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Por MÁRIO MAESTRI
Mário Maestri, 56, é professor do Programa de Pós-Graduação em
História da UPF, RS. É autor de, entre outros: Uma história do
Brasil. O Império. 3 ed. São Paulo: Contexto, 2002. |
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15 de novembro de 1889:
A contra-revolução republicana
A
América lusitana foi um mosaico de regiões semi‑autônomas, de costas
voltadas umas para as outras e de frente para a Europa e para a
África. As fazendas regionais produziam mercadorias que eram
exportavam pelos portos da costa. Todo export-import colonial
passava por Portugal. Os mercados internos quase inexistiam. Os
limitados meios de transporte e a política administrativa reforçavam
os particularismos regionais. Os senhores americanos controlavam o
essencial do poder regional e viviam em situação de associação
subordinada com as elites metropolitanas. Eles sentiam-se membros do
império lusitano e desconheciam sentimentos nacionais.
O
desenvolvimento da produção manufatureira européia exigiu o fim do
império colonial ibérico. Desgostosos com parasitarismo
metropolitano, os grandes proprietários americanos sonhavam com a
autonomia de suas respectivas regiões. As elites
anglo‑americanas independizaram-se por primeiro, criando uma
confederação que garantiu a autonomia dos Estados membros e
facilitou a luta contra a Inglaterra e a submissão da população
livre-pobre e escravizada. Nenhum ideário unitarista sobrepôs-se às
tendências centrífugas dos blocos geoeconômicos hispano-americanos.
Durante a luta
anti-holandesa, em 1645-54, e a Guerra dos Mascates, em 1711, os
senhores-de-engenho discutiram a independência de Pernambuco. Em
1789, os inconfidentes queriam apenas a liberdade das Gerais. Em
1817, a Revolução Pernambucana foi também separatista. Nas
províncias luso-americanas atuavam as mesmas forças que explodiram a
América espanhola em diversas nações. Porém, elas emergiram da
Independência como um Estado unitário, centralizado e autoritário. A
historiografia tradicional explica ingenuamente o unitarismo
nacional como produto da intervenção de dom Pedro I e José
Bonifácio.
A vinda da
família real para o Rio de Janeiro e a liberdade de comércio puseram
fim ao regime colonial. Porém, as províncias do Brasil continuaram
exploradas e governadas autocraticamente desde a Corte distante,
localizada no Rio de Janeiro. Em 1820, o projeto da burguesia
comercial lusitana de recolonização do Brasil precipitou a decisão
sobre a autonomia da antiga colônia portuguesa.
No Brasil, as
classes proprietárias regionais desejavam pôr fim ao governo
autocrático lusitano, nacionalizar o comércio monopolizado pelos
portugueses e resistir às pressões inglesas pelo fim do tráfico.
Elas defendiam soluções unitaristas, federalistas, monárquicas ou
republicanas. No Norte, Nordeste, Centro-Sul e no Sul eram fortes
as tendências independistas. Tudo sugeria que o Reino do Brasil
explodiria em diversas repúblicas.
Independência
negreira
Um grande
problema angustiava os grandes proprietários de todo o Brasil. Era
necessário realizar a independência sem comprometer a escravidão. A
explosão do Brasil em repúblicas independentes causaria duros
combates internos e com Portugal. Os choques militares colocariam em
perigo a submissão dos cativos e dificultariam a defesa do tráfico.
A guerra levaria ao alistamento e à fuga de cativos, como ocorrera
quando da luta anti-holandeses. Havia o recente exemplo premonitório
do Haiti. Os Estados que abolissem a escravidão acolheriam cativos
fugidos. As pequenas nações negreiras vergar-se-iam ao abolicionismo
britânico do tráfico.
O Estado
monárquico, autoritário e centralizador foi partejado e embalado
pelos interesses escravistas. A Independência deu‑se sob a batuta
conservadora dos grandes proprietários e comerciantes de
trabalhadores escravizados. O ideário republicano, separatista ou
federalista – forte sobretudo entre as raquíticas classes médias
regionais – foi reprimido. Os grandes proprietários brasileiros
rompiam com a coroa portuguesa e com o absolutismo, mas entronizavam
o herdeiro dos Braganças. Cortavam as amarras com Portugal, mas
asseguravam os interesses lusitanos. Eles mantiveram-se unidos
sobretudo para garantir o abastecimento e a exploração dos cativos.
