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Por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor
em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos sobre
relações internacionais e política externa do Brasil

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A ética na (e da) política:
Existe alguma diferença entre a
esquerda e a direita?
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Resumo:
Reflexões
sobre a questão da ética na política e as possíveis distinções
ideológicas entre a esquerda e a direita no trato da coisa
pública. A lógica do poder não parece fazer muitas distinções
entre esquerda e direita no que ser refere a questões morais
como o uso da máquina pública e a falta de transparência no
controle dos partidos políticos.
Palavras-chave:
Política. Poder. Partidos políticos. Ética. Esquerda. Direita. |
1.
Pequena introdução à teoria das perplexidades
Confesso,
cabalmente, minha perplexidade: sempre pensei que, a despeito de
todos os problemas atinentes à formulação e execução de políticas
públicas, em especial aqueles problemas vinculados à definição e
execução de políticas econômicas – terreno no qual a chamada
esquerda sempre demonstrou dificuldades de toda ordem, para não
dizer, de pronto, uma singular incompetência administrativa e
operacional –, haveria quase que uma “natural diferença” de
comportamentos e de posturas quando o tema em pauta fosse a ética na
(e da) política. Estávamos todos naturalmente propensos a acreditar
que, não obstante os esperados “contorsionismos verbais” e outros
exemplos de pequenos “desvios de conduta”, no que se refere às
contingências práticas da luta política, existiria uma grande e
fundamental divisão de caráter entre modos de se fazer política (com
“p” maiúsculo): de um lado, a desfaçatez atávica e a falta de
princípios por parte da direita, de outro, a “inclinação
tendencial”, se me permitem esta expressão, da esquerda em direção
de normas éticas ou morais na forma de se conduzir em política (bem
sei que ética e moral não são a mesma coisa, mas deixemos essas
sutis diferenças de lado, por enquanto).
Será que vou ter
de confessar que fui ingênuo e cândido em relação a essas coisas?
Serei obrigado a reconhecer que, nessas coisas de se “fazer
política”, as diferenças entre a esquerda e a direita não são
exatamente aquelas que suspeitávamos, ou que o quê as aproxima,
nessas matérias, é muito mais consistente do que aquilo que
supostamente as separa? Terei de penitenciar-me por ter, durante
muito tempo, acreditado numa espécie de “superioridade moral” da
esquerda nessas lides políticas de disputa pelo poder, de luta pela
conquista e manutenção dos “postos de comando” do Estado? Vou mesmo
ter de, modestamente, fazer a “viagem de Canossa” de meu
“aprendizado moral” nas artes e ofícios do grande comércio da
política? Posto em termos diretos e mais simples: ainda se pode
acreditar na existência de diferenças reais de comportamento, de
postura prática, de atitudes mentais no grande jogo da política
entre, de um lado, a direita e, de outro, a esquerda? Existe, de
fato, alguma distinção normativa, alguma oposição fundamental,
alguma separação moral ou bifurcação ética entre a esquerda e a
direita em matéria ou em artes de política? Grandes questões as que
aqui se colocam…
2. A prática
da política: uma caixa de surpresas
Não sei se
conseguirei traduzir a minha perplexidade em termos racionais, de
modo a poder oferecer uma discussão minimamente organizada em torno
dessas “grandes questões”, questões que sempre me ocuparam ao longo
de uma vida dedicada, não exatamente à política, mas mais
propriamente à observação da política, tal como praticada por homens
concretos e partidos reais – nada de absolutamente idealizado ou
imaginado –, questões de cunho ético ou moral e que voltaram à minha
mente entre o primeiro e o segundo turno das eleições municipais de
2004. Não devo ter sido o único a interrogar-se, de maneira sincera,
sobre o sentido – se é que havia algum – de certos atos, palavras,
alianças e iniciativas tomadas pelos principais caciques da política
brasileira. Por certo que havia um “sentido”, sempre há: é o da
necessidade de agrupar forças, de constituir aliados, de se preparar
para os grandes embates eleitorais à frente, de maneira a poder
conquistar o grande prêmio, o excepcional botim, a única recompensa
que verdadeiramente conta nesse jogo de soma zero que se chama
política partidária: a conquista ou a manutenção do poder nas
sociedades organizadas em regimes políticos que tomam por base o
sistema partidário como sustentáculo da ação especificamente
política.
