RESENHA
Alba ZALUAR.
Integração perversa:
pobreza e tráfico de drogas. Rio de Janeiro: Fundação
Getúlio Vagas, 2004
Tráfico de drogas, crime organizado, atores
estatais e mercado consumidor: uma integração muito mais perversa
“Não é, porém, a cocaína que mata,
mas o tráfico, pela forma como se organizou” (Zaluar, 2004: p.
44).
O último livro
de Alba Zaluar, Integração perversa: pobreza e tráfico de
drogas (2004), é uma obra que deve ser lida por todo o
pesquisador que se interessa pela compreensão das múltiplas formas
de criminalidade que assolam o nosso país. Apesar do referido
livro ser uma coletânea de artigos, muitos já publicados; e não se
caracterizar por ser uma abordagem sistemática e contínua em busca
de uma explicação teórica sobre o tráfico de drogas e também sobre
o crime organizado, Zaluar consegue esclarecer de modo profícuo
alguns pontos relacionados ao fenômeno do crime no Brasil.
Contudo, algumas observações devem ser feitas à sua obra. Mas
isso, não obscurece, as suas excelentes argumentações e
descobertas.
Algumas relações espúrias estão presentes em seu livro. Como por
exemplo, a relação causal entre inflação e o estímulo a roubos,
assaltos e furtos. Em sua obra também encontro ausências, como um
esclarecimento do que seja crime organizado e quais são os seus
mecanismos. Inclusive, por algumas vezes, a autora não diferencia
o que são quadrilhas e organizações criminosas. Estes dois termos
aparecem misturados no decorrer das suas argumentações,
confundindo, ao meu ver, o leitor. São as relações espúrias e a
ausência de uma maior sofisticação na argumentação sobre a
criminalidade organizada as principais falhas de Alba Zaluar em
seu livro aqui analisado.
Apenas com a presença de estatística criminal e econômica pode ser
construída uma explicação mínima sobre a relação entre inflação e
crimes. Contudo, mesmo assim, outras variáveis podem existir. Na
busca dessas outras variáveis, o pesquisador pode concluir que a
variável inflação não é tão determinante para o crescimento de
determinados atos criminais. O crescimento econômico, compreendido
de modo amplo, como o aumento do nível de renda, aumento de postos
de trabalho, etc., pode ser, por exemplo, variável explicativa
mais plausível do que a inflação.
Zaluar, em sua argumentação faz apenas afirmações. Estão ausentes
comprovações estatísticas.
O
desenvolvimento da criminalidade organizada é provocado por conta
da proibição de certas atividades, especificamente o
tráfico de drogas. Para Zaluar esta é uma relação forte. Para mim,
é mais uma possível relação espúria encontrada em sua obra. Não
existem trabalhos, inclusive no Brasil, que mostrem que a
proibição das drogas possibilita o fortalecimento da criminalidade
organizada.
Isto é fato, por conta de que não existe nenhum País que tenha
legalizado o consumo e o tráfico de drogas. Portanto, inexistem
ambientes para serem pesquisados empiricamente. Além disso, será
que os traficantes, assim como já fazem hoje, ao subornarem
policiais, juízes, etc., não fariam o mesmo, para não pagarem
impostos, e desta forma continuarem com as suas atividades
organizadas à margem do Estado? É algo que merece reflexão.
Portanto, ou Alba Zaluar está sendo precipitada em sua afirmação
ou desconsiderando critérios científicos.
A
criminalização do usuário de drogas permite o aumento da
criminalidade violenta. Esta pode ser mais uma relação espúria
construída por Zaluar. Desconheço estudos que analisem as
conseqüências da descriminalização do usuário e de sua relação com
a diminuição da criminalidade. Friso, que um dos Países que
decidiu descriminalizar o usuário de drogas em seu arcabouço
jurídico foi Portugal.
Contudo, inexistem, até o momento, pesquisas que avaliem as
conseqüências dessa decisão para as variadas formas de
criminalidade.
