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Por SILVIA BEATRIZ
ADOUE
Nasceu
em Buenos Aires, Argentina. É
Mestre em Integração na América Latina, pelo
PROLAM-USP, doutoranda em Literatura
Hispano-americana, pela FFLCSH - USP, e professora do
curso de Letras do CEUCLAR
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Júlio Cortázar, os não-letrados e o compromisso político do escritor
[...] A
realidade que me rodeava não tinha muito interesse para mim. Eu via
o vácuo, os espaços que havia entre duas cadeiras e não as duas
cadeiras [...].
(CORTÁZAR in ALMEIDA e PIÑEIRO, 2004: p.11).
Talvez o
procedimento de falar da coisa pelo recurso a falar daquilo que lhe
é complementar seja tão caro a Cortázar que, para se referir à sua
condição de escritor, tenha recorrido em alguns dos seus relatos a
personagens não letrados, que são, justamente, o Outro do escritor.
A consciência da condição privilegiada do intelectual na sociedade
é, ao mesmo tempo, a consciência de uma carência, de uma miséria da
qual todos participamos: a de viver numa sociedade cindida. Uma
culpa, um senso de responsabilidade difuso, uma vergonha,
apoderam-se do escritor e são, também, motivo para a escrita, uma
vez que é esse o seu ofício e é esse o lugar que ocupa em tal
sociedade.
Julio Cortázar,
o escritor argentino, nascido em Bélgica em 1914, filho de
diplomata, e morto em Paris em 1984, que houvesse gostado de ser
reconhecido como poeta, passou de um posicionamento político
elitista à adesão aos movimentos emancipatórios de Cuba, Chile e
Nicarágua e à luta contra as ditaduras na América Latina. Em 1963,
publicou Rayuela (1994), que trouxe grandes inovações ao
romance contemporâneo. O romance Livro de Manuel (1988), os
roteiros de HQ Fantomas contra los vampiros multinacionales
(2002) e La raíz del ombú (1977), as coletâneas de crônicas
Nicaragua tan violentamente dulce (1984a) e Argentina:
años de alambradas culturales (1984b), assim como um conjunto de
relatos que integram alguns dos seus livros de contos são as obras
onde explicitamente, pelas suas escolhas temáticas, assume a sua
esquerdização política. Porém, acredito que há em outras obras um
registro mais profundo desse processo interior, ainda que menos
aparente. Ele se dá pela inclusão da voz dos não letrados no seu
texto.
Fantasiar com
ser o Outro do letrado, ou problematizar sobre a impossibilidade de
sê-lo, é uma das formas que Cortázar encontrou para falar dessa
cisão e, talvez, a forma mais profunda do compromisso político do
escritor.
A
mais profunda, porque não nega sua condição privilegiada nem
pretende “resolver” o conflito no terreno exclusivamente literário e
sim põe a nu privilégio e conflito em toda a sua tensão.
Como escreve
Walter Benjamin:
[...] é
claro que as opiniões importam muito, mas a melhor opinião não
aporta nada se não faz alguma coisa útil com aqueles que a
sustentam. A melhor tendência é falsa se antes não mostra a atitude
a ser seguida. E essa atitude, o escritor só podem mostrar onde
demonstra alguma coisa, ou seja, escrevendo.
(BENJAMIN apud BACCEGA, 1998: p. 45).
Nesse sentido, é
possível encontrar na literatura de Cortázar alguns textos que dão
testemunho das modificações profundas no seu posicionamento enquanto
escritor. As mudanças subterrâneas que esses textos revelam
manifestam-se às vezes pelo projeto temático para além dos temas
explicitamente “políticos” (a confissão de desejo de falar dos não
letrados e a descrição detalhada do “fracasso” da sua literatura
para realizá-lo), outras vezes pelo ponto de vista escolhido ou pela
modalização.
Proponho
considerar Las puertas del cielo (CORTÁZAR in CORTÁZAR,
1977a) , Torito (CORTÁZAR in CORTÁZAR, 1996a) e Diario de
um cuento (CORTÁZAR in CORTÁZAR, 1996b), textos onde ficam
registradas a fascinação pelo não letrado, a “paixão de ser outro” e
a tentativa “frustrada” de representação desse Outro.
