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Cinema, sociedade e
vida na periferia
A
arte produzida nas periferias de São Paulo, tirante o samba, gênero
musical que deita longas raízes na cultura popular tradicional
brasileira, já nasce moderna. Basta olhar a atual produção artística
na área do audiovisual, da música e da dança, realizada pelos seus
ilustres membros, na maioria jovens na faixa dos 16 e 30 anos, para
termos certeza da força modernizadora da comunidade juvenil
periférica.
E
essa modernidade reside justamente na capacidade dessa arte promover
um trabalho em duas direções distintas, mas indissociáveis:
primeiro, o de recriação - por meio de novas linguagens e
tecnologias – de modalidades culturais e artísticas do passado, e,
segundo, o de orientação de um discurso edificante de uma sociedade
plural, diversa e tolerante.
O
bairro Cidade Tiradentes, localizado na Zona Leste de São Paulo, a
35 km do centro da cidade, é um desses casos em que o moderno se
encontra com o passado étnico, cultural e ecológico do lugar. Lá
tive a oportunidade de conhecer, no presente ano, além da paisagem
natural exuberante da Mata Atlântica, uma equipe de profissionais
negros do audiovisual.
À
frente da agência “Filmagens Periféricas”, eles têm no currículo,
entre outras peripécias, a realização da cobertura vídeo documental
da 4º edição do “Prêmio Ethos de Jornalismo – Empresas e
Responsabilidade Social”. Mas o melhor do trabalho deles está no
olhar polissêmico que lançam sobre uma realidade que, tirante o
verde da mata, é aparentemente monocromática.
Explica-se: diferentemente dos bairros-jardins da burguesia
paulistana, da primeira metade do séc. 20, a Cidade Tiradentes,
apesar da sua arquitetura monofuncional e produtivista - um aluvião
de condomínios da Cohab e do CDHU - não procura apagar ou silenciar
o seu passado. Nem tampouco reproduz a racionalidade e a disciplina
dos bairros operários construídos pelos industriais no melhor estilo
fordista, no decênio de 1920.
Outrossim,
grita por todos os poros desse bairro a ascendência luso-africana e
indígena; ancestralidade que se revela não apenas na cor da pele
escura, no cabelo crespo e no cotidiano das ruas cheias de crianças
correndo pra lá e pra cá, mas no olhar plural que a população lança
sobre a realidade e que agora pode ser revelado através da câmera de
filmagens.
Inicialmente,
a Cidade Tiradentes nasceu como bairro improvisado, ou melhor, um
lugar provisório, na falta de um destino certo para populações de
destino incerto da São Paulo dos anos de 1950. Multifacetada, tal
população era na época constituída de migrantes nordestinos,
desfavelados, vítimas das enchentes e deslizamentos, falidos e
desvalidos, negros, índios e aventureiros que, em meio aos ventos da
modernização do centro, foram lançados para essa região periférica
da cidade que se abre como uma clareira no interior da Mata
Atlântica, e que ainda conserva cristalinamente a nascente do rio
Aricanduva.
Tal
pluralidade cultural, populacional e étnico, que compõe a realidade
da Cidade Tiradentes, transforma-se em elemento de composição dos
curtas-metragens e dos documentários da equipe da “Filmagens
Periféricas”. Mas sempre como algo que está, fatalmente, condenado
ao desaparecimento e à morte.
É,
por exemplo, o que percebemos no curta “Não pedi para nascer”
(2003), que fala da relação da mãe solteira e seu filho em meio ao
mundo das drogas, da prostituição e do trabalho infantil.
É o caso também de “Mão na
obra” (2003), que trata da questão do gênero e o mundo trabalho.
“Vida Loka” (2003) não fica de fora. Abordando temas tais como mãe
solteira, desemprego e prostituição nos conduz a uma discussão sobre
as neuroses vividas por quem está afundada nesse universo.
Para
uma melhor compreensão dessa relação entre cinema, sociedade e vida
na periferia fui até a “Filmagens Periféricas” e conversei com Tio
Pac, André e Marilze, os percussores dessa iniciativa. Confira parte
do nosso bate-papo na entrevista a seguir:
Rea
– Falem um pouco da história de vida de vocês, desde a infância até
o encontro com o cinema.