Velho (1994), Herman (1994) e Rodrigues (2002 e 2003) fazem uma
discussão crítica a respeito da criminalização dos usuários de
drogas tentando convencer o leitor de que a descriminalização e
até a legalização seriam os caminhos mais apropriados de
resolverem as conseqüências negativas que o tráfico de drogas tem
para a sociedade. Contudo, esses autores cometem o mesmo erro de
Alba Zaluar: estão ausentes comprovações empíricas para embassar
os seus argumentos.
Portanto, os escritos desses autores, incluindo Zaluar, me parecem
muito mais ideológicos do que científicos.
A
indefinição do que é crime organizado e um esclarecimento
explicativo dos seus mecanismos são outros problemas presentes na
obra de Alba Zaluar. Mas a pesquisadora não comete estes erros
solitariamente. Fiorentini (1995), Mingardi (1996 e 1998),
Castells (1999), Bailey (2000), Borges (2002), Lupo (2002),
Rose-Ackerman (2002),
Evangelista (2003), Morgado (2003) e United Nation (2003) ao se
referirem à criminalidade organizada, nas suas mais diversas
atividades, não esclarecem o seu significado e nem os seus
mecanismos de atuação. Contudo, todos os autores concordam em um
ponto importante: o crime organizado atua, na maioria das
vezes, em cooperação com os atores estatais.
Mingardi (1996 e 1998) é um dos atores que tenta esclarecer o
significado de organização criminosa. Porém, ele fica restrito ao
apontamento de uma enormidade de características, sem clarificar
os mecanismos de atuação do crime organizado. As características
apontadas por Mingardi em vez de esclarecer o que é criminalidade
organizada, contribui para confundir, pois tenta associá-la e a
identificá-la à atividades empresarias, à divisão de tarefas, a
controle de territórios, etc. O autor não desenvolve uma
etnografia interna da organização criminosa, portanto, ele
não pode afirmar, por exemplo, que toda organização criminosa atua
de modo empresarial ou que cada integrante tenha função
estabelecida.
Um
trabalho que tenta dar início a uma etnografia das organizações
criminosas é o da United Nation (2003).
Contudo, os investigadores não adentraram nas organizações para
coletarem algumas informações necessárias, como por exemplo,
verificar como se apresenta as relações hierárquicas – se é que
existem. A pesquisa analisou, por meio da aplicação de
questionários à diversas instituições, em sua maioria as que
pesquisam a criminalidade organizada, 40 organizações criminosas
em 16 países – o Brasil ficou ausente. Os questionários foram
construídos com base em obras sobre a criminalidade organizada, e
neles estavam presentes as seguintes características: 1)
estrutura; 2) tamanho; 3) atividades; 4) atuação global; 5)
identidade; 6) nível de uso de práticas de violência; 7) grau de
corrupção; 8) nível de influência política; 9) penetração na
economia legal; 10) e integração com outras organizações
criminosas. Este trabalho, no meu ponto de vista, é o que mais
contribui para a caracterização do que é crime organizado.
Porém, está ausente do trabalho da United Nation, uma análise dos
mecanismos do crime organizado. Não se pode querer chegar a uma
compreensão completa do crime organizado sem analisar e explicar o
porque dos grupos criminosos procurarem atores estatais
para cooperarem, sem esclarecer o porque destes atores
aceitarem cooperar, e sem evidenciar quais são as peças que fazem
parte da dinâmica da criminalidade organizada. Enfim, sem
criar/desenvolver uma teoria do crime organizado. O
apontamento das características das organizações constrói o
significado mínimo da criminalidade organizada. Porém, isto não é
suficiente, apenas necessário. Para ser suficiente,
uma teoria do crime organizado deve ser construída.
Para
a construção de uma teoria do crime organizado e conseqüentemente
o esclarecimento do seu significado, faz-se necessário ter como
ponto de partida a seguinte premissa: não existe nenhum sentido à
formação de uma organização, quando uma ação “individual
independente pode servir aos interesses do indivíduo tão bem, ou
melhor, do que uma organização” (Olson, 1999: p. 19). Neste
sentido, os indivíduos formam uma organização,
porque sabem que através desta, podem maximizar os seus ganhos. É
importante frisar que as instituições são mecanismos para alcançar
“propósitos, não apenas para alcançar acordos” (Putnam, 2002: p.
