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Por URARIANO
MOTA
Jornalista e escritor |
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Chico Buarque de Budapeste
Devia
ser proibido debochar de quem se aventura a escrever romances.
Aspirar ao ofício de romancista é um desígnio tão nobre, e tão alto,
que o seu ruir, retilíneo, rápido, repulsa risos. Devia ser proibido
também debochar de quem se aventura a ler Budapeste, o romance de
Chico Buarque de Holanda. O compositor é tão fadado à felicidade no
que faz, tão fecundo nos fás, que a fé dos fãs é facultada.
Desde já se diga
que este artigo é uma leitura de Budapeste sem os olhos encandeados
pelo brilho das canções de Chico. Aqui será lido Budapeste como um
romance, como um livro que vem à literatura como todos os outros
deveriam vir, com a força única e exclusiva da sua verdade e da sua
arte.
Senhores
passageiros, apertem o cinto. Desde o momento em que o narrador do
livro “foi dar em Budapeste graças a um pouso imprevisto, quando
voava de Istambul a Frankfurt”, os leitores críticos deveriam voar
para outras plagas, saudosos de Praga. Isto porque a primeira
constatação é a de que o narrador não é do ramo. Se um romance for
um feixe de páginas, com palavra-puxa-palavra, um conjunto de sons,
com ritmo, um devaneio, um brinquedo, um jogo de costas para o
mundo, bom, já não está aqui quem estava antes. Se assim for,
Budapeste é um excelente romance. Mas se o que desejamos, em boa-fé,
paz e paciência e esperança, for um livro que nos torna melhores do
que éramos antes, e “melhores” aqui expressa uma experiência de
mundo que não conhecíamos, que alargou o nosso tempo de vida, pois
nos acordou para o que não notávamos, e por isso nos fez mais
humanos e mais sábios, senhores passageiros, apertem os cintos.
Budapeste é um
livro que narra, ou melhor, é narrado por um ghost-writer... e já
aqui começam os problemas. Daqui de cima do avião, de onde vemos
Budapeste, percebemos que esta é uma narrativa sobre um tipo
específico de imitação, a farsa. Porque fala de um indivíduo que
vende a autoria do que escreve, e o produto vendido é um escrito à
imagem e semelhança do comprador. Mas sobre a imitação mesma como o
livro gostaria, uma imitação da imitação, como espelhos a se
refletirem numa sala de espelhos, sua única imagem é um fosco,
redondo e plano fracasso. Isto porque o ghost-writer é um José Costa
com a cara, os vícios, os tiques, os maneirismos, o estilo, o
vocabulário e a sintaxe de Chico Buarque de Holanda. Aquela
declaração de Hemingway, de que escreveria um romance na primeira
pessoa com um pé nas costas, por vezes é muito mal interpretada.
Interpretam-na como se uma obra escrita com os verbos flexionados
pelo pronome “eu” admitisse a transcrição do diário do escritor, ou
melhor, ou pior, como se o “eu” narrador se confundisse com o “eu”
pessoa física de quem escreve. Não sei se falo de corda em casa de
enforcado, mas narrar é entrar na pele de um “eu” observado,
mastigado, maturado, sentido, percebido, de experiência imaginado.
Um imitar muito complexo, mistura de sentimento, intuição e
inteligência. Alma e coração, diria. Em que medida, nem o demônio
do Cervantes sabe.