Este é o sentido
das muitas ações, frases, iniciativas ou alianças que chegam a nos
surpreender e que são justificadas, quando não “legitimadas”, por
esses caciques que nos governam. Por certo que esse tipo de problema
não se “resolve” num embate entre esquerda e direita, tanto porque a
riqueza e a diversidade do comércio político não se deixam reduzir a
essas dimensões dicotômicas, ideológicas poderíamos dizer, do jogo
político-partidário. Sem olvidar, portanto, a clássica divisão entre
esquerda e direita no espectro político de uma sociedade aberta
– isto é, democrática –, gostaria de tratar neste texto de algumas
questões atinentes ao modo ético de ver a política, ou à maneira
moral de se interpretar a conduta política. Eu farei, em primeiro
lugar, algumas considerações de ordem geral sobre problemas éticos
ou morais suscitados por certas palavras ou ações de atores
políticos concretos, ainda presentes em minha memória, para
examinar, depois, questões atinentes às responsabilidades internas e
externas, em matéria de ética ou de moral, dos partidos políticos no
jogo político corrente. Minhas perplexidades naquilo que chamei de
aparente diluição das fronteiras entre esquerda e direita nas artes
da política serão retomadas ao longo do texto.
3. Pequenas
frases, grandes efeitos: a (i)moralidade da política
Comecemos pelas
palavras, e aqui retomo uma das mais famosas frases do nosso
folclore político. Como todos sabem, frases verdadeiramente sinceras
não costumam freqüentar o palavreado dos políticos, acostumados que
estão a um vocabulário que pratica o dom da ambigüidade. Quando o
fazem, recebem imediato destaque mediático, correndo o risco de ver
decretada sua inscrição compulsória numa lista de “frases do ano”,
como ocorreu com o apotegma falsamente franciscano do “é dando que
se recebe”. Essa frase verdadeiramente exemplar foi introduzida ao
distinto público por um (hoje falecido) deputado do então chamado “Centrão”,
durante a Constituinte de 1988, o que garantiu ao seu autor uma
imediata, mas algo duvidosa, notoriedade pública. O autor se foi,
mas a frase aparentemente ficou conosco, não apenas como exercício
vocabular, mas como prática política flagrantemente atual. Alguém
duvida disso?
Estarei sendo
excessivamente moralista se resolver implicar com esse tipo de
colocação “sincera”, que para mim representa todo o fim da moral e
da ética no jogo da política? Seria um exercício de ingenuidade
imaginar que as “coisas” não precisariam chegar a esse ponto, no
qual detentores do poder (e dispensadores de favores) e demandantes
de benesses “públicas” se acertam no altar da política – geralmente
o parlamento – para maior benefício próprio e duvidoso benefício
social?
Mas não são
apenas as frases que marcam a atividade política e sua ambígua
relação com a moral, ou com a ética pública. Também são os atos que
revelam um pouco do comportamento dessa curiosa categoria de
praticantes da política que nos representa no Congresso nacional e
que por vezes exerce cargos ministeriais. Tome-se, por exemplo, o
caso de ministros que viajaram com recursos públicos, mas que ainda
assim receberam diárias oficiais “em excesso”, digamos assim, ou
aqueles que o fizeram por motivos particulares, mas encontraram uma
maneira de travestir seus negócios privados como se fossem de
interesse público, para assim poderem usufruir das mesmas vantagens
pecuniárias, o que pode beirar o, quando não incorre no, ilícito
funcional.
Essas frases e
atos têm a virtude de colocar em termos claros uma questão que há
muito freqüenta a atualidade brasileira: a desonestidade da
política, ou melhor, a desonestidade dos políticos. Simples questão
de justiça ou problema de moralidade pública? Nessas matérias, como
as exemplificadas acima, a diferença entre a esquerda e a direita
fez, de fato, alguma diferença? Ocorreu, nesse particular, uma
dramática inversão de comportamentos depois da vitória da esquerda
no último embate presidencial?
