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Por EVA PAULINO BUENO
Depois
de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino
Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em
San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do
povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland,
1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh
Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I
Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan
(JPGS, 2003)
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Esportes e
política
Dia 19 de
novembro, durante um jogo de basquete profissional entre the Indiana
Pacers e the Detroit Pistons, jogado em Detroit, um torcedor
exaltado, ou chateado, com a atitude de um jogador do time
visitante, que estava deitado na mesa dos marcadores, jogou cerveja
na cabeça do jogador. O que se seguiu foi um verdadeiro pandemônio:
o jogador subiu as arquibancadas e atacou um torcedor (que não tinha
jogado a cerveja); outros torcedores e outros jogadores entraram no
melê. Gente deu soco e levou soco. E as câmaras de televisão
rodando, transmitindo tudo, diretamente à casa do telespectador.
No dia 20 de
novembro, as decisões da National Basketball Association: três
jogadores de Indiana e um de Detroit estão suspensos por diferentes
períodos, enquanto a polícia revê os videotapes da briga para
identificar os torcedores que se envolveram e atacaram os jogadores.
Na opinião do
Commissioner da NBA, David Stern, "Os eventos do jogo (de 19 de
novembro) foram chocantes, repulsivos e imperdoáveis—uma humilhação
para qualquer pessoa associada com o NBA”.E a discussão sobre o jogo
continua, com muitos comentaristas apontando ora os excessos dos
jogadores, ora os excessos dos torcedores, enquanto que outros dizem
que o problema é a falta de segurança para os jogadores.
Como pessoa só
remotamente interessada em esportes profissionais, esta briga atraiu
minha atenção porque ela reflete uma série de outros fenômenos
correntes. Alguns destes problemas têm que ver com a natureza do
esporte profissional neste país, e outros vão além das quadras e
campos, e envolvem todo o país, como os cidadãos se vêem, e o que
esperam dos demais.
Comecemos com a
natureza do esporte profissional. Aqui, como qualquer um sabe, uma
das maneiras para um homem (sim, em geral isto se aplica aos homens)
conseguir subir de vida rapidamente é através do esporte. No Brasil
também, como sabemos de sobra. Entretanto, aqui a questão do jogador
profissional é ainda mais daninha que no Brasil.
Teoricamente,
todos os jogadores têm que passar pela universidade antes de serem
contratados como profissionais. Ora, qualquer jogador talentoso é
recrutado já na escola secundária para ir jogar – e também
teoricamente estudar — para uma universidade. Os esportes
universitários nos Estados Unidos são um negócio bilionário,
envolvendo não só os jogadores, mas técnicos, treinadores, ginásios,
estádios, piscinas, e outros equipamentos. Algumas universidades —
diz-se — prestam mais atenção ao que o time de futebol, ou de
basquete está fazendo, do que ao que ocorre nas salas de aula.
Teoricamente, o jogador universitário não pode receber um salário.
Ele –ou ela—recebe bolsa de estudo, ajuda de custo, coisas assim.
Mas salário, gorjetas, não pode receber.
Por que, então,
um jogador muito talentoso escolheria ir para uma universidade e não
para a outra? Uma das razões seria o prestígio da universidade. Mas
infelizmente, a razão mais forte está mesmo relacionada com os
presentes, mimos, etc, que eles recebem. Cada de vez em quando há um
escândalo quando se revela que os jogadores de alguma universidade
receberam, além da bolsa de estudos, outros “agrados” como viagens,
carros, e até prostitutas. Há pouco tempo, aqui no Texas, um dos
jogadores de uma universidade matou um companheiro de time e
escondeu o corpo. Mais tarde, na investigação, se descobriu que este
jogador tinha sérios problemas mentais, os quais já tinham sido
percebidos pelos técnicos, os quais decidiram não revelar nada
porque o tal jogador era muito talentoso. Há uns cinco anos, na
Pensilvânia, o jogador mais talentoso do time de futebol da
universidade de Penn State foi expulso da porque se descobriu que
ele havia aceito um “presente” na forma de um carro importado.