Ao convocar uma
assembléia constituinte, antes de 7 de setembro, Pedro I alcançou
que os setores liberais e constitucionalistas transferissem a
discussão sobre a organização do novo Estado para após a
Independência. Em 1823, os trabalhos da primeira assembléia
constituinte assinalaram as graves contradições que minavam o bloco
independentista. Embalado pela reação anti-democrática européia,
Pedro I reprimiu inicialmente a oposição liberal e
constitucionalista e, a seguir, pôs fim à Constituinte, através do
primeiro golpe de Estado do Brasil, em novembro de 1823. Em 1824,
outorgaria uma constituição ao país profundamente autoritária e
anti-liberal.
Através do
Poder Moderador, o imperador controlava o poder judiciário,
legislativo e os poderes executivos nacional e regional. As
multidões de trabalhadores escravizados foram mantidos à margem da
nacionalidade brasileira. A Confederação do Equador foi a primeira
grande reação ao golpe de 1823. Isolado das elites regionais, que
temiam o fim do tráfico, o movimento republicano pernambucano foi
afogado no sangue. Dom Pedro governou apenas nove anos. Seu
autoritarismo e a inabilidade levaram a que os escravistas
retirassem-lhe o apoio. O imperador envolveu-se em infelizes
aventuras expansionistas no Plata; negociou desastrados acordos
internacionais; imiscuiu-se nas questões internas lusitanas. Sua
vida privada e o apadrinhamento dos patrícios portugueses eram-lhe
também fontes de descrédito.
Sofrendo o
reflexo da recessão européia, o Brasil da época vivia grave crise
econômica. Mais ainda, não havia produto exportável que se adaptasse
ao trabalho feitorizado. Nesse contexto de decadência, o aparelho
estatal acaparava as escassas rendas provinciais em favor da Corte.
O que causava profunda insatisfação provincial. O marasmo da
economia escravista e a vontade de obter o apoio inglês para sua
política portuguesa, levaram Pedro I a tratar com a Inglaterra o fim
do tráfico para 1831. A decisão desagradaria os escravistas. Com a
Revolução Industrial, o Europa necessitava de bebida energizante e
barata para a classe operária. A produção cafeicultora adaptava-se
maravilhosamente à escravidão.
Renascimento
escravista
Cafezais foram
plantados nas encostas dos cerros que cercavam a Corte e, a seguir,
ocuparam o vale do Paraíba fluminense. Logo que se esgotaram os
cativos empregados em atividades pouco rentáveis, os negreiros
reiniciaram as importações desde a África. Era inaceitável a
interrupção do tráfico. Em abril de 1831, Pedro I foi deposto e
partiu para o exílio. Com as rédeas do Estado nas mãos, os grandes
proprietários concluíam a ruptura política e ideológica com a
ex-metrópole e ocuparam-se da fundação plena da nação brasileira, na
sua versão escravista excludente.
Quando da
Abdicação, continuavam fortes as tendências centrífugas –
liberalismo, federalismo, separatismo. O Estado unitarista e
centralizador surgido em 1822 mantinha com dificuldade sua
autoridade sobre imenso território transpassado por profundos
singularismos sociais, históricos, lingüísticos, étnicos, etc. Os
governos regenciais promoveram reformas na ordem centralizadora. O
Conselho do Estado foi dissolvido e o parlamento tornou-se
indissolúvel. As tropas militares estrangeiras foram dispensadas e
criou-se uma Guarda Nacional, sob o controle dos grandes
proprietários escravistas. Assembléias provinciais foram criadas.