4. A (falta
de) ética na política não tem fronteiras geográficas
A chamada
questão moral, ou seja, o problema da desonestidade política,
apresenta uma seqüência conhecida dos especialistas, como dos
simples observadores políticos: ela vem a tona por ocasião de algum
escândalo momentaneamente original — e portanto de repercussão mais
dramática nos meios de comunicação —, mas este sempre é recuperado
logo adiante ou acaba “normalizado” pela inexistência prática (ou
fabricada) de responsáveis diretamente incrimináveis, para cair
finalmente no esquecimento de uma imprensa eternamente à cata de
“escândalos frescos”. Aqueles que ameaçam com “cadeia” estão
justamente caindo na “normalidade” do vocabulário político,
oferecendo em frases ocas remédios que sabem ser inexeqüíveis, pelo
menos neste Brasil tão complacente com políticos de honestidade
duvidosa. Mais uma vez, caberia a pergunta: houve alguma mudança
dramática a partir da substituição do que se considerava direita
pela esquerda na condução geral dos negócios do Estado?
O problema,
podemos dizer, não é apenas brasileiro, pois a classe política de
respeitáveis países considerados “desenvolvidos” também já esteve
envolvida em negócios e operações de moralidade algo dúbia, quando
não claramente ilegais. A diferença, retorquirá o pessimista
tupiniquim, é que aqui as saúvas não são incomodadas por nenhum tipo
de judiciário ou procurador público, como em terras de puritanos
auto-penitentes. De acordo, concede o racionalista, mas vejamos, por
exemplo, os casos da Itália e do Japão: há exemplos de democracias
avançadas que tenham grande parte de seus políticos em tamanho
descrédito como esses dois países, situados nas antípodas da cultura
política contemporânea? Os Estados Unidos não têm, por sua vez, uma
classe política mais virtuosa do que suas congêneres dos países
citados, mas ostenta, provavelmente, uma das imprensas mais
combativas do planeta, além de uma justiça pouco complacente com os
“desviantes”.
Em todos esses
países a chamada “questão moral” costuma freqüentar o universo do
jornalismo político e chega mesmo a ingressar nas salas dos
tribunais. O problema da desonestidade política é praticamente
universal, ainda que ele encontre arranjos nacionais absolutamente
específicos do ponto de vista da ética pública. O tratamento dessa
questão, digamos desde já, não pode ser equacionado com a introdução
de simples reformas institucionais, mas parece exigir uma espécie de
redirecionamento cultural e ético da classe política, algo como uma
“reforma moral” que diminua o abismo aberto na base da sociedade
política entre a “ética dos resultados” e a “ética dos valores”.
Cabe o registro, em todo caso, de que a tradicional divisão entre
esquerda e direita não parece ter nenhuma influência na distribuição
entre grupos e indivíduos “éticos” ou “desviantes”.
5. A ética de
princípios e a ética de responsabilidades: uma revisão prática
A divisão entre
princípios e resultados, ou entre ética coletiva e ética individual,
sempre existiu, desde os tempos de Hamurabi pelo menos, tendo sido
dissecada teoricamente pelo florentino Maquiavel. No dizer de um
italiano contemporâneo, o filósofo (e também político) Norberto
Bobbio, tal divisão é inevitável e constitui mesmo uma tensão
estrutural da política. Grande parte da corrupção disseminada que
afeta a vida pública e mesmo a sociedade brasileira como um todo
decorre dessa divisão e, mais especificamente, deriva da dicotomia
existente entre o poder e a responsabilidade dos partidos políticos.
Eles podem deter o poder, mas raramente assumem todas as
responsabilidades que dai decorrem.
Se a
“desonestidade” tem suas raízes na irresponsabilidade moral e
política dos partidos, uma ação corretiva deveria preocupar-se
sobretudo com a reconstituição dos limites e os termos dessa
responsabilidade. Podemos apresentar duas ordens de problemas, uma
de caráter institucional (responsabilidade externa), caracterizada
pela introdução de novas normas de ação partidária, e outra de
natureza propriamente moral (responsabilidade interna), chamando à
responsabilidade e obrigando pessoalmente os responsáveis
partidários. Em cada uma delas, veremos se a dicotomia entre
esquerda e direita tem alguma razão de ser.
