Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA

Docente na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP), do Conselho Editorial da Revista Margem Esquerda e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo

 

CARVALHO, Alonso Bezerra de. Educação e Liberdade em Max Weber. Ijuí: Ed. Unijuí, 2004 – 312p. (Coleção fronteiras da educação)


 

Educação e Liberdade em Max Weber

 

“... a burocracia é essencialmente um conceito de esfera política, e, nesta medida, se diz respeito ao poder, diz respeito também à liberdade”. (Francisco C. Weffort)[1]

“Weber estudou a burocracia porque via na sua expansão no sistema social o maior perigo ao homem. Estudou-a para criar os mecanismos de defesa ante a burocracia”. (Maurício Tragtenberg, 1980: 139)

 

A obra Educação e Liberdade em Max Weber, de Alonso Bezerra de Carvalho, resulta da sua tese de doutorado defendida em fevereiro de 2002, na Faculdade de Educação da USP, sob a orientação do professor Antônio Joaquim Severino. O autor se indaga sobre o significado da educação num mundo intensamente racional e burocrático, um mundo desencantando. Qual o espaço para a liberdade e a educação neste contexto?

O autor parte do princípio de que “o carisma entendido como o clinamen (desvio) das regras instituídas burocratizantes, garantindo o desenvolvimento da liberdade que, rompendo com o determinismo inerente a qualquer situação objetiva, abre espaço para o exercício da autonomia”. A partir deste pressuposto, torna-se possível “pensar uma educação que, em vez de se burocratizar e normatizar friamente, rompe e revoluciona, se expande, autocontroladamente, garantindo a autonomia” (p. 28).

O carisma aparece, então, enquanto fator de equilíbrio que pode impedir o avanço da burocratização, a qual tende a restringir a liberdade. À dominação burocrática, que asfixia a liberdade e delimita o campo da educação, o autor contrapõe a dominação carismática enquanto possibilidade de equilibrar o poder burocrático. Há, em sua concepção, uma aproximação entre o pensamento weberiano e nietzscheano. A partir desta identificação ele argumenta que “a dominação burocrática e a dominação carismática representam o conflito da vida encontrado no pensamento nietzscheano. A burocracia e o apolíneo, o carisma e o dionisíaco são dimensões representativas do caráter agonístico do mundo e se referem à própria existência humana” (p. 34).

Apolo, deus grego que expressa a harmonia e a ordem, é enfrentado por um deus estrangeiro, Dionísio, representando a exuberância, a desordem e a música. A força criadora da vida resulta deste conflito. Sem ele a vida desvanece-se, torna-se prisioneira da frieza racional e burocrática; torna-se entediante, um fardo e rotinização do agir cotidiano. As forças apolíneas e dionisíacas são, portanto, complementares. Porém, a civilização separou-as e, com isto, exauriu a sua capacidade criadora.

As interseções entre Max Weber e Nietzsche são analisadas no capítulo quarto do livro. O autor nota que a tensão entre o carisma e a burocracia equivale à relação apolíneo/dionisíaco. São pares em conflito que dizem respeito à existência humana. Ele procura “indicar as possíveis implicações que a adoção de um ponto de vista, seja ele burocrático/apolíneo ou dionisíaco/carismático, pode trazer à conduta dos indivíduos, principalmente na ação pedagógica” (p. 45).

Porém, antes de chegar a este ponto, o leitor deve acompanhar o percurso desenvolvido pelo autor – sob pena de não compreender a sua argumentação. No primeiro capítulo, Carvalho analisa a elaboração teórica de Max Weber sobre a modernidade ocidental e as conseqüências da crescente racionalização, que passa a determinar as esferas da ação humana. O homem desencanta-se diante do mundo e perde a sua ingenuidade original que o unia a este.

Se a burocratização e o conseqüente desencantamento do mundo nos prendem na gaiola fria da dominação racional, o que gera um certo pessimismo sobre as possibilidades humanas do agir em liberdade, é preciso também ter em conta que a existência humana, que incorpora o conflito apolíneo/dionisíaco, é mais abrangente. Como salienta o autor, a burocracia não domina plenamente a vida: da mesma forma que os homens submetem-se, eles podem resistir. E esta resistência não se dá apenas pela oposição do carisma (dionisíaco), mas se insere no próprio campo da racionalidade: “Nesse sentido, a racionalização deve ser entendida também como o caminho para a liberdade, ou seja, a possibilidade de expansão de nossa subjetividade e, não apenas, um espaço de dominação e subjugação” (págs. 71.72). A ação racional “bem conduzida e de forma responsável, garante o exercício da liberdade. Agir com conseqüência e de forma calculada é ter uma conduta responsável, por estar condicionada pelo conhecimento das oportunidades e efeitos da execução desse ou daquele fim, baseado numa avaliação dos meios” (p. 73).

Na ação racional com relação a fins o agente concebe previamente seu objetivo e os meios para atingi-lo. Neste tipo de ação quando maior a correspondência entre meios e fins maior a racionalidade. A liberdade humana consiste em calcular os meios mais adequados e usá-los responsavelmente. Todavia, os meios tendem a se autonomizar e se transformarem nos fins – perdendo-se os fins primeiros e os valores significativos que orientavam a ação. O que no início era uma ação racional converte-se em irracional.