Em
Las puertas del cielo, escrito quando Cortázar era professor
de Literatura Francesa, na década de 40, Hardoy, o
narrador-protagonista, é um advogado aficionado em observar os
costumes e jeitos dos plebeus, a quem chama “monstruos”. Registra o
seu ambiente e sua tipologia com dedicação de entomólogo.
Acompanha Mauro nos dancings, no boxe, no futebol. Mauro é
um trabalhador manual que arranja uma companheira, Celina, numa
“milonga”.
O tango, o boxe, o futebol são os lugares geográficos onde a elite
pode se aproximar da plebe. Mas a rotina se rompe com a morte por
tuberculose de Celina. Morte de pobre, que deslancha o relato.
O conto em
questão foi publicado numa coletânea que Cortázar chamou
Bestiario (1977b), nome do último dos relatos da coleção.
“Bestiário”, porém, também remete às descrições medievais de animais
monstruosos e mitológicos. O recurso da literatura aos bichos
fantásticos é retomado pelas crônicas de viajantes e conquistadores.
No século XIX, as elites vernáculas ensaiam explicações para a
“barbárie” local na geografia, que produziria uma fauna social a ser
estudada. É o caso do Facundo (SARMIENTO, 2002), onde os
pobres são classificados e estudados segundo critérios “científicos”
que se aproximam à zoologia. Mas é também o caso de Os sertões
(DA CUNHA, s/d), no Brasil, da virada do século XIX para XX. O
recurso a esse procedimento para falar dos não letrados, porém, em
Cortázar é vacilante e paródico, mais de um século depois da
publicação do ensaio de Sarmiento.
Como um
antropólogo em pleno trabalho de campo, Hardoy toma nota:
(Para uma
ficha: estudar, seguindo Ortega, os contatos entre o homem do povo e
a técnica.Aí onde se esperaria um choque há, em troca, assimilação
violenta e aproveitamento; Mauro falava em refrigeração ou
superheterôdinos com a auto-suficiência portenha de quem pensa que
tudo lhe é pertinente.)
(CORTÁZAR
in CORTÁZAR, 1977: p.127-128.)
(Para um
ficha: de onde saem: que profissões os dissimulam durante o dia, que
obscuras servidões os isolam e disfarçam.)
(CORTÁZAR in CORTÁZAR, 1977: p.130.)
O recurso ao
estilo direto para recolher as falas populares, que na literatura
argentina começa com El matadero (ECHEVERRÍA, 2003) e as
marcas de modalização sublinham a distância de Hardoy em relação a
esse mundo que lhe provoca repulsa e, para a sua surpresa, uma certa
fascinação. Aproxima-se à vitalidade e à concretude desse universo
“abjeto”, que contrasta com a passividade e a artificialidade do
seu, sem conseguir apreender-lhe o seu sentido mais profundo.
Em todo caso,
Hardoy fica parado na soleira desse universo sem conseguir
penetrá-lo. Há apenas um momento de encontro “humano”, com o
personagem Mauro, que o narrador rememora associando-o a uma
vivência da sua juventude: Agora (agora que escrevo)não vejo
outra imagem senão uma dos meus vinte anos no Sportivo Barracas,
mergulhar na piscina e encontrar um outro nadador no fundo, tocar o
fundo ao mesmo tempo e nos entreolhar na água verde e acre
(CORTÁZAR in CORTÁZAR, 1977: p.134). É apenas um instante, e
acontece com Mauro que, na tipologia de Hardoy, é um personagem
intermediário. O verdadeiro monstro, o monstro extremado, é Celina.
Hardoy não ultrapassa o portal. Apenas suspeita da existência de um
Céu dos pobres, um Céu onde se dança tango. O Céu,
como seu nome indica, é de Celina.
Torito,
em troca, publicado por primeira vez em 1954, é uma tentativa de
“ser” esse outro que o atrai. É um monólogo do boxeador Justo Suárez
em seu declínio, preso a uma cama de hospital, tossindo. O autor
quer vestir a pele do outro. Cortázar “é” Torito e faz Torito “ser”
Cortázar. Depois, em 1965, repetiria a operação escrevendo um conto,
Reunión (CORTÁZAR, 1994), no qual o narrador/protagonista
seria o Che Guevara. Mas, se Reunión é o monólogo interior do
Che/narrador, Torito se dirige a um interlocutor, o que reforça a
“crença” na oralidade do discurso. Aqui não há intenção paródica,
mas de captura da fala do outro. Representação que tenciona
dissimular o ato de escrita e faz com que o leitor reconstrua o
contexto heterogêneo da comunicação oral.
