
primeira forma de exploração. A divisão social do trabalho e a
necessidade de proteger a propriedade e o excedente marcaram as
primeiras sociedades de classe na história da humanidade. As guerras
entre povos em torno ao acesso à propriedade a ao excedente
colocaram os vencedores na condição de senhores sobre os vencidos
que, por sua vez, se tornaram escravos.
O escravismo, modo de produção
decorrente da apropriação privada dos bens coletivos, durou muito
tempo até entrar em crise e anunciar a segunda sociedade de classes
conhecida pelos seres humanos: o feudalismo. Considerando que a
promoção de guerras para trazer novos escravos era custeada pelos
cidadãos livres que passaram a negar o pagamento de impostos para
esse fim; o alto custo de criação de um escravo até se tornar adulto
e propício ao trabalho; e a baixa produtividade dos escravos que
começavam a se rebelar contra a ordem imposta, o feudalismo foi uma
alternativa para resolver os problemas internos do modo de produção
escravista. Agora, os servos (antes escravos) possuíam uma parte das
terras necessárias à sua manutenção e reprodução e trabalhavam a
maior parte do tempo na terra dos senhores. No entanto, com o
desenvolvimento do mercado e a necessidade de constantes trocas de
produtos entre os feudos, uma nova classe passou a se constituir
como dominante: os mercadores ou burgueses. A acumulação primitiva
de capital, através das trocas, fez dos burgueses os “novos
senhores”, que começaram a constituir uma nova maneira de organizar
a produção: o capitalismo.
O capitalismo é o modo de produção mais
complexo desenvolvido pela humanidade. Tendo no mercado o centro de
sua lógica e na mercadoria a expressão da sua riqueza, os donos dos
meios de produção (terras, fábricas, bancos, comércio) exploram os
trabalhadores em troca de um salário. A instituição da propriedade
privada, do mercado e do Estado, garante a manutenção da exploração
e o trabalho passa a ser encarado como mera mercadoria – embora se
constitua numa mercadoria especial, ou seja, que tem a capacidade de
produzir novas mercadorias e lhes conferir um novo valor, o que
assegura o aumento do capital para os seus donos. Como mercadoria, o
trabalho passa a ser remunerado de acordo com a lógica do mercado e
o desemprego aumenta progressivamente com a incorporação de
tecnologia (produzida pelo trabalho) ao processo produtivo.
A existência parasitária da classe
capitalista se torna objetivamente possível através da propriedade
privada dos meios de produção, da divisão social do trabalho
assalariado e da lógica do mercado. O Estado, criado para defender
os interesses da classe dominante, fornece os instrumentos
necessários para manter a ordem social e reprimir em caso de
desobediência e revolta por parte dos trabalhadores. Mas, o aparato
repressivo dificilmente precisa ser usado, tendo em vista que a
existência da ideologia cria as condições subjetivas de controle e
dominação da classe explorada. Através da família, da escola, dos
meios de comunicação social, do aparato jurídico e das leis, a
classe capitalista legitima sua existência parasitária na
consciência das pessoas, diminuindo significativamente a
probabilidade de reação por parte da classe explorada.
O papel legitimador da ideologia, como
um conjunto de idéias reproduzidas no interior do Estado e das
instituições da sociedade civil, encontra uma base fértil no senso
comum das pessoas e serve tanto para a adaptação da classe explorada
como para justificar a ação da classe parasitária para si mesma.
Tanto a classe capitalista como a classe trabalhadora tendem a
assimilar a lógica de dominação em curso, reproduzindo uma visão de
mundo e de ser humano que corresponda aos interesses dos
dominadores. É precisamente neste aspecto que a idéia de uma suposta
natureza parasitária do ser humano cumpre sua função ideológica, ao
conduzir a classe explorada à passividade e à acomodação e ao
reforçar, na classe exploradora, a idéia de que sua existência é
determinada por uma condição humana imutável, afastando um possível
sentimento de culpa e incrementando sua convicção de que sua tarefa
é realmente a de coordenar o processo de exploração da melhor forma
possível.