A crise
econômica era geral e as concessões feitas aos liberais províncias,
limitadas. Os presidentes provinciais eram designados pelo governo
central e não arrefecia a pressão fiscal. Em diversas regiões,
eclodiram movimentos liberais, federalista e separatistas –
Balaiada; Cabanagem; Revolta Farroupilha, etc. Esses movimentos não
prosperaram. Eles foram traídos pelas forças senhorias regionais,
quando receberam a adesão dos livres-pobres e dos trabalhadores
escravizados. As elites provinciais preferiram o tacão imperial a
pôr em perigo a ordem escravista.
Em 1837, a
governo regencial de Pedro de Araújo Lima iniciou a reação
anti-liberal e anti-federalista que abriu caminho ao Segundo
Reinado. O novo governo interpretava sobretudo os ricos comerciantes
de trabalhadores escravizados e os grandes plantadores do
Centro-Sul e da Bahia. Ele liquidou com as tímidas arremetidas
contra o tráfico ilegal e com as tentativas de resistência liberal.
Em 1840, a
entronização de Pedro II pôs fim à experiência presidencialista
regencial. A longa estabilidade do seu reinado deveu-se à pujança da
expansão cafeicultora e à interpretação imperial das necessidades da
ordem escravista. O Segundo Reinado encobriu sob um falso verniz
liberal o governo despótico dos negreiros. Em 1850, a pressão
inglesa obrigou o governo imperial a pôr fim ao tráfico
transatlântico de trabalhadores escravizados. Ele foi substituído
pelo tráfico interprovincial que alimentou a cafeicultura com
cativos enviados de todo o Brasil. O fim do tráfico internacional e
a concentração dos cativos no Centro-Sul determinaram que, em muitas
regiões, a produção escravista se tornasse forma de produção
subordinada.
Nova
conjuntura
Desde o início
da escravidão, os cativos haviam lutado sós contra o cativeiro.
Quanto muito, vozes isoladas pediam inutilmente reformas para a
instituição. A partir de 1860, os trabalhadores escravizados
começaram a contar com potenciais aliados entre as classes livres
que viviam à margem ou mesmo em contradição com a ordem negreira.
Nos anos sessenta, o fim da Guerra da Secessão nos USA, o
desenvolvimento do abolicionismo na Europa e a gênese de setores
livres nacionais desvinculados do escravismo ensejaram o surgimento
de um movimento, primeiro emancipacionista, mais tarde
abolicionista, no Brasil.
Os cafeicultores
escravistas constituíam a classe nacionalmente dominante. Através do
governo pessoal de Pedro II, determinaram que qualquer reforma na
instituição permanecesse assunto nacional, impedindo que o
Brasil se dividisse em regiões escravistas e não-escravistas. O
governo imperial serviu-se da guerra do Paraguai, em 1865-70, para
postergar a reforma da instituição servil. Com o fim do confronto,
empreendeu hábil manobra que neutralizou o movimento
anti-escravista, nacional e internacional. Em 1871, aprovou a Lei do
Ventre Livre, apresentada, a seguir, como o melhor caminho para um
fim lento, gradual e seguro da escravidão.
A partir da data
da lei, os filhos de cativas nasciam livres. Porém, eles
deveriam trabalhar, gratuitamente, até os 21 anos, para os
proprietários de suas mães. Por mais dez anos, os negreiros
exploraram seus trabalhadores, quase sem oposição. Os cativos
morriam, envelheciam e eram vendidos para o Centro-Sul. Em
importantes regiões, a escravidão tornou-se uma instituição
agonizante. Em 1880, o movimento anti-escravista renasceu com vigor,
exigindo o fim imediato da ordem negreira, sem indenização.
Em 1885, o
governo imperial tentou desarmar, mais uma vez, o movimento
abolicionista, com a Lei dos Sexagenários. Não alcançou porém seus
objetivos. A luta pelo abolicionismo transformara-se no primeiro
grande movimento democrático nacional. Abolicionistas radicais
passaram a organizar fugas de trabalhadores escravizados. Por
primeira vez na história do Brasil, homens livres e trabalhadores
escravizados uniam suas forças. A abolição era vista como o início
da regeneração nacional. A reforma eleitoral; a universalização do
ensino; a democratização da propriedade da terra eram propostas
discutidas pelos abolicionistas.
