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Por NILDO VIANA
Professor da Universidade Estadual de
Goiás; Graduado em Ciências Sociais; Especialista em Filosofia;
Mestre em Filosofia; Mestre em Sociologia; Doutor em
Sociologia/UnB. |
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Reforma Universitária: quem ganha,
quem perde?
Uma
minoria ganha, a grande maioria perde. Esta é a resposta para a
pergunta-título do presente texto. A resposta de antemão, no
entanto, pressupõe a sua fundamentação. A proposta de reforma
universitária do Governo Lula tem fundamentos, características e
conseqüências de grande alcance social e expressa uma determinada
forma de compreender o papel do ensino superior em nosso país, bem
como um projeto de desenvolvimento nacional. No presente texto seria
impossível abordar todos os aspectos envolvidos e por isso iremos
destacar alguns elementos e a partir disto apontar quem ganha e quem
perde com a referida proposta de reforma universitária.
Toda política
estatal tem por detrás de si um projeto político embasado em
interesses, concepções e valores que expressam grupos sociais e até
mesmo nacionais. Iniciaremos apontando quais interesses
internacionais estão por detrás da atual proposta de reforma
universitária. Ela tem o suporte do Banco Mundial, que não só
apresenta propostas como realiza imposições oriundas de seu poder
financeiro e força real na condução da política nacional nos países
de capitalismo subordinado. A visão da educação do Banco Mundial é
mercantil, fundada nas velhas ideologias da ciência econômica, a
chamada neoclássica (Coraggio, 2003), que toma a educação como uma
mercadoria.
A lógica
mercantil subjacente nas propostas do Banco Mundial pode ser
percebida a partir da idéia de submeter o processo educacional ao
mercado. A educação perde todos os seus elementos não-mercantis
(formação humanista, pensamento crítico) tornando-se mera
mercadoria. Isto ocorre, no caso do ensino superior, em todos os
aspectos: a oferta do ensino superior se torna a venda de uma
mercadoria, a formação do aluno se torna a preparação para o
mercado; o conteúdo do ensino se torna utilitário, as instituições
estatais de ensino passam a objetivar lucro. As mercadorias são
produzidas e quem produz as mercadorias ideológicas do Banco Mundial
são aqueles que detém o poder a nível mundial e no próprio banco: os
Estados Unidos. O Banco Mundial visa reproduzir e intensificar a
divisão internacional do trabalho e a subordinação dos países mais
pobres. O processo de crescente empobrecimento nos países de
capitalismo subordinado sofre grande interferência do Banco Mundial
(Chossudovsky, 1999) e é retrato da nova lógica do que podemos
chamar “neoimperalismo”. Destacaremos dois pontos das propostas
originadas no Banco Mundial: o fim da gratuidade e um enrijecimento
da divisão do trabalho intelectual.
O fim da
gratuidade (Leher, 2004a) vem apenas confirmar que o ensino se torna
uma mercadoria, mesmo quando oferecida pelo Estado. Assim, é preciso
pagar pelo ensino na esfera estatal e isto tem sua razão de ser na
lógica do cálculo racional capitalista, pois o Estado assim diminui
seus gastos, de acordo com lógica neoliberal. A idéia de autonomia
universitária que vem sendo proposta pela reforma universitária se
fundamenta na idéia de que as universidades devem captar recursos se
vinculando a empresas privadas e ao mercado (Leher, 2004b). Na
verdade, o que temos é sua total perda de autonomia, já que passa a
se submeter ao mercado e também a parcerias com empresas privadas. A
cobrança de mensalidades e taxas é apenas um processo de
aprofundamento do que já vem ocorrendo com as universidades
estatais.
Outro elemento
presente na proposta de reforma universitária, de acordo com os
interesses do Banco Mundial é o enrijecimento da divisão
internacional do trabalho intelectual. A OMC – Organização Mundial
do Comércio – tenta promover um processo de concentração da produção
científica-tecnológica ainda maior nos países imperialistas,
especialmente nos EUA e isto também se encontra presente na proposta
da ALCA – Aliança para o Livre Comércio nas Américas. Tendo em vista
que a reforma universitária proposta pelo governo Lula aprofunda a
precarização do trabalho docente e, por conseguinte, da produção
intelectual nacional, ela incentiva a busca de um ensino superior em
outros países, principalmente nos EUA, por aqueles privilegiados que
podem pagar por isto. A precarização da força de trabalho docente é
um forte incentivo para isto. A proposta de aumentar o número de
vagas nas universidades estatais ocorre através do aumento da carga
horária dos professores – o que significa mais tempo em sala de aula
e menos tempo para pesquisa –, o aumento do número de alunos em sala
– o que significa mais trabalho extra-sala para os professores, tal
como a avaliação de trabalhos escritos que se eleva
quantitativamente – e a expansão da EAD – Educação à Distância, que
possui baixo custo e permite a um professor ter uma quantidade muito
maior de alunos sob sua responsabilidade.
Haverá, com
isto, uma notável queda da qualidade do ensino, pois o professor irá
ter menos tempo para pesquisa, atualização, além do fato de que
quanto maior o número de alunos numa sala de aula menor é o
rendimento destes e esta era uma das vantagens do ensino superior
estatal sobre o privado. O objetivo é claro: diminuir custos e,
também, diminuir a qualidade de ensino, tornando mais equilibrado a
diferença entre instituições estatais e privadas e produzindo
futuros professores com formação inferior. A força de trabalho
docente perde sua qualificação e a produção intelectual nacional se
vê radicalmente prejudicada, o que beneficia os países
imperialistas. A já secular colonização cultural brasileira seria
assim reforçada e ampliada. Assim, alguns membros das elites
brasileiras passariam a estudar no exterior, o mercado editorial
passaria a ser ainda mais dominado pela produção estrangeira e assim
por diante. A produção científica, intelectual e tecnológica, uma
das fontes das desigualdades internacionais (Viana, 2000) seria
concentrada ainda mais nos países mais desenvolvidos
tecnologicamente, proporcionando uma reprodução ampliada da
subordinação internacional.
