A
diversidade humana na escola:
reconhecimento, multiculturalismo e tolerância
A
formação das identidades depende dos processos de socialização
e de ensino e aprendizagem que ocorrem de acordo com as
características físicas, cognitivas, afetivas, sexuais,
culturais e étnicas dos envolvidos nos processos educativos.
O
desenvolvimento da identidade do ser humano, como nos ensina
Habermas (1983), pode ser analisado como um processo de
aprendizagem:
a) Lingüística:
para a comunicação;
b) Cognitiva:
para a busca dos conhecimentos necessários para a vida em
sociedade;
c) Interativa:
para a ação e a interação com o outro.
De uma
perspectiva geral, todos os processos educativos devem levar
ao desenvolvimento desses três conjuntos de competências.
A educação é
o resultado de relações sociais que podem capacitar aqueles
que participam do processo educativo para:
a) a
sobrevivência nas sociedades contemporâneas;
b) a busca
da superação da ordem social existente;
c) os
objetivos a) e b);
d) nenhum
dos dois objetivos.
Cabe aos
participantes dos processos educativos a decisão sobre a
ênfase que será adotada. A educação é também um processo
social do qual participamos enquanto realizamos uma opção
entre diferentes valores e objetivos a serem alcançados.
Uma educação
democrática é aquela em que todos os envolvidos podem
participar na definição dos rumos da educação, e não só os
dirigentes, professores, acadêmicos e técnicos.
A escola é
um espaço público para a convivência fora da vida privada,
íntima, familiar. Ao nos capacitarmos para a convivência
participativa na escola, participamos de um processo de
aprendizagem que também nos ensina como participar do restante
da vida social.
A escola
como esfera pública democrática pode possibilitar a
capacitação de pais, alunos e educadores para a participação
na busca de soluções para os problemas da escola, do bairro,
da cidade, do Estado, do País e da vida da espécie humana no
Planeta.
A democracia
é um processo de negociação permanente dos conflitos de
interesses e idéias. Para haver essa negociação permanente é
preciso o respeito à diferença. Uma escola que respeita a
diferença é uma escola pluralista que ensina a viver em uma
sociedade que também é heterogênea.
Para tanto,
todos devem ter o direito de falar, opinar e participar nos
processos decisórios. É participando que se aprende a
participar. Uma escola “perfeita”, na qual ninguém precisa dar
nenhuma opinião, é um desastre educativo. O problema é que o
controle e a disciplina, a idéia de ordem, organização e
limpeza muitas vezes se tornam prioritários em relação ao
direito de participação.
Um ponto de
partida para que exista o respeito à diversidade na escola é
aceitarmos que os agentes que interagem na escola têm
interesses, visões de mundo e culturas diferentes e nenhum de
nós tem o monopólio da verdade, da inteligência e da beleza.
Daí a necessidade de negociações permanentes para que todos
façam concessões, e todos tenham ao menos parte dos seus
interesses e valores contemplados no espaço público da escola.
RECONHECIMENTO
Ao tratar da
diversidade humana na escola podemos ter como parâmetro a
necessidade de reconhecimento que caracteriza os seres
humanos.
Para
interpretarmos quem somos como coletividade, ou quem sou como
indivíduo, dependemos do reconhecimento que nos é dado pelos
outros. “Ninguém pode edificar a sua própria identidade
independentemente das identificações que os outros fazem
dele”, nos ensina Habermas (1983: 22).
O
reconhecimento pelos outros é uma necessidade humana, já que o
ser humano é um ser que só existe através da vida social.
Como também
nos ensina Charles Taylor (1994: 58), “um indivíduo ou um
grupo de pessoas podem sofrer um verdadeiro dano, uma
autêntica deformação se a gente ou a sociedade que os rodeiam
lhes mostram como reflexo, uma imagem limitada, degradante,
depreciada sobre ele.”
Um falso
reconhecimento é uma forma de opressão. A imagem que
construímos muitas vezes sobre os portadores de deficiências e
grupos subalternos, pobres, negros, prostitutas, homossexuais,
é deprimente e humilhante para estes e causa-lhes sofrimento e
humilhação, ainda mais por que tais representações
depreciativas são construídas quase sempre para a legitimação
da exclusão social e política dos grupos discriminados.
Para que
haja respeito à diversidade na escola é necessário que todos
sejam reconhecidos como iguais em dignidade e em direito. Mas
para não nos restringirmos a uma concepção liberal de
reconhecimento, devemos também questionar os mecanismos
sociais, como a propriedade, e os mecanismos políticos, como a
concentração do poder, que hierarquizam os indivíduos
diferentes em superiores e dominantes, e em inferiores e
subalternos.
