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Por
CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO
Doutoranda
no Institut Catholique de Paris e Université Marne-la-Vallée
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Jacques Derrida
O dia 12 de março de
2003 foi um dia tipicamente hibernal na capital francesa, mas
estávamos lá, cerca de 100 pessoas no auditório de um dos prédios da
Universidade de Paris VIII. Aguardávamos o curso de Jacques Derrida,
que não tardou a adentrar ao recinto com seus passos rápidos e
firmes, seu sorriso cativante e naturalmente irônico, seu olhar
envolvente e malicioso, seus trejeitos encantadores e seu bom humor
remarcável.
Iniciou com uma
piada; prosseguiu mesclando intelectualidade com humorismo,
discutindo “Possibilidade e Poder” em meio a frases espirituosas;
encerrou com sorrisos de quem havia ganhado o dia, demonstrando que
gostava do que fazia e que defendia o que acreditava. No momento de
ir embora, não teve pressa para partir, simpaticamente e sempre com
o mesmo sorriso, esteve acessível a todos os que quiseram se
aproximar.
Muitíssimo aquém de
sua filosofia, senti-me bem diante daquele homem. Tínhamos algumas
coisas em comum, como por exemplo ler circunspectamente Nietzsche e
Sartre. Porém, eram seu amplo conhecimento, didática, concatenação e
facilidade em expressar as idéias que atraiam seus seguidores e
também seus admiradores, como eu.
Judeu, nascido na
Algéria em 15 de julho de 1930, Jacky – como, ainda o chamavam seus
próximos, não foi poupado do anti-semitismo. De lá conservara, entre
outros, as lembranças de combatente e o discreto sotaque que não o
agradava. Não tinha receio em olhar nos olhos ao falar, acreditava
no poder da palavra e do olhar, no “vis-à-vis” (cara-a-cara), e
cria, além disso, que a filosofia não estava condenada à perpétua
humilhação tendendo a desaparecer.
Para “salvá-la”
participou determinantemente das lutas contra a reforma Haby em
1975, dos Estados Gerais da Filosofia em 1979, dos debates do
“Groupe de recherche sur l’enseignement de la philosophie” - Greph
(Grupo de pesquisa sobre o ensino de filosofia). Em 1983, participou
da fundação do “Collège International de Philosophie” (Colégio
Internacional de Filosofia) presidindo-o até 1985.
Conhecido como um
grande inventor de palavras, tornou-se famoso pela “desconstrução”,
nem método, nem disciplina, mas uma revolução intelectual.
Desconstruir um texto não é destruí-lo, e sim re-interrogar os
pressupostos, para abrir novamente a partir dai, as significações.
Desta forma, o filosofo colocou em crise seus conceitos e suas
categorias mais seguras, para relançar o sentido e a precária
verdade.
Segundo ele, não há
contradição no que defende. Da mesma forma que é preciso sustentar a
extensão e o desenvolvimento da filosofia contra o que quer que
tente suspender ou restringir a liberdade de exercício, é preciso
também, interrogar a própria filosofia, tentando pensá-la de uma
maneira que não seja mais, ou que não seja ainda filosófica; um
gesto não filosófico que não constitua uma agressão contra a
filosofia.
Como isso quer dizer
que a filosofia deve estar sempre exposta ao risco de deixar-se, de
partir dela mesma. A liberdade filosófica de interrogação é sua
sorte e sua ameaça; no seu interior deve continuar sempre havendo
algo a inquietá-la.
Por um outro lado,
como Lévinas, Derrida denunciava a dificuldade de pensar, apontando
duas manifestações simétricas: o dogmatismo e o relativismo.
O dogmatismo cega à
razão, é um conforto intelectual que repousa sobre o princípio de
autoridade e sobre a necessidade de clarear, própria da linguagem.
Mesmo com o desaparecimento das grandes ideologias, o dogmatismo que
descarta tudo o que não é política ou socialmente correto
sobreviveu.
O relativismo
paralisa a razão, inspira o comunitarismo e outras afirmações “identitárias”,
apoia-se no desenvolvimento das ciências - que cessaram há muito
tempo de ser exatas, e na descoberta da complexidade da história -
cujo sentido não está mais escrito em lugar algum.
Sua obra pode
ser compreendida como uma tentativa de ultrapassar esse dilema, ao
preço de uma interrogação árdua, quase insustentável que vai além da
linguagem. É preciso uma lentidão, um “ruminamento” para que isso
aconteça, indo de encontro com a velocidade do nosso século XXI.
Desde seus primeiros
escritos, inspirados pela fenomenologia de Husserl, lançou um
diálogo sem concessão com o conjunto da metafísica ocidental. Seus
últimos livros, em ressonância com a atualidade, manifestam uma
inquietação quanto ao destino da vida. A questão que acompanhou-o
durante toda a trajetória foi: “Viver, pode-se aprender?”. Nos
últimos anos, porém, juntou a essa, uma temática da sobrevida: viver
ou morrer.
Jacques Derrida
deixou-nos, no último 09 de outubro, pela manhã, aos 74 anos, um dos
últimos testemunhos de uma geração que marcou intensamente o cenário
intelectual, reunindo nomes como Foucault, Deleuze ou Bourdieu. Foi
vítima de um câncer que o acompanhava há alguns anos. Para ele, a
filosofia é uma antecipação cuidadosa da morte, assim, cabe agora
aos seus herdeiros, a partilha dessa responsabilidade leve e
esmagadora.
De “belo tenebroso”,
passou a “sedutor de têmporas prateadas”, conhecido por não
poupar-se ao charme na relação pedagógica, o filósofo à sua maneira
muito mais clássico que pós-moderno, foi finalmente, tachado de “ser
humano com uma grandeza de alma indescritível”, que continha em si
uma bondade profunda. Aventuro-me a ir além, e a dizer que o mundo
da Filosofia perdeu um grande nome, reconhecido pelos adeptos ou não
de suas idéias. Essa perda, infelizmente, foi pouquíssimo comentada
em sua nação, em comparação com a abastada contribuição intelectual
proporcionada ao mundo inteiro.
Por isso, decidi que
não poderia deixar passar em branco, e quis, em meio às minhas
limitações, ousar umas poucas linhas em memória do eterno exilado.
Faço uso das palavras do presidente da República Francesa, Jacques
Chirac para encerrar esse ínfimo preito: “Pensador do universal,
Jacques Derrida queria-se também como cidadão do mundo. Ele
permanecerá como um inventor, um descobridor, um mestre de uma
extraordinária fecundidade.”
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