Outra coisa que
é interessante observar vem do lado acadêmico da carreira destes
jogadores. Como as universidades todas têm a regra que só podem
continuar recebendo a bolsa os atletas que estão mantendo notas
razoáveis, a pressão sobre os professores para “quebrarem um galho”
para os atletas é muito grande. Tudo, no fundo, é uma questão de
marketing: se a universidade tem um time digamos, de basquete, que
ganha o campeonato daquela liga, esta vitória vai atrair mais
atenção para a universidade, a qual vai atrair mais alunos,
conseguir mais verbas, ser mais reconhecida, etc, etc. Reprovar um
atleta estrela do time é um ato de coragem que muitos professores
não se encontram em condição de cometer.
O resultado
desta “chaleiragem” dos atletas é que eles aprendem, desde a
universidade (quando não antes, no colegial) que se existem regras,
elas podem ser dobradas por e para eles. Moralidade, dignidade,
honestidade, alguns atletas ainda mantêm. Mas nem todos. E depois,
quando terminam a universidade, os que têm a sorte de serem
“recrutados” para jogar profissionalmente vão realmente aproveitar
tudo. Ser jogador profissional nos Estados Unidos realmente é a
cobertura do bolo. Qualquer olhada rápida ao salário que estes
atletas ganham fazem outros profissionais se sentirem humilhados. Um
jogador de futebol americano, ou de basquete, ou baseball, ou hóquei
(os esportes mais populares) que atinja uma fama regular, ganha em
um ano o que um professor primário em geral ganha ao longo de 30
anos. E o jogador é bajulado, entrevistado, chaleirado, e acaba
sentindo que vive numa bolha em que ele tem todos os direitos, desde
que continue jogando, ou que se mantenha no centro das atenções.
Vejamos o
recente exemplo do jogador Kobe Bryant, que — segundo a suposta
vítima e os promotores que seguiram o caso—violentou uma jovem em um
hotel em Colorado. Kobe agora está livre; a vida da jovem
praticamente destruída. Com seus milhões de dólares, Kobe pôde
contratar não só advogados, mas especialistas em como manipular a
opinião pública, que foram destilando informações sobre a vítima,
fazendo-a parecer a culpada. Tal como o infame O. J. Simpson, que de
acordo com todas as provas matou a ex-mulher e um rapaz a facadas,
Kobe Bryant também terminou por ganhar a causa. Saiu do processo,
como se diz aqui, “cheirando a rosas”. Logo logo, o episódio vai ser
esquecido e ele vai mais uma vez ser reverenciado como um modelo. O
que importa, no fim de tudo, não é a verdade, mas a aparência da
verdade. Os jogadores, não importa que tipo de pessoas eles
realmente sejam, desde que possam pagar para serem defendidos, e
para serem apresentados como cidadãos exemplares, sempre vão cheirar
a rosas. O povão, abestalhado pelos cantos guerreiros das
arquibancadas, vai unir sua voz à bajulação que a mídia faz dos
jogadores.
Felizmente,
mesmo neste negócio sujo dos esportes profissionais nos Estados
Unidos há aqueles jogadores que têm moral, fibra, e senso cívico.
David Robinson, dos Spurs de San Antonio, usou sua fama para
arrecadar fundos para a fundação de uma escola para crianças dos
bairros pobres. Outros, em diferentes tempos e diferentes cidades,
deram seu tempo e emprestaram o seu prestígio para causas nobres.
Alguns dão do próprio dinheiro para ajudar a custear iniciativas
importantes. Mas estes são a exceção. De cada time que tem, digamos,
25 jogadores, às vezes um entende que tem uma obrigação moral com a
sociedade, e sai do casulo para fazer o bem.
Outro aspecto
interessante tem que ver com a maneira como a maioria dos jogos
profissionais são praticados aqui nos Estados Unidos. Ninguém entra
em campo pra competir. Todos só querem ganhar, derrotar o inimigo,
estraçalhar o inimigo. Ser número dois é equivalente a perder
vergonhosamente. Daí, voltando ao malfadado jogo do dia 19, podemos
ver que pra ganhar qualquer coisa vale. Que se danem as regras. Mais
uma vez: se o que importa não é a verdade, mas a aparência da
verdade, então o que importa é ganhar, a qualquer custo. O incidente
que levantou a temperatura do jogo ocorreu dentro do campo, quando
um jogador de Indiana cometeu uma falta flagrante contra o jogador
do Pistons de Detroit, o qual se virou e lhe deu um empurrão. A
briga começou aí, e foi preciso que algumas pessoas interviessem
para separar os brigões. Foi então que o jogador de Indiana, Artest
(que também é “cantor” de rap), se deitou na mesa do marcador do
score. Neste momento ele foi atingido por uma garrafa plástica, e a
briga se espalhou pelas arquibancadas. Em outras palavras: a
violência dentro da quadra foi como a faísca que acendeu o estopim.