A seleção e o uso responsável dos meios para atingir os fins propostos indicam uma ética da responsabilidade, isto é, “a escolha responsável com referência a valores últimos que, feita com consciência das suas implicações, pode sustentar o desenvolvimento de uma personalidade com autonomia”. A formação desta personalidade pode se contrapor “à alma fragmentada” do especialista e do profissional” e indica uma “possibilidade de resistência ao cotidiano” (p. 88).

O autor identifica as possibilidades para a liberdade inseridas no corpus da análise weberiana sobre o processo de racionalização do mundo. Para ele, o conflito entre burocracia e carisma pode “ainda propiciar alguma “esperança” (p. 89). E é precisamente esta relação entre a dominação burocrática e a dominação carismática o seu objeto de estudo no segundo capítulo. Neste, ele percorre os textos de Max Weber para acentuar os aspectos centrais do carisma e pensar sua contribuição para uma educação que não se restrinja à gaiola burocrática. O carisma aparece então como um contrapeso ao domínio burocrático. Contudo, é preciso considerar que a educação carismática também tende a se rotinizar. Dessa maneira, ela corre o risco de perder seu poder criativo, cristalizar-se e se institucionalizar.

“A Filosofia da História de Kant, como matriz para uma Filosofia da Educação moderna, juntamente com a análise esperançosa de Durkheim e Marx sobre a sociedade moderna, são os assuntos em pauta do terceiro capítulo”, afirma. (p. 44) Weber se destacará destes autores por sua perspectiva pessimista sobre a modernidade e a simpatia por Nietzsche. Carvalho observa que a influência nietzscheana sobre Weber o leva a afastar-se das teorias de Kant, Durkheim e Marx, os quais teriam criado um mundo que não existiu e nem existirá: “E nem a educação seria capaz de preparar o terreno para a implantação deste mundo” (p. 194). Weber recusa tanto a idéia iluminista e positivista do progresso da moral humana quanto as utopias. Ao homem moderno resta o desafio de estar à altura das exigências do cotidiano.

O último capítulo analisa a contribuição de Weber à educação moderna. O tema retomado a partir dos textos weberianos[2] permite o aprofundamento da reflexão sobre o papel do professor e da educação na atualidade. Qual deve ser a atitude do professor diante dos seus alunos? E o papel do cientista? Qual o comportamento acadêmico digno e que expresse integridade intelectual? O professor deve opinar ou se abster de tecer juízos de valores diante dos seus alunos? Em que consiste a exigência weberiana de neutralidade axiológica? Com tratar a liberdade na prática pedagógica?

Eis algumas questões presentes na análise do autor. A compreensão das respostas weberianas pressupõe a clareza de que suas formulações estão vinculadas ao contexto político, econômico, social e cultural do seu tempo. Também é preciso levar em consideração o fato de que a análise do autor sobre o pensamento de Max Weber expressa também a sua interpretação.

Os temas concernentes à liberdade e à educação identificados pelo autor na teoria weberiana se inserem na formulação teórica-metodológica geral que fundamenta a sua obra: na idéia de separação entre juízos de valores e juízos científicos e na análise do processo de racionalização e da modernidade. Portanto, a compreensão da contribuição de Weber à educação pressupõe o entendimento da sua concepção sociológica geral.

Nesta perspectiva é possível conceber Max Weber como um autor que não se restringe ao pessimismo sociológico, fruto das suas análises sobre o processo de racionalização da modernidade ocidental. Como afirma Carvalho em suas considerações finais:

“Vemos em Weber, assim, não apenas um autor que constata a tragédia do mundo moderno, no qual convivem os paradoxos de uma existência fundada na inevitabilidade da renúncia. Mas ele também lida com as possibilidades, isto é, com a chance de realização de algumas perspectivas. Nem tudo ainda está perdido: nem a liberdade e nem o sentido da vida. É possível uma educação que equilibre a tensão entre burocracia e carisma”. (p. 292)

Esta mensagem indica a possibilidade de resistir, enfrentar as determinações burocráticas e ampliar os espaços da liberdade. Eis um campo fértil para a ação educativa. Eis a sua responsabilidade.

Educação e Liberdade em Max Weber é um livro que permite ao estudioso, filósofo, sociólogo etc., aprofundar a compreensão do pensamento weberiano. Por outro lado, possibilita ao educador refletir sobre a liberdade no locus da sua ação e sobre os problemas que desafiam a prática docente, o processo ensino-aprendizagem e a relação professor-aluno. A qualidade de um livro não está necessariamente em eventuais identificações com o mesmo, mas sim em sua capacidade de instigar o nosso pensar. Este é o caso de Educação e Liberdade em Max Weber.


[1] Do prefácio à Burocracia e Ideologia, de Maurício Tragtenberg (São Paulo: Ática, 1980, p. 12).

[2] O autor privilegia os seguintes textos de Max Weber: A ciência como vocação, O sentido da “neutralidade axiológica” nas ciências sociológicas e econômicas e Sobre a Universidade.

 

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Referência Bibliográfica

TRAGTENBERG, Maurício. Burocracia e Ideologia. São Paulo: Ática, 1980 (reimpressão).

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