No Natal de
1886, fracassou o abandono maciço de fazendas paulistas pelos
cativos, planejado por abolicionistas. No início de 1887,
trabalhadores escravizados começaram a fugir, individualmente e em
pequenos grupos, para as cidades. Logo, o movimento assumiu um
caráter maciço. Com as fazendas desertadas, vendo o fim inevitável
da instituição, os cafeicultores paulistas aderiram ao imigrantismo.
Os fluminenses – proprietários de terras esgotadas e de muitos
escravos – aferraram-se à reivindicação da abolição com indenização.
Os proprietários paulistas preferiam empregar os recursos nacionais
no financiamento da importação de imigrantes. A abolição da
escravatura foi a única revolução social vitoriosa no Brasil.
Edifício sem
fundamentos
Havia muito que
as relações escravistas emperravam a expansão da área plantada e da
produtividade da cafeicultura. Seu fim permitiu que centenas de
milhares de imigrantes entrassem no país, atraídas pelos altos
salários e pelo sonho da terra. Quando os campos e as cidades
transbordaram de trabalhadores, os salários depreciaram-se. O
Segundo Reinado arrancara sua força da defesa da ordem negreira. O
fim do escravismo dissolvia as condições que haviam sustentado o
centralismo monárquico. A defesa do tráfico e a manutenção da ordem
escravista passavam das preocupações das elites para as páginas da
História. Novas e mais complexas formas de produção exigiam novas e
mais complexas formas de dominação.
Sem o apoio dos
fazendeiros, a monarquia tentou apoiar-se em novos setores sociais.
Sobretudo, tentou galvanizar a simpatia da população negra que via a
princesa Isabel como a redentora e esperava que o III Reinado
lhes garantisse melhores condições de existência. Para sobreviver,
os Braganças metamorfoseavam-se nos defensores do povo que haviam
aguilhoados por mais de três séculos.
Em junho de
1889, o gabinete liberal-reformista de Ouro Preto apresentou projeto
reformista que procurava adaptar a monarquia à nova situação – voto
secreto; ampliação do colégio eleitoral; liberdade de culto e
ensino; autonomia provincial; etc. A pouca atenção dada às
reivindicações federalistas, as propostas de democratização do
acesso da terra e a vitória esmagadora dos liberais nas eleições
aceleraram a conspiração republicana.
Na sua última
“Fala do Trono”, dom Pedro propôs a aprovação de lei que
regulamentasse a “propriedade territorial” e facilitasse “a
aquisição e cultura das terras devolutas”, concedendo ao governo “o
direito de expropriar, no interesse público, as terras que confinam
com as ferrovias, desde que não sejam cultivadas pelos donos”.
A proposta de
reforma fundiária acelerou a conspiração monárquica, com a maciça
dos conservadores ao republicanismo federalista. O golpe militar de
15 de novembro de 1889 pôs por terra edifício sem fundamentos.
Nenhuma grande facção das classes dominante apoiava então a
monarquia. A primeira constituição republicana sancionaria o novo
reordenamento nacional. A estrutura agro-exportadora-latifundiária
sustentada pelo trabalho livre permitia a reorganização federal do
Estado, reivindicação das elites provinciais velha de setenta anos.
O federalismo interessava aos grandes estados, que abandonavam as
regiões pobres a sua sorte.
A transição
ditada desde as alturas gerava uma institucionalidade profundamente
elitista. O novo Estado assumia uma essência profundamente
conservadora, federalista e elitista e nulamente republicana,
democrática e popular. A autonomia federalista pôs fim ao movimento
nacional abolicionista de refundação da nação. Quando populações
nacionais levantaram-se, confusamente, contra uma ordem que
compreendiam ser-lhes absolutamente madrasta – como em Canudos, no
Contestado, ou na revolta dos Marinheiros, em 1910 – foram acusadas
de barbárie e duramente massacradas. Para que ficasse claro que a
República era coisa das elites. Realidade que se mantém imutável até
os inícios desse terceiro milênio. |
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