Tio Pac
– A minha infância foi igual à de todo negro que nasce e vive na
periferia. Entrar na vida dos adultos muito cedo é regra. Ainda
moleque comecei a trabalhar - fui engraxate, vendedor de sorvete,
office boy etc. Aos quinze anos entrei no Senai e aos dezessete me
formei decorador ceramista. Um ano depois, sofri um acidente grave
durante um jogo de futebol na empresa. As seqüelas do acidente foram
interpretadas como invalidez pela rh da empresa e fui demitido.
Diante disso, entrei em depressão. Procurando uma saída, aos
dezenove fiz um de técnico eletrônico. O meu pai me incentivou
muito. (A família é muito importante pra segurar a onda). Logo
depois me amasiei e tive três filhos. Acho que essa experiência
pessoal me levou a uma preocupação com o próximo, o que me levou a
desenvolver trabalhos sociais. Foi assim que surgiu a idéia de
fundar, junto com a Marilze e outros, o “Grupo Ecológico e Cultural
Tio Pac”. Foi nesse período que entrei em contato com o cinema.
Incumbidos de passar o filme “O bicho de sete cabeças” para a
comunidade, acabei fascinado por toda aquela parafernália. Hoje sou
um profissional do audiovisual.
Marilze
– Acho que é isso. A minha história não difere muito da do Tio Pac.
A não ser o fato de ser mulher. Também tive que ter responsabilidade
de adulto cedo demais. Certo que não tive que trabalhar fora de
casa, mas cuidava da casa e dos meus irmãos novos enquanto meus pais
trabalhavam. E não foi moleza não! Não sei hoje, mas, na minha
época, quase todas as meninas da minha idade viviam isso. Aos
dezenove, casei e aos vinte e três estava divorciada, desempregada e
dois filhos para criar. Foi então que conheci o Tio Pac e o cinema.
Nessa época fiz muitos cursos e oficinas de audiovisual oferecidos
pela Knoforum nas dependências da Mocuti (Movimento Cultural da
Cidade Tiradentes). Sou produtora, atriz e roteirista.
André –
Bem, a minha trajetória é um pouquinho mais complicada. Sou filho de
pais separados, e, até os dezesseis anos, fui interno da Febem.
Depois disso, fui morador de rua, onde, incrivelmente, entrei em
contato com o teatro e a dança. A cultura hip hop também é dessa
época. Em 1994, vim pra cá, Cidade Tiradentes, e participei com os
dois (Marilze e Tio Pac) dos cursos da Mocuti. De lá pra cá só
trabalho atrás das câmeras.
Rea
– Como nasce a Filmagens Periféricas?
Tio Pac – O grupo Filmagens Periféricas nasce em 2002, após oficinas
de vídeo na Cidade Tiradentes. Foi aí que optei em fazer direção e
de lá pra cá já participei de vários outros cursos, e dirigi vários
curtas.
Marilze
– Acho que do encontro de quatro “loucos” e românticos que queriam
mudar o mundo com a arte. E essa arte foi o cinema.
André
– Foi também à vontade de dar continuidade ao trabalho realizado nos
cursos e oficinas de audiovisual aqui no bairro. Multiplicar isso,
sabe? Passar pra mais gente, que como nós tem poucas opções e muitas
decepções.
Rea
– Quais são as referências de vocês?
Tio Pac
– Não posso responder pelo grupo, mas creio que seja Spike Lee, no
cinema, e 2 Pac, na música.
André
– Ah, véio, são muitas. Cacá Diegues, Glauber Rocha ...
Marilze
– Putz! O Glauber é o melhor... “Terra em Transe” é louco demais!
Olha, têm uns curtas nossos que têm umas tomadas e cortes bem dentro
do que ele fazia nos seus filmes.
André
– Então... Zita Carvalhosa, essa mulher nos ensinou muita coisa,
Spike Lee, Denzel Washington, Eddie Murphy e assim vai...
Rea
- Certa vez, Win Wenders disse que com a câmera digital o cinema de
autor estava de volta, referindo-se, sobretudo, ao baixo custo de
produção que ela permite. Vocês acham que esse barateamento dos
processos de produção cinematográfico ajudaria o trabalho dos
diretores negros na realização de seus filmes?
Marilze
– Sim, nós somos testemunhos disso. Tudo que a gente usa é micro,
portátil e, principalmente, barato. Sem falar que rola um pouco de
improviso e criatividade por conta da falta de verbas.
