Empreendedorismo no
capitalismo “tardio”
No
início do século XX, a teoria e a prática econômicas exaltaram a
figura do empresário industrial capitalista, a partir dos estudos
de Max Weber (Economia e Sociedade, A Ética Protestante e o
Espírito do Capitalismo), de Werner Sombart e de Joseph A.
Schumpeter, que apontaram para o papel histórico dos indivíduos,
pequenos empresários, verdadeiros “deus ex – machina” e inovadores
no processo de acumulação capitalista. Com o avanço do processo de
concentração de capital e a estruturação crescente da maioria dos
setores produtivos sob forma de oligopólios e cartéis, o foco dos
estudos e pesquisas deslocou-se para as grandes empresas e sua
organização impessoal e burocrática.
“Big is
efficient” (o que é grande é eficiente) foi a afirmação pragmática
que serviu de justificativa para as mudanças no conteúdo e na
metodologia de ensino e pesquisas nas escolas de economia e de
administração de empresas, em processo de expansão contínua. No
capitalismo oligopolista, sobretudo na segunda metade do século
XX, desaparece a figura do empreendedor (“self-made man”) para dar
lugar ao administrador profissional, supostamente desvinculado da
propriedade dos meios de produção e, portanto, mais atento aos
interesses e necessidades dos acionistas, empregados e
consumidores. Livros como os de C. Wright Mills (A Nova Classe
Média) e de James Burnham (A Revolução dos Gerentes) ilustram a
tese de emergência de um novo estrato social, eqüidistante tanto
do capital quanto do trabalho, que estaria preocupado
essencialmente com a dinâmica do crescimento e da expansão das
empresas e da economia.
A imensa quantidade (e péssima
qualidade) de artigos e livros publicados, baseados em pesquisas
empíricas e estudos de casos sobre “management” e mais
recentemente, sobre liderança, evidencia a demanda insaciável por
material de ensino e de divulgação referente a essa nova profissão
e seus desafios.
Com o esgotamento histórico do modelo
de capitalista empreendedor individual, particularmente nos países
“emergentes” – ou de desenvolvimento tardio – invadidos pelo
capital transnacional em conseqüência da política econômica
neoliberal. O desinteresse da política oficial manifestou-se sob
forma de redução de financiamentos, créditos, subsídios ou
incentivos para a criação e o funcionamento de pequenas empresas e
refletiu-se também nos programas e projetos de pesquisa dos cursos
de economia e administração, cada vez mais orientados para a
administração profissional.
Na análise das diretrizes e programas
de apoio ao empreendedorismo, tais como foram formulados
recentemente pelo poder público, é fundamental relacionar as
propostas e ações na esfera política e social com os efeitos da
política macroeconômica. Esta, apesar do discurso e da vontade
subjetiva dos governantes, produz objetivamente o desemprego e a
exclusão social de contingentes crescentes da população, em que
pesem as promessas dos políticos em períodos pré-eleitorais. Os
governos, tanto nos países ricos e industrializados, quanto nos
“emergentes”, se mostram impotentes para lidar com a demanda por
empregos e de acesso a oportunidades de educação e saúde.
As políticas de apoio às iniciativas
de incentivar a criação de pequenas e médias empresas (PMEs).
Incubadoras e parques tecnológicos procuram refazer o que foi
destruído pelas forças do “mercado”. Preso entre as pressões do
capital financeiro, nacional e internacional, para manter as
diretrizes da política macroeconômica e as reivindicações das
massas deserdadas – os sem terra, sem teto, os desempregados e os
excluídos – que cobram acesso aos benefícios do Estado de
bem-estar, os governos, mesmo quando constituídos por partidos da
“esquerda” ficam sem condições de mudar a política macroeconômica,
sob o risco de causar instabilidade política, fuga de capitais e
movimentos de sedição no Congresso e nas diversas regiões do país.
Por outro lado, o governo não pode, sob pena de perder os votos e
o apoio popular, deixar de atender, pelo menos em parte, às
reivindicações sociais mais urgentes. Cedendo às pressões das
elites por um Estado “enxuto”, o governo dispõe cada vez de menos
verba para educação, cultura, saúde e infraestrutura. Os apelos ao
patriotismo dos empresários para que invistam no setor produtivo
não surtem efeitos diante dos lucros que as altas taxas de juros
permitem às aplicações especulativas.