O conto está
dedicado à memória do Professor Jacinto Cúcaro: que nas aulas de
pedagogia do [colégio]
normal “Mariano Acosta”, lá pelo ano 30, nos relatava as brigas de
boxe de Suárez
(CORTÁZAR, 1996a). O mundo do boxe, que tanto atraía a Cortázar,
assim como o futebol e a música popular, é um dos campos em que os
plebeus podem ter destaque. Justo Suárez, o “Torito de Mataderos”,
entrou no ambiente letrado por excelência, a escola normal, pelo
relato do professor, também entusiasta do boxe. O herói plebeu se
materializava na sala de aula e penetrava assim no imaginário do
adolescente Julio, então com 16 anos, vencendo os “gringos” (“De
Mataderos [bairro popular, onde se encontravam os matadouros da
cidade] até o Centro [da cidade]/e do Centro até Nova
York” -letra de tango dedicado ao Torito de Mataderos)
e, então, se igualando com os grandes: “afinal, somos todos
argentinos”. Aquilo ficou num canto da memória do escritor e apenas
veio à tona muito depois, coincidindo, talvez, com a ascensão de um
outro boxeador plebeu, o “Mono Gatica”. O “Torito” de Cortázar,
porém, está em declínio, e o seu relato pressente, ou antecipa, o
declínio do próprio Gatica, depois relatado por Leonardo Fabio no
seu filme Gatica, el mono (1991).
A tradição
argentina quer sublinhar a condição animalesca dos heróis populares,
desde o Facundo, chamado “tigre”, até os boxeadores Suárez e
Gatica, “torito” e “mono”,
respectivamente. Mas “torito” repõe o touro de El matadero,
objeto da violência dos plebeus, antecipação ficcional e paranóica
da violência destes contra a elite ilustrada e justificação da
violência preventiva da elite contra esse Outro perigoso: o pobre, o
não letrado. Mas, em El matadero, e pela primeira vez, o não
letrado “fala”, em estilo direto. Echeverría inclui a voz do pobre
ilustrando com ela os atos sanguinolentos que o narrador onisciente
descreve em perspectivas panorâmicas, quase vistas aéreas. É uma
fala, sim, mas não uma fala que sugira qualquer reflexão. É uma
fala/ação: interjeições, insultos, convocações à violência. Um touro
morre na literatura argentina para que a repressão contra os pobres
se legitime. É um touro pleno de potência, de músculo, de ação.
Outro touro é reposto, mais de um século depois, já alquebrado, para
que a fala plebéia se libere do narrador onisciente e tome conta do
texto inteiro. É uma tomada de partido do autor. A voz de Torito,
diferentemente da voz dos não letrados em El matadero, não é
nada animalesca, ao contrário, é “humana demais”. É o discurso que
vem ao encontro de uma indigência (NIETZCHE,
1978: p. 216 e 217), fala desde a
experiência de uma derrota. A experiência de ter sido, ele, objeto
da violência:
Não há o quê se fazer, mano, quando você está na pior apanha de todo
o mundo
(CORTÁZAR in CORTÁZAR, 1996a). E desmente explicitamente seu caráter
violento: Nos jornais dizia que quando garoto brigava com os
catadores de papelão no lixão. Besteira, mano, nunca briguei na rua,
apenas um par de vezes e juro que nunca por minha culpa. Pode crer.
São coisas que acontecem [...]
(p. CORTÁZAR in CORTÁZAR, 1996a).
Em Diario de
un cuento, o escritor discorre sobre a impossibilidade de
apreender o não letrado, de captar alguma “verdade última” que foge
às palavras justamente por estar associada a práticas e não a
palavras.
[...] como
ingressa na literatura uma cultura que pode ser lida nas práticas
mais do que nos textos e cujo registro eminentemente oral desenha
uma língua alheia à legitimidade da escrita?
