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Por JACQUES GRUMAN
Diretor da ASA –
Associação Scholem Aleichem de Cultura e Recreação, do Rio de
Janeiro
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Muito além de Olga
É
curioso. Um filme que retrata a vida de uma revolucionária, Olga,
de Jayme Monjardim, foi exaltado por setores da comunidade judaica
que nunca esconderam suas predileções conservadoras. Olga Benário
Prestes virou celebridade instantânea, personagem cult, irmã
judia. Que elixir milagroso destruiu preconceitos ideológicos e
jogou Olga nos braços dos inimigos de suas idéias ? Como diria o
Barão de Itararé, há algo no ar além dos aviões de carreira.
A situação é
semelhante, por exemplo, ao caso de Che Guevara. A imagem do
guerrilheiro desfila nas camisetas de milhões de jovens que não
fazem a menor idéia de quem foi aquele cabeludo-barbudo. A exibição
da foto sedutora do rebelde com causa e jeitão de hippy
esconde a ignorância dos consumidores de boas grifes. O mesmo com
Olga. Quando se ressalta uma duvidosa identidade judaica, abafa-se o
seu traço principal: a militância permanente, começada na
adolescência, pela destruição do capitalismo. Falar da companheira
de Prestes sem colocar em primeiro plano esta identidade política é
falsificar a verdade histórica.
Moacyr Scliar
escreveu sobre a “irmandade espiritual” que une mulheres “judias e
revolucionárias” como Olga, Emma Goldman e Rosa Luxemburgo.
Olhando de perto, entretanto, constata-se com facilidade que nenhuma
destas três figuras extraordinárias tinha a mais remota ligação com
qualquer vertente do judaísmo. Nenhuma inspirou-se em conhecimentos
judaicos para formular teorias políticas ou atuar na sociedade.
Nenhuma demonstrou sequer um vínculo afetivo com a história e as
tradições judaicas.
É claro que, sob
o ponto de vista “técnico”, eram judias, pois nasceram de ventres
judeus. Também se pode argumentar que, no caso de Olga, os
assassinos não tiveram a menor dúvida sobre sua identidade judaica.
Os racistas “sabem”. É o pertencimento definido de fora, pela
segregação. Será que genética e preconceito são suficientes para
definir quem é judeu ? Duvido.
É um exercício
interessante abrir as trajetórias de Olga, Emma e Rosa para se
tentar detectar rastros de identidade judaica. Olga Benário, nascida
em Munique, foi criada dentro de uma típica família alemã de classe
média. Não recebeu nenhum tipo de educação judaica, formal ou
informal. Dentro de casa, não se celebravam as festas judaicas.
Muito cedo mergulhou na política, paixão que nasceu da leitura dos
processos de trabalhadores defendidos por seu pai, Leo Benário. Com
16 anos, saiu de casa para morar em Berlim com Otto Braun, jovem
dirigente comunista. A partir de então, sua vida se confunde com a
atividade revolucionária.
Olga não teve
relação familiar harmoniosa. Repudiava a vida fútil de sua mãe e
tinha sérias divergências políticas com o pai. Ruth Werner
relata uma passagem em que Olga, então em Moscou, comenta que só
teve um verdadeiro lar quando se hospedou na casa de uma família de
operários, em Munique. É sintomática a maneira carinhosa como se
dirigia a dona Leocádia, mãe de Luiz Carlos Prestes. Chamava-a
sempre de “mamãe”, revelando a descoberta de um carinho antes
desconhecido no convívio familiar. Não se conhece qualquer passagem
da vida de Olga que se possa associar ao judaísmo. Sua deportação
para a Alemanha nazista, gesto odioso da ditadura Vargas, teve
motivação política. O fato de ser judia foi, seguramente, apenas uma
cereja no bolo totalitário, um agravamento da “culpa”, mas não sua
causa.
Emma Goldman,
anarquista, foi presença marcante da esquerda não-bolchevique nas
três primeiras décadas do século passado. Nasceu na Lituânia em 1869
e sua família, ao contrário da de Olga, praticava a religião
judaica, freqüentando a sinagoga aos sábados e nas chamadas grandes
festas. Raramente, porém, falavam com os filhos sobre isso. Emma diz
que suas primeiras idéias sobre Deus e Diabo, pecado e punição,
vieram através dos criados russos de seus pais.
O ambiente doméstico era-lhe tremendamente opressivo, pois muito
cedo, mostrou que não se satisfaria com o papel de
objeto-de-cama-e-mesa reservado para as mulheres de seu tempo. O
pai, a quem Emma atribui uma “presença aterrorizante”, queria
casá-la à força quando tinha quinze anos. Encontrando resistência,
jogou no fogo os livros de estudo da filha, dizendo que as meninas
não precisavam estudar tanto. Bastava que soubessem preparar um bom
guefilte fish e uma boa massa e dar aos seus maridos muitos filhos.
A mãe era fria com os filhos. Quando Emma se aproximou da puberdade
e sentiu, aflita, a primeira menstruação, levou uma bofetada da mãe
(“Isso é necessário para uma moça quando se transforma em mulher,
para se proteger da desgraça”).