Em Budapeste
esse desprender-se, do narrador do narrado, não se faz porque:
Na linguagem, em
vários trechos o narrador é um Chico Buarque piorado, porque a
passagem do verso musical, contido, sintético, para a prosa não se
faz sem trauma. Por exemplo: “Tinha cabelos muito finos que a brisa
assoprava, com o Pão de Açúcar iluminado ao fundo, cor de
abóbora...”. Quem não é carioca e nunca viu o personagem,
pergunta-se, o que era cor de abóbora, o cabelo fino, o Pão de
Açúcar, ou, licença poética, a brisa que assoprava ? Essa
ambigüidade, que no verso é um prêmio, e na música, que Chico exerce
com maestria, uma felicidade, na prosa nem sempre é um achado. Em
outros trechos, o narrador rima na escrita, como no correr de um
samba: “... ela não havia notado que o poeta era gay. Em Copacabana
perguntei se queria parar num japonês...”, “ ... pensei em largar
tudo e ir embora para Hamburgo”. Em outros, a frase vem com um ritmo
que poderia ser acompanhado numa marcação, batendo com os dedos à
mesa. “Está certo”, diriam os fãs, “isto é um defeito? Quantos
autores gostariam de escrever com esse ritmo, como Chico?”.
Tentaremos responder mais adiante.
Na
verossimilhança ... antes uma ressalva: o personagem verossímil não
é aquele papel carbono da vida real. Pede-se apenas que o autor não
falte com a verdade. Só e somente. Que o personagem se acorde num
corpo de um inseto, ou que passeie no inferno com o diabo, ou veja o
fantasma do pai num castelo, ou assombre pessoas com um capote
depois de morto, tudo isto pode ser bem verossímil, e mais
importante, absolutamente necessário. Mas poderíamos ser poupados de
um ghost-writer que vive como um compositor de sucesso. Sem
trabalhar, consumindo, a comer e a beber, a pagar aulas de húngaro,
sem prejuízo das suas despesas domésticas no Rio, o narrador passa
mais de quatro meses num bom hotel em Budapeste! Está certo,
concedamos, nisto vai uma licença ... da realidade. Que também deve
ser invocada em muitos outros trechos, mas em um deles se destaca:
quando na decadência, de volta ao Rio, o personagem sem dinheiro
passa mais de 100 dias em um apartamento de hotel até ser cobrado!
Come restos deixados nas bandejas pelos vizinhos, uma coxa de
frango, algum queijo francês, meia taça de vinho... evidentemente,
nem o autor nem o narrador jamais tiveram a experiência do que é
viver com fome e desempregado em uma grande cidade. O autor não sabe
o que é viver de favor, pedir emprestado sem ter com que pagar, ser
expulso e voltar a bater na mesma porta, porque não se pode dar ao
luxo de ter vergonha. A falta do primário, a ausência do
inimaginável básico ele não conhece, porque caso contrário não
escreveria, ao lembrar um tempo de miséria: “E uma noite eu estava
posto em sossego, bebericando um uísque meio aguado, quando o
telefone pegou a tocar...”. Estava onde mesmo? Telefone?!
A cidade, o nome
do livro, é de um vazio imenso. “A cidade vazia” de Baden e Vinícius
era mais plena, porque era a necessidade de tudo, sem encontrar
satisfação de nada e em nada. A de Baden era aquele deserto noturno,
de madrugada, em que os lobos passeiam e arrebentam no peito dos
homens que bebem, bebem, e não encontram o remédio da embriaguez,
pois vagam a lembrar o verso de Drummond, “há um momento em que
todos os bares se fecham...”. Budapeste, não. Budapeste, no livro, é
uma cidade atemporal, vazia de qualquer humanidade, é um verbete na
enciclopédia, ou menos que isso, uma indicação, umas linhas e umas
fotos de um folder turístico. Exagero? Vejam: “Realidade eram os
passeios na ilha de Margit com suas atrações domingueiras, os
aqualoucos do Danúbio, as corridas de carneiro, as marionetes
eslovenas, o coral dos ventríloquos...”. Só podemos concluir que
isso acontece porque o narrador foi a Budapeste a bordo de
aviõezinhos de papel. Igualzinho a seu duplo, Chico Buarque de
Holanda.