(IMPERATORE in ZUBIETA, 1999: p.169.)
O formato de
diário pessoal favorece a liberdade do texto. Nele começa
registrando as dilações do escritor, a inutilidade do seu ofício, o
auto-exame enquanto autor de alguma maneira ligado ao cânone
e às facilidades que supõe se apegar a ele. Essa primeira parte é um
verdadeiro ensaio crítico sobre literatura argentina e o tratamento
que ela dá aos não letrados: a redução da representação da sua fala
à repetição de clichês, a tematização da realidade argentina como
mera tradução ao vernáculo da literatura européia. Diminui, assim, a
importância da posição do autor consagrado.
Depois, estende
o significado da função do escritor enquanto tradutor pela metáfora
do escrevinhador de cartas por encargo. Sendo funcionário de um
escritório de traduções, o narrador/protagonista prestava
eventualmente seus serviços a prostitutas que o procuravam para
escrever cartas em inglês (às vezes, menos, em francês) para
marinheiros, seus namorados/clientes. Muito tempo depois tenta, sem
êxito, reconstruir as histórias, apreender aqueles personagens.
Assim como o
Rodrigo S.M., personagem/narrador de A hora da estrela
(LISPECTOR, 1998), o narrador/escritor de Diário de um cuento
é um narrador vacilante, desconfiado da sua literatura. Como
Lispector, Cortázar tenta construir uma personagem inapreensível.
Relata os acontecimentos vividos montando, a posteriori, um
quebra-cabeças com os fragmentos a que teve acesso graças a sua
atividade profissional, completamente vicária. Na trama que tenta
relatar, ele é desimportante, desempenhou o papel de mediador: os
fatos pertencem a um mundo que usou e prescindiu dele. Retoma a
problemática de Hardoy, de Las puertas del cielo, a quem
menciona como um advogado amigo, que o ajuda a investigar a
personagem. Problemática, esta, do intelectual que observa enquanto
o não letrado vive, mal ou bem, mas vive: Absurdo que agora
queira contar algo que não fui capaz de conhecer bem enquanto estava
acontecendo, como numa paródia de Proust, pretendo penetrar na
lembrança de um jeito em que não penetrei na vida para, por fim,
vivê-la de verdade.
(CORTÁZAR in CORTÁZAR, 1996b: p.150.)
A escolha de
personagens tão pouco “literários” enfrenta o autor com o vazio, a
precariedade da sua escrita, incapaz que é de apreender o vivido:
[...] Anabel fará […] tudo que puder para me deixar
sozinho na frente de um espelho.
(CORTÁZAR in CORTÁZAR, 1996b: p.153.) A escrita é
insuficiente: Como falar em Anabel sem imitar-la, quer dizer, sem
falseá-la
(CORTÁZAR in CORTÁZAR, 1996b: p.146.)
Ao problematizar
sobre a inclusão da fala do não letrado sem a mediação da literatura
precedente, Cortázar violenta a escrita. Porque a cultura
necessita ou não pode prescindir de decifrar a barbárie? Há uma
procura que tem a ver com a destruição-criatividade da linguagem.
Violenta-se a língua para que outras coisas venham à tona e possam
ser ditas.
(IMPERATORE
in ZUBIETA, 1999: p.170) Assim a literatura tem uma “sobrevida”,
enriquece-se e amplia a sua capacidade de dizer. Não para “dar voz a
quem não a tem”, mas para registrar essa carência como uma carência
que a todos nos atinge, letrados e não letrados.
Do “distinto
professor” de Literatura Francesa e tradutor ao “escritor
comprometido”, Julio Cortázar percorreu uma longa estrada. Desde o
seu exílio em Paris empreendeu o caminho de retorno através da
literatura para deplorar a distinção. A distância foi, ao
mesmo tempo, um empecilho e uma vantagem. O obrigava a pensar sobre
a fala dos argentinos e a sua realidade com um esforço consciente,
sem a inevitável naturalização que a imersão na sua linguagem
cotidiana propicia. Não foi, porém, um retorno fácil. Supunha tomar
partido, negar o lugar que tinha ocupado e que excluía o não
letrado. Talvez seja nestes problemas levantados pela sua literatura
que devíamos procurar as marcas do seu compromisso político.
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NIETZCHE,
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