O
estabelecimento de novas regras políticas e institucionais, no
primeiro conjunto de questões, deveria incidir, preferencialmente,
sobre quatro problemas cruciais: o loteamento da máquina pública, a
alternância no poder, o controle “social” sobre os partidos e a
“educação política” dos partidos e de seus quadros.
5.1. O
assalto dos partidos ao poder: um resquício do Estado prebendalista
O primeiro
consistiria em reduzir a “invasão” dos partidos sobre as agências do
Estado, fenômeno típico das realidades brasileira e italiana, nesta
chamada de “lotizazzione”, onde existiam, por exemplo, “zonas de
administração cativa”, diretamente controladas pelas lideranças
partidárias. A solução desse tipo de problema não requer,
necessariamente, uma “privatização” (ao estilo reaganiano ou
tatcherista) das instituições públicas desses subsistemas — que
podem envolver saúde, transportes, educação, canais de televisão
pública etc. —, mas pode passar pelo estabelecimento de um sistema
gerencial de gestão, talvez de forma descentralizada, bem como por
um controle público desses setores por parte do Parlamento e dos
órgãos de fiscalização. Esse tipo de “aparelhamento do Estado” não
parece ter uma coloração ideológica muito bem demarcada, mas depende
mais propriamente do grau de “profissionalização” do aparelho
partidário.
5.2. A
alternância como regra essencial da democracia: sem tremeliques
A essa
“despartidarização” das atividades públicas segue-se um segundo
problema, ligado à possibilidade de alternância na vida política. A
rigidez aparente do jogo político no Japão, durante largo período no
pós-guerra, com a ausência de fato de mudança nas elites políticas,
significou a inexistência de qualquer mudança ao nível das forças
políticas que desempenhavam o papel de liderança política e de
governo, ao longo de praticamente quatro décadas, o que pode ter
contribuído para o aumento da corrupção da classe política, o que
ocorreu igualmente com a democracia-cristã no caso da Itália.
No sistema
político brasileiro, ocorreu, de fato, durante muitas décadas de
vida republicana, uma aparente instabilidade política mas uma
notável estabilidade na classe política, gerando uma situação de
“imunidade prática do poder”, geralmente ocupado pela direita. A
eleição, em 2002, de um presidente de “esquerda” e a chegada de um
“partido de oposição” ao poder, poderiam conformar, ao contrário do
que as aparências indicariam, uma possibilidade de democratização e
de renovação da vida política, à condição, obviamente, de que os
novos ocupantes do poder não venham a reproduzir os mesmos velhos
vícios do sistema político brasileiro da era das oligarquias e das
“máquinas partidárias”, com lideranças que apenas lutavam para se
substituir na zona central do poder, sem pretender de fato tornar o
sistema mais transparente ou mais responsável.
O que ocorre,
atualmente, é uma certa institucionalização do sistema
político-partidário, mas tendo como centro dois partidos reformistas
e razoavelmente democráticos para os conhecidos padrões brasileiros
de oligarquização da vida política. Que um seja de “centro-direita”
e o outro de “centro-esquerda” pode representar, talvez, o início da
superação da dicotomia entre esquerda e direita no Brasil.
5.3. Os
partidos: são incontroláveis e não precisam prestar contas?
O terceiro
problema se refere ao controle dos partidos políticos. Os partidos,
como os sindicatos — pelo menos no Brasil e na Itália — detêm um
poder sobre o qual não prestam contas, senão (teoricamente) a um
numero reduzido de afiliados. Se os partidos e sindicatos pretendem
tornar-se instituições verdadeiramente públicas, como deveria ser o
caso, seria justo que eles se submetessem a escrutínios públicos
periódicos, tanto sobre o seu modo de funcionamento, como sobre a
legitimidade de seus estatutos e sobre a conformidade de seus atos
com esses estatutos. A exigência de “transparência”, invocada para a
administração executiva, deveria ser também levantada no caso dos
partidos políticos e dos sindicatos. Estes últimos, no caso do
Brasil, manipulam um certo volume de recursos públicos e não se tem
notícia de que a contabilidade e a administração desses recursos
tenham sido objeto de demonstrações transparentes de seu uso
adequado. A particularidade ideológica tampouco parece ter
incidência nessa questão do controle “social” sobre partidos e
sindicatos, que aliás se distribuem de modo indiferente ao longo do
espectro político.
