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Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista,
Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e
Doutorando na Faculdade de Educação (USP) |
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“Bullying”:
uma violência psicológica não só contra crianças
“- Oi Nick, Oi Mark, vão ao clube de computadores mais tarde?
- Marcus nós não queremos mais que ande conosco.
- Por quê?
- Por causa deles.
- Eles não têm nada a ver comigo.
- Têm , sim.
- Não tínhamos problemas antes de andarmos com você. Agora temos
todo dia.
- Além do mais, todos acham você esquisito.
- Mas é só um pouco.
- Tudo bem...”.
O
diálogo do filme “Um grande garoto” (About a boy :
2000) sinaliza que Marcus está sendo vítima de um tipo de
violência psicológica ou bullying. Bullying é uma
palavra inglesa que significa usar o poder ou força
para intimidar, excluir, implicar, humilhar, não dar atenção, fazer
pouco caso, e perseguir os outros.
Ocorre com mais
freqüência no ambiente escolar. Assim, numa escola, uma criança era
considerada ‘escrava’ por outras chefiadas por um aluno-líder, e, um
adolescente era obrigado a dar dinheiro para colegas mais velhos e
fisicamente mais fortes, senão sofreria algum tipo de violência. Os
professores também não estão vacinados contra o bullying.
Como se não bastasse sofrer uma grave fobia escolar que o impedia de
trabalhar, um professor ainda era obrigado a suportar discriminação,
humilhação e ameaças veladas de colegas insensíveis, invejosos e
vingativos.
Ao
sofrer a violência do tipo bullying, tanto as crianças como
os adultos, sozinhos, não têm como se defender. Os colegas, embora
digam repudiar esse tipo de violência psicológica e sentirem pena,
declaram que nada podem fazer para defendê-la, com medo de serem a
próxima vítima.
Muitas crianças vítimas de bullying desenvolvem medo, pânico,
depressão, distúrbios psicossomáticos e geralmente evitam retornar à
escola quando esta nada faz em defesa da vítima. A fobia escolar
geralmente tem como causa algum tipo de violência psicológica.
Segundo Aramis Lopes Neto, coordenador do programa de bullying
da ABRAPIA (Associação
Brasileira Pais, Infância e Adolescência,) a maioria dos casos de
bullying ocorre no interior das salas de aula, sem o
conhecimento do professor.
Além de conviver com um estado constante de pavor, uma criança ou
adolescente vítima de bullying talvez sejam as que mais
sofrem com a rejeição, isolamento, humilhação, a tal ponto de se
verem impedidas de se relacionarem com quem ela deseja, de brincar
livremente, de fazer a tarefa na escola em grupo, porque os mais
fortes e intolerantes lhe impõem tal sofrimento.
Também faz parte dessa violência impor à vítima o
silêncio, isto é, ela não pode denunciar à direção da escola nem aos
pais, sob pena de piorar sua condição de discriminada. Pais e
professores só ficam sabendo do problema através dos efeitos e danos
causados, como a resistência em voltar à escola, queda de rendimento
escolar, retraimento, depressão, distúrbios psicossomáticos, fobias,
etc.
No
âmbito universitário não são raros os casos de mestrandos e
doutorandos, no decorrer de sua pesquisa, serem vítimas de várias
formas de pressão psicológica, normais, como os prazos de
entrega dos trabalhos, falta de dinheiro para continuar a pesquisa,
falta de apoio do orientador, familiares, colegas e amigos. E,
anormais, como o assédio moral, bullying, etc. O
bullying tem o poder levar o pesquisador ao travamento de
sua produção intelectual, além de causar danos à sua existência
cotidiana.
Lopes Neto observa que há casos de suicídio de pessoas que não
suportaram tamanha pressão psicológica advindas do bullying.
Talvez o pior efeito da pressão sofrida nos casos de bullying
é a vítima se sentir condenada à ‘inexistência’, ou à
‘invisibilidade’, geralmente levado a cabo por grupo que combina
entre si ignorar um colega, fazer de conta que ele não existe,
desqualificá-lo na sua competência intelectual, ou rejeitar um
pedido seu, etc. Há casos em que esse tipo de vítima passa a sofrer
tão baixa auto-estima que nem sequer tem forças para desabafar com
alguém.
Por outro lado, existem casos em que a vítima aprende a conviver com
a situação se tornando uma voluntária servil do dominador.