Por fim, temos a
subordinação das universidades estatais ao mercado. A
competitividade se torna uma palavra-chave para aqueles que propõem
a reforma universitária. As universidades estatais devem, doravante,
atender as demandas do mercado nacional e serão avaliadas através da
forma classificatória, um incentivo governamental para a competição.
A competição social é uma das características fundamentais da
sociabilidade na sociedade moderna (Viana, 2002) e tem sua origem no
processo de produção e distribuição capitalista, e agora se
aprofunda com o novo estágio do capitalismo, invadindo esferas da
vida social nas quais sua influência não era tão grande. Um novo
regime de acumulação vem para intensificar o processo de exploração
(Viana, 2003), tanto a nível nacional quanto internacional, e a
competição se torna cada vez mais “selvagem”, onde só se salvam os
mais fortes. As universidades estatais neste contexto se
mercantilizam ainda mais. E o grande critério passa a ser
quantitativo. Esta competição não gira em torno da qualidade e sim
da quantidade. No discurso se fala de qualidade, mas a concepção de
qualidade se torna mercantil e utilitária.
E os interesses
nacionais? No capitalismo subordinado não existem interesses
nacionais, mas tão-somente interesses daqueles que detém o poder,
aliados e subordinados àqueles que possuem o poder em escala
mundial. Por isso, a maioria perde com a reforma universitária
neoliberal do Governo Lula. Os estudantes perdem, não só com a queda
da qualidade do ensino como também financeiramente, com o fim da
gratuidade. Em longo prazo perdem também no que se refere ao mercado
de trabalho, pois a “universalização” do ensino promovida pela
reforma e contando com o setor privado em expansão extraordinária,
tende a produzir um exército de desempregados diplomados, que irão
competir de forma intensiva (e com a qualidade do ensino das
universidades estatais em queda, em condições semelhantes aos
estudantes oriundos do ensino privado), bem como os salários deverão
ter uma queda cada vez maior, devido à oferta de força de trabalho.
Os professores
perdem, pois irão ter suas condições de trabalho precarizados, sua
produção intelectual limitada, seus salários corroídos. A expansão
dos cursos de pós-graduação tende a produzir um grande número de
doutores e mestres que estarão competindo no mercado de trabalho,
pressionando os salários para baixo, e diminuindo a qualidade do
ensino, pois o crescimento da oferta de pós-graduação, assim como o
da graduação, é acompanhado pela queda da qualidade.
A população em
geral perde com a reforma neoliberal do ensino superior, pois ela
faz parte do processo de aumento geral da exploração internacional
que tende a aumentar a pobreza em escala crescente, principalmente
em países de capitalismo subordinado como o Brasil.
Uma pequena
minoria ganha, além dos países imperialistas. O governo, as empresas
capitalistas e os empresários da educação são beneficiados com este
estado de coisas. O governo busca manter a governabilidade com a
ilusão do ensino superior para a juventude e políticas paliativas
(política de cotas, inclusão de excepcionais, entre outras). Os
empresários da educação ganham por conseguirem ampliar o seu mercado
consumidor e pelos incentivos governamentais. As empresas
capitalistas ganham com a produção ampliada de força de trabalho, o
que lhe permite aumentar a exploração com a queda dos salários
oriunda da competição pelo mercado de trabalho. Em longo prazo, os
que ganham também perdem, pois o neoliberalismo e neoimperialismo
fazem da sociedade contemporânea uma panela de pressão que cada vez
mais é aquecida com as políticas neoliberais e como eles não querem
tirá-la do fogo, ela tende a explodir e acabar não apenas com o
neoliberalismo mas com sua base de existência, o próprio
capitalismo.
Referências
Chossudovsky,
Michel. A Globalização da Pobreza. Impactos das Reformas do FMI e
do Banco Mundial. São Paulo, Moderna, 1999.
Coraggio,
José Luís. “Propostas do Banco Mundial para a educação”. In:
Tommasi, L.;
Warde, M.J.;
Haddad, S. O Banco
Mundial e as Políticas Educacionais. 4ª edição, São Paulo,
Cortez, 2003.
Leher,
Roberto. Reforma Universitária do Governo Lula: Protagonismo do
Banco Mundial e das lutas antineoliberais. In:
http://www.andes.org.br/reforma_universitária_brasil_banco_mundial.pdf,
acessado em agosto de 2004a.
Leher, Roberto.Reforma
Universitária do Govenro Lula: Nota para uma Crítica do Documento
elaborado pelo GT Interministerial (GTI). In:
http://www.andes.org.br/ref_universitária_gov_lula.htm,
acessado em 2004b.
Viana,
Nildo. “Capital, Espaco e Desigualdade”. Boletim Goiano de
Geografia. Vol. 20, no 1/2 , Dez. 2000.
Viana,
Nildo. “Universo Psíquico e Reprodução do Capital”. In:
Quinet, A.;
Peixoto, M. A.;
Viana, N.
Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano. Goiânia, Edições Germinal,
2002.
Viana,
Nildo. Estado, Democracia e Cidadania. Rio de Janeiro,
Achiamé, 2003. |
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