5.4. Em favor
das boas elites: mérito e competência em lugar de cooptação
O quarto
problema seria o do “enriquecimento” cultural dos partidos e da
própria classe política de modo geral. Devemos estar conscientes de
que nenhuma norma legislativa ou administrativa será capaz de
melhorar a qualidade dos homens públicos. Mas, a inadequação
qualitativa da classe política às tarefas cada vez mais complexas da
sociedade atual é talvez devida ao tipo de recrutamento político
resultante de critérios insuficientes de seleção partidária e
eleitoral. Uma sociedade moderna, complexa e diversificada, tem
necessidade de uma verdadeira elite política, constantemente
enriquecida pela osmose dos partidos com setores específicos da
sociedade civil (como as empresas privadas e públicas, a burocracia
governamental e o estamento acadêmico). O ideal seria assegurar uma
possibilidade de ampla mobilidade transversal nas funções
representativas a partir de um “material humano” coletado no vértice
das profissões (científicas, econômicas, culturais,
administrativas), o que poderia propiciar uma seleção rica e uma
renovação constante do corpo político. O ideal mesmo, para sermos
coerentes com esse modelo, seria poder dispor de uma classe política
entendida como missão e não como establishment profissional
como muitas vezes ocorre. Nesse particular, a esquerda brasileira
talvez esteja mais próxima da modernização partidária, mas não toda
a esquerda, pois existem ainda correntes que praticam o velho
“centralismo democrático” ao estilo leninista.
6. Da moral
na política: uma questão de consciência individual?
A outra ordem de
questões, de natureza interna ou propriamente ética, refere-se às
regras morais individuais, à correção e à responsabilidade pessoal,
que revertem, em última análise, na questão da “consciência moral”
dos políticos. É aqui que se situaria a “reforma moral” a que nos
referimos acima, o redirecionamento cultural e moral dos políticos,
como forma de reduzir a distância aberta entre a ética dos
resultados e a ética dos valores. Existiria alguma inclinação
“natural” da direita ou da esquerda por cada uma dessas vertentes?
A tensão entre
essas duas esferas não pode evidentemente ser suprimida, mas poderia
ser sensivelmente reduzida. Todos concordam em que a sociedade tem
necessidade de políticos que demonstrem agressividade,
competitividade e uma boa dose de ambição e de vaidade pessoais, mas
ela carece também de outros valores, como os da solidariedade, da
eqüidade e certamente o da justiça. A esquerda, por estar
supostamente comprometida com esses valores, ente os quais se situam
o altruísmo e o solidarismo, deveria ser mais sensível a esse
aspecto do jogo político, mas nem sempre ela o demonstra (como
ocorreu, por exemplo, nas discussões em torno da reforma da
previdência, quando muitos de seus representantes ficaram
comprometidos numa teia de interesses corporativos, negligenciando
os interesses da sociedade como um todo).
Mais importante
ainda, os antigos valores da moralidade individual não poderiam
desaparecer com a subida ao poder das mais importantes lideranças de
esquerda ou serem abandonados durante o processo de
institucionalização de seu partido mais representativo. Assim, ser
de esquerda, hoje em dia (e sempre), deveria compreender também
certas obrigações e escolhas individuais de moralidade pública, que
contrastam com a arrogância dos velhos “coronéis” da política, que
já não precisam preocupar-se nem com a sua imagem (por manipularem
meios de comunicação ou “currais eleitorais”), nem com o cinismo da
sua política de negócios públicos para fins privados.
Se os princípios
da moralidade individual não se encarnam nos homens, os princípios
éticos da sociedade correm o risco de se esgotarem, perdendo a
política aquela base de consenso autêntico — fundado sobre os
princípios — sem a qual pode existir automatismo, mas não
auto-determinação. Sem um reforma moral da política
partidária no Brasil, a esquerda atualmente no poder estar
seriamente destinada a encerrar, ao término de seu atual mandato, um
ciclo auspicioso da vida política brasileira, que tão grandes
esperanças criou em imensos setores da opinião pública. Em resumo,
as promessas de moralidade política que seriam trazidas pela
assunção da esquerda ao poder permanecem exatamente isso, por
enquanto: promessas… |
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