24). Deste modo, uma organização criminosa deve ser encarada como
uma instituição criada intencionalmente por indivíduos, os
quais têm como objetivos a maximização dos seus benefícios.
Mesmo não definindo o crime organizado e nem explicando os seus
mecanismos, Alba Zaluar, em seu novo livro, avança na procura de
uma teoria da criminalidade organizada. Saliento, contudo, que ela
não faz isto intencionalmente. Mas isto não importa. A autora
discute de maneira sofisticada, através de uma revisão das
inúmeras explicações teóricas, o porque dos indivíduos se
associarem para cometerem crimes. Revisando argumentações que
levam em consideração a desorganização social e urbana, a criação
de rótulos referentes ao comportamento dos jovens, a divisão de
classes sociais, o uso radical da liberdade, a busca pelo sucesso
material, a influência de guerras entre países, e os costumes,
Alba Zaluar possibilita ao leitor uma visão plural no que condiz
as causas da criminalidade praticada em grupo, possibilitando,
desta forma, a evidência conclusiva de que é possível a construção
de uma teoria do crime organizado.
Nas
entrelinhas, não muito visível para aquele leitor desatencioso,
Zaluar mostra que para se compreender a criminalidade organizada,
especificamente em sua atividade tráfico de drogas, é de vital
importância uma explicação no âmbito das instituições, da cultura
e da tomada de decisões dos indivíduos. Corroborando com a autora
e utilizando o pensamento institucionalista,
acrescento que as instituições, principalmente as que fazem parte
do Sistema de Justiça,
devem ser analisadas de maneira interna, onde uma explicação em
torno dos incentivos que orientam/influenciam as decisões dos
atores em aceitarem em cooperar com o crime organizado deve ser
primordial.
Além
disso, vejo que seja necessária a compreensão dos valores
culturais das instituições do Estado. Mais especificamente as
visões de mundo – a aqui incluído as relações de lealdade
e as normais sociais – que orientam e estruturam a tomada
de decisão dos atores estatais. Concluído a compreensão dos
incentivos e das visões de mundo dos agentes do Estado, deve ser
analisado a tomada de decisão desses atores. Nesta análise, o
observador/analista deve levar em consideração que os atores
tentam escolher a alternativa que mais maximiza os seus objetivos
e benefícios. Soma-se a isso, através de uma análise empírica da
dinâmica de uma (ou várias) organização criminosa, a identificação
das peças que fazem parte dos mecanismos do crime organizado. Com
tudo isto concluído, uma teoria do crime organizado surgirá, como
também o seu significado.
É no âmbito da explicação cultural, que Alba Zaluar constrói uma
argumentação inovadora e complementar em torno das ações dos
traficantes e seus soldados, principalmente no que concerne às
suas atitudes/ações violentas. Para a autora, a hiper valorização
da masculinidade e conseqüentemente a necessidade que o indivíduo
tem de mostrar que é superior, forte, o incumbe de coragem
para enfrentar os inimigos, especificamente as organizações
criminosas concorrentes e a Polícia. Deste modo, Zaluar não limita
sua explicação apenas ao âmbito da racionalidade econômica – a
busca do lucro cria coragem, o espírito guerreiro. Ela mostra que
uma explicação cultural, mais concentrada no âmbito da
antropologia, é necessária, adequada e útil.
A evidência do modo como a religião contribui para a construção de
processos de paz, mas também para a formação da intolerância
religiosa é uma outra contribuição (descoberta) inovadora que Alba
Zaluar traz para os seus leitores. Para a autora, a falência das
instituições do Sistema de Justiça criou um ambiente de incerteza
institucional, onde os indivíduos, principalmente os mais pobres,
não sabem a quem recorrer diante das suas necessidades. Deste
modo, a religião surge como um caminho para a paz e para a solução
dos problemas – pelo menos de modo imaginário. Contudo, nem todos
decidem buscar a religião. Os “ateus”, neste caso, passam a ser os
representantes do mal; os “missionários” do diabo. Portanto, é
neste instante, que se dar início a um processo de desenvolvimento
da intolerância religiosa por parte dos que “aceitam” Deus.