André
– Vale lembrar também que somos multifuncionais. Somos, ao mesmo
tempo diretor, ator, eletricista, secretária, continuísta etc.
Tio Pac
– Realmente com o “barateamento” e a tecnologia que estão aí podemos
nos inserir, sem nos esquecermos que o produtor e o diretor negros
têm que provar mais de uma vez que seus filmes são bons.
Rea
– É fato que, no Brasil, os grandes orçamentos e as grandes
produções estão nas mãos dos diretores e produtores oriundos da
classe média branca. Até quando essa concentração de recursos,
principalmente públicos, vai predominar em terras brasilis?
André
– Acredito eu que somente quando for criada uma política do
audiovisual realmente democrática, porque elaborada por todos os
setores progressistas da área. Por enquanto só bandalheira,
bacaninha de um filme só embolsando dinheiro a torto e direita.
Marilze
– Esse assunto, cara, até me dói no coração. Tem muita grana aí do
governo, BNDES, Lei Rouanet, Lei do Audiovisual que vai para os
filmes de gente que já tem grana e contato para angariar fundos no
mercado. Outro dia li no Estadão ou Folha, não me lembro bem, que os
Filmes da Xuxa e do Renato Aragão são recordistas de captação de
recursos públicos...
Sem falar dos escândalos envolvendo gente como Guilherme Fontes e
Norma Bengel. E nós sem nenhum. Não é justo.
Tio Pac
– Aí onde eu volto a falar que se nós não dermos visibilidade aos
nossos trabalhos isso vai continuar ocorrendo. Vamos divulgar o
nosso produto e mostrar para essa sociedade hipócrita que temos
nosso público, que é fiel. Vamos colocar nossos produtos nos grandes
meios de comunicação – Globo, SBT, Record, Netinho de Paula, Turma
do Gueto, Cidade dos Homens...
Rea
– A Ong Cufa (Central Única das Favelas), dirigida pelo rapper MV
Bill, criou o curso de audiovisual com a participação dos
pesos-pesados da mídia brasileira. O que vocês acham dessa
iniciativa? Por que a periferia de São Paulo ainda não fez algo
parecido?
Tio Pac
– Na verdade essa iniciativa é muito boa. Eu acredito que em São
Paulo não se organizam ações nesse sentido porque tudo fica no
discurso, não temos muita objetividade. Sei que existe muita gente
séria e com boas intenções, mas aqui 90% das idéias não saem do
papel. Mas eu quero, em breve, formar parceria com a Cufa para
Cidade Tiradentes.
André
– Isso vai ser muito bom, véio. Parceria forte é o que precisamos.
Ilha é que fica no isolamento. Mas acho que até tem iniciativas
desse tipo em São Paulo, mas que ficam mais concentradas nas Zonas
Norte e Zona Sul, pois lá estão as maiores instituições sociais,
como o Instituto Airton Sena, LBV, a Knoforum etc.
Rea
– O Instituto Ethos contratou a Filmagens Periféricas para cobrir o
“Prêmio Ethos de Jornalismo – Empresa e Responsabilidade Social”,
certo? Então me digam: como rolou tudo isso e como é estar do outro
lado da câmera?
Tio Pac
– Foi uma negociação tensa para o grupo “Filmagens Periféricas”; foi
o nosso primeiro trabalho institucional de peso. Mas após as
filmagens realmente concluímos que estamos aptos para o mercado.
Estar atrás das câmeras para mim é muito interessante. Nesse evento,
por exemplo, nós entrevistamos jornalistas que outrora foram nossos
entrevistadores. Nesse dia eu estava dirigindo perguntas para eles.
Foi muito louco!
André
– Fantástico! Passar de objeto da mídia para sujeito me fez sentir
potente, realizador...sei lá, algo como uma sensação de poder
tremenda!
Marilze
– Acho que eu vivi um pouco das duas coisas, pois trabalhei tanto na
produção como na filmagem. Quase fiquei louca. Mas valeu. É uma
coisa que mexe tanto com a gente, muito corre-corre, gritaria,
trombadas, que é preciso parar um tempo para colocar tudo em
perspectiva e saber o que realmente aconteceu. Daí a gente vê que
foi tudo legal!
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