A falta de respeito do jogador, ao se deitar na mesa do marcador do
jogo foi o sinal para que a falta de respeito se generalizasse. No
final das cenas do episódio, se vêem os jogadores de Indiana saindo
da quadra e sendo atingidos com garrafas de água, pipoca, papel, e
até uma cadeira. Os jogadores do time adversário se transformaram em
inimigos de cada homem que estava presente naquele estádio. O
adversário a gente respeita. O inimigo a gente mata, estraçalha, faz
em pedaços.
E estas cenas,
chocantes como são, ainda não são o problema real do país. Elas são
o sintoma do problema que se esparrama por todos os cantos,
começando pelas próprias escolas, passando pelas figuras públicas
locais, e indo colocar-se escandalosamente na corrente situação do
país.
Senão vejamos.
Desde a primeira escola, as crianças aprendem que têm que se impor,
ou serão massacradas pelos mais adeptos fisicamente. Desde cedo, os
esportistas são identificados, e sua progressão como atletas é
cuidadosamente monitorada tanto pelos pais como pelos professores,
técnicos, conselheiros. O esporte, como todos sabemos, é uma forma
abstrata de guerra. É, por assim dizer, uma guerra em que não
precisamos necessariamente matar o inimigo ou oponente.
Na vida política
americana, a cada dia os ideais democráticos e civilizados de se
levar em conta o bem comum acima de qualquer outro interesse cada
dia desmorona mais. A última campanha presidencial, por exemplo,
degringolou em um jogo de lama de um candidato a outro. Nada era
sagrado. Os dois lados se atacaram com um gosto e um apetite que,
para quem tinha estômago, deve ter sido bom ver. Para quem não
tinha, o remédio era desligar a televisão, o rádio, e não ler os
ataques. A política do rumor em muito superou a da verdade. O jogo
de sujeiras não encontrou nenhuma barreira, com a televisão, os
jornais, os rádios, as revistas, lucrando maravilhosamente com
tantos comerciais negativos.
E quem se
importa que não era verdade tudo o que era dito? Afinal, um país em
que a maioria da população engoliu com rabo e tudo a história que o
Iraque tinha armas de destruição massiva, e que ainda acredita que,
embora não tenham sido encontradas tais armas, elas devem existir,
vai acreditar em qualquer coisa, desde que dita pela pessoa certa.
A falta de
civilidade, o descaso bem comum é o vírus do momento neste país. A
falta de vergonha, a falta de moral, estas dominam a vida pública.
Ricos cada dia mais ricos, convencendo aos pobres que é necessário
continuar a guerra no Iraque, e que eles, os pobres, são os que mais
estão ganhando, porque de jeito nenhum os homossexuais vão ter
direito ao casamento, e que enquanto as crianças continuarem tendo
que fazer as orações em público todos os dias nas escolas, Deus
estará conosco e nada nos faltará. Que importa que falta trabalho,
segurança, direção? Que importa?
Afinal, quando
tudo o mais falhar, tem sempre aquela esperança que o menino vai ser
jogador de futebol, ou basquete, ou qualquer outra coisa. E se isto
também falhar, basta ligar a televisão e ver os jogadores, seres
maravilhosos, bem nutridos e bem pagos, correndo pra baixo e pra
cima, modelos, mostrando que é natural para os jogadores se
comportarem mal, e para o torcedor atacar o jogador. Depois é
natural para o jogador atacar ao torcedor, e outros entrarem na
briga, e a coisa toda virar o caos total.
Enquanto os
técnicos e gente “grande” do esporte de basquetbal lamentavam no dia
20 de novembro o sucedido no jogo entre Detroit e Indiana, naquele
mesmo dia, em outro lugar do país outra briga, desta vez entre
atletas estudantes, espelhava a que certamente estes jovens atletas
tinham visto na televisão na noite anterior. A falta de disciplina
gera o sentimento de que só há limites para quem puder dar menos
socos, ou tiver menos armas. A violência gera violência.
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