Em outras
palavras, ao considerarmos que os seres humanos dependem do
reconhecimento que lhes é dado, estamos reconhecendo que a
identidade do ser humano não é inata ou pré-determinada, e
isso nos torna mais críticos e reflexivos sobre a maneira como
estamos contribuindo para a formação das identidades dos
nossos alunos.
Como ainda
nos ensina Taylor (1994: 58), “a projeção sobre o outro de uma
imagem inferior ou humilhante pode deformar e oprimir até o
ponto em que essa imagem seja internalizada”. E não “dar um
reconhecimento igualitário a alguém pode ser uma forma de
opressão”.
Porém,
quando afirmamos que “todos os seres humanos são igualmente
dignos de respeito” (Taylor, 1994: 65), isso não pode
significar que devemos deixar de considerar as inúmeras formas
de diferenciação que existem entre os indivíduos e grupos.
Devemos
fornecer o apoio e os recursos necessários para que não haja
assimetria, desigualdade nas oportunidades e no acesso aos
recursos. De novo Taylor (1994: 64): “Para aqueles que têm
desvantagens ou mais necessidades é necessário que sejam
destinados maiores recursos ou direitos do que para os
demais”.
MULTICULTURALISMOS E TOLERÂNCIA
As
sociedades contemporâneas são heterogêneas, compostas por
diferentes grupos humanos, interesses contrapostos, classes e
identidades culturais em conflito. Vivemos em sociedades nas
quais os diferentes estão quase que permanentemente em
contato. Os diferentes são obrigados ao encontro e à
convivência. E são assim também as escolas.
As idéias
multiculturalistas discutem como podemos entender e até
resolver os problemas gerados pela heterogeneidade cultural,
política, religiosa, étnica, racial, comportamental,
econômica, já que teremos que conviver de alguma maneira.
Stuart Hall
(2003) identifica pelo menos seis concepções diferentes de
multiculturalismo na atualidade:
1.
Multiculturalismo conservador: os dominantes buscam assimilar
as minorias diferentes às tradições e costumes da maioria;
2.
Multiculturalismo liberal: os diferentes devem ser integrados
como iguais na sociedade dominante. A cidadania deve ser
universal e igualitária, mas no domínio privado os diferentes
podem adotar suas práticas culturais específicas;
3.
Multiculturalismo pluralista: os diferentes grupos devem viver
separadamente, dentro de uma ordem política federativa;
4.
Multiculturalismo comercial: a diferença entre os indivíduos e
grupos deve ser resolvida nas relações de mercado e no consumo
privado, sem que sejam questionadas as desigualdade de poder e
riqueza;
5.
Multiculturalismo corporativo (público ou privado): a
diferença deve ser administrada, de modo a que os interesses
culturais e econômicos das minorias subalternas não incomodem
os interesses dos dominantes;
6.
Multiculturalismo crítico: questiona a origem das diferenças,
criticando a exclusão social, a exclusão política, as formas
de privilégio e de hierarquia existentes nas sociedades
contemporâneas. Apóia os movimentos de resistência e de
rebelião dos dominados.
Os
multiculturalismos nos ensinam que reconhecer a diferença é
reconhecer que existem indivíduos e grupos que são diferentes
entre si, mas que possuem direitos correlatos, e que a
convivência em uma sociedade democrática depende da aceitação
da idéia de compormos uma totalidade social heterogênea na
qual:
a) não
poderá ocorrer a exclusão de nenhum elemento da totalidade;
b) os
conflitos de interesse e de valores deverão ser negociados
pacificamente;
c) a
diferença deverá ser respeitada.
A política
do reconhecimento e as várias concepções de multiculturalismo
nos ensinam, enfim, que é necessário que seja admitida a
diferença na relação com o outro. Isto quer dizer tolerar e
conviver com aquele que não é como eu sou e não vive como eu
vivo, e o seu modo de ser não pode significar que o outro deva
ter menos oportunidades, menos atenção e recursos.
A democracia
é uma forma de viver em negociação permanente tendo como
parâmetro a necessidade de convivência entre os diferentes, ou
seja, a tolerância. Mas para valorizar a tolerância entre os
diferentes temos que reconhecer também o que nos une.
Referências:
HABERMAS, Jurgen. Para a
reconstrução do materialismo histórico. São Paulo,
Brasiliense, 1983.
HALL, Stuart. Da diáspora –
identidades e mediações culturais. Belo Horizonte, Editora
da UFMG, 2003.
TAYLOR, Charles. El
multiculturalismo y la politica del reconocimiento. Mexico,
Fondo de Cultura Econômica, 1994.