A
Abrapia vem preocupando-se com as vítimas de bullying, isto
é, pessoas cujo sofrimento é causado por diversas formas de
violência, tais como a: violência física, violência sexual,
negligência, síndrome do bebê sacudido (Shaken Baby Syndrome), e
síndrome de Münchausen. “A negligência (abandono), considerada uma
agressão pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, representou
39,8% dos casos estudados pela Abrapia no ano passado no Rio. A
violência física, 26,8%. Os demais casos se dividem entre violência
psicológica (26,2%) e abuso sexual (7,2%). As mães foram os
agressores mais citados nas denúncias, com 43,3% dos casos, bem mais
do que os pais (33,9%). Agressores estranhos à família não chegam a
30%”, diz a pediatra Ana Lúcia Ferreira, do hospital da Universidade
Federal do Rio de Janeiro. Um estudo da Abrapia feito no Rio de
Janeiro e usado como referência para o Unicef (o fundo da ONU para a
criança) indica que, entre as 811 crianças e adolescentes vítimas de
agressões denunciadas à entidade só no ano passado, 64% tinham menos
de dez anos de idade” (rev. Istoé- Aziz Filho).
A
Associação vem realizando pesquisas e desenvolvendo medidas
sócio-educativas para evitar o agravamento dessas situações
principalmente em creches e escolas.
O
que fazer?
Os
pais devem apoiar o filho, abrindo espaço para ele falar sobre o
sofrimento de estar sendo rejeitado pelos colegas. “Obrigar o
filho a enfrentar os agressores pode não ser a melhor solução,
visto que ele está fragilizado, ou seja, corre o risco de sofrer uma
frustração ainda maior”, diz Lopes Neto. Mas, fazer de conta que
não existe bullying ou outro tipo de violência psicológica na
escola é, no fundo, autorizar a prática de mais violência. É preciso
estar atento para o risco de suicídio onde a vítima sem auto-estima
alucina tal ato como ‘saída’ honrosa para o seu sofrimento. Esta é
uma atitude freqüentemente usada no Japão.
Quando a violência ocorre na escola cabe aos pais conversar com a
direção. É dever desta instituição ensinar os conhecimentos e
promover a inclusão social e psicológica. A escola e a universidade
jamais devem fazer vistas grossas sobre os casos de intolerância de
violência psicológica ou física. A escola, principalmente, deve ter
uma atitude preventiva contra o bullying, começando pela
conscientização e preparação de professores, funcionários, pais e
alunos. Por um lado, é preciso apoiar as crianças vítimas e, por
outro, é imprescindível fazer um trabalho especial com as pessoas
propensas para cometer violência contra os colegas, professores e
funcionários.
Os
pais e professores devem estar atentos sobre a possibilidade real de
conviver com uma vítima silenciosa de qualquer tipo de violência,
como também conviver com o(s) agente(s) dessa violência. (Se a
instituição de ensino não tomar providências, cabe aos pais ou
responsáveis denunciar a violência ao Conselho Tutelar, pode até
mover um processo junto a Justiça, cobrando do agressor a reparação
por dano moral ou físico). Criança ou adolescente que repete atos de
intolerância e de violência para com o próximo pode estar sendo
“autorizada” pelos pais que a vêem positivamente como “esperta”,
“machão”, “bonzão”, “fodão”, etc. O adulto que pratica bullying
pode estar sendo influenciado por uma organização perversa do
trabalho burocrático, ou por um grupo que usa a intolerância como
meio de expressão política. É preciso estar muito atento aos
grupinhos informais de traços neofascistas, as gangs, porque a
afirmação da sua identidade narcísica é conseguida por meio da
intolerância, da discriminação e da violência.
Segundo pesquisas, existe uma relação de continuidade entre a
criança cuja estrutura psíquica é perversa,
que cometia atitudes anti-sociais, e o adulto que comete atos
delinqüentes ou criminosos, lembra Lopes Neto. A estrutura psíquica
é a mesma. São casos em que a educação falha, embora o sujeito possa
obter algum sucesso na sua vida escolar e profissional. Adquirir
conhecimento ou um título de doutor nada tem a ver com adquirir
sabedoria. Por vezes, encontramos pessoas cujo conhecimento fez
aumentar sua arrogância e insensibilidade em relação ao próximo.
Ou
seja, embora a formação escolar e universitária não tem o poder de
melhorar a estrutura psíquica do tipo perversa, temos que trabalhar
com cálculo e empatia para formar bons cidadãos. Se pudéssemos
proporcionar tanto uma educação (familiar) como um ensino (escolar),
voltados mais para a sabedoria do que para o
conhecimento e a informação, talvez pudéssemos
trilhar um caminho mais efetivo de prevenção em prol da saúde
psicológica e social.
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Bibliografia consultada
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www.abrapia.org.br |
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