Na ausência de investimentos
significativos no setor industrial não há praticamente geração de
empregos e, portanto, a possibilidade de retomada do crescimento.
Em resposta a esta situação – o desemprego permanente e crescente,
mesmo entre as camadas da população mais escolarizadas –, o Estado
optou, como compensação, pelo empreendedorismo da pobreza, os
negócios caseiros, os comerciantes de rua e os coletores de lixo.
Todos desprovidos de proteção jurídica ao trabalho e com rendas
abaixo do mínimo para a sobrevivência.
Quais as chances de sucesso de uma
política de apoio às pequenas empresas condenadas a competir com o
grande capital, infinitamente superior em todas as esferas
relevantes de tecnologia, financeira, comercial e de
marketing?Mesmo as mais eficientes serão sempre dependentes,
subordinadas ou complementares às grandes empresas. Como vencer
essa fraqueza estrutural cuja superação exige dos empreendedores
muito mais do que as virtudes schumpeterianas convencionais?
Para se tornarem aptos a inovar e
sobreviver com suas empresas (a taxa de mortalidade chega a 80%,
nos primeiros cinco anos), os administradores das PMEs, além de se
organizarem e atuarem em padrões coletivos, devem também
conquistar a hegemonia política ou, pelo menos, uma participação
significativa na tomada de decisões do Estado.
É possível superar essa dicotomia
esquizofrênica de nossa sociedade que conclama e instiga a todos
para que sigam competindo, desde a escola, nas empresas e na vida
social e a necessidade inadiável de cooperar, associar-se e
praticar a solidariedade, sem os quais não há possibilidade de
sobrevivência?
As propostas de APL (Arranjos
Produtivos Locais) e de criação de cooperativas ou consórcios de
PMEs, embora não consigam derrubar o poder das grandes empresas e
conglomerados, podem constituir-se em alternativa a longo prazo.
Desde que o poder público, em todos os níveis, apóie essas novas
formas de organização da produção, do comércio e dos serviços.
Individualmente, as PMEs não poderão
atingir níveis de especialização flexível e de competitividade nos
mercados nacional e internacional, mas podem compensar sua
fragilidade pela associação em base setorial e regional. Estudos
recentes realizados nos países industrializados reforçam a tese
das vantagens de aglomerações setoriais, com mais chances de êxito
em cidades de pequeno ou médio porte, onde evitam as deseconomias
das áreas metropolitanas. A construção de uma estrutura local
integrada mediante cooperativas ou consórcios de PMEs, estimula
uma divisão de trabalho interempresas e a sub-contratação de
especialistas eleva substancialmente a capacidade de lidar com
inovações e mudanças nos mercados. O conceito de “eficiência
coletiva” pode ser estendido a associações de PMEs capacitadas por
integração sistêmica e inovações incrementais proporcionadas por
institutos de pesquisa e centros de assistência técnica voltados
ao aumento da produtividade e do desempenho econômico e
financeiro.
Outro fator para o funcionamento
exitoso de estabelecimentos industriais consorciados é sua forma
de organização integrada, envolvendo empresas sub-contratadas,
fornecedoras de peças, componentes e outros insumos, unidades de
serviços especializados em pesquisa de mercado e processamento de
dados. Além disso, a capacidade de adaptação à concorrência
internacional e de absorção de seus impactos demolidores no
mercado interno pode ser desenvolvida melhor por interesses
setoriais e regionais comuns.
O fator central para seu êxito
continua sendo a política industrial e tecnológica do governo, em
nível macroeconômico, que define o potencial e as dimensões do
mercado interno. Contudo, a reestruturação da indústria não pode
ser deixada somente à iniciativa individual ou às forças do
mercado. A intervenção do Estado mediante promoção, financiamento
e coordenação seletivos, em nível local e nacional, constituirá a
base de um processo de desenvolvimento alternativo, viável e
sustentado.
Além do esforço visando aumentar a
produtividade, a qualidade dos produtos e a flexibilidade da
organização em nível intra e interempresas, esforços persistentes
e programados devem ser desenvolvidos para elevar o capital social
da comunidade, mediante a responsabilidade e confiabilidade dos
dirigentes das empresas pelo que acontece no mercado e no espaço
público.