A elaboração de políticas públicas ocupa espaço nas análises de
Alba Zaluar. Para a autora, as ações do Estado nas áreas de
educação, cultura e saúde são de extrema necessidade para
enfrentar a formação e até a consolidação do tráfico de drogas nos
bairros pobres. Mas isto não é suficiente. É importante salientar
que Zaluar deixa claro que as medidas nas áreas de saúde e
educação são preventivas; e que os consumidores de drogas não
estão apenas nas favelas, estão presentes em todos os estratos
sociais. Em sua defesa por políticas de saúde com o objetivo de
reduzir os riscos de uso (e danos) de drogas, Alba Zaluar recorre
mais uma vez a uma argumentação pouca científica, ou seja, afirma
que a melhor política é a descriminalização dos usuários de
drogas.
Em sua abordagem sobre políticas públicas, Alba Zaluar mostra as
dificuldades dos pesquisadores de obterem dados criminais no
Brasil. Estas dificuldades são motivadas por eles não existirem,
não serem confiáveis ou não serem disponibilizados. E de fato isto
é um grande problema. Concordo com a autora, quando ela mostra a
impossibilidade de construir políticas públicas eficientes e
eficazes por conta de que as instituições do Sistema de Justiça,
principalmente a Polícia, não fornecem, armazenam ou publicizam os
dados sobre homicídios, por exemplo, de modo adequado.
A escassez de informação sobre os homicídios no Brasil permite que
as suas verdadeiras causas não sejam descobertas. Neste sentido,
os pesquisadores ficam limitados em analisar o que possibilita o
expressivo número de mortes violentas no País. Alba Zaluar, mais
uma vez, mesmo reconhecendo as limitações das informações, procura
causas para explicar a violência contra os indivíduos. Numa
análise comparativa, envolvendo vários estados, a pesquisadora
revela que pobreza e crescimento urbano não são variáveis
satisfatórias para explicar os homicídios.
Porém, Alba Zaluar insiste no erro: relaciona aumento da
criminalidade com a criminalização do usuário de drogas. Entendo,
que outros fatores devem ser analisados, principalmente, e a
pesquisadora faz referência a isto, a disputa entre indivíduos
ocasionada pelo tráfico. O que não se pode afirmar, volto a
repetir isto, é que a descriminalização do usuário de drogas e até
a legalização da produção de drogas contribuirá/contribuirão
satisfatoriamente para a redução do índice de homicídios no
Brasil. Como comprovar empiricamente isto? Esta é a grande
indagação.
Diante das opiniões favoráveis a descriminalização, aqui já
mostradas, proponho, como hipótese, e conseqüentemente fenômeno
que deve ser pesquisado, que a despenalização
do usuário poderá fortalecer o tráfico de drogas, a partir do
instante que permitirá a ampliação do mercado consumidor. Em
conseqüência, a descriminalização do usuário de drogas pode ser
uma variável causal de fortalecimento das organizações criminosas.
E porque também não afirmar (e pesquisar) que amplos mercados
consumidores de drogas possibilitam o aumento das diversas formas
de criminalidade.
Enfim, o novo livro de Alba Zaluar é uma importante contribuição
para a academia brasileira e para todos os profissionais do
Sistema de Justiça. A autora, ao abordar diversas temáticas
relacionadas ao fenômeno da violência, contribui para clarificar e
construir novos caminhos de pesquisa sobre a criminalidade
brasileira. Contudo, a maior contribuição de Alba Zaluar, é que a
leitura do seu novo livro, permite ao pesquisador da violência
concluir que de fato existe uma integração perversa entre pobreza
e tráfico de drogas. Mas não apenas entre eles. Incluo nesta
integração perversa, as seguintes peças: a organização
criminosa, os atores estatais que cooperam com a criminalidade
organizada e o mercado consumidor. Para mim, estas últimas
peças constroem a principal e mais perigosa integração perversa.