Diariamente, somos condicionados a
competir com os outros, a tirar vantagem de situações e de pessoas,
a nos comportar como se estivéssemos em uma permanente luta por
recursos escassos. O paradoxo, no entanto, é que a sociedade
capitalista gerou a maior abundância da história da humanidade, cuja
acumulação concentrada nas mãos de uns poucos obrigam os excluídos a
concorrer pelas esmolas do sistema ou pela inclusão no reino da
fartura reservado aos poucos. Desde pequenos somos ensinados a
participar deste jogo, onde poucos vencem, derrotando a maioria.
Alguns denominam esta concorrência como a tentativa de “vencer na
vida”, ou mesmo, de “ser alguém na vida”. Os pais se rejubilam de
orgulho ao verem os filhos sendo diplomados com cursos
universitários; a sociedade celebra a conquista do status quo
de uns poucos – muitos dos quais conseguem se constituir em
colaboradores dos parasitas, ao servirem à classe capitalista que os
recompensa pela sua submissão à lógica do capital. Os vencedores são
reconhecidos com honras, enquanto os perdedores passam a ser
culpados por não ter conquistado um espaço, já de antemão, reservado
para poucos. No “caldo cultural” desta vivência é que muitos vão
incorporando, gradativamente, a lógica de funcionamento da sociedade
no seu comportamento cotidiano.
O sujeito percebe o mundo através das
relações que estabelece com a realidade objetiva, captando o
concreto de maneira aparente e fragmentada. Por isso, essa primeira
apropriação é alienada, pois o sujeito considera como natural e dado
o que se manifesta como fragmentado e condicionado pelo contexto
histórico-cultural da humanidade. Sendo a consciência a
interiorização das relações vividas, o ser humano tende a
generalizar o que percebe como parte e a aceitar essa primeira forma
de conhecimento como apropriação do real. Esta é a base para a
aceitação da ideologia, das relações materiais concebidas como
idéias, através das mais diferentes instituições com que o
indivíduo, desde a infância, começa a conviver: a família, a escola,
a igreja, o trabalho, etc. Poderíamos chamar isso de natureza
humana?
Apesar das tentativas de inúmeros
cientistas buscando identificar os genes responsáveis pelo
comportamento humano, os seres humanos não são “instintivamente”
humanos, pois, ao contrário dos animais, desenvolvem características
de acordo com o meio em que vivem. Um exemplo típico disso é o caso
das meninas-lobo, encontradas na Índia em 1920 e que não tiveram a
oportunidade de se humanizar enquanto viveram com os lobos. Elas não
riam, não choravam e não sabiam falar. Isso demonstra que o ser
humano depende da cultura humana para se humanizar. Essa “cultura
humana” foi desenvolvida por muitos povos durante muitas gerações e
constrói o que conhecemos por história.
Ao contrário da concepção metafísica de
natureza humana, a constatação da cultura como constituinte do
humano também nos mostra que, embora haja condicionamento, não
existe determinação cega da história. O ser humano é um ser
inacabado e, como dizia Paulo Freire, é o único ser que possui
consciência do seu inacabamento. O ser humano, portanto, aprende a
ser humano nas relações com os demais, as quais tendem a reproduzir
a forma da sociedade em que vivem. Por outro lado, somente com a
existência de uma sociedade livre de relações parasitárias e
alienadas é que uma verdadeira humanização se torna possível. A
afirmação de uma natureza humana parasitária conduz a uma concepção
determinista de ser humano e da sociedade. A base do parasitismo
social é a sociedade dividida em classes, cuja gênese é histórica.
No capitalismo esta base social tenta se impor de forma racional, ao
reproduzir nas relações sociais cotidianas os interesses dos grupos
sociais dominantes. A generalização das relações capitalistas de
exploração na consciência e na forma de agir das pessoas tende a
legitimar o parasitismo como um processo natural. Seu desvelamento e
desmistificação, contudo, é um pressuposto para a afirmação da
liberdade humana e da possibilidade de construção de uma sociedade
baseada na solidariedade e na transformação das relações sociais
geradoras de opressão, alienação e preconceito. |
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