Aos 16 anos,
enfrenta a ira paterna e vai morar nos Estados Unidos. Em 12 de
novembro de 1887, cinco líderes operários são enforcados em Chicago,
na esteira dos acontecimentos que levam à criação do Dia
Internacional do Trabalho. O impacto em Emma foi tremendo. Ela
começa a ligar-se a círculos anarquistas e, em pouco tempo, sua
militância decola. Dá conferências, ajuda a editar jornais, formula
idéias originais. Dedica sua vida à emancipação dos trabalhadores em
geral e das mulheres em particular. Afirma que o casamento
tradicional é um arranjo econômico e uma prisão. O verdadeiro amor
prescinde do aval de rabinos e sacerdotes.
Em 1917,
empolga-se com a revolução dos sovietes e viaja à URSS.
Desencanta-se, porém, com a nascente burocracia e a intolerância com
as diferenças políticas. “Minha idéia sobre a revolução não é a de
um extermínio contínuo das dissidências políticas”. Exila-se na
França e, nos anos 30, colabora com os anarquistas espanhóis durante
a guerra civil. Morre no Canadá, em 1940, e seu corpo é levado para
os Estados Unidos e enterrado junto dos operários enforcados em
1887. Nenhum de seus movimentos, nenhuma de suas posições públicas,
nenhum de seus legados teóricos, nada, enfim, tem sequer um sopro
judaico. A longínqua história familiar, limitadora e repressiva,
serviu-lhe apenas de contraponto para formulações libertárias.
O caso de Rosa
Luxemburgo é o mais complexo dos três. Nascida Rozalia, na cidade
polonesa de Zamosc, foi a caçula de cinco irmãos. Mesmo sem receber
educação religiosa, teve algum contato com tradições judaicas,
principalmente através de sua mãe, Lina. Ao longo da infância e da
adolescência aprendeu o que era ter ascendência judaica. O sistema
de cotas nas escolas polonesas impôs-lhe a exclusão. Este
sentimento, ao lado do defeito físico que aparece aos cinco anos de
idade (quando passou a coxear), criam na jovem Rosa uma férrea
vontade de se sobressair. Era a forma de contrabalançar as
desvantagens que tinha, a social e a física. Nasce, assim, um
personagem robustecido, que, de acordo com sua biógrafa Elzbieta
Ettinger,
ajudou a encobrir sua insegurança. Nos anos de escola, lembra
Elzbieta, tornou-se conhecida como “forte”, um epíteto que lhe
agradava mais do que “manca” ou “judiazinha suja”.
Em dezembro de
1881, Rosa, então com 12 anos, testemunha um pogrom em Varsóvia. A
experiência é traumática e jamais cicatriza. Ela terá sempre
dificuldades com as multidões (traço exótico para uma oradora
vibrante, que cansou de falar para as massas).
Rosa não era
apegada a nenhum dos pais. Ainda Elzbieta, em passagens
fundamentais: “As preocupações deles – os filhos, a casa, a vida
cotidiana –, suas preferências pequeno-burguesas e seu judaísmo
transparente embaraçavam-na (...). Se, quando adulta, Rosa
Luxemburgo desdenhou de seu meio, foi porque, já como adolescente,
tivera dificuldades com ele. Cresceu acostumada com as implicações
do anti-semitismo, mas não com a noção de que este lhe dizia
respeito. Ela se acreditava polonesa, ainda que ninguém mais o
fizesse (...) Torcia o nariz para os homens com peiot, barbas
compridas e caftans longos (...) Queria, como os poloneses,
que eles fossem embora. Quando outros a associavam a estes judeus,
acreditava ser por ignorância ou maldade.”
Ao ligar-se a um
círculo socialista clandestino, teve o prazer de escolher um grupo,
o seu grupo, no qual todos a tratavam como igual. A partir
daí, todo o passado de ligação com rudimentos judaicos (sempre
externos) desaparece. Tal como Olga e Emma, envereda pela luta
revolucionária e tudo o que pensou e criou sequer tangencia o
judaísmo.
Surge,
inevitável, a dúvida: o engajamento revolucionário dissolve a
identidade judaica ? Basta lembrar Isaac Deutscher para saber que
não. Deutscher jamais esqueceu os anos no shtetl polonês onde
cresceu e estudou a religião judaica. Rompeu mais tarde com ela, mas
procurou formas alternativas de identidade judaica que, até hoje,
permanecem vivas. Escreveu e proferiu palestras sobre temas
judaicos, visitou Israel e posicionou-se sobre o sionismo.
Harmonizou, com sensibilidade, marxismo e judaísmo.
Em alguns
lugares da Itália, celebrou-se durante muito tempo um dia que
comemorava o estabelecimento de guetos.
Este aparente paradoxo se explicava pela garantia que as muralhas
davam aos judeus para preservarem suas tradições. Não havia chance
de ceder às tentações dos goim. O novo, o diferente, que
estava do outro lado do muro, ficava na mesma categoria do
ameaçador. No Brasil, não há guetos. Temos ampla liberdade de
opção existencial, política, religiosa. Esta é, por definição, uma
via de mão dupla: somos livres para entrar, mas também para sair. Se
valorizamos isso, precisamos respeitar as escolhas de Olga, Emma e
Rosa, que trilharam caminhos fora do judaísmo. Isso não as diminui.
O que desmerece sua memória é forçar identidades apenas pela via do
DNA ou da torpeza anti-semita.
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