O livro, como um
todo, é uma sucessão de eventos que rumam para lugar nenhum. Há
roletas-russas, cegueiras que não se confirmam, separações e voltas,
ameaças de crimes passionais, reviravoltas na sorte inesperadas,
casamento do inverossímil com a ignorância, até culminar com uma
cena de melodrama da Pelmex: o narrador, confundido com um
homossexual, é perseguido pelo filho, um skinhead que não reconhece
o pai. Muito bem, se assim é, como se explica a unanimidade que
cerca o, com o devido perdão, romance? Por que autores de
reconhecido e justo valor literário, como José Saramago e Luís
Fernando Veríssimo, dizem do livro maravilhas que este que lhes fala
não viu? Será que falamos do mesmo livro?
Eu diria que a
vida literária tem mistérios que o comum da gente não consegue
explicar. Para nada esclarecer, ou expressar, esta seria uma boa
resposta. Tentemos as más respostas, em razão, até, da sua
sinceridade.
Primeiro. Os
autores em público, nas opiniões publicáveis, muito se respeitam.
Ninguém saberá o que um escritor acha verdadeiramente sobre outro
longe de uma crise entre eles, ou fora da mesa de um bar. É, como
diria, um exercício de diplomacia do espírito, para usar um
eufemismo. Nas opiniões publicáveis, o bom leitor deverá ler no
insinuado, ou no que se omite de ressaltar. O veneno, o sombra-luz,
o drible do futebolista, a esquiva por um triz do toureiro, entre
escritores são uma fina arte, em palavras.
Segundo. Um
autor como Chico tem uma digna aura em torno de si. Ao ler um livro
de Chico, a sua qualidade maior é ser de Chico. Um livro de Chico
Buarque não se lê pelo livro em si. É uma obra de um artista que se
fez na música, que namora a poesia, que flerta com o literário em
suas letras. A sua obra de compositor, na fronteira do poético e da
música, é de uma qualidade artística à beira da radicalidade. Mas, é
natural, o artista quer mais, e foi do teatro à fábula, desta ao
romance. Mas, também é natural, nem por isso nós, os da periferia,
que não precisamos de boas relações de vizinhança com o criador,
deveremos acrescentar mais vozes ao coro do “Chico, você é um
romancista de gênio”.
Terceiro. O
jornalista e pensador Paulo Carneiro, um lince de argúcia, já havia
notado, ao voltar da Feira Literária de Parati: “Meu amigo Urá,
tentam mostrar que literatura e rock’n’roll são farinhas do mesmo
saco, mas as letras são a vítima, o rock o algoz”. E Chico, e
Budapeste, e a Festa Literária de Parati, caem como uma luva nessa
observação de Paulo Carneiro. Fizeram da literatura um produto
cantável, do rock, ou do pop, uma expressão literária, e dos seus
astros escritores. Nessa ótica, Shakespeare melhoraria muito se
tocasse guitarra. O espaço para a reflexão, para a leitura e
crescimento em silêncio (como crescem os bens duradouros), está
marginalizado.
Quarto, por fim.
Quando em todo o Brasil, de norte a sul, todos os jornais e revistas
cantavam a nova balada de Chico, quando todos entoavam, de
Budapeste, “devia ser proibido debochar de quem se aventura em
língua estrangeira”, o jornalista e escritor Marco Albertim assim se
expressava: “Esse clima de exaltação generalizado é a mídia do lucro
fazendo a corte ao talento de fama”. E como é natural, o público se
rendeu à literatura que se vende como um CD. De causar estranheza
foi e é a falta do que os advogados chamam de contraditório, a
defesa de um ponto de vista contrário a esse samba-exaltação, até
mesmo entre escritores e intelectuais. A diplomacia do espírito
também paga o seu tributo à idiotia?
Seria muito
interessante, e salutar, que o próximo romance de Chico fosse
enviado à editora dentro de um envelope pardo, sem outra indicação a
não ser o nome do remetente, José da Silva, e um seu endereço em
Teresina. Se publicado, muito agradável e pedagógica seria a
recepção da crítica. Claro, se houvesse. |
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